Ontem de manhã eu empurrava meus problemas pessoais como quem empurra um monolito morro acima. Achei que uma boa alternativa era deixar o ambiente em que eles, os problemas, nasceram e sai de casa de bicicleta pra dar uma boa espairecida. Saí sem rumo, mas meu GPS interno, viciado que está na rota do dever a cumprir, acabou me levando à sede do condomínio, um local onde abundam pepinos e abacaxis fresquinhos…
Lá, encontrando a síndica, furiosa, a praguejar contra os maus serviços prestados pela empresa de segurança que serve o condomínio, eu resolvi escapulir mas eis que a sub-síndica me interpela…
__Chico, não foge não que eu quero falar com você!
Fico ou não fico? Acabei ficando, a Tais voltava de férias, fazia tempo que a gente não se falava e eu queria agradecer o post saboroso que ela fez sobre o pão que eu ensinei ela fazer. Pois bem, sentamos os dois na calçada e, combinados de não falar dos problemas do condomínio, já estávamos longe, em uma cachoeira maravilhosa que ela tinha visitado, lá pra banda NE do estado de São Paulo, onde o pai dela, com 70 e tantos anos quer plantar árvores de guanandi que só darão retorno financeiro daqui a 15 anos, quando surge, do nada, uma velhinha pedindo licença pra entrar na nossa conversa.
De primeiro eu pensei que fosse morador querendo reclamar de vizinho barulhento ou lixo em terreno baldio, mas não, a velhinha queria era licença pra dar uma benção pra gente. Amei a mulher naquele mesmo instante e sem pestanejar nem olhar pra Tais, respondi:
__Benção? Claro! – e tirei meu boné em sinal de respeito, enquanto a velhinha fechava os olhos e persignava-se contrita.
Lágrimas molharam meus olhos e eu estava longe, quando aquela senhora magrela perguntou se éramos casados, Tais e eu.
__Não, a gente é só amigo – respondeu a Tais.
__Ah, sei, mas vocês se gostam não é? Então, esta benção é pra que vocês recebam toda a felicidade que eu tive quando vivi quando uma pessoa que já se foi e agora eu passo ela pra vocês.
Eu não aguentei, levantei da calçada e dei um abraço gostoso naquela velhinha bem arrumada, de 95 anos e que ainda estava inteirinha. Quis saber o nome do anjo que nos presenteava com a benção.
__Perina – disse ela, mas os meus neuroreceptores trocaram o e pelo u e o que eu escutei foi Purina. Só uma alma pura como a dela poderia servir de canal pra me dar um presente daqueles.
Já era hora hora do almoço, eu sai apressado dali e nem deu tempo de perguntar pra Tais o que foi que ela sentiu.
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Terminei de escrever este texto, já ia publicar, quando me dei conta que o nome da velhinha não é um nome comum. Dei um google nele e vejam o que encontrei escondido na Perina…

Era um fim de tarde e eu, como de hábito nestes dias secos de começo inverno, estava a regar as plantas que cultivo num descampado aqui ao lado de casa. Trata-se de um terreno cuja propriedade é controversa e enquanto se discute a quem pertence, eu aproveito e faço do local um bonito jardim, com plantas pra se ver e plantas pra se comer.
De repente, quebrando o meu sistemático jeito de regar as plantas, algo me incomodou. De bate pronto eu não soube identificar ao certo a origem do incômodo. Mas era um incômodo grande... Continuei a jogar água num canteiro onde convivem marias-sem-vergonha, almeirão e uma folhagem vermelha, mas com a nítida impressão de que faltava algo ali. Olhei as plantas do canteiro vizinho, na esperança de que elas me dissessem o que havia de errado ali... mas nada!
Terminei a rega, recolhi a mangueira e voltei ao canteiro das marias-sem-vergonha, agora com determinação de detetive. Afastei um pouco a folhagem vermelha e eis que surge um indício, raízes e terra revolvidos recentemente. Minha barriga gelou, alguém havia mexido ali ainda há pouco e arrancado alguma planta! E o pior é que eu não conseguia identificar qual era a planta que estava faltando!
Mais uma vez olhei em volta e finalmente a ficha caiu... faltava a primavera vermelha! A mais bonita, carregadinha de flores e com muitos botões ainda por abrir. Imediatamente comecei a pensar em todas as alternativas possíveis, como fora desaparecer uma árvore inteira do meu jardim? Cometi todos os julgamentos e condenei todo mundo que eu já vira passar pelo local. Perguntei ao guarda na portaria, que fica alguns metros do jardim e ele nada tinha visto.
Uma sensação enorme de impotência e tristeza pela maldade do ser humano me invadiu. Eu quis gritar, colocar uma placa manifestando minha indignação, impedir que as pessoas entrassem no jardim, mas isso durou pouco. Pois nessa hora chegaram dois meninos dos seus 10 anos de idade, que me perguntaram quem é que cuidava das plantas.
__Sou eu, por que? - respondi, distraído.
__É porque a gente acha bonito e vem aqui de vez em quando ver as flores.
Aquilo foi o suficiente pra me calar os pensamentos. Não sei de onde vieram os dois anjos, mas esqueci do roubo, as outras primaveras saltaram aos meus olhos e vi no episódio uma ótima oportunidade de transformá-lo nesta história que você lê agora, aqui no YuBliss...

Mais de uma vez ouvi dizer que homem quando procura endereço não pergunta. Já a mulher não hesita em pedir informações. No meu caso é verdade, eu não gosto mesmo de perguntar, prefiro sempre arriscar, não tenho paciência. Mas sábado passado eu pedi arrego. Estavamos minha esposa, a filha dela e eu, em busca de uma festa de casamento e nos perdemos numa estrada de terra, na zona rural de Mairiporã. Mesmo com o mapa do Google nas mãos não foi possível achar. O remédio foi perguntar…
Mas ninguém conhecia o tal sítio Cochicho das Águas e a situação começou a ficar complicada… As horas iam se passando, a nossa paciência se esgotando e já estavamos a ponto de voltar e desistir da festa, quando apareceu o nosso salvador, um menino de seus 8 ou 10 anos, que conhecia o local e nos indicou com precisão.
Lá chegados, o noivo, o dono da festa, disse que tínhamos tomado o caminho errado e muuuuito mais longo, uns 25 km a mais! Outros convidados também haviam se perdido, não foramos só nós, e alguém comentou que no aniversário dele tinha sido a mesma coisa… Tinha sido outra festa no mato e houve confusão pra chegar no local. Pensei comigo… hum, esse cara deve ser deve ser do signo de Peixes, vou perguntar. Batata! Ele era pisciano!
Prá quem não sabe, Peixes tem fama de ser avoado, com a cabeça em outras esferas que não a terrestre e por isso uma péssima fonte de informação quando se trata de endereço… Tem até uma lista muito engraçada que relaciona a descrição de cada um dos signos ao atravessar uma rua. O nativo de Peixes simplesmente pergunta: __Que rua? Ih é…!
Mas essa história teve final feliz, pior foi uma outra que aconteceu numa virada de ano, ah! essa foi dura pras meninas que a viveram na pele! Eu vivia ainda na floresta e minha companheira, de Peixes, convidou duas amigas para passarem o reveillon com a gente lá na cabana. Eu, já conhecendo os antecedentes da figura, antevi problemas.
Nossa cabana ficava a 4 km de caminhada do local até onde dava pra chegar com o carro e a trilha tinha diversas bifurcações… Anoiteceu e nada… 10 da noite, nada… meia noite e nada ainda… ficamos muito preocupados, mas o que fazer? Resolvemos ir atrás delas, quem sabe tinham se perdido no caminho? Fomos até o local onde elas deveriam ter estacionado o carro e… nada!
Bem, naqueles idos do ano 2000, nós ainda não tínhamos celular e ninguém quis ir até a cidade pra ligar. Voltamos pra casa, imaginando que elas haviam desistido e voltado atrás…
Quando minha companheira acabou encontrou as amigas novemente, ficou sabendo que elas tinham vindo sem carro, se perderam, e quando começou a escurecer, se abrigaram numa casa que encontraram no caminho. A casa estava fechada e elas se instalaram na varanda, onde fizeram um fogueira e não pregaram o olho, já que ficaram morrendo de medo de alguma onça aparecer. Chegaram mesmo a sentir o cheiro da onça, que não era nada mais que o baixeiro da sela do cavalo do seu Zé Monteiro, um solteirão bem apanhado, o dono daquela casa perdida no meio do nada…! Resultado é que tiveram uma péssima experiência…
Dias depois, encontrei com o seu Zé Monteiro, que me disse que alguém tinha feito uma fogueira na sua varanda. Me perguntou se eu sabia quem podia ter sido.
__Sei sim, seu Zé, foram duas amigas minhas que erraram o caminho, se perderam e acabaram dando na sua casa na virada do ano.
__Ah, seu Chico, então elas não erraram o caminho, quem errou fui eu de ter ido pra cidade nessa noite. Não acredito que eu perdi essa! Duas de uma vez, minha nossa senhora!
__O senhor não perdeu nada, seu Zé, elas gostam da mesma coisa que o senhor gosta.
O homem arregalou os olhos e me olhou sem entender.
__É, seu Zé, elas são um casal, o negócio delas não é homem não!
__…!

Coentro é daquele tipo de tempero que ou você ama de paixão ou não quer nem sentir o cheiro. O mundo se divide entre os que veneram e os que odeiam coentro. Eu sou daqueles que ama; comida com coentro é um abraço por dentro! Não conseguiria imaginar uma moqueca ou um gallo pinto (prato típico da Costa Rica, semelhante a um baião de dois) sem coentro, seria pura heresia! A moqueca viraria uma simples sopa de frutos do mar e o gallo pinto um arrozinho com feijão sem graça…
Infelizmente, aqui em casa eu sou minoria e meus quitutes à base de coentro são recebidos por tres narizes torcidos e exclamações indignadas de que isso não é comida de gente normal… Sempre achei que havia um pouco de exagero nessas reações, um certo comodismo de paladares mais afeitos a nuggets e que tais… Comprovei o exagero semana passada ao fazer, por brincadeira, uma proposta que eu jamais pensei que fosse aceita…
O máximo de folhas verdes cruas que os dois adolescentes que vivem comigo comem é alface, cercado de brócoli no prato de um e de tomate e couve flor no prato da outra. Já a minha salada é uma mixórdia de legumes e verduras muito bem temperada com turmérico, gengibre, molho ingles, azeite, manjericão e… claro, coentro!
Aconteceu que, sábado passado, refeição terminada, percebi que sobrava uma boa porção da minha salada e resolvi fazer uma proposta indecente ao meu enteado, na certeza de que a resposta seria um sonoro: __Tá boiando bóizinho? Mas não foi… ele titubeou e seu olhar me disse claramente que os dez reais que ofereci para ele comer a salada que sobrava, abalaram suas convicção em relação ao coentro!
No que ele pensava se valia a pena correr o risco, sua irmã se adiantou e esperta propôs algo que me surpreendeu mais ainda:
__Chico, deixa eu comer, eu só faço por 5 reais!
A mãe deles e eu quase caímos da cadeira! Nos olhamos cúmplices, sabedores que havíamos descoberto o caminho para aumentar o consumo de fibras e folhas verdes para aqueles vorazes devoradores de mac lanches e similares.
Diante da proposta da irmã, o rapaz resolveu-se rapidamente e houve uma disputa para saber quem é que ia comer a salada! Incrível, brigando por uma salada que ainda há pouco diziam que tinha gosto de percevejo! Resolveu-se, então, que cada um deles comeria metade e rachavam a grana.
Juro que atrás das caretas de nojo que eles fizeram, eu percebi que havia curiosidade e o prazer da descoberta de um novo sabor…