Dentro e Fora - por Chico Abelha
Saturday, 7 July 2012
posted by chico abelha


Aqui no Vale do Paraíba, a cada dia que passa, os processos artesanais de produção de alimentos estão afundando mais e mais no buraco escuro do esquecimento. Hoje, só quem faz uma farinha de milho ou de mandioca, uma rapadura ou uma taiada, é a gente mais velha, que acaba fazendo mais por saudosismo do que por necessidade. Comprar pronto é tão mais fácil e barato que ninguém quer se dar o trabalho de plantar, moer, torrar, cozinhar, apurar, secar, etc… Pra que fazer se o supermercado está aí na esquina, oferecendo variedades e sabores para todos os gostos e bolsos?


No entanto, graças a Deus, ainda existem algumas gentes teimosas, que insistem em fazer como antigamente. É o caso dos meus amigos lá no Bairrinho, que todos os anos fazem rapadura e taiada. Taiada, pra quem não sabe, é a rapadura com o acréscimo de farinha de mandioca e gengibre. Só comendo pra saber que gosto tem e eu garanto que é gostoso, menos enjoativo que a rapadura pura, que é feita só do caldo da cana apurado.


Pois bem, no inverno chove pouco, a cana está madura e o teor de açucar elevado. É o momento ideal para se fazer a rapadura. Sabendo do meu interesse pelo folclore e tudo que envolve a sabedoria popular, meus amigos do Bairrinho me convidaram para assistir o ritual da feitura da rapadura. Eles são uma família de origem rural, que andou flertando com a cidade por uns tempos, mas que acabou voltando para a roça. Seu Sebastião, dona Dora e seus filhos, Elder e Eden, moram num pedacinho do paraíso aqui na terra, cuidam de uma chácarazinha deliciosa na periferia da cidade, uma peça de resistência que vem bravamente enfrentando a especulação imobiliária que vem devorando a bocadas gulosas, a nossa combalida zona rural.



Cheguei cedo na chácara para fotografar o pessoal ainda decepando a cana, mas não deu tempo, ela já estava toda cortada e empilhada ao lado da moenda elétrica. Tinha sido cortada um dia antes, pra ir amolecendo e facilitar a moagem. Seu Sebastião já estava terminando de limpar a moenda e em seguida pos-se a enfiar a cana, explicando que as melhores variedades são a Javanesa, a Cristal e a Caiana verdadeira, que dão um caldo mais doce e bem clarinho.



Enquanto seu Sebastião vai moendo a cana, dona Dora limpa um enorme tacho de cobre, com ajuda de seu filho Elder. É preciso tirar todo zinabre, que é um baita veneno e isso se faz esfregando muito limão cravo com sal grosso, que atua como abrasivo. Eu não sei a capacidade do tacho, só sei que foram despejados bem uns 120 litros de caldo de cana ali dentro, devidamente coados num grande coador de pano. O bagaço que sobra da cana moída eles levam de peruzinho para se decompor ao lado da horta, que nesta família nada se perde, tudo volta para a terra, fechando o ciclo da vida.



Caldo coado já no tacho, é hora de acender o fogo no fogão construído pelo seu Sebastião. Éden, o filho mais novo, se encarrega de colocar os paus da maneira certa, que acender o fogo exige ciencia, não é qualquer um que faz não… E depois de aceso, tem que controlar bem, não pode ser muito fogo porque senão entorna o caldo e não pode ser pouco senão demora demais.



Quando o caldo começa a ferver, tem que ir tirando a espuma, procedimento que além de ajudar a não entornar, faz a rapadura ficar mais clarinha porque se remove as impurezas. O processo todo demora horas, dependendo da quantidade de caldo de cana. O pessoal vai revezando, porque o braço cansa e o calor é intenso ao lado do fogo.



Enquanto Eden, Elder e até mesmo eu cuidamos de mexer o caldo fervente, dona Dora vai preparar o almoço e seu Sebastião prepara as forminhas de madeira onde será despejada a rapadura no ponto certo. Aliás, é muito importante ficar atento ao ponto; tem o ponto de melado, ponto de açucar e ponto de rapadura. Tem gente que sabe do ponto só de olhar para o caldo fervendo, mas pra se ter certeza, o melhor é pegar um pouco de massa quente, jogar numa panela com água fria e ver o que acontece. Se formar uma bola consistente, que não se desfaz na mão, é chegada a hora de tirar o tacho do fogo e colocar no chão, continuar mexendo até esfriar um pouco e só então enformar, despejando nas forminhas uma por uma. Dez minutos depois a rapadura está durinha e pode ser desenformada.


 

 


Depois que o tacho esfria, sempre sobra um pouco de açucar endurecido grudado nas bordas. Diga-se de passagem aí está a origem do nome rapadura. Quando se fazia açucar no Brasil colonial, a sobra endurecida nos tachos era raspada pelos escravos, e assim foi batizado este delicioso doce nacional.


Como meus amigos do Bairrinho não gostam de perder nada, jogam uma agua quente no tacho “sujo” e com ela preparam o que chamam café de rapadura, uma bebida deliciosa, parecida com café, mas com um sabor mais suave.



Os homens terminam a faxina e dona Dora vai passar o café de rapadura na cozinha. Eu a acompanho pois quero registrar mais esta novidade que ainda não conhecia. Dona Dora gosta de conversar e eu de perguntar. Vou fuçando a vida dela, perguntando onde aprendeu isso e aquilo, é uma delícia escutar essa mulher, uma aula de história viva.


No meio da nossa conversa ela diz que se lembrou muito de mim quando foi visitar sua terra natal no fim de semana passado. Eu estranhei ela dizer isso, pois não tenho ligação com a cidade de Redenção da Serra. Perguntei a ela:


__Mas por que a senhora se lembrou de mim, dona Dora se eu nem conheço a cidade de Redenção?


__Ah, porque ocê gosta de fotografá as coisa véia e eu tava visitando a igreja de lá, que é de 1902 e virô um museu com essas coisa antiga, penêra, monjolo, sabe? Desse jeito de fazê de antigamente…


Não me contive e interrompi a fala dela com a minha risada solta. Ela riu também, porque dona Dora é uma pessoa de bem com a vida, pega carona fácil na felicidade do outro. Mas minha risada foi pelo inusitado da observação dela. As coisas que ela vê como antigas e velhas, eu vejo como novas e inspiradoras, para quando o homem esgotar essa sua mania de fazer em série e sem personalidade. Para quando a humanidade perceber que o artesanato dá sentido à vida, enquanto o mecanicismo empobrece o espírito.


Processos como este, feitos em escala familiar, sem cartão de ponto e salário, dignificam o homem e é o que a humanidade está precisando.


29 comments


chico abelha
Grato pelo comentário, Odelita.
11 months ago
Odelita
Nossa Chico vc abriu sua alma!Amei... q texto maravilhoso.Eu vivo dizendo aos meus filhos q, o mundo q eles vivem ñ e o mesmo q vivi na infância e, ñ e por causa da globalização,das modernidades eletrônicas, são as pessoas q estão perdendo os valores,humanos mais simples,como o prazer de tomar cafezinho de rapadura e, ouvir um bom causo na beira da fogueira.
11 months ago
chico abelha
Mary, este moedor de cana do Seu Sebastião é pequeno, no máximo vai esmagar um dedo, mas uma pessoa jamais!
11 months ago
Mary Jully
Tem que ter muito cuidado ao moer cana, minha mãe trabalhou cortando cana e ela conta que um rapaz amigo dela que ficava na moagem, trabalhava e de repente lá do outro lado ficou tudo vermelho. O rapaz foi engolido junto com as canas, foi muito triste, nem enterro a família pode fazer.
11 months ago
Mary Jully
Me lembrei que esses dias minha amiga fez doce de casca de laranja no tacho igual a esse só que menor, fez uns 2, 3 litros, demorou mas valeu a pena (foi no fogão a gás mesmo), depois foi colocado em vidros. Só não pode abusar na comilança que é muito gostoso mas calórico.
11 months ago
chico abelha
Quando voce vier aqui em casa vai poder provar, primo.
11 months ago
Visitor
oi primo,
medeu água na boca!
11 months ago
chico abelha
Mutirão... ainda tenho esse sonho, de que a humanidade vai, um dia, se unir num imenso mutirão e que vamos nos esquecer dos dinheiros, das ganâncias e invejas...
11 months ago
Rogério
É Chico, a vida é assim. Tem que aprender a viver todos os dias... Obrigado pelo causo. Fazer as coisas em mutirão e em família é tudo de bom. Uma hora a gente aprende. Larga mão de trabalhar tanto e passa a cuidar mais da família!
11 months ago
chico abelha
Grato pelo comentário, Leila. Eu de teoria sei pouco, mas de fazedoria e ainda mais com as mãos, é comigo mesmo! rsrsrs! Quero mais é registrar e divulgar esses saberes que nos reconectam com o que vale a pena nesta vida.
11 months ago
Leila
Chico, não sou muito chegada a doces, mas rapadura com gengibre (adoro) e farinha de milho ou de mandioca deve ficar dos deuses... Pois é, texto bom é assim: dá água na boca da gente... rs. Enquanto lia, lembrava-me o tempo todo do Walter Benjamin, quando ele fala que o trabalho manual (qualquer tipo de manufatura) propicia conversas, transmissão de experiências, de conhecimentos, de sabedoria humana e, principalmente, de "causos" e histórias. Então, ao perdermos isso, esse convívio proveniente de tarefas em conjunto (artesanais), não é só a vida humana que se empobrece, mas a capacidade e a arte de narrar também. Amei.
11 months ago
chico abelha
Não tem mesmo, Débora. O que passa por procedimentos de higiene acaba perdendo o frescor e a sujeirinha que dá o sabor especial... rsrsrsrs!
11 months ago
♥DEBORA
Ah Chico..a rapadura dos supermercados não tem o mesmo sabor e qualidade das que é feita dessa forma demonstrada aqui em seu blog. Pelo menos penso assim...
11 months ago
chico abelha
Bili, está acontecendo um festival de cultura paulistana no Parque da Cidade, o Revelando São Paulo. Lá tem dessa rapadura e taiada pra comprar.Vai até domingo que vem, dia 15 de julho.
Grato pelo comentário.
Bj!
11 months ago
Visitor
Chico, está muito lindo este seu trabalho de encontro com as tradiçoes, e delicioso...deu até vontade de pegar uma rapadura, rs...as fotos estão maravilhosas.
Adorei, de novo ;-) bj.
Bili.
11 months ago
chico abelha
Ô, Ivana, vindo de você é um elogio e tanto! Este texto foi escrito sob estresse emocional, por causa de algumas divergências de opinão que surgiram no Facebook... Quem sabe este tempero do choque de opiniões é que tenha feito a diferença... rsrsrs!
Bj!
11 months ago
chico abelha
A enxada que você me deu é uma companheirona, primo, rasgando a terra e produzindo muita comida pra barriga e pra alma. Presentão que vc me fez!
Grato pelo comentário!
11 months ago
IVANA MIHANOVICH
Que texto bem escrito, Chico! Tá fluente, pensado, incitante a ler o resto e suave feito café de rapadura...rs.
As fotos estão mto boas e adorei aprender o que é taiada...rsrs.
Mto bom, obrigada!
Bjs
11 months ago
Visitor
Primo Chico
Fico contente por você estar usando a enxada, produzindo hortas, jardins e flores lindas.
Sua reportagem me enxeu de alegria e tristeza ao mesmo tempo; alegria por saber que ainda existem pessoas que cultuam essas práticas, quase desaparecidas e, triste, porque na nossa fazenda essa prática desapareu há muito tempo, quando deixaram de produzir cachaça e com ela o melado e a rapadura.
Parabéns pela sua reportagem, gostei muito
Primo que o admira, Rogerinho
11 months ago
chico abelha
Grato pelo comentário, Vera.
Bj!
11 months ago
Visitor
Excelente texto!!!Parabéns !!! Beijos...Vera
11 months ago
chico abelha
Grato pelo comentário, visitante não identificado.
11 months ago
chico abelha
Virou poeta, Cris?
Vamos inventar tudo de novo?
Eu to precisando, visse?
Rapadura na vida que ela não tá mole!
11 months ago
Cris
"Processos como este, feitos em escala familiar, sem cartão de ponto e salário, dignificam o homem e é o que a humanidade está precisando."

Existem muitas iniciativas no sentido de voltar a viver de forma mais natural, São escolhas!
Olhar pra dentro de si e ver o que, de fato precisamos...
Precisar menos!
Não precisa abrir mão de desenvolvimento, mas pensar tudo em nova ótica, só assim a gente para de fazer como sempre fez e inventa um fazer novo...
Olhar a pressa com olhos demorados!
Porque a vida, como a rapadura, é doce mas não é mole não! rs
11 months ago
Visitor
E eu pego carona na felicidade das palavras da Tata, pra dizer que seu texto traduz a sensibilidade de seu olhar. Parabéns pelo registro e obrigada pela partilha. Adorei!
11 months ago
chico abelha
Grato pelo comentário, Elder. Neste caso, o objeto ajudou muito os olhos do fotografista... E, claro, faltou muita coisa no texto, pra módi sê uma leitura mais leve, nesses tempos de internet...
Abraço!
11 months ago
Visitor
Chico, mais uma vez seus textos são de uma singularidade sem fim. Como já lhe disse "Cultura Arte e Educação" aos olhos do fotografista. Belissimo!! Abraço grande a voce. Elder.
11 months ago
chico abelha
Grato pelo lindo comentário, Tatá.
Bj!
11 months ago
Visitor
"...pegar carona na felicidade do outro..." esse seu comboio participativo viaja nas entranhas da vida, como quem surfa nas ondas do ar.
beijo, chico!
(tatá)
11 months ago