
Eu não tinha cachorro quando morava sozinho na floresta, de modo que, muitas vezes, eu só ficava sabendo que tinha visitas quando elas já estavam praticamente dentro de casa. Nesse dia eu olhei pela janela de vidro e lá estava, na varanda, um homem de bermudas, tenis e um sorriso tão grande quanto seu enorme chapéu branco de caubói. Meus visitantes eram gente de todo tipo, mas este me chamou a atenção, pois, além do visual, falava com um sotaque que era uma mistura de nordestino com ingles. Acompanhando o caubói, estava uma mulher discreta e com um olhar que me dizia: quero ser sua amiga.
__ Olá, bom dia, somos seus vizinhos!
Meus vizinhos? Como? Os meus vizinhos eram todos caipiras, gente da roça, de onde teriam saído esses dois? O homem, percebendo meu embaraço, explicou:
__ Nós é que compramos a terra ali pra cima! – e ele apontou na direção da montanha.
Foi então que eu lembrei de um boato que vinha correndo o bairro, que uma “japonesa” que morava na Alemanha tinha comprado um sítio grudado no meu. Como a mulher tinha mesmo os olhos rasgados, deduzi que eram eles. Nos apresentamos e logo estávamos conversando como se nos conhecessemos há tempos. No entanto, eu tive dificuldade de enquadrar aqueles dois em qualquer modelo de referência conhecido. Ela também tinha um sotaque carregado, que preferi tentar adivinhar em vez de perguntar de onde ela vinha.
O gelo entre nós fora quebrado por um presente que trouxeram. Um livro muito interesante, do japonês Masaru Emoto, que fez fotos incríveis sobre a memória da água. Isso, de cara, já me dizia um pouco sobre o tipo de pessoas que eles deveriam ser. Eles olhavam tudo muito curiosos, elogiaram minhas leituras, a arquitetura da cabana o meu modo de vida. Foram muito simpaticos comigo, fiquei animado com a perspectiva de ter vizinhos que quando falavam em verde, queriam dizer floresta e não pasto pra boi.
Eles insistiram muito que eram pessoas ligadas à preservação da natureza, o que foi de grande alívio para mim. Meu pesadelo recorrente, naquela época, era que tratores e caminhões desciam o morro rasgando uma auto-pista, vindos justamente dos lados do sítio das minhas visitas! Eles me garantiram que tinham comprado a terra para preservar, tanto que queriam comprar mais, para fazer um cinturão verde de proteção. E entre as terras que eles queriam comprar, estava a minha, a minha querida floresta! Não pude me impedir de exclamar:
__ Olha, vocês não precisam comprar minha floresta! Eu nunca vou derrubá-la! – e ao dizer isso, senti uma pulga andando atrás da minha orelha. A familiaridade se fora. Aqueles dois não passavam de especuladores disfarçados de ambientalistas. Prá que querer comprar a terra de um ermitão que nunca iria derrubar a mata? A conversa sobre preservação e o livro que me deram, de repente viraram intrumentos de manipulação… Liguei um alarme interno e deixei no stand by.
Mas na hora de ir embora, o homem do chapéu de caubói olhou bem dentro dos meus olhos e tascou uma pergunta que me surpreendeu e me fez mudar, de novo, minha impressão sobre o casal.
__ Chico, você que fez essa opção radical de morar sozinho na mata, já encontrou a sua paixão?
Eu não entendi muito bem qual foi o sentido que ele dera, achei que estivesse falando de amor, da mulher da minha vida. Disse que no momento estava sozinho, mas que não tinha perdido a esperança, ainda. Ele interrompeu e esclareceu.
__ Não, eu falo daquilo que te dá tesão, que te entusiasma, que dá sentido à tua vida.
Aquilo me caiu como um raio, naqueles dias eu estivera, justamente, me questionando sobre o sentido da minha vida. O ermitão acomodado acabara de sofrer um abalo! Eu tivera meu carro roubado, as pessoas que apareciam no sítio me incomodavam demais, fazer a horta e o jardim passaram a ser quase uma obrigação… o que me prendia lá, só podia ser orgulho e obstinação de uma cabeça dura que não queria se render às evidências. Eu fui sincero com o caubói.
__Ainda não encontrei minha paixão. Mas por que você me pergunta isso?
__Ah, um dia você ainda vai saber… – respondeu ele, com um misto de mistério e esperança.
O caubói e sua esposa se foram, mas a pergunta ficou comigo. E como um rastilho de pólvora, ela acabou detonando a bomba que foi, pra mim, a venda do sítio para o casal, um ano mais tarde (com a devida ajuda da Existência, num episódio que está contado aqui ).
Dando nomes aos bois, o caubói da história é o John e a “japonesa” é a Marcela, sua esposa. Os mesmos que criaram o YuBliss e que logo em seguida à minha saída do sítio, me convidaram para participar do projeto que hoje é inseparável da minha vida.
Se o John me perguntar de novo se eu encontrei a minha paixão, com certeza posso dizer que estou bem mais perto de encontrar. Pelo menos, minha cabeça está um pouco mais mole e permeável às novidades que não tem sido poucas na minha fase de urbanóide.
Mas, e você que me lê, já encontrou a sua paixão?
(obs: paixão é uma das versões da palavra bliss em portugues)
32 comments
Marcela, olhos rasgados, japonesa.. muito interesante!
Marcela
talvez nao precisemos de paixao para tocar a rotina de nossa vida, mas quande se trata de responder sim ou nao a chamadas para novas jornadas precisamos saber qual a nossa paixao. por nova jornada e' uma mudanca de profissao, uma escolha de uma profissao, uma missao, um motivo para acordar cedo e tocar o barco.
acho certissima a conexao que o Chico faz de paixao com Bliss definido pelo Campbell. :-)
As vezes queremos demais as coisas, mais julgamos aquilo que queremos na mesma proporção, aí não rola. É um exercício e tanto!
Eu tenho várias: literatura, psicanálise, gastronomia... Estas são as principais.
Tenho essa ânsia, esse desejo que quase tira meu fôlego.
Escrever, ensinar são coisas das quais acho que não posso viver mais sem, mas ainda assim, falta algo. Exatamente esse tom de irracional, de passional, de profunda necessidade de entrega.
nada é por acaso mesmo!!! eu acabei de não resistir à tentação de dar uma consulta homeopática, é isso: algo que não resisto, de tanto que gosto de fazer, esta é minha bliss profissional. bjs.
E só para terminar: seu "amor" é visível,é tocante, é arrebatador,como aquele filme "A correne do bem".Já parou para pensar nisso?No carinho que "lhe" cerca?Pessoas de todas as idades,locais,cultura,etc..
Alías, eu diria que muitos de nós "somos" seus filhos,parículas desse seu AMOR.
Se eu já encontrei minha paixão???Fico trsite em dizer que não.Filho vale?Rss
Você está realmente tornando-se um blogger, de 1ª!
Minha paixão, sempre soube, é andar pela cultura de SÃO PAULO e semear provocações indutivas à reflexão sobre as ARTES... nas periferias da vida...
é registrar fatos e recortes de pessoas e pedaços da cidade cinza...
é mostrar a ARTE que está em cada canto de SÃO PAULO- bem como das nossas vidas.
É discutir filosofia.
É ensinar a querer aprender e não ter de passar mais uma encarnação em vão...
É produzir minha ARTE sem a menor preocupação de sobreviver...
É caminhar por aí, sem pressa, é ter uma qualidade de vida ao percorrer trilhos urbanos sentindo as impressões de história e cultura que as cidades têm...
enfim, a vida sem CULTURA não presta...