
Domingo passado, fim do dia, resolvi dar um pulo na casa dos meus pais. Sei que pai e mãe gostam de visita de filho, não custa fazê-los felizes. Como tenho a chave da porta já fui entrando. Minha mãe, bem ao feitio dela, se adianta e oferece a face para ser beijada. Ela não beija, ela quer ser beijada. Cumpri o ritual e já ia me dirigindo ao resto da familia que estava sentada na sala quando minha mãe dispara:
__Nossa, Chico, como você está velho!
Eu não registrei, a princípio. Pensei que tivesse ouvido mal. Ela não tem papas na língua e não gosta da minha aparência. Desde sempre me pede para cortar o cabelo, me vestir que nem gente, cortar a barba, usar desodorante, cumprimentar pelo aniversário do bispo ou da faxineira. São coisas que passam batido de tanto que ela repetiu. Mas essa era nova! Exclamar assim na lata, que eu estou velho!
Meus irmãos e cunhados, que estavam na sala, sairam em minha defesa.
__Queria que ele fosse um menino a vida toda? Ele já tem cabelo branco faz tempo, a senhora é que não via! Acorda, Maria Helena, ele já cresceu, casou e não tá mais na barra da sua saia!
Mas meu choque não diminuiu com o que eles disseram. Pelo contrário, eles confirmaram que eu já tenho cabelos brancos faz tempo! Aquilo ficou dentro de mim, um sentimento amassado, entalado, como se eu mesmo tivesse dificuldade de aceitar minha idade. A verdade é que eu não esperava isso dela. Minha criança acabara de levar uma porrada! O Peter Pan que mora em mim sofrera um sério golpe… Minha mãe nem ligou pro que disseram e continuou:
__Parece que foi ontem que eu ensinei você a escrever, lembra? Você não entendia o que era letra de forma e letra de mão. Implicava, dizendo que as duas eram escritas com a mão, lembra? E eu te expliquei a diferença entre letra de forma e letra de mão…
Eu só escutando e não dizendo nada. Enguli tudo e fiquei com a imagem da minha mãe e a frase ecoando na minha cabeça. Nossa, como você está velho… velho… velho… Letra de forma, letra de mão… de forma, de mão…
Fui transportado pro dia em que descobri meu primeiro pelo branco. Foi na barba, não foi no cabelo. Estava na Grécia, numa situação super estressante, viajando com tres amigas. Uma delas, marinheira de primeira viagem acabara de ter o passaporte roubado no metro de Atenas, por um desses bandos de imigrantes ilegais (assim nos disseram). Eu era o único que falava um pouco de grego e além de ter que me virar pra descobrir como achar a polícia e fazer o BO, tive que lidar com o irritante choro desesperado de uma senhora de 60 anos e as broncas das outras duas outras mulheres, que não se conformavam com o desleixo da vítima.
Não foi fácil convencer a polícia que não éramos um grupo de farsantes que vendera o passaporte e agora registrava a ocorrencia pra solicitar uma segunda via do passaporte na embaixada brasileira. A julgar pelo questionamento que nos fizeram isso devia ser comum por aquelas bandas. O fato é que eles nos deram uma canseira e só saímos de lá após algumas horas. Cansados, fomos para um restaurante comer qualquer coisa. No espelho do banheiro do restaurante foi que olhei pra mim e vi o tal primeiro pelo branco. Um susto! Eu estava ficando velho! Alguma horas de estresse teriam sido suficientes para formar aquele pelo branco? Será? Vou arrancá-lo? Um verdadeiro dilema!
Esqueci do pelo branco quando as amigas chamaram, me apressando para o próximo passo, que era a embaixada brasileira. Não sabíamos ainda quanto tempo seria necessário para expedir o novo documento. Teríamos que remanejar as datas dos vôos, arrumar hotel, avisar parentes, minha cabeça ainda estava a mil por hora. Temi por mais pelos brancos aparecendo nas próximas horas…
Dentro da embaixada um pequeno alívio. A atendente nos garante que o passaporte seria expedido no dia seguinte, era só fazer o pedido como urgente que o documento seria feito em 24 h. Mas teríamos que nos apressar, pois já era tarde e o povo estava encerrando o expediente. Pegamos os formulários para preencher e vi que minha amiga não era muito ágil, corríamos o risco de não conseguir entregar a tempo. Tirei a papelada da mão dela e fui perguntando e preenchendo o mais rápido que pude. Tudo preenchido, faltava a assinatura dela. Pedi que ela assinasse no espaço em branco. Ela me olha com cara de aluno de curso primário:
__Eu assino com letra de forma ou letra de mão?
__!!!
Saí do transe, uma baita sensação de dejà vu, cheguei de volta na sala de visitas da minha mãe, que continuava falando, com cara de criança travessa:
__Chico, só que agora as coisas se inverteram. Você é que vai cuidar de mim...
35 comments
Meu primeiro fio de cabelo branco quem achou foi minha irmã.
_ Nossa você já tem cabelo branco?
Eu tinha 33 anos de idade, arranquei ele dali, mas os outros fios de cabelo branco foram vindo... só pintei uma vez na vida, em novembro para o casamento de minha filha.
Meus cabelos hoje nem incomodam tanto, incomodam muito aos meus amigos e familiares, mas nem ligo para o que falam ou deixam de falar sobvre os branquinhos... fico sem graça quando tecem comentário de meu corpo, esse me incomoda mais.
Vamos lá! Eu tenho certas restrições com a mente... Por que? Porque, como o próprio nome diz, ela mente! A mente é a lente, que, conforme a regulagem do foco ilude mais ou menos, mas sempre ilude. A mente é como a luz da Lua, tênue e enganadora, usando a luz do Sol e querendo se fazer passar por ele. A Lua é a mente e o Sol é o coração!
Cabelo branco não é futilidade. Pintá-los sim, e as plásticas que o john sugere, é que seriam as futilidades.
esta' pensando em pintar o cabelo de preto, fazer umas plastiquinhas? :-) voce acha que isto te ajuda?
Adoro a tu mama.
isso é folclore, e dos pobres...
querem nos vender essa idéia de "velhice"
eu, aos 30 me sinto já um tanto maduro, e não ligo pra essas de idade...
já sou calvo e barrigudo, o próximo passo é o fio branco...
essa história foi ricamente contada e narrada de modo lúdico... ensaio perfeito para um livro de contos, de "causos"...
estou com os outros, CHICO, agradável de ser lido...
Mágico, Chico!
A sua mãe ganhou uma presença incrível, parece até que eu vejo o jeitinho dela e o seu, suspenso no tempo, viajando...
eu ri muito, mesmo porque eu não soube desta história ao vivo, só achei chato o pedaço da Grécia, contudo, você escreve muito bem.
Afinal tá cheio de gente de 100 andando por aí né :)
Ah!E vai lógo ecrever um auto-biografia,rss...
bjs Silvia