Dentro e Fora - por Chico Abelha
Sunday, 19 August 2012
posted by chico abelha

carpição
car.pi.ção
sf (carpir+ção) Ação de carpir ou desmoitar uma roça; capinação.

 


Segundo o dicionário Michaelis online, esta que se lê acima é a definição da palavra carpição. Para quem não é da roça, para aqueles que não são familiarizados com a terminologia do meio rural, explico; capinar quer dizer passar uma enxada num terreno, de modo a deixa-lo livre de mato.


Etimológicamente, carpição vem de carpere, em Latim e significa arrancar ou colher. Houve um tempo em que carpir significou arrancar os cabelos para demonstrar a dor da perda. Daí a palavra carpideira, pessoa a quem se pagava para chorar os defuntos durante os funerais. Não tenho notícia de que esta prática esteja em uso ainda hoje, mas sei que na roça a palavra carpir está bem viva e não tem caboclo que não saiba o seu significado.


Pois bem, semana passada fui convidado a conhecer uma manifestação popular denominada Carpição, que tem lugar ao pé de uma Santa Cruz, na capela de Nossa Senhora dos Remédios, Bairro dos Remédios, em São Francisco Xavier. Tendo morado por mais de 30 anos no meio rural e não muito longe desta capela, jamais eu havia ouvido falar dessa tal de Carpição. Descobri, depois, que pessoas morando há mais de 40 anos na região, também nunca haviam ouvido falar da Carpição.


Por se tratar de um evento ligado à igreja, imaginei um bando de mulheres vestidas com túnicas pretas, entoando lamentos em volta de um caixão. Nada mais longe da realidade, pois trata-se de uma festa na qual pratica-se um ritual que remonta ao século XVII, segundo consegui saber numa pesquisa rápida. O ritual consiste em carregar 3 viagens de terra de um ponto a outro, nas imediações da capela, com a intenção de que aconteça uma cura ou se resolva um problema qualquer. Neste caso específico que visitei, a terra é retirada de um monte nos fundos da capela e levada até o pé da Santa Cruz, em frente à entrada principal. Antigamente carregava-se a terra dentro de um lenço, num guardanapo de pano ou mesmo nas palmas das mãos, mas hoje, a imensa maioria das centenas de devotos que comparecem a esta festa usam mesmo sacolinhas descartáveis, dessas que dão nos supermercados.


Dizem alguns que o nome dessa tradição teve origem na necessidade de se acertar o terreno para a construção de uma nova igreja na zona rural. Daí o capinar, ou carpir o terreno para limpa-lo e depois cava-lo e acerta-lo, fazendo assim uma terraplenagem na base da enxada. Como o solo destinado à nova igreja era benzido pelo padre, não se podia simplesmente descartar a terra, a qual era depositada ao pé da Santa Cruz e daí para que ela começasse a produzir milagres foi um pulinho. Os devotos que carregam esta terra afirmam que foram curados das mais diversas enfermidades; das mais triviais, como uma dor no braço até casos graves e desenganados de cancer.


É verdade que esta capela de Nossa Senhora dos Remédios já está pronta há muito tempo, o terreno todo acertado, já não há mais onde cavar e hoje a terra é trazida pelo caminhão da prefeitura, uns dias antes da festa. Mas tradição é tradição e uma vez que a coisa continua funcionando e as pessoas alcançando as graças pedidas, quem é que vai questionar esta adaptação circunstancial?


A data convencionada para a realização da Carpição é 15 de agosto, mas com a opção da primeira segunda-feira de agosto, para aqueles que por um motivo qualquer não podem comparecer no diz convencionado. No dia 15 pp, lá fui eu registrar a tal Carpição no Bairro dos Remédios, que fica a uns 60 km de onde eu moro. Saí bem cedinho, pois minha informante me dissera que os primeiros devotos chegam de madrugada e a coisa vai até de noite. Dizem que antigamente era feriado, ninguém trabalhava neste dia, mas hoje é só na roça que alguns ainda guardam este dia.


Lá chegando, a primeira coisa que vi foram os devotos, uns 10 deles, carregando as sacolinhas, pareciam formiguinhas baldeando terra. Uns colocavam a sacola na cabeça, outros nas pernas, em volta da barriga, nos braços e outros, ainda, tinham levado seus animais e os faziam transportar a sacola de terra. Sim, a cura funciona também para os animais e pode-se carregar terra e pedir favores para terceiros, caso em que é preciso aumentar o numero de viagens, desde que sejam sempre múltiplos de 3.


Estacionei o carro, preparei o gravador e a camera fotográfica e já ia partir para o trabalho, quando me lembrei da sugestão de uma sábia amiga. Que antes de mais nada, deve-se participar do evento que se vai registrar, até para que o entrevistador não seja percebido como um intruso. Assim, peguei uma sacolinha no carro e a enchi de terra. Mas o que eu iria pedir? Não me sinto doente! No meio da caminhada tive uma idéia. Resolvi colocar a sacola na altura do coração e pedi que ele nunca se endurecesse. Não sei se foi autosugestão, mas depois que cumpri minhas 3 viagens, uma sensação de leveza muito gostosa me invadiu e permaneceria comigo ao longo de todo aquele dia.


Dentre as pessoas que estavam ali baldeando terra, reconheci vários amigos do tempo em que morei na região. Isso ia me facilitar o trabalho, pensei, pois é sempre mais difícil abordar desconhecidos e quebrar o gelo da desconfiança. Resolvi esperar que um dos meus conhecidos terminasse seu ritual, mas antes disso chegou Antonia, a pessoa que me convidou para conhecer a Carpição.


Antonia foi muito gentil, me trouxe café e umas broas de milho e desandou a falar sobre a Carpição, da beleza que é a fé dessa gente, pessoas de todas as idades cumprindo suas promessas, agradecendo, pedindo graças. Algumas delas vindas até de outros estados! Antonia estava visivelmente empolgada de estar ali. Perguntei se ela iria carregar sua terra ou já havia feito o ritual. Ao que ela respondeu:


__Não, Chico, a minha fé é outra, eu respeito e acho bonito, mas não posso participar.


__Como assim, Antonia? – perguntei sem entender nada, já que era por causa dela que eu estava ali e era evidente que ela estava achando aquilo maravilhoso!


__É que eu sou evangélica e o pastor não permite que a gente frequente essas coisas… Eu venho aqui escondido, eu gosto tanto de ver isso, Chico… – e ela me deu um sorriso maroto!


Enquanto eu reordenava meus pensamentos para dar algum sentido ao que ela acabara de me dizer, meus amigos foram aparecendo e entrevistei-os um a um. Pessoas que eu nem imaginava que fossem religiosas estavam ali, carregando a sua terrinha. Me dei conta que todos eles tinham mais de 80 anos, alguns já estavam na casa dos 90 e vieram todos de ônibus, taxi ou à cavalo. Estes senhores foram os que me ajudaram a construir minhas casas no mato, me ensinaram as plantas boas de fazer chás, a época certa de cortar madeira para não carunchar, como encabar uma enxada, essas coisas que não se aprende na escola. A maioria conheceu a Carpição através dos pais, vinham quando eram pequenos e passaram a vir sempre. Eu estava me sentindo em casa, feliz de reencontrar meus amigos e eles felizes de me ver, depois de tanto tempo.


Lá pro meio dia, senti fome. Eu poderia ter comido um pãozinho e tomado o café que era servido aos devotos por um senhor que fazia este serviço para pagar promessa. Diz ele que vai servir o café até morrer e antes disso vai passar a incumbência para outro (já tem até um candidato na fila…) Mas eu queria comida de verdade, meu corpo magro não pode ficar muito tempo sem combustível. Pensei em pegar o carro e ir até a cidade mais próxima, São Francisco Xavier e bater um rango mineiro, mas quando eu ia entrando no carro estacionado na praça, percebi uma senhorinha apoiada numa dessas portas cortadas na metade e não resisti, pedi para entrevista-la.


Sem me dar conta, acabei falando que estava com fome e, claro, ela me convidou para comer. Enquanto eu me deliciava com as sobras do almoço de dona Virgínia, fui dando vazão à minha curiosidade. Descobri que dona Virgínia tinha vindo morar ali na praça para ficar perto de sua santa de devoção e nunca mais deixar de participar da festa dela em outubro, e da Carpição, que o pai dela proibia quando era criança. Dizia ele que era perda de tempo e não deixava nenhum dos 19 irmãos saírem neste dia, tinham que ficar em casa e trabalhando! Só depois de casada é que dona Virgínia conseguiu vir e, mais tarde, depois da morte do marido, comprou uma casinha e veio morar ao lado da capela de Nossa Senhora dos Remédios. Já está ali há 13 anos, mas tem vindo já há 45 anos.


Diz dona Virgínia que “nos tempo de antes” era muito mais animada a festa da Carpição, que no lugar que eu parei o carro nem se podia entrar, de tantas que eram as barraquinhas vendendo quentão, cerveja, salgadinho, etc… e que vinha muito mais gente. Eu quis saber qual seria o motivo desse “encolhimento” da festa, na opinião dela.


__Ah, seu Chico, “é u povo qui tá perdeno a fé… andô aparecendo muita religião aí, dos crente, tá saino muito dessas igreja dos crente em São Francisco i eles num dexa mexê com santo, aí a turma foi afastano tudo…”


__Mas será que foi só isso mesmo, dona Virgínia? Será que a culpa é só dos  ”crentes”?


__Ah, não! “Tem os padre tamém, eles quere mudá tudo nas festa que é tradição di nóis! Num pódi mexê nessas coisa… tem qui cumpanhá do jeito qui vinha vindo, sinão bagunça tudu!”


__É mesmo, dona Virgínia? Eles quiseram mexer na tradição da Carpição?


__”Quisero mas num consiguiro, a gente si uniro i dissemo qui respeitamo a igreja, mas a tradição num podi sê mudada! A gente se unimo i a festa continua, tá menos mais continua”…


Antes de voltar para São José dos Campos, enchi uma sacolinha com terra do monte ao pé da Santa Cruz. Dona Virgínia me disse que é bom levar pra casa e botar no jardim, que ajuda a família a ter harmonia. Não quis esperar a missa nem o lanche que haveria em seguida, um pão com carne e um café com leite.


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Thursday, 19 July 2012
posted by chico abelha


Quando eu voltei à casa de dona Teresa na segunda-feira para entregar o DVD com as imagens, encontrei-a na garagem, recolhendo as ultimas bandeirinhas da festança junina que ela havia dado no sábado anterior. Dona Teresa parece uma formiguinha, está sempre em movimento, nunca a vi parada. Ninguém diz que esta senhora tem 84 anos, tamanha a energia que emana de seu corpinho miúdo.


Na intenção de puxar conversa, disse à ela enquanto entrava:


__Ô, dona Teresa, mexer com festa junina na sua idade é muito trabalho!


__Que nada meu fio, isso aqui num é trabáio, a pessoa tendo saúde, nada é trabáio…


Dona Teresa me surpreendeu e encantou desde o primeiro encontro. Cheguei até ela por indicação de um amigo comum, que sabe que eu gosto das festas tradicionais, dessas que ainda não se deixaram contaminar pelas modernidades pasteurizantes que acabaram reduzindo os eventos juninos num festival de barraquinhas de comidas típicas.


A festa de dona Teresa ainda é à moda antiga, do mesmo jeitinho que ela e seu marido faziam na roça, lá no bairro do Cantagalo, 59 anos atrás. Tudo começou com seu falecido marido, que era devoto de São João e que ganhou do bisavô um quadrinho com a imagem do santo. Chamaram os amigos, rezaram o terço, acenderam a fogueira, levantaram o mastro com a bandeira e ofereceram alguma comida e bebida. Desde então, tem feito a festa todos os anos e depois da morte do marido ela pegou o encargo para si. Só falhou duas vezes, quando estave doente e acamada.


O ritual não é diferente hoje; acendem a fogueira lá pelas 19h e rezam o terço para abertura da festa, estouram rojões e sobem o mastro; só depois deste ritual é que a comida é servida. A única diferença é que agora a festa é na cidade, num bairro de classe média, com a rua devidamente interditada para que se possa acender uma bela fogueira e também porque na casa de dona Teresa não haveria espaço suficiente para os mais de 200 convidados, que costuma ser a média de pessoas que aparece por lá.



Uma festa deste porte não sai barato, mas dona Teresa oferece tudo de graça aos convidados. Nada é cobrado e ela recusa ajuda, a não ser dos filhos, que ajudam a enrolar os 1200 bolinhos caipiras, cortar bandeirinhas e uma ou outra coisa que ela não consiga fazer sozinha.


Autosuficiencia é a palavra de ordem da vida desta mulher. Vejam o que ela me disse quando eu ofereci ajuda para ela descer 3 lances de escada em sua casa:


__Pode dexá, meu fio. Ocê pode faiá e eu caio, mas a parede eu sei que não sai du lugá… - Falou isso e deu uma boa risada…


Um dia antes da festa eu apareci na casa dela para fazer uma entrevista. Encontrei uma turma de umas 10 pessoas, entre filhos e noras, todos ocupados em enrolar os bolinhos caipiras. Eu não conhecia ninguém ali, mas a simpatia e hospitalidade com que fui recebido fizeram com que eu me sentisse imediatamente à vontade, como se estivesse em minha própria casa. Fizeram questão de me convidar para a festa, ou melhor me intimaram a comparecer no dia seguinte e que eu trouxesse também a família!



Liguei o gravador e fiz algumas perguntas, mas nenhum dos filhos quis responder, todos afirmavam que quem sabe dos detalhes da festa é dona Teresa e passaram a bola pra ela. Com evidente orgulho, ela foi me mostrando o que já estava preparado para festa. Me chamou para dentro de um quarto e foi abrindo caixas de papelão cheias de broas de fubá embrulhadas em folha de bananeira e biscoitos polvilho, todos assados por ela mesma. Num outro comodo da casa havia um fogão com uma panela enorme, de onde exalava um cheiro delicioso, era a quirerinha com carne de porco, que borbulhava apetitosa. No fogão de lenha, as batatas doces já estavam dispostas em assadeiras dentro do forno e na chapa as panelas e chaleiras esperavam pelo vinho quente e o quentão.


__Antigamente, lá no Cantagalo não existia quentão, Chico. A gente pegava umas fôia de figo, dexava di môio no árco uns dia, fazia uma carda grossa de açúca e fervia numa lata de dezoito litro. Era isso que a gente bibia e comia os pinhão, as batata doce, a quirerinha e os doci di abóbra, mamão...


 


Este ano não houve doce na festa de dona Teresa, pois a filha que mora em Minas e que costuma trazer o doce de abóbora, não pode vir. Mandou apenas uma abóbora madura, mas ninguém se candidatou a transformar a enorme cucurbitacea num doce… Cadê tempo pra tanto trabalho?


Com uma cara de menina marota, Dona Teresa me mostrou os fogos, várias caixas deles, que São João é fogueteiro e gosta de fogo e barulho. Eu não vi, mas as filhas me garantiram que no dia da festa ela acorda cedo e a primeira coisa que faz é estourar uns rojões. E vai estourando outras vezes durante o dia, na hora de levantar o mastro e até o fim da festa, que não é antes da meia noite. E tem o arrasta-pé, que dona Teresa é pé de valsa, dança com filho, neto, quem tirar pra dançar ela aceita e não faz feio.



Eu, que não gosto de barulho, perguntei se os vizinhos não reclamavam, se ela nunca tinha tido problema por causa da algazarra:


__Os vizinho é a gente qui fais, Chico. Tem que conquistá eles. Ninguém nunca reclamô, a gente cunvida i eles vem tudu na festa tamêin.


Por fim, ela me mostrou o mastro, que estava deitado no corredor na lateral da casa. Levantou-o sozinha do chão, apoiou-o numa escadinha e falou que ia dar uma mão de tinta nele, ainda naquela tarde. Reparei que o pé do mastro estava meio podre e dona Teresa, mais que depressa, apanhou um serrote e cortou fora uns 30 cm de madeira. Não deu nem tempo de eu ajudar, quando eu vi ela já tinha feito o serviço. Eita velhinha lampeira!


Em seguida, não por cansaço, ela sentou-se no sofá e me mostrou os detalhes das fitas que ela cuidadosamente amarrou na bandeira dos 3 santos. Me contou que cada fita é um pedido que foi feito e que não pode ser tirada da bandeira. Curioso, perguntei o por que de 3 santos na bandeira, se a festa é para São João. Ela me explicou:


__É que nos mes de junho tem os 3 santo, não pode deixá nenhum de fora, eles podia achá ruim.


__Mas a sua festa é em julho, dona Teresa, por que a senhora deixa pra fazer a festa só no 15 de julho, depois de todo mundo?


__É o seguinte, em junho tem muita festa e o povo espaia por tudu elas. Como eu quero que a minha festa encha de gente, eu faço num dia em que num tem concorrência.


__Mas a senhora tem medo da concorrência, dona Teresa?- falei provocativo.


__Não é medo, é por causa das criança, que eu por mim enchia isso aqui de criança, que elas precisa conhecê uma festa de verdade que nem essa que eu faço, conhecê o santinho, não é bonito o santinho? – e ela aponta a bandeira, abrindo um sorriso gostoso.


No dia seguinte, durante a festa, quando eu estava filmando o terço, na hora em todos rezavam o Pai Nosso, eu fiz um pedido. Que se possível, se não fosse muito trabalho para o Todo Poderoso, que ele nos enviasse para o planeta Terra algumas dúzias de pessoas iletradas e sábias, iguaizinhas à dona Teresa.


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Saturday, 7 July 2012
posted by chico abelha


Aqui no Vale do Paraíba, a cada dia que passa, os processos artesanais de produção de alimentos estão afundando mais e mais no buraco escuro do esquecimento. Hoje, só quem faz uma farinha de milho ou de mandioca, uma rapadura ou uma taiada, é a gente mais velha, que acaba fazendo mais por saudosismo do que por necessidade. Comprar pronto é tão mais fácil e barato que ninguém quer se dar o trabalho de plantar, moer, torrar, cozinhar, apurar, secar, etc… Pra que fazer se o supermercado está aí na esquina, oferecendo variedades e sabores para todos os gostos e bolsos?


No entanto, graças a Deus, ainda existem algumas gentes teimosas, que insistem em fazer como antigamente. É o caso dos meus amigos lá no Bairrinho, que todos os anos fazem rapadura e taiada. Taiada, pra quem não sabe, é a rapadura com o acréscimo de farinha de mandioca e gengibre. Só comendo pra saber que gosto tem e eu garanto que é gostoso, menos enjoativo que a rapadura pura, que é feita só do caldo da cana apurado.


Pois bem, no inverno chove pouco, a cana está madura e o teor de açucar elevado. É o momento ideal para se fazer a rapadura. Sabendo do meu interesse pelo folclore e tudo que envolve a sabedoria popular, meus amigos do Bairrinho me convidaram para assistir o ritual da feitura da rapadura. Eles são uma família de origem rural, que andou flertando com a cidade por uns tempos, mas que acabou voltando para a roça. Seu Sebastião, dona Dora e seus filhos, Elder e Eden, moram num pedacinho do paraíso aqui na terra, cuidam de uma chácarazinha deliciosa na periferia da cidade, uma peça de resistência que vem bravamente enfrentando a especulação imobiliária que vem devorando a bocadas gulosas, a nossa combalida zona rural.



Cheguei cedo na chácara para fotografar o pessoal ainda decepando a cana, mas não deu tempo, ela já estava toda cortada e empilhada ao lado da moenda elétrica. Tinha sido cortada um dia antes, pra ir amolecendo e facilitar a moagem. Seu Sebastião já estava terminando de limpar a moenda e em seguida pos-se a enfiar a cana, explicando que as melhores variedades são a Javanesa, a Cristal e a Caiana verdadeira, que dão um caldo mais doce e bem clarinho.



Enquanto seu Sebastião vai moendo a cana, dona Dora limpa um enorme tacho de cobre, com ajuda de seu filho Elder. É preciso tirar todo zinabre, que é um baita veneno e isso se faz esfregando muito limão cravo com sal grosso, que atua como abrasivo. Eu não sei a capacidade do tacho, só sei que foram despejados bem uns 120 litros de caldo de cana ali dentro, devidamente coados num grande coador de pano. O bagaço que sobra da cana moída eles levam de peruzinho para se decompor ao lado da horta, que nesta família nada se perde, tudo volta para a terra, fechando o ciclo da vida.



Caldo coado já no tacho, é hora de acender o fogo no fogão construído pelo seu Sebastião. Éden, o filho mais novo, se encarrega de colocar os paus da maneira certa, que acender o fogo exige ciencia, não é qualquer um que faz não… E depois de aceso, tem que controlar bem, não pode ser muito fogo porque senão entorna o caldo e não pode ser pouco senão demora demais.



Quando o caldo começa a ferver, tem que ir tirando a espuma, procedimento que além de ajudar a não entornar, faz a rapadura ficar mais clarinha porque se remove as impurezas. O processo todo demora horas, dependendo da quantidade de caldo de cana. O pessoal vai revezando, porque o braço cansa e o calor é intenso ao lado do fogo.



Enquanto Eden, Elder e até mesmo eu cuidamos de mexer o caldo fervente, dona Dora vai preparar o almoço e seu Sebastião prepara as forminhas de madeira onde será despejada a rapadura no ponto certo. Aliás, é muito importante ficar atento ao ponto; tem o ponto de melado, ponto de açucar e ponto de rapadura. Tem gente que sabe do ponto só de olhar para o caldo fervendo, mas pra se ter certeza, o melhor é pegar um pouco de massa quente, jogar numa panela com água fria e ver o que acontece. Se formar uma bola consistente, que não se desfaz na mão, é chegada a hora de tirar o tacho do fogo e colocar no chão, continuar mexendo até esfriar um pouco e só então enformar, despejando nas forminhas uma por uma. Dez minutos depois a rapadura está durinha e pode ser desenformada.


 

 


Depois que o tacho esfria, sempre sobra um pouco de açucar endurecido grudado nas bordas. Diga-se de passagem aí está a origem do nome rapadura. Quando se fazia açucar no Brasil colonial, a sobra endurecida nos tachos era raspada pelos escravos, e assim foi batizado este delicioso doce nacional.


Como meus amigos do Bairrinho não gostam de perder nada, jogam uma agua quente no tacho “sujo” e com ela preparam o que chamam café de rapadura, uma bebida deliciosa, parecida com café, mas com um sabor mais suave.



Os homens terminam a faxina e dona Dora vai passar o café de rapadura na cozinha. Eu a acompanho pois quero registrar mais esta novidade que ainda não conhecia. Dona Dora gosta de conversar e eu de perguntar. Vou fuçando a vida dela, perguntando onde aprendeu isso e aquilo, é uma delícia escutar essa mulher, uma aula de história viva.


No meio da nossa conversa ela diz que se lembrou muito de mim quando foi visitar sua terra natal no fim de semana passado. Eu estranhei ela dizer isso, pois não tenho ligação com a cidade de Redenção da Serra. Perguntei a ela:


__Mas por que a senhora se lembrou de mim, dona Dora se eu nem conheço a cidade de Redenção?


__Ah, porque ocê gosta de fotografá as coisa véia e eu tava visitando a igreja de lá, que é de 1902 e virô um museu com essas coisa antiga, penêra, monjolo, sabe? Desse jeito de fazê de antigamente…


Não me contive e interrompi a fala dela com a minha risada solta. Ela riu também, porque dona Dora é uma pessoa de bem com a vida, pega carona fácil na felicidade do outro. Mas minha risada foi pelo inusitado da observação dela. As coisas que ela vê como antigas e velhas, eu vejo como novas e inspiradoras, para quando o homem esgotar essa sua mania de fazer em série e sem personalidade. Para quando a humanidade perceber que o artesanato dá sentido à vida, enquanto o mecanicismo empobrece o espírito.


Processos como este, feitos em escala familiar, sem cartão de ponto e salário, dignificam o homem e é o que a humanidade está precisando.


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Friday, 29 June 2012
posted by chico abelha

                      

 

Eu não sei bem como foi que aconteceu, mas o fato é que a bicicleta já não é mais o meu meio de transporte preferido. A velocidade se impôs ao bom senso. Em outras palavras, eu escolhi fazer mais coisas em menos tempo, o que, de bicicleta, seria humanamente impossível.


Eu poderia culpar os automóveis e o risco de ser atropelado pelo fato de ter abandonado a bicicleta. Ou então a prefeitura, que privilegia o automóvel e não constrói ciclovias e ainda por cima espalhou placas proibindo bicicletas em alguns dos principais corredores de tráfego. Mas não, fui eu mesmo quem escolheu mudar a velocidade do tempo e agora fico correndo atrás das horas, que me parecem cada vez mais curtas…


Ultimamente, a bicicleta, que já foi minha companheira inseparável nos deslocamentos urbanos, só tem me servido para um passeio eventual, quando consigo cair fora da camisa de força das metas e objetivos e deixo que o presente se imponha. Para estas escapadas, aproveito as horas mais calmas, quando todos estão dormindo ou assistindo uma final de campeonato, como na quarta-feira passada, durante o jogo do Corinthians e Boca Juniors. Sem carros trafegando, foi possível relaxar e me deixar levar pelo movimento repetido das pedaladas, como se elas fossem um mantra silencioso. Me percebi voltando no tempo, quando a cidade não era tão barulhenta e violenta e eu era o dono inquestionável do meu tempo. Porque, hoje, quem é que pode dizer que é dono do seu tempo?


A cortar o silêncio, de vez em quando algum rojão estourava – seria gol dos brasileiros ou dos argentinos? E eu lá me interesso por isso? Os fogos me lembram mais as festas juninas do que futebol ou qualquer outra coisa. E foi para uma dessas festas que minha nostalgia me transportou, trinta anos atrás, quando eu ainda namorava com aquela que seria minha primeira esposa.


Minha namorada era oriental, tinha o biotipo oriental mas eu a considerava muito mais brasileira que eu. Seu nome e compleição sugeriam uma origem chinesa, mas na verdade, em suas veias corria o sangue do povo do Império do Sol Nascente.


Liang era falante e extrovertida e suas roupas sempre tinham alguma coisa estrategicamente colocada, com o intuito evidente de pescar a atenção de olhos distraídos. O que me fascinava nela era uma mistura de docilidade e rebeldia, combinadas em doses que a tornavam irresistível, pelo menos para mim.


Pois bem, fazia muito frio naquela noite de junho, a festa de São João no CTA (área militar em que eu morava com minha familia) já ia terminando, a fogueira só nas brasas e nós tínhamos que acordar cedo no outro dia. Eu para trabalhar e ela para o cursinho pré-vestibular. Era começo de namoro e a gente estava com muita energia sobrando para simplesmente voltar para casa e dormir. Uma troca de olhares foi o suficiente para combinarmos que naquela noite iríamos, como em tantas outras, dormir no Hotel Castilho, uma espelunca localizada no centro da cidade, que nem banheiro nos quartos tinha…


Naquele tempo, eu não tinha carro ainda, nosso meio de transporte era a bicicleta e para ela nos dirigimos, a fim de pedalar os 5 km até o centro da cidade. Ao chegar na bicicleta, uma Caloi Barra Forte aro 24 vermelha, percebi que havia um grande volume amarrado no bagageiro. Olhei para Liang, ela me devolveu um sorriso maroto e eu entendi que aquele era seu presente de aniversário para mim. Desembrulhei o pacote de papel kraft e descobri um edredon com grandes quadrados vermelhos e amarelos, confeccionado por suas habilidosas mãos. Iríamos estreá-lo naquela noite mesmo!


Montamos na bicicleta, eu pedalando e ela na garupa, segurando com uma mão a minha cintura e com a outra o edredon, que tinha quase o mesmo tamanho que ela. Lá fomos nós, alegres de despreocupados, conversando pela madrugada fria e vazia de São José dos Campos do começo dos anos 1980. Não pensávamos, nem no que iam pensar daquela exótica dupla, nem em um possível assalto, isso era coisa de noticiário, não poderia acontecer nunca com a gente. Apenas nos deixávamos guiar pelos impulsos do corpo e do coração.


Ao chegarmos à Praça Afonso Pena, acorrentei a bicicleta em um poste em frente ao hotel, como sempre fiz todas as outras vezes. Pagamos adiantado, como era praxe neste tipo de estabelecimento e fomos logo para o quarto, pois não tínhamos muito tempo para curtirmos nossa liberdade antes do sol apontar no horizonte. Dormir, mesmo, era a última coisa que fazíamos, talvez durante uma ou duas horas. Naquela idade, dormir não era importante, o que contava era viver intensamente, de acordo com o que os instintos e a fantasia pedissem, ou melhor, exigissem!


Lá pelas 6h da manhã, a nosso pedido, o dono do hotel bateu na porta para nos acordar. Nos lavamos rapidamente na pia do quarto, com ajuda de uma toalha e fomos depois para a cozinha, tomar um café da manhã bem do ordinário; café com leite ralo, pão francês borrachento e margarina Saúde. Ruim que fosse, a gente comia com apetite, a fome aumentada pelas horas sem dormir.


A gente estava com pressa, eu ainda tinha que levar Liang para casa dela, mas ainda deu tempo de ler com o canto dos olhos a manchete do jornal O Vale Paraibano, nas mãos de um senhor sentado no saguão do hotel. Ela dizia: “Polícia às voltas com quadrilha de ladrões de bicicleta”. Claro que eu gelei e pensei no pior, mas relaxei quando saímos do hotel e vi que minha bike ainda estava amarrada ao poste. Mas à medida que nos aproximávamos dela, uma sensação de irrealidade foi me tomando. O guidon estava lá amarrado mas eu não conseguia ver o resto da bike! Cheguei a dar duas voltas no poste, em busca da parte faltante do meu veículo! Foi um choque! Era a primeira vez que a vida me levava algo de valor. Cheguei a abrir o cadeado e ia pegar o guidon que fora serrado do corpo da bike, mas me dei conta que seria inútil, um peso morto que eu ia carregar.


Voltamos de ônibus, cada um para sua casa. Eu me sentia como um general derrotado, sentado no ponto de ônibus, segurando aquele edredon colorido. Não conseguia ter raiva de quem me roubou, o sentimento era de frustração ao me deparar com a inexorabilidade da perda. Este episódio marcou o começo do fim da minha inocencia.


Depois desse revés, passei bem uns 20 anos sem bicicleta, acabei me mudando pra roça e quem me levava pra cima e pra baixo era um fusquinha velho. Foi só quando voltei para a cidade que arrumei uma outra bike e nunca mais tive coragem de amarra-la em um poste na rua, deixo sempre em estacionamento de carros ou dentro de alguma casa.

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