Dentro e Fora - por Chico Abelha
Monday, 6 February 2012
posted by chico abelha

                          


Era uma vez um peixe que andava meio triste, entediado de se deixar levar ao sabor da correnteza, que insistia em leva-lo para águas cada vez mais sujas e mal cheirosas, o Reino das Águas Turvas. Um dia, nosso amigo peixe bateu a cabeça numa enorme pedra preta, ficou todo zonzo e perdeu o caminho de volta para sua loca. Desorientado e sem saber o que fazer, resolveu pedir ajuda a um cardume de jovens guarús, que passava por ali naquela hora.


Os guarús nem se deram o trabalho de parar, simplesmente acenaram com as guelras, fazendo sinal para que o nosso amigo os seguisse. E foi o que ele fez, atrás dos guarús ele foi, como se tivesse sido encantado. Era difícil acompanhar o ritmo dos guaruzinhos, que nadavam ligeiros contra a correnteza. Ele já estava começando a ficar cansado, quando reparou que as águas estavam ficando mais transparentes. Foi então que uma energia desconhecida invadiu seu corpo e o cansaço foi sumindo. Reparou que mais e mais peixes juntavam-se ao bando e que tomaram um afluente em que as aguas eram ainda mais puras e cristalinas.


Deixou-se levar pelo turbilhão em que fora envolvido, ele agora não pensava em mais nada, queira nadar rio acima, atraído por uma força até então desconhecida para ele. No seu intento de subir, chegava mesmo a saltar fora d’água, coisa que nunca se imaginara capaz de fazer. Quanto mais longe ele subia, mais força ele ganhava, mais prazer ele tinha. Esqueceu que estava procurando o caminho de volta para sua loca, esqueceu-se do cansaço, esqueceu-se de tudo, ele só queria subir, subir, subir…


Quanto mais ele subia, mais encantado ele ficava, ao reconhecer lugares que ele nunca tinha visto, mas que produziam em seu coraçãozinho de peixe, uma estranha familiaridade. O ponto alto, de altura e de extase, aconteceu quando ele chegou a um remanso tranquilo e foi tomado por uma vontade parecida com a vontade de fazer xixi, só que dez vezes melhor. Nessa hora ele se sentiu do tamanho do universo inteiro e esqueceu-se de quem ele era, para onde ia e o que estava fazendo ali…


Neste lugar maravilhoso, de águas puras e cristalinas, nosso amigo peixe reencontrou o prazer de viver e resolveu construir seu reino encantado.  Arregimentou peixinhos e peixões e criou um exército do bem, que ao invés de servir para proteger o local, luta para que ele seja invadido constantemente por mais e mais foragidos do Reino das Águas Turvas.


Vinte anos se passaram desde a criação deste reino.  Hoje, contrariando todos os meus hábitos de permanecer os domingos em casa com a família, resolvi seguir um bando de guarus que me acenaram com suas guelras, e fui parar sabem onde? Sim, no reino encantado do nosso amigo peixe!


Este peixe tem nome, chama-se Elder, assumiu forma humana e hoje atrai todos aqueles que um por este ou aquele motivo, resolveram nadar contra a correnteza. Cansado de sua vida de bancário, largou a profissão e fixou-se na zona de periferia semi-rural de São José dos Campos, onde constituiu o Espaço Piracema, dedicando-se a despertar a poesia e alegria de viver em quantos se aproximam deste lugar encantado.


Nadando contra a correnteza da mesmice, e utilizando-se de materiais que estão à sua volta, tais como bambu, farinha de trigo, jornal velho e tudo quanto a cidade despreza, ele e seu irmão Eden, mantém hoje uma oficina de confecção de pereirões (bonecos gigantes), envolvendo uma ampla rede de crianças e voluntários dedicados. Todo tipo de gente é atraída e bem vinda, desde o pessoal mais simples da comunidade, até pedagogos que se empolgaram com a idéia.


A idéia de trabalhar com esses bonecos nasceu da lembrança dos carnavais que passou em Redenção da Serra, terra de seus avós, quando o menino Elder se assustava com as figuras dos gigantes Maria Angú e João Paulino. Viu na confecção destes bonecos a oportunidade de dar uma ocupação à criançada de rua e recriar uma fantasia de sua infância.


O nome Piracema é uma alusão ao retorno às origens, às fontes puras da nossa tradição, que hoje estão tão contaminadas pelas modernices enlatadas e massificantes. Piracema, pra quem não conhece o nome, é uma palavra de origem Tupi, que se decompõe em,  pira (peixe) e sema (sair). Segundo o dicionário, piracema designa um conhecido fenômeno da natureza, quando os peixes migram no sentido das nascentes dos rios, com fins de reprodução. Por extensão, designa também um movimento e o rumorejo dos cardumes quando sobem as correntezas.


O fenômeno da piracema, apesar de muito estudado, ainda é um enigma para os cientistas, no que diz respeito a suas razões maiores. Por motivos que só a natureza sabe, os peixes são movidos por incontida pulsão de voltar ao lugar onde nasceram, para nele projetar o futuro através da desova. Portanto, a imagem de um mergulho na tradição para, a partir dela, instalar a vanguarda, é a linha mestra do Espaço Piracema em São José dos Campos.


Eu fui parar neste lugar como pesquisador e curioso que sou, de todas as manifestações culturais espontâneas, essas que vem diretamente das entranhas do inconsciente. Quero voltar outras vezes, pois o que vi no Piracema é a vida pulsando em toda sua pujança. Assim, tive o cuidado de perguntar ao Elder se nossa presença não ia atrapalhar quando eles estivessem trabalhando e a resposta que ele me deu foi o fecho de ouro da visita de hoje.


__Chico, mas claro que não, vocês quando vierem vão fazer o boneco de vocês também. Vocês vão ser batizados, vão virar Piracema também…


                        


                    

                              

 

                               

 
                                                                                                                                                                                                                    
                    

                                    

22 comments


chico abelha
Obrigado, visitante fantasma...
3 months ago
Visitor
Pô Chico Abelha, que texto lindo, parabens companheiro.
3 months ago
chico abelha
Odelita, se isso inspirar você já valeu ter escrito este texto!
Saudade de você... tava viajando?
Bj!
3 months ago
Odelita
Qdo era criança tive um profºde artes q nos ensinava a fazer todos tipos de bonecos,os gigantes eram meus preferidos,depois faziamos teatros e, davamos asas a imaginação,isso ajudou muito na minha formação,era muito tímida,esse tipo de projeto e sem dúvida maravilhoso e deveria ser imitado em outros lugares parabens por vc divulgar e compartilhar me fez lembrar de um projeto q a muito estava na gaveta,q vou tentar por em prática c jovens da comunidade,vou me juntar a vcs e subir o rio,o texto mexeu fundo bjs!!!
3 months ago
chico abelha
Sim, Cris, você acertou, o cambito saindo da bermuda é meu. Ficar dentro do boneco é uma sensação muito boa. O aparato tem um molejo que induz ao movimento, é muito confortável e estimula o lado ludico do sujeito. Me senti num útero brincante! rsrsrsrssrs!
3 months ago
Cris
"estava bêbado da energia do Piracema..."

Foi a impressão que tive de você logo que li...rs
3 months ago
Cris
É seu pezinho nessa bermuda bege né naum Chico Abelha! rs
Encantada com o projeto...Acho lindo isso de reunir mão de obra local, valorizar as raizes, a cultura, fazer passar de geração pra geração...Me lembro de um senhora em São Sebastião que dava uma oficina de confecção de panelas de barro...coisa que aprendeu com os antepassados! Isso é pertencimento...É viver onde mora! É lindo...
3 months ago
chico abelha
É, por que temos que bater com a cabeça? Decerto porque ela e dura... rsrsrsrsrsrss!
3 months ago
Visitor
Piracema! Depois que vcs voltaram rio abaixo naquela tarde de domingo, o peixe ancião, o sábio do rebojo, perguntou pq temos de bater com a cabeça para encontrar o reino encantado? Depois respondeu que era só seguir a piracema e expirar e inspirar e pronto.VIVA A PIRACEMA!
3 months ago
chico abelha
Grato pelo comentário, Flávia (é a Diamante?)
Estou mergulhando num universo de gente que gosta do que faz, que tem prazer de viver e de ver a felicidade estampada no rosto de quem está à sua volta. Que mais a gente precisa?
Bjs!
3 months ago
Visitor
As pessoas são maravilhosas, essas são gente de verdade! A Cultura é uma Magia e Viver tudo isso é muito Bom!!!! Fico Feliz de encontrar pessoas que compartilham esse nosso jeito de Ser com todo seu Valor!!!! Bjs, Flavia
3 months ago
chico abelha
Grato, visitante. Eu recém tinha voltado do passei quando escrevi o texto, questão de horas, ainda estava bebado da energia do Piracema...
Se voltar por aqui, identifique-se, por favor!
Abraço!
3 months ago
Visitor
Parabéns!!! Seu texto mais parece uma poesia! Completamente PIRACEMA!
Simplesmente emocionante...
3 months ago
chico abelha
Grato pela sua preciosa contribuição, Rogério!
3 months ago
Rogério
No começo desta história pensei que fosse mais uma ficção. Mas não. Moro faz 28 anos em Pirassununga - barulho de peixe - e aqui perto de casa tem o Rio Mogi-Guaçu onde a Piracema acontece todos os anos. Curimbatás, Dourados e tantos outros peixes fazem este caminho de volta... Os índios locais identificavam a subida dos peixes em direção ao Rio Grande pelo barulho. Cada cardume produzia um ronco diferente. Este fenômeno deu o nome a cidade. O falecido Professor Manoel Pereira de Godoy passava os finais de semana nas margens do Rio Mogi. Nele encontrou urnas dos antigos índios moradores, e estudou a subida dos peixes e foi pioneiro no Brasil a construir as famosas escadas para os peixes transporem as barragens de hidroelétricas. Foi agraciado com o Prêmio Rolex por descrever a Piracema em toda a Bacia Hidrológica que vai de Pirassununga até o Rio da Prata. Dia 8 de dezembro a cidade para - é um feriado sagrado - para ver a Piracema. É um dia de festa. O fenômeno é bem descrito pelo professor. Os peixes tem um lar de alimentação que fica no Rio Grande. Lá os peixes engordam e vivem durante o anos. Mas com a força das águas da chuva o rio sobe, aumenta o teor de oxigênio dá vida a corrida dos peixes. Eles voltam ao local onde nasceram e percorrem dezenas de quilômetros sem se alimentar. Vão gastando a gordura que se transforma em hormônio e amadurecem seus órgãos sexuais. Quando chegam próximo ao local onde nasceram, as fêmeas e machos se batem lateralmente provocando a desova e saída do sêmen. Realmente feliz a ideia deste nome para esta instituição. Aqui no Brasil os peixes depois de desovarem não morrem, enquanto que no hemisfério norte eles voltam uma só vez... e depois de desovarem morrem. Pirassununga, Piracema... caminhar contra a corrente é tudo de bom! Parabéns pela história, parabéns a turma de Piracema em São José dos Campos!
3 months ago
chico abelha
E pelo jeito já fui batizado. Já fui Chico Velho, Chico Verde, Chico Abelha, e agora sou tbm Chico Piracema! Valeu, Sueli!
3 months ago
chico abelha
Grato, elpcern, já vou adotar a expressão "boa tarrafada". Hoje foi uma tarrafada de amor e carinho...
3 months ago
Visitor
Bela tarrafada, Francisco Piracema!!!!Parabéns pelo lindo trabalho , ficou uma obra e tanto.Que veia poética você possui!SUELI VIDIGAL (PIRACEMA)
3 months ago
chico abelha
É essa a intenção, Ivana, mexer com o nosso coração de peixe! Grato pelo comentário, Bj!
3 months ago
IVANA MIHANOVICH
CHICO, QUE TEXTO DELICIOSOOOO.
MEU CORAÇÃOZINHO DE PEIXA SORRIU SORRIU SORRIU.
A-DO-REI.

bjs
3 months ago
Visitor
Bela tarrafada, Francisco Piracema!!!!Parabéns pelo lindo trabalho , ficou uma obra e tanto.Que veia poética você possui!elpcern
3 months ago
IVANA MIHANOVICH
CHICO, QUE TEXTO DELICIOSOOOO.
MEU CORAÇÃOZINHO DE PEIXA SORRIU SORRIU SORRIU.
A-DO-REI.

bjs
3 months ago