Texto da Semana
Saturday, 4 August 2012
posted by chico abelha

Aconteceu, numa certa época, que um monstro gigantesco engoliu toda a água da terra, de modo que houve uma terrível seca e o mundo se viu em péssimas condições. Indra levou algum tempo até se dar conta de que possuía uma caixa repleta de raios e tudo o que tinha a fazer era lançar um deles sobre o monstro, fazendo o explodir. Quando ele fez isso, as águas jorraram e o mundo se refrescou. E Indra disse: “Que sujeito formidável eu sou!”


Assim, pensando no sujeito formidável que era, Indra se dirige à montanha cósmica, que é a montanha do centro do mundo, e decide construir um palácio à altura do seu valor. O melhor carpinteiro dos deuses põe se a trabalhar e rapidamente o palácio está erguido e em excelentes condições. Mas cada vez que vai inspecioná-lo, Indra tem idéias mais ambiciosas a respeito de quão esplêndido e grandioso o palácio deveria ser. Por fim o carpinteiro exclama: “Meu Deus, ambos somos imortais, e não há limites para os desejos dele. Estou preso por toda a eternidade”. Então decide dirigir se a Brahma, o deus criador, para reclamar.


Brahma está sentado num lótus, o símbolo da divina energia e da divina graça. O lótus cresce do umbigo de Vishnu, o deus adormecido, cujo sonho é  o universo. Assim, o carpinteiro se aproxima da borda da grande lagoa de lótus do universo e conta sua história a Brahma. Brahma diz: “Pode ir para casa. Eu vou dar um jeito nisso”. Brahma deixa seu lótus e se ajoelha para se dirigir ao adormecido Vishnu. Vishnu apenas esboça um gesto e 

diz qualquer coisa como: “Ouça, fuja, alguma coisa vai acontecer”.


Na manhã seguinte, no portal do palácio que estava sendo construído, aparece um belo garoto negro azulado, com um bando de crianças ao seu redor, admirando o esplendor da construção. O porteiro, que estava na entrada do novo palácio, corre até Indra e este diz:


“Bem, mande entrar o garoto”. O garoto é levado até Indra, e o deus rei, sentado em seu trono, diz: “Seja bem vindo, jovem. O que o traz ao meu palácio?”


“Bem”, diz o garoto com uma voz que soa como um trovão rolando no horizonte, “ouvi dizer que você está construindo um palácio como nenhum Indra antes de você jamais 

construiu”.


E Indra diz: “Indras antes de mim... de que você está falando?”


O garoto diz: “Indras antes de você. Eu os tenho visto vir e desaparecer, vir e desaparecer.


Pense nisso, Vishnu dorme no oceano cósmico, e o lótus do universo cresce do seu umbigo. No lótus se assenta Brahma, o criador. Brahma abre os olhos e um mundo se cria, governado por um Indra. Brahma fecha os olhos e um mundo desaparece. A vida de um Brahma conta quatrocentos e trinta e dois mil anos. Quando ele morre, o lótus se desfaz e outro lótus se forma, e outro Brahma. Agora pense nas galáxias para além das galáxias, no espaço infinito, cada qual com um lótus, com um Brahma sentado nele, abrindo os olhos, fechando os olhos. E Indras? Deve haver homens avisados em sua corte, que se prestariam a contar as gotas de água dos oceanos ou os grãos de areia nas praias, mas nenhum contaria aqueles Brahmas, muito menos aqueles Indras”.


Enquanto o garoto fala, um exército de formigas desfila pelo chão. O garoto ri, ao vê las; os cabelos de Indra ficam arrepiados, e ele pergunta ao garoto: “Por que você ri?”


O garoto responde: “Não pergunte, a menos que você queira ficar magoado”.


Indra diz: “Eu pergunto. Ensine me”. (Esta, aliás, é uma bela idéia oriental: não ensine, até ser instado a isso. Você não deve impor seu conhecimento goela abaixo das pessoas.)


Então o garoto aponta para as  formigas e diz: “Todas antigos Indras. Através de muitas vidas, eles se elevam das mais baixas condições à mais alta iluminação. Aí eles lançam um raio sobre um monstro e pensam: ‘Que sujeito formidável eu sou!’ E voltam a despencar”.


Enquanto o garoto fala, um velho iogue extravagante adentra o palácio, com uma folha de bananeira servindo de pára sol. Ele veste apenas uma tanga, e tem no peito um chumaço de cabelos formando um disco, no centro do qual metade dos pêlos foram arrancados.


O garoto o saúda e pergunta lhe exatamente o que Indra ia perguntar: “Bom velho, qual é o seu nome? De onde você vem? Onde está sua família? Onde está sua casa? E qual é o significado dessa curiosa constelação de cabelos em seu peito?”


“Bem”, diz o velho, “meu nome é Cabeludo. Eu não tenho casa. A vida é muito curta para isso. Só tenho este pára sol. Não tenho família. Apenas medito nos pés de Vishnu e penso na eternidade, e em quão fugaz é o tempo. Você sabe, toda vez que morre um Indra, um mundo desaparece  coisas assim somem como uma faísca. Cada vez que morre um Indra, cai um fio de cabelo deste círculo no meu peito. Até agora, metade dos cabelos já se foram. 

Muito breve, todos terão ido. A vida é curta. Por que construir uma casa?”


Então os dois desaparecem. O garoto era Vishnu, o Senhor Protetor, e o velho iogue era Shiva, o criador e destruidor do mundo, que tinha vindo exatamente para a instrução de Indra, que é simplesmente um deus da história mas pensa que é o espetáculo todo. Indra continua sentado no trono, completamente desiludido, completamente abatido. Aí chama o carpinteiro e diz: “Estou suspendendo a construção deste palácio. Você está dispensado”. Assim o carpinteiro conseguiu seu intento. É dispensado do trabalho e não há mais nenhuma casa para construir.


Indra decide sair e tornar se um iogue, para apenas meditar nos pés de lótus de Vishnu. Mas ele tem uma bela rainha chamada Indrani. E quando Indrani ouve falar do plano de Indra, dirige se ao sacerdote dos deuses e diz:

“Agora ele pôs na cabeça essa idéia de largar tudo 

para se tornar um iogue”.


“Bem”, diz o sacerdote, “venha comigo, minha senhora, sente se aqui ao meu lado e eu darei um jeito nisso.”


Então eles se sentam diante do trono do rei e o sacerdote diz: “Pois bem, eu escrevi um livro para você, muitos anos atrás, sobre a arte da política. Você ocupa a posição de rei dos deuses. Você é a manifestação do mistério de Brahma na esfera do tempo. Isso é um alto privilégio. Saiba apreciá-lo, honrá-lo, e lide com a vida como se você fosse quem realmente é. Além disso, vou agora escrever um livro sobre a arte do amor, assim você e sua esposa 

saberão que, no maravilhoso mistério dos dois que são um, Brahma também está radiantemente presente”.

E, com essas instruções, Indra desiste da idéia de largar tudo para se  tornar um iogue, e descobre que, na vida, ele pode representar o eterno como um símbolo, pode se dizer, de Brahma.


Assim, cada um de nós é, de certo modo, o Indra de sua própria vida. Você pode escolher, ou se livrar de tudo e se isolar na floresta para meditar, ou permanecer no mundo, tanto na vida de sua tarefa, que é a régia tarefa da política e da realização, quanto na vida do amor por sua mulher e sua família. Bem, este é um mito muito atraente, assim me parece.

 

Joseph Campbell - in O Poder do Mito - com Bill Moyers
org. por Betty Sue Flowers

 

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Saturday, 18 February 2012
posted by chico abelha

MOYERS: O que você entende por consciência?

CAMPBELL: É próprio da tradição cartesiana pensar na consciência como algo inerente à cabeça, como se a cabeça fosse o órgão gerador de consciência. Não é. A cabeça é um órgão que orienta a consciência numa certa direção ou em função de determinados propósitos. Mas existe uma consciência aqui, no corpo. O mundo inteiro, vivo, é modelado pela consciência.

Acredito que consciência e energia são a mesma coisa, de algum modo. Onde você vê, de fato, energia de vida, lá está a consciência. O mundo vegetal, com certeza, é consciente. E, ao viver no campo, como aconteceu comigo quando criança, você pode ver toda uma série de consciências diferentes se relacionando consigo mesmas. Existe uma consciência vegetal, assim como existe uma consciência animal, e nós partilhamos de ambas. Quando você ingere certas comidas, a bílis sabe se existe aí algo que exija a participação dela. Esse processo todo é consciência. Tentar interpretá-lo em termos simplesmente mecânicos não funciona.

MOYERS: Como transformamos nossa consciência?

CAMPBELL: Depende do que você esteja disposto a pensar a esse respeito. E é para isso que serve a meditação. Tudo o que diz respeito à vida é meditação, em grande parte uma meditação não intencional. Muitas pessoas gastam quase todo o seu tempo meditando de onde vem e para onde vai o seu dinheiro. Se você tem uma família para cuidar, preocupa-se com ela. Essas são todas preocupações muito importantes, mas, na maior parte dos casos, têm a ver apenas com as condições físicas. Como você pode transmitir uma consciência espiritual às crianças se você não a tem para você mesmo? Como chegar a isso? Os mitos servem para nos conduzir a um tipo de consciência que é espiritual.

Apenas como exemplo: eu caminho pela Rua 51 e pela Quinta Avenida, e entro na catedral de St. Patrick. Deixei para trás uma cidade muito agitada, uma das cidades economicamente mais privilegiadas do planeta. Uma vez no interior da catedral, tudo ao meu redor fala de mistérios espirituais. O mistério da cruz – o que vem a ser, afinal? Vejo os vitrais, responsáveis por uma forte atmosfera interior. Minha consciência foi levada a outro nível, a um só tempo, e eu me encontro num patamar diferente. Depois saio e eis-me outra vez de volta ao nível da rua. Ora, posso eu reter alguma coisa da consciência que tive quando me encontrava dentro da catedral? Certas preces ou meditações são concebidas para manter sua consciência naquele nível, em vez de deixá-la cair aqui, o tempo todo. E, afinal, o que você pode fazer é reconhecer que isto aqui é apenas um nível inferior ao daquela alta consciência. O mistério expresso ali está atuando no âmbito do seu dinheiro, por exemplo. Todo dinheiro é energia congelada. Creio que essa é a chave de como transformar a sua consciência.

MOYERS: Você não acha, às vezes, ao considerar essas histórias, que está mergulhando nos sonhos de outras pessoas?

CAMPBELL: Não dou ouvidos aos sonhos de outras pessoas.

MOYERS: Mas todos esses mitos são sonhos de outras pessoas.

CAMPBELL: Oh, não, não são. São os sonhos do mundo. São sonhos arquetípicos, e lidam com os magnos problemas humanos. Eu hoje sei quando chego a um desses limiares. O mito me fala a esse respeito, como reagir diante de certas crises de decepção, maravilhamento, fracasso ou sucesso. Os mitos me dizem onde estou.

Joseph Campbell in - Entrevistas com Bill Moyers - O Poder do Mito

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