Texto da Semana
Saturday, 6 March 2010
posted by chico abelha
 
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

por Rubem Alves
http://www.releituras.com/i_airon_rubemalves.asp
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Saturday, 27 February 2010
posted by chico abelha


 

 

Ninguém melhor do que eu, mãe ou pai como você, para saber o quanto nos é difícil negar coisas a criaturinhas tão fofas e sedutoras quanto os nossos filhos. Sendo de classe média ou alta na maior parte das vezes, temos os recursos para atendê-los e, então, nos perguntamos, o que representa um carrinho a mais, um novo brinquedo ?  Se temos o dinheiro necessário para comprarmos o que querem, porque não satisfazê-los? Se o nosso filho pediu três pacotes de balas e não um apenas, por que não atendê-lo? Se podemos sair de casa escondidos para que não chorem, por que provocar lágrimas ? Se lhe dá tanto prazer comer todos os bombons da caixa, por que fazê-lo pensar nos outros? Além do mais é tão mais fácil e mais agradável sermos "bonzinhos"...

 

O problema é que ser pai é muito mais do que apenas ser "bonzinho" com os filhos. Ser pai é ter função e responsabilidade sociais perante nossos filhos, ssim como perate a sociedade. Portanto, quando decido negar um carrinho a um filho, mesmo podendo comprar e sofrendo por dizer-lhe "não", porque ele já tem outros dez ou vinte, estou lhe ensinando que existe um limite para o TER. Estou, indiretamente, valorizando o SER. Quando cedemos a todas as reivindicações, estamos caracterizando uma relação de dominação, estamos colaborando para que a criança  depreenda do nosso próprio exemplo o que queremos que ela seja na vida: uma pessoa que não aceita limites e que não respeita o outro enquanto indivíduo. Porque para "poder ter tudo na vida", quando adulto, fatalmente ele terá que ser um indivíduo extremamente competitivo e provavelmente com muita "flexibilidade"  ética. Caso contrário, como conseguir tudo? Como aceitar qualquer derrota, qualquer  "não" se nunca lhe fizeram crer que isso é possível e até normal?

 

Não estou defendendo que se crie um ser acomodado, sem ambições e derrotista. De forma alguma. É  o equilíbrio que precisa existir: o reconhecimento realista de que, na vida, às vezes se ganha, e, em outras, se perde. Para fazer com que um indivíduo seja um lutador, um ganhador, é preciso que, desde logo, ele aprenda a lutar pelo que deseja sim, mas com suas próprias armas e recursos, e não fazendo com que creia que alguém (os pais, os amigos, a namorada) lhe dará (ou fará) tudo por ele, sempre, e de "mão beijada". Satisfazer as necessidades das crianças é uma obrigação dos pais, mas é preciso que distingamos claramente o que são realmente necessidades e o  que  são, na verdade, apenas desejos   ou atitudes derivadas da nossa própria incapacidade de julgar, subjugados que estamos ao consumismo, à competitividade exacerbada da nossa sociedade,  ao individualismo e aos nossos próprios medos e frustrações. 

Tania Zagury é Filósofa, Mestre em Educação, Conferencista e Escritora, autora de “Escola sem Conflito”, “Limites sem Trauma”, “Educar sem Culpa”, entre outros.

www.taniazagury.com.br



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Saturday, 20 February 2010
posted by chico abelha

 

 O mecanismo da ansiedade, em essência, preserva a vida, e, logo, não é possível deixarmos de ser ansiosos, porque precisamos do mecanismo da ansiedade para sobreviver. Ansiedade significa não estar no aqui-e-agora, assim o andídoto à ansiedade é aprender a desenvolver a centralidade no aqui-e-agora para a cura da ansiedade negativa e da maioria dos sintomas psicossomáticos, causados por ela. 

Tudo o que pensamos e damos importância  passa para o nosso corpo. O seu cérebro não sabe se o que você está pensando é passado, presente ou futuro, realidade ou fantasia. O fato é que se você estiver pensando em algo com muita intensidade, começará a imaginar cenas em sua cabeça; essas cenas criarão uma emoção e provavelmente você ficará cada vez mais envolvido nessa emoção, sem perceber o que acontece com o seu corpo.

Quanto mais catastróficos e amedrontadores forem os pensamentos, o cérebro entenderá que você está em perigo e enviará ordens às várias glândulas para acelerar o seu metabolismo a fim de que enfrente o perigo ou saia correndo (mecanismo de enfrentamento ou fuga), o seu corpo se prepara para uma batalha, só que a situação está em sua cabeça e toda a energia e preparo do corpo que resultou em tensão, sudorese e outros sintomas acaba gerando um estresse imenso, ainda mais se estes pensamentos forem se repetindo por longo tempo. O somatório desta carga de estresse acaba se desviando para os chamados órgãos de choque ou nevrálgicos e origina os sintomas psicossomáticos.

Existe, porém, a ansiedade positiva que ocorre quando você planeja suas metas, como por exemplo, o dia de amanhã. Causa ansiedade porque não é aqui-e-agora, mas o planejar coisas do tipo que roupa você vai usar na reunião, quem poderá estar lá, não colocam o seu corpo em perigo, de acordo com a interpretação do seu cérebro em função de suas emoções. A sensação de ansiedade negativa ocorre quando você se desloca para um tempo no futuro e começa a pensar ou prever coisas negativas ou catástrofes, quando, por exemplo, começa a temer a tal reunião com medo de errar ou fracassar, e começa a se pressionar “tendo que” se dar garantias de sucesso, e tudo isso cria uma pressão impressionante. Resultado: ansiedade negativa e muita angústia.

Nossa meta quanto à ansiedade é aprender a controlar os nossos pensamentos, a fim de não criarmos expectativas catastróficas. Precisamos estar no aqui-e-agora.

E para isso, é importante perceber como é que nos sentimos ao pensar determinadas coisas.

Nossa natureza prima pelo conforto. A linguagem da natureza é o bem. Toda vez que há uma sensação de mal, ruim, insatisfatório ou desconfortável, enfim o contrário de bem e bom, todos estes sintomas pedem que olhemos com atenção o que estamos pensando e fazendo com nós mesmos, ou seja, nossas atitudes. O sintoma ou doença está relacionado com o corpo, assim como a insatisfação, tristeza ou angústia estão relacionadas como a nossa parte emocional.

 

Lourdes Possato 

 http://lourdespossattoblog.blogspot.com/

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Saturday, 13 February 2010
posted by chico abelha
          “Muitas vezes você percebe que está correndo desnecessariamente, mas como parar? Não que você não tenha percebido que esta é uma corrida de ratos sem significado. Você sabe. Mas, como parar? O treinamento para essa corrida foi muito eficaz. Você se esqueceu de como parar; suas pernas tem o hábito de correr, a mente tem o hábito de correr. Seu treinamento é tal que você não sabe mais ficar sem fazer nada. O treinamento para não fazer nada desapareceu”. 
 
          Um poeta diz: 

          Uma queixa veio aos meus lábios, 
          Mas a quem dizê-la, será sem sentido
          Engolindo a dor, eu continuo me movendo, 
          Recusando-me a sentar, recusando a derrota. 

          As pessoas ainda pensam que não fazer nada é derrota. Caso elas fiquem sem fazer nada, elas pensam que estão derrotadas, que é escapismo, uma fuga! Caso elas apenas parem, milhares de passantes as olharão com condenação. . . assim as pessoas continuam se movimentando.
 
          Reclamações de que tudo é inútil vem freqüentemente à mente, mas para quem reclamar? Quem vai entender? Aqui todo mundo é como você. Ninguém conta para ninguém. E as pessoas continuam se movendo, cada um escondendo sua própria ferida." 

           Osho  
           http://www.osho.com/ 
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