Dentro e Fora - por Chico Abelha
Tuesday, 23 February 2010
posted by chico abelha

                                     


Domingo passado, fim do dia, resolvi dar um pulo na casa dos meus pais. Sei que pai e mãe gostam de visita de filho, não custa fazê-los felizes. Como tenho a chave da porta já fui entrando. Minha mãe, bem ao feitio dela, se adianta e oferece a face para ser beijada. Ela não beija, ela quer ser beijada. Cumpri o ritual e já ia me dirigindo ao resto da familia que estava sentada na sala quando minha mãe dispara:


__Nossa, Chico, como você está velho!


Eu não registrei, a princípio. Pensei que tivesse ouvido mal. Ela não tem papas na língua e não gosta da minha aparência. Desde sempre me pede para cortar o cabelo, me vestir que nem gente, cortar a barba, usar desodorante, cumprimentar pelo aniversário do bispo ou da faxineira. São coisas que passam batido de tanto que ela repetiu. Mas essa era nova! Exclamar assim na lata, que eu estou velho!


Meus irmãos e cunhados, que estavam na sala, sairam em minha defesa.


__Queria que ele fosse um menino a vida toda? Ele já tem cabelo branco faz tempo, a senhora é que não via! Acorda, Maria Helena, ele já cresceu, casou e não tá mais na barra da sua saia!


Mas meu choque não diminuiu com o que eles disseram. Pelo contrário, eles confirmaram que eu já tenho cabelos brancos faz tempo! Aquilo ficou dentro de mim, um sentimento amassado, entalado, como se eu mesmo tivesse dificuldade de aceitar minha idade. A verdade é que eu não esperava isso dela. Minha criança acabara de levar uma porrada! O Peter Pan que mora em mim sofrera um sério golpe… Minha mãe nem ligou pro que disseram e continuou:


__Parece que foi ontem que eu ensinei você a escrever, lembra? Você não entendia o que era letra de forma e letra de mão. Implicava, dizendo que as duas eram escritas com a mão, lembra? E eu te expliquei a diferença entre letra de forma e letra de mão…


Eu só escutando e não dizendo nada. Enguli tudo e fiquei com a imagem da minha mãe e a frase ecoando na minha cabeça. Nossa, como você está velho… velho… velho… Letra de forma, letra de mão… de forma, de mão…


Fui transportado pro dia em que descobri meu primeiro pelo branco. Foi na barba, não foi no cabelo. Estava na Grécia, numa situação super estressante, viajando com tres amigas. Uma delas, marinheira de primeira viagem acabara de ter o passaporte roubado no metro de Atenas, por um desses bandos de imigrantes ilegais (assim nos disseram). Eu era o único que falava um pouco de grego e além de ter que me virar pra descobrir como achar a polícia e fazer o BO, tive que lidar com o irritante choro desesperado de uma senhora de 60 anos e as broncas das outras duas outras mulheres, que não se conformavam com o desleixo da vítima.


Não foi fácil convencer a polícia que não éramos um grupo de farsantes que vendera o passaporte e agora registrava a ocorrencia pra solicitar uma segunda via do passaporte na embaixada brasileira. A julgar pelo questionamento que nos fizeram isso devia ser comum por aquelas bandas. O fato é que eles nos deram uma canseira e só saímos de lá após algumas horas. Cansados, fomos para um restaurante comer qualquer coisa. No espelho do banheiro do restaurante foi que olhei pra mim e vi o tal primeiro pelo branco. Um susto! Eu estava ficando velho! Alguma horas de estresse teriam sido suficientes para formar aquele pelo branco? Será? Vou arrancá-lo? Um verdadeiro dilema!


Esqueci do pelo branco quando as amigas chamaram, me apressando para o próximo passo, que era a embaixada brasileira. Não sabíamos ainda quanto tempo seria necessário para expedir o novo documento. Teríamos que remanejar as datas dos vôos, arrumar hotel, avisar parentes, minha cabeça ainda estava a mil por hora. Temi por mais pelos brancos aparecendo nas próximas horas…


Dentro da embaixada um pequeno alívio. A atendente nos garante que o passaporte seria expedido no dia seguinte, era só fazer o pedido como urgente que o documento seria feito em 24 h. Mas teríamos que nos apressar, pois já era tarde e o povo estava encerrando o expediente. Pegamos os formulários para preencher e vi que minha amiga não era muito ágil, corríamos o risco de não conseguir entregar a tempo. Tirei a papelada da mão dela e fui perguntando e preenchendo o mais rápido que pude. Tudo preenchido, faltava a assinatura dela. Pedi que ela assinasse no espaço em branco. Ela me olha com cara de aluno de curso primário:


__Eu assino com letra de forma ou letra de mão?


__!!!


Saí do transe, uma baita sensação de dejà vu, cheguei de volta na sala de visitas da minha mãe, que continuava falando, com cara de criança travessa:


__Chico, só que agora as coisas se inverteram. Você é que vai cuidar de mim...

35 comments


Mary Jully
Gosto muito de ler suas histórias, suas aventuras, e aí quando sai o livro?
Meu primeiro fio de cabelo branco quem achou foi minha irmã.
_ Nossa você já tem cabelo branco?
Eu tinha 33 anos de idade, arranquei ele dali, mas os outros fios de cabelo branco foram vindo... só pintei uma vez na vida, em novembro para o casamento de minha filha.
Meus cabelos hoje nem incomodam tanto, incomodam muito aos meus amigos e familiares, mas nem ligo para o que falam ou deixam de falar sobvre os branquinhos... fico sem graça quando tecem comentário de meu corpo, esse me incomoda mais.
1 year ago
Leila vc é de outro planeta,rsss..pegou o Chico de jeito,rsss
1 year ago
chico abelha
Leila, voce me provocou! rs!
Vamos lá! Eu tenho certas restrições com a mente... Por que? Porque, como o próprio nome diz, ela mente! A mente é a lente, que, conforme a regulagem do foco ilude mais ou menos, mas sempre ilude. A mente é como a luz da Lua, tênue e enganadora, usando a luz do Sol e querendo se fazer passar por ele. A Lua é a mente e o Sol é o coração!
Cabelo branco não é futilidade. Pintá-los sim, e as plásticas que o john sugere, é que seriam as futilidades.
1 year ago
Leila
Não ponha cabresto na sua mente, porque, na verdade, é ela quem sente a emoção que a gente expressa (segundo o Nuno Cobra). Faça exatamente isso que você anda fazendo: abra a torneira fria e quente ao mesmo tempo, equilibrando a temperatura... rs. Outra coisa: fio branco no cabelo é futilidade? Desde quando? Se fosse, não teria motivado este texto tão aparentemente simples, mas super intenso...
1 year ago
chico abelha
John, eu dei uma rejuvenescida depois que casei... E meu cabelo queimou de sol, parece loiro agora. De modo que o que me apavorou há uns 15 anos, hoje já não me incomoda mais. Ah, tem o YuBliss que me absorve de tal maneira que não deixa tempo pra pensar em futilidades! rsrsrss!
1 year ago
John
chico e vida e' feita de fases. o que faltam sao rituais para ajdudar a aceitarmos estas fases. nossa sociedade e' seca, voce tem que se virar sozinho. fale com Leo do Xamantismo e peca a ele um ritual para aceitar a velhice.

esta' pensando em pintar o cabelo de preto, fazer umas plastiquinhas? :-) voce acha que isto te ajuda?
1 year ago
chico abelha
Cris, na época que me apareceu o primeiro fio branco, eu me senti muito velho. Hoje, ao contar o episódio, eu me sinto um garoto travesso, um pouco como a minha mãe. Afinal, sou filho dela! rs!
1 year ago
chico abelha
Marcela, sabe que eu não mostrei essa história para a minha mãe? Temo que ela não goste muito de saber qual a imagem que tenho dela...
1 year ago
chico abelha
Guita, só você pra prestar atenção à gentileza dos serviços consulares brasileiros! Adorei sua observação! Você certamente já precisou deles, não?
1 year ago
Marcela
Chico, sua mae merece ler esta historia.
1 year ago
Marcela
Lindo lindo!

Adoro a tu mama.
1 year ago
essas preocupações com idade...
isso é folclore, e dos pobres...
querem nos vender essa idéia de "velhice"
eu, aos 30 me sinto já um tanto maduro, e não ligo pra essas de idade...
já sou calvo e barrigudo, o próximo passo é o fio branco...

essa história foi ricamente contada e narrada de modo lúdico... ensaio perfeito para um livro de contos, de "causos"...
estou com os outros, CHICO, agradável de ser lido...
1 year ago
Visitor
muito 10! pois eu acho que suas histórias valem um livro sim, e tem papel reciclado se este é o problema...imagina poder ler um livro de histórias suas, numa rede, sem pressa, olhando de vez em quando o mar, ou quem sabe uma montanha...ler de trás prá frente, salteado, prum amigo aquela uma... bom demais...brigada, bjão
1 year ago
Guita
No meio de descobertas alarmantes, remisnicências e aventuras, transpareceu também a gentileza dos serviços consulares do Brasil no exterior. rsrsrs
Mágico, Chico!
1 year ago
chico abelha
Emoção, Leila, o negócio é abrir a torneira da emoção e driblar a mente pra ela não ficar no comando e sim no cabresto! rs!
1 year ago
Leila
Toda vez que você escreve sobre sua mãe saem pérolas, você já reparou nisso? Esta é mais uma. Delícia! Você já deve estar cansado de me ouvir dizer isso, não é? Mas aviso que, pelo jeito, vai se cansar ainda muito... rs... O final é um achado... Mas achei ótimo o jeito com que você passou do Brasil para a Grécia e de como você aterrisou novamente na sala da casa da sua mãe. Uma decolagem e pouso perfeitos, em grande estilo. Adorei.
1 year ago
chico abelha
Simone, eu mergulhei dentro de mim para fazer acontecer esta história. Deixei de lado o que eu acho que tem que ser e permiti que a história se contasse quase que sozinha. Está dando certo.
1 year ago
Simone
Chico, essa história é boa demais!
A sua mãe ganhou uma presença incrível, parece até que eu vejo o jeitinho dela e o seu, suspenso no tempo, viajando...
1 year ago
rssss..é bom te ler...muito obrigada chico
1 year ago
Visitor
oi meu lindo escritor,
eu ri muito, mesmo porque eu não soube desta história ao vivo, só achei chato o pedaço da Grécia, contudo, você escreve muito bem.
1 year ago
chico abelha
Maria Neusa, quer produzir o meu livro? Está convidada! Brincadeira, eu não quero destruir árvores não, deixa o povo ler no virtual.
1 year ago
chico abelha
Obrigado, Ramalho. Foi só um susto com o primeiro. Agora que os outros fios ficaram com inveja do primeiro, vi que não tem jeito, senão aceitar o fato.
1 year ago
maria neusa
Puxa!!!!Vc é um escritor !!!!! Já publicou algum livro de contos? Eu quero um e já.Beijos tietes da maria neusa,professora de redação e literatura brasileira
1 year ago
Ramalho
Chico, outra coisa interessante é que no meu caso, nasci com os cabelos brancos e eles estão ficando pretos conforme envelheço, como voce pode ver pela foto, falta muito para eu ficar velho,certo!
1 year ago
Ramalho
Chico, muito boa sua história, mas não se preocupe com a velhice, aos 50 somos ( me incluo) senhores de meia idade, não é assim que nos falam.
Afinal tá cheio de gente de 100 andando por aí né :)
1 year ago
chico abelha
Ainda sou muito novo para uma autobiografia, Chikita.
1 year ago
Desisto de você Chico!!!!v
Ah!E vai lógo ecrever um auto-biografia,rss...
1 year ago
chico abelha
Não seja maldoso comigo, Tony. Você nasceu apenas uns dias depois de mim! E seus cabelos só não são brancos porque já abandonaram sua careca...
1 year ago
chico abelha
Valeu, Si!
1 year ago
chico abelha
Melissa, senti o peso da responsabilidade! E uma certa raiva pelo jogo de manipulação dela, também.
1 year ago
Visitor
O Chico é o máximo, claro é meu irmão, parabéns continue assim
bjs Silvia
1 year ago
chico abelha
Obrigado, Pedro. Sinto-me honrado, vindo de quem vem é um baita elogio!
1 year ago
Melissa
E o que você sentiu com essa última frase da sua mãe Chicobee?
1 year ago
Caro Sr.Francisco, eu acho que lhe enviarei meu comentário via email com fonte letra de mão...Mas não se preocupe, mandarei no tamanho 14, pois sei que na sua idade letras miúdas dificultam a leitura...
1 year ago
Pedro
O senhor está se revelando um hábil contador de histórias, Tio!
1 year ago