Dentro e Fora - por Chico Abelha
Friday, 5 March 2010
posted by chico abelha
               
 

Quando eu ainda só conhecia o chamado 3º mundo, a minha idéia do 1º era totalmente contaminada pelas opiniões dos derrotistas de plantão. O primeiro mundo era o mundo das soluções dos problemas e o terceiro pertencia àqueles que eternamente empurravam tudo com a barriga. Foi com essa idéia que parti para a minha primeira viagem à Europa, em busca de alguma coisa ainda não muito clara na minha cabeça. Com pouca grana, eu contava trabalhar por lá, mas morria de medo de não conseguir burlar a rigorosa fiscalização do trabalho clandestino.

Escolhi a Espanha como porta de entrada, que tinha fama de ser um país mais permissivo. Não foi bem assim… Eu viajava com uma companheira e, por precaução, (coisa da minha cabeça, de achar que mulher é mais vulnerável), fiquei com toda a grana que tínhamos. Na imigração, ela passou direto e eu fui barrado. Talvez por minha barba e cabelos compridos, vai saber! Me prenderam lá por um tempo que me pareceu infinito, me fizeram toda sorte de perguntas (minha passagem era aberta por um ano) e finalmente, depois de eu jurar de pés juntos que fazia turismo sentimental, visitando a terra de meu avô paterno, me pediram para mostrar o dinheiro que ia financiar o meu passeio.

Nessa hora me lembrei da minha companheira lá fora, sozinha e sem grana. Mas dei graças a Deus de ter ficado com a parte dela, o que, com certeza me ajudou na confirmação da minha história de turista. Depois de martelar na minha cabeça mais uma dúzia de vezes que “Turista no puede trabajar”, acabaram me liberando. Primeiro mundo aqui vou eu!

Saímos do aeroporto direto para o Albergue da Juventude, para o qual tinhamos feito reservas, por carta (isso era 1989). Claro que ninguém tinha reservado nada pra nós… Dei um escândalo perante a recepcionista e uma fila de pretendentes a uma cama que saia calçada afora. Todos me olharam impassíveis, menos um brasileiro que me consolou. __ Entra na fila, quem sabe tem alguma desistência. Não entrei e indignado com a incompetência, fui procurar um hotel no qual pagamos o triplo do preço.

Começavam a aparecer as primeiras rachaduras na imagem de perfeição que eu tinha do 1º mundo…

Ficamos em Madrid o tempo suficiente para conhecer o Museu do Prado e tomar um gazpacho, e em seguida zarpamos para a França, onde nos esperava um amigo que facilitaria as coisas para nós. No no meio do caminho, de carona com um argentino que conheceramos, paramos num bar um pouco abaixo de Barcelona, na costa do Mediterrâneo. Minha companheira queria uma coca, estava enjoada da viagem. Devia ser umas 9 da noite, ainda estava claro, entrei no primeiro bar que encontrei. Fiz o pedido e percebi os olhares desconfiados dos empregados.  Um balconista estúpido me entregou a coca com uma mão e fez questão de mostrar uma arma com a outra. Não entendi nada… Era mais uma rachadura que aparecia.

O primeiro mundo não era nada seguro e muito menos cordial e bem educado.

Chegando à França, fomos super bem recebidos pela família do meu amigo e direcionados, em seguida, para o sul do pais, onde se fazia a vindange, que é o nome que eles dão pra colheita da uva. Como ainda era verão, fomos prá estrada tentar carona. Uma manhã inteira e nada de carona. Já estávamos desanimados, quando minha amiga tentou algo drástico; foi para o meio da pista, ajoelhou-se na frente de um carro e juntou as mãos implorando que ele parasse. Parou! O cara nos levou pro nosso destino, mas não sem cobrar seu preço. Caímos na besteira de contar que íamos fazer a vindange e ele nos deu um esculacho dizendo que devíamos estar no Brasil ajudando a erradicar a miséria e violência em vez de roubar postos de trabalho dos franceses.

Minha desilusão com o primeiro mundo aumentou mais um bocadinho.

Nosso destino, a pequena Roquebrun, nos reservava mais um surpresa. As indicações eram de que procurássemos um tal Yves, que morava ao lado do cemitério, na beira do Rio Orb. Ele nos hospedaria e ajudaria a procurar trabalho. Fomos até o cemitério e não vimos casa alguma. Havia apenas uma pessoa tomando banho, nua, na beira do rio, que não era ninguém mais ninguém menos que o nosso anfitrião, o próprio Yves! Sua casa? Um amontoado de capim encostado no muro. Esta seria nossa maison durante a vindange! A cozinha não passava de algumas pedras com um fogo no meio, o banheiro era a moita mais próxima, a pia e o banho eram ambos no rio. Ah, sim, o vinho, numa embalagem plástica transparente, de 20 litros, era mantido fresco dentro da água do rio. Quando chovia forte e a correnteza aumentava, era preciso ir correndo salvar o vinho…

Minha imagem do primeiro mundo estava definitivamente abalada, mas ainda havia mais pela frente!

Fomos contratados por um patrão muito liberal, a animação não parava durante o trabalho, ele sempre contando histórias, se gabando da qualidade do seu vinho. Pão, queijo, saucisson (salame) e vinho nunca faltavam. As uvas eram as mais doces que já comi. Minha companheira que até então não sabia uma palavra de francês, ficou fluente de tanto vinho que bebeu! Tudo era festa!

Um belo dia, recebemos o convite para conhecer o lugar onde era feito o vinho do patrão - todo mundo já embalado de Muscat, um delicioso vinho licoroso que sobe mais rápido que rojão. Lá chegados, descarregamos toda a uva colhida dentro de recipientes plásticos - antigamente eram de madeira, mas hoje usam grandes cochos de plástico. Em seguida, a surpresa. O patrão, todo orgulhoso, nos diz que vamos participar de uma cerimonia típica da França de antigamente e pede a todos que tirem os sapatos e as meias e que entrem nos cochos para amassar as uvas com os pés. Uma das meninas que fazia parte da turma observa…

__ Mais moi, j'ai des champignons entre les orteils! (Mas eu tenho micose entre os dedos do pé!)

Ao que ele responde.

__ Pas de problème, on ajoutera un produit chimique au 
moût, et ils iront tout crèver, tes champignons. Vas-y tu peux rentrer! (Não tem problema, nós colocamos no mosto um produto químico que acaba com tudo. Vai, pode entrar!)

Inacreditável! Ela entrou e pisou a uva com os pés cheios de micose!

Esse foi o fim! Da minha imagem do primeiro mundo e do meu prazer de beber vinho francês…
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Sunday, 28 February 2010
posted by chico abelha

                            
                            




Eu não tinha cachorro quando morava sozinho na floresta, de modo que, muitas vezes, eu só ficava sabendo que tinha visitas quando elas já estavam praticamente dentro de casa. Nesse dia eu olhei pela janela de vidro e lá estava, na varanda, um homem de bermudas, tenis e um sorriso tão grande quanto seu enorme chapéu branco de caubói. Meus visitantes eram gente de todo tipo, mas este me chamou a atenção, pois, além do visual, falava com um sotaque que era uma mistura de nordestino com ingles. Acompanhando o caubói, estava uma mulher discreta e com um olhar que me dizia: quero ser sua amiga.


 __ Olá, bom dia, somos seus vizinhos!

Meus vizinhos? Como? Os meus vizinhos eram todos caipiras, gente da roça, de onde teriam saído esses dois? O homem, percebendo meu embaraço, explicou:


__ Nós é que compramos a terra ali pra cima! – e ele apontou na direção da montanha.

Foi então que eu lembrei de um boato que vinha correndo o bairro, que uma “japonesa” que morava na Alemanha tinha comprado um sítio grudado no meu. Como a mulher tinha mesmo os olhos rasgados, deduzi que eram eles. Nos apresentamos e logo estávamos conversando como se nos conhecessemos há tempos. No entanto, eu tive dificuldade de enquadrar aqueles dois em qualquer modelo de referência conhecido. Ela também tinha um sotaque carregado, que preferi tentar adivinhar em vez de perguntar de onde ela vinha.


O gelo entre nós fora quebrado por um presente que trouxeram. Um livro muito interesante, do  japonês Masaru Emoto, que fez  fotos incríveis sobre a memória da água. Isso, de cara, já me dizia um pouco sobre o tipo de pessoas que eles deveriam ser. Eles olhavam tudo muito curiosos, elogiaram minhas leituras, a arquitetura da cabana o meu modo de vida. Foram muito simpaticos comigo, fiquei animado com a perspectiva de ter vizinhos que quando falavam em verde, queriam dizer floresta e não  pasto pra boi.


Eles insistiram muito que eram pessoas ligadas à preservação da natureza, o que foi de grande alívio para mim. Meu pesadelo recorrente, naquela época, era que tratores e caminhões desciam o morro rasgando uma auto-pista, vindos justamente dos lados do sítio das minhas visitas! Eles me garantiram que tinham comprado a terra para preservar, tanto que queriam comprar mais, para fazer um cinturão verde de proteção. E entre as terras que eles queriam comprar, estava a minha, a minha querida floresta! Não pude me impedir de exclamar:


__ Olha, vocês não precisam comprar minha floresta! Eu nunca vou derrubá-la! – e ao dizer isso, senti uma pulga andando atrás da minha orelha. A familiaridade se fora. Aqueles dois não passavam de especuladores disfarçados de ambientalistas. Prá que querer comprar a terra de um ermitão que nunca iria derrubar a mata? A conversa sobre preservação e o livro que me deram, de repente viraram intrumentos de manipulação… Liguei um alarme interno e deixei no stand by.


Mas na hora de ir embora, o homem do chapéu de caubói olhou bem dentro dos meus olhos e tascou uma pergunta que me surpreendeu e me fez mudar, de novo, minha impressão sobre o casal.


__ Chico, você que fez essa opção radical de morar sozinho na mata, já encontrou a sua paixão?


Eu não entendi muito bem qual foi o sentido que ele dera,  achei que estivesse falando de amor, da mulher da minha vida. Disse que no momento estava sozinho, mas que não tinha perdido a esperança, ainda. Ele interrompeu e esclareceu.


__ Não, eu falo daquilo que te dá tesão, que te entusiasma, que dá sentido à tua vida.


Aquilo me caiu como um raio, naqueles dias eu estivera, justamente, me questionando sobre o sentido da minha vida. O ermitão acomodado acabara de sofrer um abalo! Eu tivera meu carro roubado, as pessoas que apareciam no sítio me incomodavam demais, fazer a horta e o jardim passaram a ser quase uma obrigação… o que me prendia lá, só podia ser orgulho e obstinação de uma cabeça dura que não queria se render às evidências. Eu fui sincero com o caubói.


__Ainda não encontrei minha paixão. Mas por que você me pergunta isso?


__Ah, um dia você ainda vai saber… – respondeu ele, com um misto de mistério e esperança.


O caubói e sua esposa se foram, mas a pergunta ficou comigo. E como um rastilho de pólvora, ela acabou detonando a bomba que foi, pra mim, a venda do sítio para o casal, um ano mais tarde  (com  a devida ajuda da Existência, num episódio que está contado aqui ).


Dando nomes aos bois, o caubói da história é o John e a “japonesa” é a Marcela, sua esposa. Os mesmos que criaram o YuBliss e que logo em seguida à minha saída do sítio, me convidaram para participar do projeto que hoje é inseparável da minha vida.


Se o John me perguntar de novo se eu encontrei a minha paixão, com certeza posso dizer que estou bem mais perto de encontrar. Pelo menos, minha cabeça está um pouco mais mole e permeável às novidades que não tem sido poucas na minha fase de urbanóide.


Mas, e você que me lê, já encontrou a sua paixão?



(obs: paixão é uma das versões da palavra bliss em portugues)

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Tuesday, 23 February 2010
posted by chico abelha

                                     


Domingo passado, fim do dia, resolvi dar um pulo na casa dos meus pais. Sei que pai e mãe gostam de visita de filho, não custa fazê-los felizes. Como tenho a chave da porta já fui entrando. Minha mãe, bem ao feitio dela, se adianta e oferece a face para ser beijada. Ela não beija, ela quer ser beijada. Cumpri o ritual e já ia me dirigindo ao resto da familia que estava sentada na sala quando minha mãe dispara:


__Nossa, Chico, como você está velho!


Eu não registrei, a princípio. Pensei que tivesse ouvido mal. Ela não tem papas na língua e não gosta da minha aparência. Desde sempre me pede para cortar o cabelo, me vestir que nem gente, cortar a barba, usar desodorante, cumprimentar pelo aniversário do bispo ou da faxineira. São coisas que passam batido de tanto que ela repetiu. Mas essa era nova! Exclamar assim na lata, que eu estou velho!


Meus irmãos e cunhados, que estavam na sala, sairam em minha defesa.


__Queria que ele fosse um menino a vida toda? Ele já tem cabelo branco faz tempo, a senhora é que não via! Acorda, Maria Helena, ele já cresceu, casou e não tá mais na barra da sua saia!


Mas meu choque não diminuiu com o que eles disseram. Pelo contrário, eles confirmaram que eu já tenho cabelos brancos faz tempo! Aquilo ficou dentro de mim, um sentimento amassado, entalado, como se eu mesmo tivesse dificuldade de aceitar minha idade. A verdade é que eu não esperava isso dela. Minha criança acabara de levar uma porrada! O Peter Pan que mora em mim sofrera um sério golpe… Minha mãe nem ligou pro que disseram e continuou:


__Parece que foi ontem que eu ensinei você a escrever, lembra? Você não entendia o que era letra de forma e letra de mão. Implicava, dizendo que as duas eram escritas com a mão, lembra? E eu te expliquei a diferença entre letra de forma e letra de mão…


Eu só escutando e não dizendo nada. Enguli tudo e fiquei com a imagem da minha mãe e a frase ecoando na minha cabeça. Nossa, como você está velho… velho… velho… Letra de forma, letra de mão… de forma, de mão…


Fui transportado pro dia em que descobri meu primeiro pelo branco. Foi na barba, não foi no cabelo. Estava na Grécia, numa situação super estressante, viajando com tres amigas. Uma delas, marinheira de primeira viagem acabara de ter o passaporte roubado no metro de Atenas, por um desses bandos de imigrantes ilegais (assim nos disseram). Eu era o único que falava um pouco de grego e além de ter que me virar pra descobrir como achar a polícia e fazer o BO, tive que lidar com o irritante choro desesperado de uma senhora de 60 anos e as broncas das outras duas outras mulheres, que não se conformavam com o desleixo da vítima.


Não foi fácil convencer a polícia que não éramos um grupo de farsantes que vendera o passaporte e agora registrava a ocorrencia pra solicitar uma segunda via do passaporte na embaixada brasileira. A julgar pelo questionamento que nos fizeram isso devia ser comum por aquelas bandas. O fato é que eles nos deram uma canseira e só saímos de lá após algumas horas. Cansados, fomos para um restaurante comer qualquer coisa. No espelho do banheiro do restaurante foi que olhei pra mim e vi o tal primeiro pelo branco. Um susto! Eu estava ficando velho! Alguma horas de estresse teriam sido suficientes para formar aquele pelo branco? Será? Vou arrancá-lo? Um verdadeiro dilema!


Esqueci do pelo branco quando as amigas chamaram, me apressando para o próximo passo, que era a embaixada brasileira. Não sabíamos ainda quanto tempo seria necessário para expedir o novo documento. Teríamos que remanejar as datas dos vôos, arrumar hotel, avisar parentes, minha cabeça ainda estava a mil por hora. Temi por mais pelos brancos aparecendo nas próximas horas…


Dentro da embaixada um pequeno alívio. A atendente nos garante que o passaporte seria expedido no dia seguinte, era só fazer o pedido como urgente que o documento seria feito em 24 h. Mas teríamos que nos apressar, pois já era tarde e o povo estava encerrando o expediente. Pegamos os formulários para preencher e vi que minha amiga não era muito ágil, corríamos o risco de não conseguir entregar a tempo. Tirei a papelada da mão dela e fui perguntando e preenchendo o mais rápido que pude. Tudo preenchido, faltava a assinatura dela. Pedi que ela assinasse no espaço em branco. Ela me olha com cara de aluno de curso primário:


__Eu assino com letra de forma ou letra de mão?


__!!!


Saí do transe, uma baita sensação de dejà vu, cheguei de volta na sala de visitas da minha mãe, que continuava falando, com cara de criança travessa:


__Chico, só que agora as coisas se inverteram. Você é que vai cuidar de mim...

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Friday, 19 February 2010
posted by chico abelha
               

Hoje foi um daqueles dias que a realidade despenca como concreto na sua vida e se você não fizer nada, o concreto endurece e você junto com ele… Resultado é que eu não parei um minuto e no fim do dia quem me socorreu foi minha amiga enxada. Sim, com a enxada eu converso, faço meu exercício, extravaso minhas tensões, levo altos papos e tenho grandes sacadas. Sou grato a ela pela saúde que gozo hoje e é em homenagem a essa ferramenta que escrevo este post hoje.

Se tem uma coisa da qual tenho orgulho é da minha saúde. Com 52 anos não tomo remédio algum e me sinto muito bem e disposto, obrigado! E não venham me dizer que tenho sorte, que é genético ou que fui poupado pelo destino. Na verdade eu me ligo no bem estar desde a primeira vez que comi um pão integral e aquilo me pareceu um manjar confeccionado pelos deuses. Quando me disseram que aquilo era bom pra saúde, fiquei fascinado e mais que depressa quis aprender a fazer. Na sequencia, acabei  descobrindo a macrobiótica e graças a ela, me dei conta de que somos o que comemos (em grande parte, pelo menos). À partir de então, passei a ter mais consciência do que entrava pela minha boca.

Depois do pão veio o arroz integral, o açucar mascavo, o missô, o shoyu, e o ban-chá. Nessa época, tudo o que eu comia tinha que ser integral. Virei um fanático, devia ser um chato! Hoje sou mais equilibrado. Naquele  tempo, cheguei até a inventar uns licores com açucar mascavo, que passei a fazer em grande quantidade e vendia em São Paulo, nas lojas de produtos naturais.  Eu fazia desde licor de figo, genipapo e jabuticaba, que são os tradicionais, até licores mais ousados, de abóbora, de larva de zangão, de pólen de flores e ervas amargas. Ganhei muito dinheiro com isso e não sabendo o que fazer com ele, investi num sítio, que veio a ser minha morada no tempo que resolvi dar um tempo da cidade, o que, com certeza, contribuiu para a minha boa saúde.

Enquanto morei no sítio, não havia muito problema, cuidar da saúde era mais do que natural. Longe da poluição, eu plantava minha comida, rachava lenha e meditava todos os dias. Nem que eu quisesse ficava doente! Hoje, morando na cidade as coisas não são tão simples. Para comer bem é preciso não cair na tentação dos nuggets e hotpockets e lembrar de sair do computador de vez em quando, dar uma chacolhada no esqueleto.

E nessas horas, quem me salva é a amiga enxada. Claro, andar de bicicleta é bom, caminhar é ótimo, mas com a enxada há a relação com a terra. Jogo fora a tensão e a raiva, ao mesmo tempo que faço um bom exercício. Não é só o físico que se beneficia, a mente fica como que hipnotizada e acaba relaxando também. E de quebra acabo deixando o mundo mais bonito com a flores que aprendi a gostar, tanto quanto das hortaliças que planto. Capinar é como dançar, existe uma beleza naquela integração do capinador com a enxada, vocês já repararam nisso?

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Uma vez, num laboratório de analises clínicas, a atendente me perguntou qual era o meu plano de saúde e eu, sem pensar, falei a primeira coisa que me veio à cabeça:

__Olha, moça, o único plano de saúde que eu tenho é a minha enxada!

Ao que ela respondeu:

__Não trabalhamos com esse plano, o senhor vai ter que fazer como particular.
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