Home > Dentro e Fora - por Chico Abelha > Vin aux champignons

Quando eu ainda só conhecia o chamado 3º mundo, a minha idéia do 1º era totalmente contaminada pelas opiniões dos derrotistas de plantão. O primeiro mundo era o mundo das soluções dos problemas e o terceiro pertencia àqueles que eternamente empurravam tudo com a barriga. Foi com essa idéia que parti para a minha primeira viagem à Europa, em busca de alguma coisa ainda não muito clara na minha cabeça. Com pouca grana, eu contava trabalhar por lá, mas morria de medo de não conseguir burlar a rigorosa fiscalização do trabalho clandestino.
Escolhi a Espanha como porta de entrada, que tinha fama de ser um país mais permissivo. Não foi bem assim… Eu viajava com uma companheira e, por precaução, (coisa da minha cabeça, de achar que mulher é mais vulnerável), fiquei com toda a grana que tínhamos. Na imigração, ela passou direto e eu fui barrado. Talvez por minha barba e cabelos compridos, vai saber! Me prenderam lá por um tempo que me pareceu infinito, me fizeram toda sorte de perguntas (minha passagem era aberta por um ano) e finalmente, depois de eu jurar de pés juntos que fazia turismo sentimental, visitando a terra de meu avô paterno, me pediram para mostrar o dinheiro que ia financiar o meu passeio.
Nessa hora me lembrei da minha companheira lá fora, sozinha e sem grana. Mas dei graças a Deus de ter ficado com a parte dela, o que, com certeza me ajudou na confirmação da minha história de turista. Depois de martelar na minha cabeça mais uma dúzia de vezes que “Turista no puede trabajar”, acabaram me liberando. Primeiro mundo aqui vou eu!
Saímos do aeroporto direto para o Albergue da Juventude, para o qual tinhamos feito reservas, por carta (isso era 1989). Claro que ninguém tinha reservado nada pra nós… Dei um escândalo perante a recepcionista e uma fila de pretendentes a uma cama que saia calçada afora. Todos me olharam impassíveis, menos um brasileiro que me consolou. __ Entra na fila, quem sabe tem alguma desistência. Não entrei e indignado com a incompetência, fui procurar um hotel no qual pagamos o triplo do preço.
Começavam a aparecer as primeiras rachaduras na imagem de perfeição que eu tinha do 1º mundo…
Ficamos em Madrid o tempo suficiente para conhecer o Museu do Prado e tomar um gazpacho, e em seguida zarpamos para a França, onde nos esperava um amigo que facilitaria as coisas para nós. No no meio do caminho, de carona com um argentino que conheceramos, paramos num bar um pouco abaixo de Barcelona, na costa do Mediterrâneo. Minha companheira queria uma coca, estava enjoada da viagem. Devia ser umas 9 da noite, ainda estava claro, entrei no primeiro bar que encontrei. Fiz o pedido e percebi os olhares desconfiados dos empregados. Um balconista estúpido me entregou a coca com uma mão e fez questão de mostrar uma arma com a outra. Não entendi nada… Era mais uma rachadura que aparecia.
O primeiro mundo não era nada seguro e muito menos cordial e bem educado.
Chegando à França, fomos super bem recebidos pela família do meu amigo e direcionados, em seguida, para o sul do pais, onde se fazia a vindange, que é o nome que eles dão pra colheita da uva. Como ainda era verão, fomos prá estrada tentar carona. Uma manhã inteira e nada de carona. Já estávamos desanimados, quando minha amiga tentou algo drástico; foi para o meio da pista, ajoelhou-se na frente de um carro e juntou as mãos implorando que ele parasse. Parou! O cara nos levou pro nosso destino, mas não sem cobrar seu preço. Caímos na besteira de contar que íamos fazer a vindange e ele nos deu um esculacho dizendo que devíamos estar no Brasil ajudando a erradicar a miséria e violência em vez de roubar postos de trabalho dos franceses.
Minha desilusão com o primeiro mundo aumentou mais um bocadinho.
Nosso destino, a pequena Roquebrun, nos reservava mais um surpresa. As indicações eram de que procurássemos um tal Yves, que morava ao lado do cemitério, na beira do Rio Orb. Ele nos hospedaria e ajudaria a procurar trabalho. Fomos até o cemitério e não vimos casa alguma. Havia apenas uma pessoa tomando banho, nua, na beira do rio, que não era ninguém mais ninguém menos que o nosso anfitrião, o próprio Yves! Sua casa? Um amontoado de capim encostado no muro. Esta seria nossa maison durante a vindange! A cozinha não passava de algumas pedras com um fogo no meio, o banheiro era a moita mais próxima, a pia e o banho eram ambos no rio. Ah, sim, o vinho, numa embalagem plástica transparente, de 20 litros, era mantido fresco dentro da água do rio. Quando chovia forte e a correnteza aumentava, era preciso ir correndo salvar o vinho…
Minha imagem do primeiro mundo estava definitivamente abalada, mas ainda havia mais pela frente!
Fomos contratados por um patrão muito liberal, a animação não parava durante o trabalho, ele sempre contando histórias, se gabando da qualidade do seu vinho. Pão, queijo, saucisson (salame) e vinho nunca faltavam. As uvas eram as mais doces que já comi. Minha companheira que até então não sabia uma palavra de francês, ficou fluente de tanto vinho que bebeu! Tudo era festa!
Um belo dia, recebemos o convite para conhecer o lugar onde era feito o vinho do patrão - todo mundo já embalado de Muscat, um delicioso vinho licoroso que sobe mais rápido que rojão. Lá chegados, descarregamos toda a uva colhida dentro de recipientes plásticos - antigamente eram de madeira, mas hoje usam grandes cochos de plástico. Em seguida, a surpresa. O patrão, todo orgulhoso, nos diz que vamos participar de uma cerimonia típica da França de antigamente e pede a todos que tirem os sapatos e as meias e que entrem nos cochos para amassar as uvas com os pés. Uma das meninas que fazia parte da turma observa…
__ Mais moi, j'ai des champignons entre les orteils! (Mas eu tenho micose entre os dedos do pé!)
Ao que ele responde.
__ Pas de problème, on ajoutera un produit chimique au moût, et ils iront tout crèver, tes champignons. Vas-y tu peux rentrer! (Não tem problema, nós colocamos no mosto um produto químico que acaba com tudo. Vai, pode entrar!)
Inacreditável! Ela entrou e pisou a uva com os pés cheios de micose!
Esse foi o fim! Da minha imagem do primeiro mundo e do meu prazer de beber vinho francês…
30 comments
Me dá um pouco Chico dessa sua coragem de enfrentar o mundo? É que li cada um dos resumos das histórias do link e estás aqui, sobreviveu enfim.
Poxa, me deu vontade até de tomar um pouco de vinho, rs.
Fala a verdade, agora que o tempo passou você não acha a sua experiência engraçada? Eu penso que esses imprevistos é que nos ajudam a exercitar a flexibilidade e a criatividade. Além disso, considero positivas as experiências que nos ajudam a romper com visões idealizadas do que quer que seja. Mas nem todos têm experiências e surpresas como as suas nesta história. A companheira do meu irmão, por exemplo, foi comemorar o aniversário em Paris e à noite saíram para jantar com amigos; ao final do jantar ela e meu irmão ganharam de presente um fim-de semana no Ritz! Como você vê, Chico, há experiências e experiências, nunca se pode generalizar nada!
"A seiva de algumas espécies de arecáceas é tradicionalmente fermentada para produzir o vinho de palma ou vinho de palmeira, muito apreciado e conhecido em Moçambique com o nome de sura (onde, para além de ser bebido, é também utilizado como fermento na fabricação de pães e bolos). O buriti (Mauritia flexuosa) também é fermentado (entre outras formas de consumo), dando origem ao vinho de buriti, e o açaí (Euterpe oleracea) dá o vinho de açaí. No Brasil a Palmeira imperial (Roystonea oleracea (Palmae)), plantada em 1809 por D. João VI, tornou-se o "símbolo do Império", em meados do śeculo XIX [1]. Em Angola o vinho de palmeira é conhecido como "marufo".
Roberto
Quando li o título, jurei que o champignon eram os cogumelos...rs
Descobri esta faceta dos países do "primeiro mundo" quando eu estava no metrô em Paris (indo para Versailles) e um senhor, imundo e cheirando muito mal, entrou no vagão vindo do da frente e pediu um dinheiro para poder se alimentar e se lavar. Ninguém deu nem um centavo para ele, e também nem uma olhada. Achei muito desumano.
Também teve um caso de um rapaz surdo que me vendeu um boneco em forma de palhacinho. Como estes vendedores nas praias aqui de Salvador, só faltou ele dizer que era para "poder ajudar ele e a família". Eu comprei. Dez minutos depois um menininho com sua mãe entrou no café e não se aguentou para perguntar como eu tinha conseguido aquele palhacinho. Acabou ganhando o boneco e eu ganhei um beijinho no rosto...rs
Gente é tudo igual, não importa de qual mundo seja...
rs Demais hein! adorei a cena! merecia uma foto.
Mas que a história foi engraçada, foi!!!
esta aventura foi mais suave do que sua viajem de carona aturando um cachorro ao seu lado no Canada. depois voce conta para nos.
mas a mensagem e' mais profunda, nossa intrinsica submissao Europeia/Nor-te-Americana aflora sempre que pode. como se curar deste mal?
O produto químico, não a micose! Essa não resiste ao produto químico.