Dentro e Fora - por Chico Abelha
Sunday, 28 February 2010
posted by chico abelha

                            
                            




Eu não tinha cachorro quando morava sozinho na floresta, de modo que, muitas vezes, eu só ficava sabendo que tinha visitas quando elas já estavam praticamente dentro de casa. Nesse dia eu olhei pela janela de vidro e lá estava, na varanda, um homem de bermudas, tenis e um sorriso tão grande quanto seu enorme chapéu branco de caubói. Meus visitantes eram gente de todo tipo, mas este me chamou a atenção, pois, além do visual, falava com um sotaque que era uma mistura de nordestino com ingles. Acompanhando o caubói, estava uma mulher discreta e com um olhar que me dizia: quero ser sua amiga.


 __ Olá, bom dia, somos seus vizinhos!

Meus vizinhos? Como? Os meus vizinhos eram todos caipiras, gente da roça, de onde teriam saído esses dois? O homem, percebendo meu embaraço, explicou:


__ Nós é que compramos a terra ali pra cima! – e ele apontou na direção da montanha.

Foi então que eu lembrei de um boato que vinha correndo o bairro, que uma “japonesa” que morava na Alemanha tinha comprado um sítio grudado no meu. Como a mulher tinha mesmo os olhos rasgados, deduzi que eram eles. Nos apresentamos e logo estávamos conversando como se nos conhecessemos há tempos. No entanto, eu tive dificuldade de enquadrar aqueles dois em qualquer modelo de referência conhecido. Ela também tinha um sotaque carregado, que preferi tentar adivinhar em vez de perguntar de onde ela vinha.


O gelo entre nós fora quebrado por um presente que trouxeram. Um livro muito interesante, do  japonês Masaru Emoto, que fez  fotos incríveis sobre a memória da água. Isso, de cara, já me dizia um pouco sobre o tipo de pessoas que eles deveriam ser. Eles olhavam tudo muito curiosos, elogiaram minhas leituras, a arquitetura da cabana o meu modo de vida. Foram muito simpaticos comigo, fiquei animado com a perspectiva de ter vizinhos que quando falavam em verde, queriam dizer floresta e não  pasto pra boi.


Eles insistiram muito que eram pessoas ligadas à preservação da natureza, o que foi de grande alívio para mim. Meu pesadelo recorrente, naquela época, era que tratores e caminhões desciam o morro rasgando uma auto-pista, vindos justamente dos lados do sítio das minhas visitas! Eles me garantiram que tinham comprado a terra para preservar, tanto que queriam comprar mais, para fazer um cinturão verde de proteção. E entre as terras que eles queriam comprar, estava a minha, a minha querida floresta! Não pude me impedir de exclamar:


__ Olha, vocês não precisam comprar minha floresta! Eu nunca vou derrubá-la! – e ao dizer isso, senti uma pulga andando atrás da minha orelha. A familiaridade se fora. Aqueles dois não passavam de especuladores disfarçados de ambientalistas. Prá que querer comprar a terra de um ermitão que nunca iria derrubar a mata? A conversa sobre preservação e o livro que me deram, de repente viraram intrumentos de manipulação… Liguei um alarme interno e deixei no stand by.


Mas na hora de ir embora, o homem do chapéu de caubói olhou bem dentro dos meus olhos e tascou uma pergunta que me surpreendeu e me fez mudar, de novo, minha impressão sobre o casal.


__ Chico, você que fez essa opção radical de morar sozinho na mata, já encontrou a sua paixão?


Eu não entendi muito bem qual foi o sentido que ele dera,  achei que estivesse falando de amor, da mulher da minha vida. Disse que no momento estava sozinho, mas que não tinha perdido a esperança, ainda. Ele interrompeu e esclareceu.


__ Não, eu falo daquilo que te dá tesão, que te entusiasma, que dá sentido à tua vida.


Aquilo me caiu como um raio, naqueles dias eu estivera, justamente, me questionando sobre o sentido da minha vida. O ermitão acomodado acabara de sofrer um abalo! Eu tivera meu carro roubado, as pessoas que apareciam no sítio me incomodavam demais, fazer a horta e o jardim passaram a ser quase uma obrigação… o que me prendia lá, só podia ser orgulho e obstinação de uma cabeça dura que não queria se render às evidências. Eu fui sincero com o caubói.


__Ainda não encontrei minha paixão. Mas por que você me pergunta isso?


__Ah, um dia você ainda vai saber… – respondeu ele, com um misto de mistério e esperança.


O caubói e sua esposa se foram, mas a pergunta ficou comigo. E como um rastilho de pólvora, ela acabou detonando a bomba que foi, pra mim, a venda do sítio para o casal, um ano mais tarde  (com  a devida ajuda da Existência, num episódio que está contado aqui ).


Dando nomes aos bois, o caubói da história é o John e a “japonesa” é a Marcela, sua esposa. Os mesmos que criaram o YuBliss e que logo em seguida à minha saída do sítio, me convidaram para participar do projeto que hoje é inseparável da minha vida.


Se o John me perguntar de novo se eu encontrei a minha paixão, com certeza posso dizer que estou bem mais perto de encontrar. Pelo menos, minha cabeça está um pouco mais mole e permeável às novidades que não tem sido poucas na minha fase de urbanóide.


Mas, e você que me lê, já encontrou a sua paixão?



(obs: paixão é uma das versões da palavra bliss em portugues)

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32 comments


chico abelha
Não, Paulo, quisera eu ter o tempo de fazer todas as ilustrações do meu blog. Algumas são minhas, mas esta da cabana não. Escolhi, no entanto, uma que não fugisse, nem ao meu estilo de desenho e nem ao que eu guardo dela, cabana, na minha memória.
1 year ago
Paulo
Adorei a história, meu caro Abelha. E o desenho da cabana, inclusive. É pintura sua, é?
1 year ago
chico abelha
Tony, só existe um momento na vida. Agora!
1 year ago
Visitor
Tento viver dia a dia apaixonada pela vida.

Marcela, olhos rasgados, japonesa.. muito interesante!

Marcela
1 year ago
Chico, tive e tenho várias paixões, mas o que realmente me entusiasma é velejar! Comecei a velejar com 23 anos, com 27 já estava competindo e com 35 sem tempo para nada. Espero um dia poder retornar a esta paixão.
1 year ago
Igor
Nossa, em nenhum momento pensei que o casal poderia ser o John e a Marcela... ótima história Chico =)
1 year ago
chico abelha
Estou aqui torcendo pra que tenha acontecido um milagre, Munik!
1 year ago
Chico lembra que disse que ainda não havia encontrado?E lembra hj o que lhe contei da experiência sobre ajudar as pessoas através do toque(shiatsu e podologia?).SIM!!!AMO FAZER ISSO.Agora voltei ao passado e lembrei da sensação gratificante.
1 year ago
chico abelha
Melissa, acho que o prazer que se tem na busca é sinal de que estamos no caminho certo.
1 year ago
Melissa
Ainda não encontrei, mas estou no caminho e como a Si falou, só essa busca já proporciona imenso prazer.
1 year ago
chico abelha
Monik, pois a entrega, como a vejo, é isso mesmo. Permitir que seja feito através da gente.
1 year ago
John
esta pergunta de encontrar nossa paixao e' importante para mim. acho que todos nos e em particular os jovens deveriam se perguntar e quando acharem sinais dela irem seguindo ate' que se desvenda. uma vez que sabem, abracem-na e se agarrem a ela pois a vida e' dura e sem paixao nao aguentamos o tranco, ou o sofrimento e' maior.

talvez nao precisemos de paixao para tocar a rotina de nossa vida, mas quande se trata de responder sim ou nao a chamadas para novas jornadas precisamos saber qual a nossa paixao. por nova jornada e' uma mudanca de profissao, uma escolha de uma profissao, uma missao, um motivo para acordar cedo e tocar o barco.

acho certissima a conexao que o Chico faz de paixao com Bliss definido pelo Campbell. :-)
1 year ago
Monik
Olha Chico, sei não... Agora estou na fase do sentir. Sentir, Respirar e Permitir. Sem julgamento, somente permissão.

As vezes queremos demais as coisas, mais julgamos aquilo que queremos na mesma proporção, aí não rola. É um exercício e tanto!
1 year ago
chico abelha
Vanessa, defina-se! rs!
1 year ago
Mas se for para escolher só uma, fico com os livros. Ah, e os filmes.
1 year ago
Muito bom!

Eu tenho várias: literatura, psicanálise, gastronomia... Estas são as principais.
1 year ago
chico abelha
Pois é isso, Monik! Também sinto que estou perto da coisa mas ainda não cheguei. Será que o que falta é a própria entrega?
1 year ago
Monik
Chico a busca da minha vida sempre foi descobrir o que me move.
Tenho essa ânsia, esse desejo que quase tira meu fôlego.
Escrever, ensinar são coisas das quais acho que não posso viver mais sem, mas ainda assim, falta algo. Exatamente esse tom de irracional, de passional, de profunda necessidade de entrega.
1 year ago
Simone
Tenho paixão pela busca!
1 year ago
chico abelha
Bliss profissional não serve, Paulette! Tem que ser bliss vital, irracional, legal, passional, local, enfim... total!
1 year ago
paulette
amor,
nada é por acaso mesmo!!! eu acabei de não resistir à tentação de dar uma consulta homeopática, é isso: algo que não resisto, de tanto que gosto de fazer, esta é minha bliss profissional. bjs.
1 year ago
chico abelha
Gostei dessa, estar no melhor e no pior! Isso me cheira a coisa boa, Hemme! Valeu meu dia!
1 year ago
Eu sei.E você faz isso muito bem conosco.Eu sou parte desse fruto(seu amor),rsss...muito obrigada,mesmo,sem demagogias.Você tem o dom de estar no melhor e no pior da minha vida.Isso é coisa de pai e do Papai sabia?
1 year ago
chico abelha
Hemme, você conseguiu captar uma coisa que eu não compartilho com todo mundo, mas que é evidente para mim. Tenho esse sentimento de que todos são meus filhos e de que preciso cuidar deles.
1 year ago
Não Chico!Filhos são para o mundo,minha participação é mais que importante eu sei,e ele na minha,mas não é desse tipo de amor que vc cogita em sua história.Então não.Mas, enquanto houver vida,há esprança.
E só para terminar: seu "amor" é visível,é tocante, é arrebatador,como aquele filme "A correne do bem".Já parou para pensar nisso?No carinho que "lhe" cerca?Pessoas de todas as idades,locais,cultura,etc..
Alías, eu diria que muitos de nós "somos" seus filhos,parículas desse seu AMOR.
1 year ago
chico abelha
Vale tudo Hemme, mas se você mesma diz que não, então seu filho pode ser o germen à partir do qual vc vai encontrar sua paixão, mas ainda não é, né?
1 year ago
Querido amigo,primeiro,parabéns,vc avança cada dia mais na sua arte de escrever e descrever fatos.A ilustração é belíssima.Perecebo a paixão que sempre coloca em seus textos,pelo seu capricho.
Se eu já encontrei minha paixão???Fico trsite em dizer que não.Filho vale?Rss
1 year ago
chico abelha
Cherry, o primeiro passo para encontrar a própria paixão é ter a coragem de enxergar que ainda não a encontramos! Parabéns!
1 year ago
Cherry
Não Chico,refletindo muito bem,ainda não.
1 year ago
chico abelha
Bonito, Pedro, obrigado pelo bonito comentário.
1 year ago
Nossa, confesso que até hoje não lhe perguntei onde é que você morava (município).
Você está realmente tornando-se um blogger, de 1ª!

Minha paixão, sempre soube, é andar pela cultura de SÃO PAULO e semear provocações indutivas à reflexão sobre as ARTES... nas periferias da vida...
é registrar fatos e recortes de pessoas e pedaços da cidade cinza...
é mostrar a ARTE que está em cada canto de SÃO PAULO- bem como das nossas vidas.
É discutir filosofia.
É ensinar a querer aprender e não ter de passar mais uma encarnação em vão...
É produzir minha ARTE sem a menor preocupação de sobreviver...
É caminhar por aí, sem pressa, é ter uma qualidade de vida ao percorrer trilhos urbanos sentindo as impressões de história e cultura que as cidades têm...
enfim, a vida sem CULTURA não presta...
1 year ago
Pedro
Francisco José, a minha paixão é viver. Por vezes confesso que a temperatura desse sentimento esfria um pouco, por causa do minuano que sopra vez ou outra do sul do continente ou do fundo de nossas almas. Mas no geral, é um bom e forte sentimento. Por conta disso, tudo o que faço na minha existência, das coisas mais importantes até as mais insignificantes, as faço com carinho e afeto. As pessoas com quem converso profissionalmente, sei que se sentem abraçadas por minha atenção e amparadas por minha dedicação. Isso, eu chamo de paixão. Vc não precisa salvar uma pessoa do dragão de sete cabeças ou cometer um ato heróico qualquer, para provar que é apaixonado pela vida, pela existência, pela humanidade. Apenas o jeito com que se oferece para buscar um copo dágua, a forma com que convida para sentar, a maneira com que ouve o relato das pessoas, já é suficiente para demonstrar que ali, há um ser apaixonado pela vida e pelo (pouco) que faz naquele momento e que não será gravado pela história nem será reportado por nenhum noticioso, mas que certamente marcará profundamente na alma de quem ali chegou sem saber o que lhe esperava. Essa paixão pela vida, faz com que ao ser indagado por você se encontrei, dizer que sim, eu tenho a minha paixão, a paixão de minha vida, a paixão por minha vida. Nas estrofes da poesia de "Morte e Vida Severina", no episódio final, quando nasce o bebê do mestre carpina, João Cabral de Melo Neto resume a paixão de muitos de nós pela vida, mesmo que seja uma vida frágil, mesmo que seja uma vida severina.
1 year ago