
Seu Hélio pertence a uma espécie em extinção, um tipo que a cidade está devorando a bocadas gulosas, sem dó nem piedade. Seu Hélio foi mais um que baixou do nordeste brasileiro carregando nas malas o sonho de encontrar a felicidade no sul maravilha. Seu meio de transporte é uma charrete reformada, na qual transporta a lavagem que recolhe pelas quitandas e restaurantes da cidade. A lavagem alimenta os porcos, as galinhas, os patos, os gansos e também a família do Seu Hélio. O que não está muito podre vai pra panela da dona Dilma, a esposa do seu Hélio e o resto a bicharada come. A panela da dona Dilma alimenta o casal, mais o filho, uma neta e um empregado.
Gostei do seu Hélio logo na primeira vez que o vi entre os carros, na avenida aqui do bairro, pilotando uma charrete carregadinha de sacos de ráfia, que minha curiosidade interesseira logo descobriu estarem cheios do mais puro esterco de gado. Foi empatia à primeira vista, eu talvez pudesse ter sido ele, tivesse Deus me colocado na barriga de alguma mãe nordestina. Fizemos amizade e dias depois eu fui à casa dele encomendar esterco pra minha horta. Antes de eu conhecer sua morada, ele representou pra mim uma espécie de “herói da resistência”, um dom Quixote brigando com o progresso, mas isso durou pouco…
Seu Hélio e a família moram num terreno de 1000 m2 lá, um canto que por muitos anos permaneceu esquecido, na várzea do Rio Parahyba. Têm uma casa pequena com fogão de lenha na varanda para o casal e um barracão de tábuas, coberto com o indefectível eternit, que faz as vezes de depósito e moradia para o resto do povo. O entorno parece uma cena de pós-tornado, dá a impressão de que tudo está fora do lugar. Cercas mal feitas, animais trançando soltos fora e dentro da casa, lixo por todo canto e a netinha descalça no meio de toda essa sujeira… uma desolação só! Morrera o herói…
Ele não é o tipo de pessoa de reclamar da vida, tanto que só fiquei sabendo do seu drama depois de perguntar onde é que ficavam as vacas que cagavam o rico esterco, de onde é que elas comiam pra produzir tanto estrume? Triste, ele respondeu que em breve as vacas iam ficar sem capim, pois a imobiliária estava passando as máquinas no que fora durante anos o pasto das suas bichinhas e agora ia virar mais um desses feudos de luxo. Queriam até que ele saísse do terreno, os caras da imobiliária ofereceram uma grana boa, segundo eles. Trinta mil reais pelos 1000 m2, ele estava pensando em vender.
Seu Hélio não tem muita noção do valor do dinheiro, um terreno 4 vezes menor, no meu condomínio, custa 7 vezes mais! Eu disse a ele que procurasse um advogado pra ver sobre os direitos dele, que aquele valor era muito baixo! Ao que ele respondeu.
__Não adianta, Chiquinho (ele me chama carinhosamente de Chiquinho, embora eu seja mais velho do que ele, só que ele não sabe…), não adianta, eu não tenho documento do terreno e nem não posso nem pedir o usocampião…
__Mas por que, seu Hélio, o senhor não mora aqui há mais de 5 anos?
__Eu moro aqui há mais de 10 anos, Chiquinho, mas meu terreno tá na beira do rio, eles já me disseram que o IBAMA não deixa sair documento de propriedade nessa situação…
Nesse momento eu soube que os dias desse homem estavam contados nesta cidade. De lá pra cá eu só fiz confirmar essa observação. Seu Hélio é muito atrapalhado, ou azarado, não sei ao certo. Prá achá-lo deveria ser fácil, já que ele tem um celular, mas vive perdendo o aparelho e quando a gente liga dá como número inexistente. Um dia caiu na lavagem, outro foi no pasto correndo atrás de novilha, outro foi roubado… Resultado é que eu sempre tenho que voltar à casa dele quando quero esterco ou ovo caipira. Ele vende leite e queijo, também, mas minha exigência em termos de assepsia jamais me deixaria consumir laticínios produzidos em tamanha imundície.
Pra turvar ainda mais o futuro do seu Hélio, semana passada ele me contou que a prefeitura proibiu o trânsito de charretes nas avenidas. Tá danado! O chevette 79 que ele tem no fundo do terreno não tem cara de querer substituir a charrete… tá mais pra desmanche, o coitado do carro que mais parece ter saído de um campo de guerra. Ontem ele me ligou, pedindo pra sustar um cheque com o qual eu paguei a última leva de esterco que ele me trouxe. Por sorte não havia sido descontado ainda, deu para sustar e ele marcou uma hora pra vir buscar a grana viva comigo. Chegou muito atrasado, eu quase ia saindo de casa e resolvi ligar pra saber se ele vinha ainda…
__Ah, Chiquinho, o gado escapou pelas ruas, eu tive que correr atrás e perdi meu celular, me desculpe se eu não avisei.
__Mas o senhor vem ainda hoje, seu Hélio?
__Vai dá não, Chiquinho, tá me faltando uma vaca de 2500 reais que eu ainda não achei, fica pra outro dia, pode ser?
Claro que eu não falei, mas pensei que o mais provável é que vaca tivesse ido parar no brejo… Apesar de tudo eu gosto muito do seu Hélio, vou sentir saudade dele quando olhar a selva de concreto ocupando o pasto das vaquinhas que hoje me fornecem esterco…
9 comments
Que inferno é este, nosso, me diga?
Os cátaros estavam certos, isto aqui é Rex Mundi mesmo.
Diga aí pro "Seu" Hélio que se o Chevete for Hatch eu compro.. hehehe
Diga-lhe tb que procure com essa grana, um lugarzinho mais propício.
Que tal Jambeiro? Ou Paraibuna.
Ele pode ter um terreno maior e pasto.. dever dar pra um alqueire, não?
e não fica tão longe de SJC