Dentro e Fora - por Chico Abelha

                                                                                                                                                                              


Era um fim de tarde  e eu, como de hábito nestes dias secos de começo inverno, estava a regar as plantas que cultivo num descampado aqui ao lado de casa. Trata-se de um terreno cuja propriedade é controversa e enquanto se discute a quem pertence, eu aproveito e faço do local um bonito jardim, com plantas pra se ver e plantas pra se comer.
 


 

De repente, quebrando o meu sistemático jeito de regar as plantas, algo me incomodou. De bate pronto eu não soube identificar ao certo a origem do incômodo. Mas era um incômodo grande... Continuei a jogar água num canteiro onde convivem marias-sem-vergonha, almeirão e uma folhagem vermelha, mas com a nítida impressão de que faltava algo ali. Olhei as plantas do canteiro vizinho, na esperança de que elas me dissessem o que havia de errado ali... mas nada!
 

Terminei a rega, recolhi a mangueira e voltei ao canteiro das marias-sem-vergonha, agora com determinação de detetive. Afastei um pouco a folhagem vermelha e eis que surge um indício, raízes e terra revolvidos recentemente. Minha barriga gelou, alguém havia mexido ali ainda há pouco e arrancado alguma planta! E o pior é que eu não conseguia identificar qual era a planta que estava faltando!
 

Mais uma vez olhei em volta e finalmente a ficha caiu... faltava a primavera vermelha! A mais bonita, carregadinha de flores e com muitos botões ainda por abrir. Imediatamente comecei a pensar em todas as alternativas possíveis, como fora desaparecer uma árvore inteira do meu jardim? Cometi todos os julgamentos e condenei todo mundo que eu já vira passar pelo local.  Perguntei ao guarda na portaria, que fica alguns metros do jardim e ele nada tinha visto. 
 

Uma sensação enorme de impotência e tristeza pela maldade do ser humano me invadiu. Eu quis gritar, colocar uma placa manifestando minha indignação, impedir que as pessoas entrassem no jardim, mas isso durou pouco. Pois nessa hora chegaram dois meninos dos seus 10 anos de idade, que me perguntaram quem é que cuidava das plantas. 
 

__Sou eu, por que? - respondi, distraído.
 

__É porque a gente acha bonito e vem aqui de vez em quando ver as flores.
 

Aquilo foi o suficiente pra me calar os pensamentos. Não sei de onde vieram os dois anjos, mas esqueci do roubo, as outras primaveras saltaram aos meus olhos e vi no episódio uma ótima oportunidade de transformá-lo nesta história que você lê agora, aqui no YuBliss...


 

34 comments


chico abelha
Que melhor parte, Marcia? Boiei...
1 year ago
marcia
Perdeu a melhor parte do Chico? Ou a melhor parte de Chico estava no Chico mesmo?
1 year ago
OBRIGADAAAAAAAAAAAAAAAAAA MESMO
1 year ago
chico abelha
Vou plantar uma pra vc Mu. Quando encontrar um exemplar especial, super diferente, pode ter certeza que vou comprar e plantar no lugar dessa que se foi...
1 year ago
ahhhhhhhhh vc disse que plantaria uma para mim tbmmmmmmmm,rss...explica isso??rssss...como vai nosso jardim.Hj passei pela lagoa e cheirei muitas flores,abracei algumas árvores e corri de formigões,kkkk..impossível não lembrar dessa história
1 year ago
chico abelha
Planto sim, Marcela. Onde você quer que more esta primavera?
1 year ago
chico abelha
Obrigado, Laerte, pela história do Khalil Gibran.
1 year ago
Marcela
Chico, planta uma para mim. Eu aceito como presente. Adorare..
1 year ago
Já que a Ivana citou Khalil Gibran, cito-o novamente (mas em nosso idioma....rssr)

O Louco


Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.

E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.
1 year ago
Visitor
Oi Chico, uma flor vermeleha para vc! Querido, não estou conseguindo ver os comentários que precisam ser liberados, como faço? Bj Patrícia
1 year ago
chico abelha
Gracias, Ivana. A mente sabe, mas o coração não está nem aí pra sabedoria dela! rsrsrsrsr! Valeu!
1 year ago
IVANA MIHANOVICH
Chico, amore, transpõe para as plantas o poema do Khalil Gibran sobre os filhos e isso talvez te revele um olhar diferente:

"Tus hijos no son tus hijos,
son hijos e hijas de la vida,
deseosa de sí misma.

No viene de ti,
sino a través de ti,
ya aunque estén contigo,
no te pertenecen.

Puedes darles tu amor,
pero no tus pensamientos,
pues ellos tienen sus propios pensamientos.

Puedes abrigar sus cuerpos,
pero no sus almas,
porque ellos
viven en la casa del mañana,
que no puedes visitar,
ni siquiera en sueños.

Puedes esforzarte en ser como ellos,
pero no procures hacerles semejantes a ti,
porque la vida no retrocede ni se detiene en el ayer.

Tu eres el arco del cual tus hijos,
como flechas vivas,
son lanzados.
Deja que la inclinación,
en tu mano de arquero,
sea para la felicidad."

Deja que la inclinación,
en tu mano de arquero,
sea para la felicidad...

Besos
1 year ago
chico abelha
Monik, eu acho muito interessante este ritual, o "Pow Wow", mas trata-se de uma reciprocação (existe essa palavra?). No meu caso foi agressão mesmo, embora nada impeça que eu utilize o episódio como uma oportunidade para trabalhar meu desapego. Bj!
1 year ago
Monik
Chico, minha mãe é uma surrupiadora nata e confessa de plantas dos jardins alheios, já saiu de madrugada para roubar planta! Ela adooora plantar, mas principalmente as plantas dos outros! No início eu ficava fula, mas resolvi relaxar por que não adianta, ela sempre chega com um ramo de alguém casa, mas eles sempre a fazem muito fez, por que ela tem todo um carinho e dedicação em fazer as mesmas florescem em esplendor!

No caso da sua planta, vejo diversas lições nisso, todas ligadas ao desapego, principalmente daquilo que você cuida com afeição.

Você sabe, dentro do Xamamisno tem um ritual que se chama "Pow-Wow, que nada mais é que a troca de utensílios, mas não são quaisquer utensílios, são aqueles dos quais vc é mais apegado e tem carinho por eles.

Em cada troca há não só o ato de dá-lo ao outro, mas o sentimento e a verdadeira intenção de que aquele objeto possa servir ao outro tão bem, quanto ele serviu à vc. E com isso, aprendemos a importância do essencial e do verdadeiro desapego, que não é somente liberar algo, mas tb fazê-lo com coração.

Que todo carinho, amor e intenção que vc dedicou à essa planta, possa ser sentido por aquele que teve a necessidade de tê-la para si.

Beijo!
1 year ago
chico abelha
O Tony sempre foi do contra. Qualquer coisa diferente disso é pra se desconfiar de uma imitação chinesa... rsrs!
1 year ago
esse tony é porreta!!!rsss
1 year ago
chico abelha
Grato pelo incentivo, Tony. É isso mesmo que vou fazer, logo que encontrar uma primavera no mesmo tom da que foi passear...
1 year ago
Olha Chico, deixe de ser bebê chorão vai lá e planta outra! Você gosta de plantar mesmo! De mexer com a terra, de pegar numa enchada! Você esqueceu que não está mais no meio do mato isolado? Onde tudo era “supostamente” seu? Bem vindo à sociedade! Vai se acostumando a ser surrupiado de vez em quando! rsrsrs
1 year ago
chico abelha
Eu também, Pedro. Mas é difícil conceber a idéia de que alguém que roube plantas possa adorar as mesmas.
1 year ago
Pedro
Quem se permite furtar uma planta de um jardim, de duas uma: ou está se vingando do legítimo dono, ou corre o risco porque adora plantas e vai cuidar muito bem dela. Torço para que a verdadeira seja a segunda premissa.
1 year ago
chico abelha
Grato pelo consolo, Laerte. Pelas circunstâncias ela dever estar bem plantadinha em algum jardim longe daqui...
1 year ago
Se ela foi plantada em outro lugar, então não se aborreça. Mas se vc encontra-la jogada num canto qualquer aí sim, vc deve ficar P da vida, assim como eu fico quando vejo que após o natal, centenas des pinheirinhos são jogados no lixo com vaso e tudo.
1 year ago
chico abelha
É isso o que estou fazendo, Rosa, observar em mim quais foram os sentimentos que vieram à tona por causa do ocorrido. Não há muito o que fazer quanto ao fato em si, é plantar outra árvore no local e cuidar dela. Já, quanto a mim, eu posso curar as feridas da raiva, do julgamento, e da vontade de me vingar de alguma maneira.
1 year ago
chico abelha
Laerte, não era simplesmente uma flor. Era uma árvore que eu plantei e da qual cuidava fazia um ano. Ela foi arrancada com raiz e levada embora.
1 year ago
Ninguém rouba uma flor. As flores simplesmente mudam de lugar
1 year ago
Rosa Maria
Chico, você já se perguntou se a pessoa que roubou a Primavera, sabendo que há controvérsia sobre a propriedade do terreno, achou-se no direito de pegá-la, mesmo não tendo sido quem a plantou? Sabe, aquela história de "terra de ninguém", vai saber! Acho que o mais importante é você perceber que sentimentos esta ocorrência trouxe à tona
1 year ago
Qual a função de uma flor?
1 year ago
sabe que minha mãe conta que se vc pedir uma muda da planta,ela não vinga.tem que roubar mesmo,rsss...isso ela que me disse.:P

Quanto as suas plantas serem como filhos,eu entendo.
1 year ago
chico abelha
Pedro, Pedro, como você pode pensar uma coisa dessas? Eu jamais daria uma surra nos moleques, mesmo sabendo que tinham sido eles os ladrões! O máximo que eu faria é obrigar eles a replantarem a primavera.
1 year ago
Pedro
Pior é se vc só descobrisse que eles vinham apreciar as flores apenas depois da surra que vc daria neles, para aplacar a sua fúria, ao pensar que eles seriam os autores do furto da primavera.
1 year ago
chico abelha
Conversando com vizinhos, Melissa, descobri que é mais comum do que eu imaginava. Uma planta, para mim é como um filho! A gente cria uma relação e quando desaparece é diícil, viu!
1 year ago
Melissa
Ôôô, logo a Primavera?! Tão linda essa planta.
É bem comum isso de roubarem plantas né Chico?
1 year ago
chico abelha
Vai saber quem foi... Sabe que podiam roubar minha bicicleta eu não ia achar tão ruim, mas uma planta com flores? Fiquei passado, mas passou...
1 year ago
Juro que não fui eu!Rsss..estou em Salvador,juro!!!
Sabe que fiquei imaginado vc com uma lente de aumento procurando pistas?kkkk
Benditos anjos heim!Será que nao foi um parente deles que "afanou", "pegou", meio que sem querer e eles foram verificar depois quem é o dono?
Mistério......
1 year ago