Há muitas lendas em torno das cobras, um animal sempre presente no imaginário popular. Como passei grande parte da minha infancia na roça, escutei todo tipo de histórias sobre cobras, desde as mais simples até as mais elaboradas. Por exemplo, quando eu ia tomar banho no açude, nem em sonho pensava em fazer xixi na água, pois isso poderia atrair uma cobra. Nos passeios pelos pastos, não podíamos nos esquecer de botar um dente de alho no bolso, isso era nossa garantia de que as cobras não iam chegar perto da gente. Mas a mais mirabolante de todas era a história da cobra que mama, contada em volta das fogueiras ou nas conversas que varavam a noite, ao pé do fogão de lenha. Essa lenda diz que existem cobras que mamam na mulher lactante e durante o ato, colocariam a ponta da cauda na boca do bebê para que este não chorasse. Eu, criança que era, ficava assustadíssimo ao imaginar uma cobra invadindo o quarto na calada da noite e se insinuando por debaixo dos cobertores… Muitas vezes tive pesadelos com cobras, por conta dessas histórias.
Eu acreditava em tudo aquilo, mas nunca pude comprovar e atribuia minha sorte de nunca ter cruzado com uma cobra ao alho enfiado no bolso ou ao xixi que nunca arrisquei fazer no açude. Até a idade adulta, nunca tive a oportunidade de encontrar uma cobra solta na natureza, todas as que eu vi foram no Butantã ou no Jardim Zoológico, a uma distância bem segura. Só bem mais tarde, com 24 anos, quando fui morar na floresta, é que me deparei com cobras em seu habitat natural. Encontrei cobras na varanda de casa, dentro do guarda roupas, no jardim brigando com um lagarto, estendidas no meio da trilha, passeando majestosas no madeiramento da casa, dentro de um dos pés das minhas botas de borracha e talvez em algum outro lugar que agora já não me lembro onde foi. Encontrar cobras era corriqueiro, já que elas e eu morávamos no mesmo espaço e nunca criei galinhas, ou patos, ou gansos, tidos como animais que espantam as cobras.
Estaria mentindo se dissesse que tenho medo das cobras, tenho é muito respeito por elas, já que com uma simples mordedura podem causar um grande estrago, até mesmo a morte. Esse mesmo respeito fez com que eu nunca tenha matado nenhuma cobra e se dei cabo de uma ou outra, foi sem querer ou saber, enquanto roçava um mato, sem me aperceber da presença delas. Esse respeito talvez tenha nascido da minha primeira experiência com uma delas, que poderia ter sido traumatizante, mas que me ensinou alguma coisa sobre o comportamento dos ofídios.
No tempo em que eu morava na roça, meu banheiro de residuos sólidos, para os que não sabem, era no meio da floresta, num buraco que eu fazia ao pé de uma árvore, que assim se beneficiaria do esterco. A cada vez que era usado, eu cobria com um pouco de terra, por causa do cheiro e das moscas. Habitualmente, ainda meio sonado, lá pelas 6h da manhã, lá ia eu para o buraco me aliviar. Minha constituição física me permite ficar totalmente relaxado quando estou de cócoras, de modo que eu me instalava nesta posição, mirava o buraco, fechava os olhos e entrava num transe meditativo, deixando que a matéria continuasse seu ciclo e me sentindo totalmente integrado com a natureza.
Um dia, na época da Quaresma, tinha sido uma noite muito abafada, eu acordei mais cedo, ainda estava meio escuro e cumpri o ritual de todas as manhãs. Já aliviado, abri os olhos e já ia tirando do bolso um tanto de papel higiênico, quando vi, bem na minha frente, a menos de um metro do meu nariz, uma cobra enrolada e com a cabeça levantada. Foi como se eu tivesse dado um “pause” num vídeo, tudo ficou congelado, menos o meu pensamento. Este acelerou e me bombardeou com todas as lembranças das histórias que eu ja tinha ouvido contar sobre cobras.
A primeira coisa que eu pensei foi o seguinte: as cobras são cegas e surdas, se eu não me mexer ela não vai me ver e não vai me atacar. Mas logo em seguida me lembrei que as cobras hipnotizam suas vítimas antes de atacarem e subitamente minha teoria não tinha mais validade… Procurei pelo rabo da bicha, para saber se afinava de uma vez, o que caracterizaria minha opositora como venenosa. Mas que nada, o rabo estava escondido debaixo dela, não dava para ver. Meus olhos não desgrudavam da cobra, eu comecei a achar que estava sendo hipnotizado, queria me mexer, mas tinha medo que isso assustasse a cobra… Preferi correr o risco de ser hipnotizado e fiquei na mesma posição.
Pensei que tivesse começado a chover, mas era simplesmente o meu suor que escorria pela testa. Por causa do suor, lembrei do cheiro de urina, que atrai as cobras quando estamos nadando e isso aumentou o meu terror. A situação só se complicava, o medo contaminando o pensamento e nenhuma solução se apresentava. Eu estava sozinho, não dava pra contar com ajuda no caso de um acidente e eu a mais de 5km do vizinho mais próximo. A cobra lá, imóvel e aparentemente tranquila; eu cá imóvel e completamente apavorado. Não dava para recuar, atrás de mim se erguia um barranco, não havia espaço. Eu tinha certeza de que a cobra iria me atacar e estava me torturando, como faz um gato que sadicamente brinca com sua presa acuada. O que fazer?
No meio daquele desespero, imagens da minha infancia começaram a surgir de repente; seria o efeito da hipnose da cobra ou aquele filme que dizem que acontece na nossa mente, instantes antes de morrermos? Eu já estava quase a ponto de rezar e me reconciliar com Deus, coisa que eu abominava naquela época, quando um barulho de latidos me trouxe de volta ao presente. Era o cachorro do vizinho, que de vez em nunca aparecia lá em casa, um filhotão, desses que gostam de fazer festa por qualquer motivo. Não deu tempo nem de pensar. Quando me dei conta, o cachorro, o Duque, já estava fazendo festa com a cobra. Surpreendentemente, a cobra não o atacou e começou a se afastar, parecia até que estava brincando com o cachorro, executando os passos de uma dança. Quando achei que estava a uma distância segura, levantei-me e me afastei o mais que pude, mas com os olhos fixos nos dois bichos.
O Duque, vendo que eu caí fora, veio em minha direção fazer festa. Abracei-o com alegria, ainda meio abobado pela tensão de ainda há pouco. Ele nem se deu conta do quanto eu estava feliz com a sua chegada. Atribuí sua coragem à ignorância do perigo, se ele soubesse o risco que correu, será que teria dançado aquele balé com a cobra? Ou será que ele sabia de alguma coisa que eu ignorava? O fato é que depois desse episódio ganhei confiança, sumiu meu medo das cobras e eu sempre soube o que fazer quando as encontrava, nunca mais fiquei paralisado. Cheguei até a pegar algumas pelo rabo e jogá-las de volta pro mato…
Meu recente trabalho como pesquisador de Folclore tem me colocado em contato com pessoas ímpares. É gente que faz o que faz porque gosta, porque precisa saciar uma fome da alma; gente em cujas vidas não existe distinção entre o sagrado e o profano.
Domingo passado meu grupo de trabalho foi visitar uma dessas pessoas, dona Mariana, uma pérola escondida na zona rural de Caçapava, SP. Nosso interesse por ela surgiu da necessidade de registrar uma manifestação de fé que vem desaparecendo nos últimos tempos, a “Recomenda de Almas”, também conhecida como “Encomenda de Almas” ou “Recomendação de Almas”, dependendo de onde ela tem lugar. Em resumo, a recomenda de almas consiste em um grupo de pessoas, vestidos de branco, que saem durante a Quaresma, carregando uma vela, um crucifixo, altas horas da noite, cantando e rezando pelas almas que padecem no inferno, purgatório ou vagam pelo espaço. Que fique bem claro, este ritual de "Recomenda de Almas" é praticado por católicos.
Curiosa nata, dona Mariana é uma espécie de “antropóloga informal”, o que, a meu ver, a torna ainda mais interessante. Coincidência ou não, lá pelos 9 anos de idade, o primeiro programa que viu na televisão, recém-chegada à sua casa, foi uma emissão sobre índios da Amazônia. Desde então, acalentou o sonho de ir conhece-los em seu habitat natural. Aos 21 anos conseguiu realizar o sonho, ela era auxiliar de enfermagem e pegou carona com um médico da Escola Paulista de Medicina, que fazia um trabalho entre os indios no Pará.
Mariana conseguiu autorizações e permissões da Funai e depois de fazer alguns cursos de especialização, começou um trabalho na área de medicina preventiva. Aprendeu o dialeto local e passou a viver entre os indios. Nesta época, conheceu um indio que morava na cidade e os dois se apaixonaram, casaram-se e quis o destino que viessem morar em Caçapava, onde estão há 30 e tantos anos.
Viveram um tempo na cidade e pouco tempo depois mudaram-se para zona rural, neste endereço onde os encontramos, o Bairro da Tataúba (que quer dizer “madeira boa de pegar fogo, na lingua tupi”). Nesta localidade, Mariana descobriu com os antigos, o povo de mais idade, que havia algumas tradições que estavam morrendo, dentre elas a Recomendação das Almas. Mais que depressa, ela anotou todas as rezas deste rito, antes que essas pessoas morressem, pois a tradição era apenas oral e iria desaparecer com a morte dos poucos que a conheciam.
Mariana a não pode deixar de notar a semelhança que havia entre este ritual de encomenda de almas e o que ela tinha vivenciado durante o tempo que viveu nas diversas tribos indígenas no norte do país. O respeito aos mortos e as rezas para as almas eram muito semelhantes. Os indios tem grande respeito pelas almas, chegando mesmo a enterrar os corpos na soleira de suas casas, umm mode de assegurar que as almas fiquem por perto dos vivos. Nos dois casos, passam um ano realizando rezas para que as almas se encaminhem ao céu.
Isso tudo incentivou Mariana a reabilitar a tradição na comunidade de Tataúba, o que vem fazendo há mais de 8 anos. Foram as informações sobre este ritual que fomos buscar com Mariana, domingo passado. Como precisávamos do audio das rezas, pedimos a ela que entoasse as mesmas. Mariana vestiu-se a caráter, colocou um véu branco sobre sua cabeça, acendeu um vela diante de um pequeno altar que mantém em sua sala, compenetrou-se e deu início às ladainhas, lendo as rezas de um caderninho em que havia compilado tudo à mão. Não parecia uma encenação, pelo menos não para mim.
Terminado nosso trabalho, já estávamos indo embora, eu fiquei a sós com dona Mariana por um instante, ela me pegou pelo braço e perguntou baixinho:
__Francisco, você tem alguma parente próxima que morreu recentemente?
Que eu soubesse, não, não tinha ninguém. Ela continuou:
__Pois bem, havia a alma de mulher aqui, agora, enquanto eu rezava, e a figura dela me lembrou você, por isso perguntei. Se você se lembrar quem é, saiba que ela foi bem recomendada.
Eu agradeci, entrei no carro e partimos de volta para São José dos Campos. Não demorou muito, ainda no caminho de casa, recebi uma ligação telefônica me dizendo que minha irmã, que lutava contra um cancer já há mais de ano, tinha acabado de falecer. Eu a vi claramente indo ao encontro da Luz.
Depois de 5 anos vivendo juntos, minha esposa está, finalmente, se transformando na pessoa ideal que eu vislumbrei quando me casei. Está deixando de ser apenas mãe para ser, também, esposa. Isto porque, para minha alegria, os rebentos estão botando as manguinhas de fora e exigindo ter vida própria. Não sem dor no coração, ela percebeu que deve ceder aos anseios dos filhos e abrir mão de suas expectativas e tentativas de controle…
Foi aproveitando essa brecha, ainda um tanto quanto estreita, mas muito clara para mim, que eu propus uma viagem relâmpago, uma reedição da nossa lua-de-mel. Para minha surpresa, ela aceitou sem titubear, um convite para um fim de semana na estância climática de Cunha SP, numa pousada que me seduziu pelo nome, muito sugestivo, de Pousada da Mata. Fiz a reserva de um chalé de luxo, coisa que jamais havia feito antes na vida, para a eventualidade dela mudar de idéia; assim eu teria um trunfo na manga para contra argumentar! Não foi preciso, ela se comportou muito bem e programou para que nada fosse um impedimento do sucesso de nossa viagem.
Sexta-feira, no meio da tarde, nós partimos para a viagem de duas horas de São José dos Campos até Cunha, encravada num “mar de morros“ entre as Serras, do Mar, da Bocaina e do Quebra-Cangalha. Durante o trajeto fomos conversando e descobri que minha esposa teve uma forte ligação com a cidade de Cunha, onde, por diversas vezes, passou as férias quando criança. A região de Cunha era o destino preferido do meu sogro e sua família.
Chegamos quase ao anoitecer e eu quis dar uma volta para me familiarizar com a cidade antes de nos dirigirmos à pousada, que se localiza na zona rural, distante uns 8 km do centro de Cunha. Um belo portal enfeita a entrada da cidade e dá as boas vindas aos viajantes que chegam do Vale do Paraíba.
Mas alguns metros depois da entrada, a coisa muda e a impressão é de que o portal é apenas fachada. Nem sinal das construções históricas anunciadas nos sites que propagandeiam a cidade, apenas casas comuns e um paisagismo urbano muito pobre e descuidado. Desanimados e temendo a chegada da noite, resolvemos fazer meia volta e tomar o rumo da pousada, para chegarmos lá ainda com luz.
Tomamos um caminho diferente para deixar a cidade e foi possível ver algo que me brochou de vez: uma casa recém construída, praticamente dentro do um riacho que corta cidade. A visão deste descaso ambiental me fez considerar: será que eu havia feito um boa escolha para o nosso idílico fim de semana? Pensamentos negativos rondaram minha cabeça nessa hora… Minha esposa não disse nada, ela tem meditado muito ultimamente e agora ela se observa bastante antes de fazer um comentário negativo. Mas a expressão do rosto não negava, ela estava decepcionada com o que via.
A chegada na pousada melhorou um pouco nosso humor. O local é bem cuidado, cheio de árvores, nosso chalé tinha uma vista maravilhosa e a recepção de dona Joana nos fez sentir em casa.
Na hora de preencher a ficha de hóspedes, a pergunta tradicional: “Como foi que você descobriu a pousada?”. Eu não me lembrava e tive que refrescar a memória. Lembrei do marceneiro que fez os móveis em casa, ele é de Cunha e fez muita propaganda da qualidade de vida da cidade. Me contou que toda carne, queijo, frango e ovos ele traz de lá e congela, não come nada de açougue ou supermercado. Talvez eu tenha sido influenciado pelo que ele disse e acabei procurando uma pousada em Cunha. Ou ainda, pode ser que minha esposa já tivesse me contado de suas férias na região, não sei, não me lembro. Mas eu fiquei com uma pulga atrás da orelha. Por que eu tinha escolhido Cunha, dentre tantas cidades históricas do Vale do Paraíba? Escrevi na ficha que tinha escolhido por intuição, grafei apenas essas duas palavras. Dona Joana me olhou meio torto mas não disse nada…
Mais tarde, sob encomenda, já que não queríamos arriscar a comida da cidade, dona Joana nos preparou uma sopa de legumes que foi um conforto, foi como receber um abraço por dentro. Cansados da viagem, fomos dormir muito cedo.
Dia seguinte, um frio de lascar, pulamos logo cedo da cama e fizemos uma caminhada de uns 5km pelas redondezas, antes do delicioso café da manhã, preparado por dona Joana e sua filha Ana. Destaque para os bolos de milho e o de batata doce. O fogão de lenha aceso é um must, esquenta o ambiente e dá vida ao local.
De estomago forrado, saímos para o desconhecido. Já havíamos desistido de nossa intenção inicial, que era fazer alguma trilha no Parque da Serra do Mar, pois o tempo estava fechado e garoento. Meio contrariado e para satisfazer a esposa, fomos para cidade, fazer um turismo de lojas. Foi um boa pedida, ao contrário do que eu supus.
O centro da cidade tem ainda alguns casarões antigos, mas segundo seu Isael e dona Josie, eles estão caindo por descuido de seus proprietários. Seu Isael e dona Josie tem uma loja de artesanato num desses casarões, datado do sec XVIII, com piso hidráulico, forro de taquara, paredes de pedra e algum mobiliário, todos originais. Quando foram alugar, o proprietário disse a eles que podiam trocar tudo e colocar material modernos no lugar! Seu Isael ficou indignado, recusou-se a destruir o patrimônio histórico da cidade e por sua conta restaurou tudo. Mas segundo ele, a maioria do povo da cidade quer mesmo é prédio de apartamentos e não está nem aí para a tradição. Recentemente houve briga na câmara municipal, por causa de um projeto de lei que iria autorizar a construção do primeiro prédio de apartamentos em Cunha. Quem conseguiu segurar foi o “pessoal de fora”, pois os nativos querem mesmo é progresso.
Segundo seu Isael, a população da cidade está diminuindo. Já chegou a 30.000 e hoje está em 25.000. São os jovens debandando em busca de faculdade e empregos que remunerem melhor. Pudemos confirmar esta informação, 100% dos jovens perguntados vai deixar a cidade e não pretende voltar… A alegação comum a todos eles é: “Aqui em Cunha não tem nada, é muito parado”. Se eu fosse jovem, não sei se faria diferente. Cabe aos mais velhos tornar a cidade mais atraente, para não perder a força da sua juventude.
Fachada do armazém do Seu Isael
Uma agradável surpresa foi a descoberta de que Cunha abriga grande quantidade de artesãos do barro, na esteira do casal japonês, Toshiyuki e Mieko Ukeseki e do ceramista português, Alberto Cidraes, que se instalaram na cidade por volta de 1975. Os ceramistas utilizam a técnica Noborigama, arte milenar japonesa de fornos em série, que transforma o barro em pedra ao atingir a temperatura de 1.350ºC.
Os resultados são obras de arte lindíssimas e só não trouxemos alguns para casa pois são peças realmente muito caras. Algumas queimas chegam a durar de 15 a 21 dias, com a temperatura dos fornos rigorosamente controlada para que o trabalho não se perca, com o rachamento das delicadas peças de barro.
Hora do almoço, barriga roncando, eu não tive dúvida, sugeri o Mercado Municipal, que é onde o povo costuma comer. Eu tenho horror desses restaurantes para turistas, onde se come mal e se paga uma fortuna. Minha esposa ofereceu uma pequena resistência, mas cedeu aos meus pedidos, afinal, eu havia passado a manhã toda fazendo a vontade dela, batendo perna pelas mais de 10 lojas que vendem cerâmicas e artesanato na cidade. Não nos arrependemos, o simpático restaurante da dona Rosa nos serviu farta comida caseira, por apenas R$ 10,00 e ainda sobrou muita comida! Imagine, salada mixta, arroz, feijão, tutú, nhoque, ovo frito e bife para duas pessoas por esse preço! Isso não existe no primeiro mundo onde eu vivo!
Depois do almoço, a pedida foi uma caminhada pela cidade, para fazermos a digestão. Lógico que minha esposa parava em cada lojinha e numa dessas paradas, eu resolvi deixa-la entretida com suas compras e por acaso acabei descobrindo o Espaço Cultural Lavapés, onde estava acontecendo a exposição Tea Party com peças de cerâmica do mundo todo. Mas o melhor de tudo foi o guia e idealizador da exposição, Rogério David, um brasileiro que fugiu do país na época do Plano Collor, viveu 19 anos na Inglaterra e hoje está em processo de mudança para Cunha. Rogério nos deu uma senhora aula ao nos explicar sobre os processos de fabricação de cada uma das 100 peças expostas, parte de sua coleção de mais de 1000 peças, que trouxe na bagagem de volta ao Brasil.
Nessas alturas eu já começava a me reconciliar com a cidade de Cunha, meu corpo e espírito haviam sido bem alimentados. Mas não ia durar muito o namoro… Logo mais, à noite, resolvemos comer uma pizza, numa pizzaria numa região até que bem cuidada da cidade. Eram mais de 8h e ao nos sentarmos, fomos informados que o forno ainda não estava quente, e que só começariam a assar pizzas dentro de uma meia hora. Tudo bem, enquanto esparávamos íamos degustar uma malzbier. O garçon, muito prosa, nos informa que apesar de constar no cardápio, estão com falta do produto. E nos sugere a substituição mais estapafúrdia que eu já ouvi de um garçon.
__Vocês não querem trocar a malzbier por um licorzinho de canela com gengibre, por conta da casa?
__Meu filho, você tomaria um sorvete de manga sendo que sua fome é de uma sopa de aspargos?
Ele pareceu não entender minha colocação e ainda insistiu:
__Ah, mas é de graça, por conta da casa, o senhor vai recusar?!?
__Deixa o licor pra lá, me traz alguma cerveja de boa marca que você tenha aí na sua geladeira. Tem Stella Artois? Tem? Então, traz uma garrafa pra gente.
Na hora de escolher a pizza, outro sufoco. Nosso gosto era comer uma pizza de escarola, rúcula ou brócolis e fizemos o pedido.
__Ah, hoje não temos nada verde, sinto muito! O que temos mais próximo de uma pizza natural seria uma pizza de palmito.
Dessa vez eu não fui irônico, a fome já apertava, pedimos uma margherita, que de manjericão mesmo tinha umas folhinhas secas e quase sem gosto. Depois de pedida, a pizza não demorou, mas ao servir, ele colocou o primeiro pedaço no meu prato. Querendo brincar com ele, perguntei se ele costumava servir primeiro os homens…
__Ah, o senhor me desculpe, é que eu sou soldador, estou fazendo um bico aqui na pizzaria, sabe como é…
Fiquei com pena do rapaz, disse que não tinha importância, mas ao colocar a primeira garfada na boca, não acreditei, a pizza estava fria! Claro que a gente mandou voltar e isso por duas vezes, antes de eles acertarem a temperatura ideal. Uma tragédia!
Não sei se foi por nervosismo, mas o garçon aparecia a cada dois minutos e perguntava:
__Tudo bem por aí?
Ultimamente estou praticando uma política de diplomacia e por isso não respondi nada a cada vez que ele perguntou, me limitei a esboçar sorrisos amarelos… Na hora de ir embora, depois de paga a conta, ele teve a ingenuidade de nos perguntar se gostamos da pizza. Eu respondi com a primeira coisa que me veio à cabeça:
__Olha, a gente se divertiu muito e, certamente, eu terei uma boa história para contar sobre sua pizzaria…
Cansados de tanto andar pela cidade, novamente fomos dormir cedo. Dia seguinte, decidimos pegar estrada logo depois do café da manhã, para não pegar transito na Via Dutra, que costuma encher nos domingos à tarde. Quando passávamos por Cunha, me veio a idéia de comprar uma lembrancinha para minha mãe. Nessas horas eu prefiro comprar algo de comer, pois minha mãe já tem uma casa com armários atulhados de objetos que ela nunca usa e eu não quero contribuir com o excesso que ela já acumula. Assim, fomos ao Mercado Municipal, comprar um queijo parmesão novo, que eu havia visto no dia anterior. A mulher já estava embrulhando o queijo, quando alguém dos fundos da loja disse em alto e bom som:
__Veja se ele não quer levar uma goibada também, Maria Helena, acabou de chegar da roça!
O que a mulher disse sobre a goiabada me avivou a memória de um fato que tinha ficado debaixo do tapete durante muito tempo e que eu não tinha atinado em nenhum momento durante aquela curta estada em Cunha. Minha mãe, durante minha gravidez, comeu 10 kg de goiabada, mandada vir especialmente da cidade de Cunha. Goiabada é meu doce predileto, eu troco qualquer um por uma goiabada. Ah! E o nome da minha mãe é Maria Helena. Mandei embrulhar também um bom pedaço de goiabada cascão, pra levar de presente junto com o queijo parmesão novo. Saí da cidade com a sensação de “missão cumprida”…
Até nos domingos já não está fácil encontrar lugar pra estacionar no centro de São José dos Campos. Finalmente, depois de rodar uns 15 minutos, minha amiga e eu encontramos uma vaga não muito distante do nosso destino. Nossa missão era entrevistar um carnavalesco tradicional da cidade, que morava por ali. Carro parado, nós dois já na calçada, a amiga comenta que a rua onde estamos é muito agradável, não tem prédios de apartamentos, ainda é cheia de casinhas antigas com grades baixas e jardins bem cuidados. Caminhamos os metros que nos separavam do endereço do nosso entrevistado e paramos em frente ao numero 157 daquela rua.
Gelei. Eu já estivera naquela casa há uns 5 anos e não guardava boas lembranças da experiência. Tinha sido arrastado por uma amiga, a Sandra, que me dissera haver encontrado uma cigana espetacular, que iria me dar a solução para um problema que eu vivia na época. Sandra é uma intelectual, com diploma da Sorbonne, eu sempre botei a maior fé nela e em tudo que ela faz, mas dessa vez o tiro passou longe do alvo. Ela já havia feito uma consulta com a vidente, ficou muito bem impressionada e resolveu me presentear com a indicação.
Me lembro muito bem de nós dois adentrando aquela casa, que de fora parecia absolutamente normal. Logo na sala já senti uma estranheza, aquela não era uma casa normal. Demos de cara com dois indivíduos mal encarados, sentados num sofá, que era a unica peça da sala. Minha imaginação já os rotulou como guardas costas da cigana. Um dos homens nos indicou com um gesto, que passássemos ao comodo contíguo, uma cozinha onde havia grande movimentação de mulheres de todas as idades, a hora era próxima do almoço. Da cozinha nos indicaram um corredor, ao fim do qual havia uma porta fechada, era lá que nos esperava a tal cigana que iria resolver meu problema.
Batemos à porta, ela gritou que entrássemos. Era um quarto pequeno, medindo uns 3 por 2m, chão de taco e paredes nuas, a não ser por uma imagem num pedestal na parede, de uma santa que não pude reconhecer quem era. Sentada numa mesa de escritório, de costas para a única janela do comodo, as mãos sobre seu instrumento de trabalho, vestida a caráter para a ocasião, encontrava-se Dona Cida.
A primeira coisa que eu reparo numa pessoa que acabo de conhecer, são olhos e os olhos de dona Cida me revelaram que ela era uma pessoa muito observadora. Aqueles olhinhos oblíquos e ligeiros, me mediram de alto a baixo e de fora pra dentro. Ela que é profissional, deve ter reparado que fiz a mesma coisa com sua pessoa, com a diferença eu eu não pude olhar a parte de baixo dela, já que estava sentada. Mas o importante para mim eram os olhos, o espelho da alma. Com a cabeça, indicou que sentássemos e parecia já saber que eu era a pessoa que tinha ido fazer a consulta, pois foi a mim que ela deu o baralho para cortar. Por um momento achei que ela era mesmo boa e que poderia me apontar alguma saída do labirinto em que me encontrava. Mas esta impressão não durou muito.
Mal ela abriu a boca, caíram por terra minhas esperanças. A mulher tirava uma carta de cada vez e desandava a interpretar, sempre com os olhos colados em mim e nas minhas reações. Quando eu me fechava, ela discretamente murchava e mudava a linha de raciocínio ou tirava outra carta. Era tão nitido o mecanismo que eu me incomodei. Será que ela não se dava conta que eu estava percebendo a manipulação?
A Sandra estava caladinha, eu nem olhava para ela, mas minha raiva já estava começando a subir pelo estômago, por ela haver me colocado nesta sinuca de bico.
Quando ela falou de uma viagem longa, meus olhos brilharam, eu adoro viajar e aí ela soltou a corda. Mas quando ela falou de alguém que tinha muito ciúme de mim, que esse alguém estava travando minha vida e que ela podia fazer um trabalho infalível para acabar com a pessoa, eu não tive nenhuma duvida que aquilo era marmelada e das boas! Nesta hora, sentindo-me superior, resolvi dar corda, coloquei a cara mais ingênua do meu repertório e perguntei:
__Puxa vida, e como é este trabalho, dona Cida?
Liberada pelo meu aparente interesse, ela extrapolou. Me falou das ervas que eu tinha que comprar e preparar em vários banhos de banheira, me disse quantas ave-marias que eu tinha que rezar e o melhor de tudo, que isso ia custar a bagatela de um salário mínimo. Quando ela falou o valor, levei um choque, não esperava que fosse tão alto assim. Claro que ela percebeu minha reação, pois logo em seguida falou que poderia reduzir o preço ou parcelar, se fosse preciso. Achei aquilo o cúmulo e disse que ia pensar, que voltaria outro dia se resolvesse fazer o trabalho. Ela não gostou e desandou a falar que eu estava numa situação muito perigosa e que se eu não fizesse, minha vida corria perigo.
Aquilo foi o bastante para eu decidir que era hora de cair fora. Dona Cida olhou para Sandra, como se pedindo uma aliada para não perder o freguês, mas Sandra me conhecia, sabia que eu não ia voltar atrás. A cigana foi mais rápida que eu e chegou antes à porta e quando forcei a passagem, ela pegou em minhas mãos e olhou bem dentro dos meus olhos e tentou a ultima cartada.
__Meu filho, você não sabe o que está fazendo, a gente só tem uma vida, não se pode brincar com ela.
Senti asco daquelas mãos mas disfarcei o quanto pude. Preferi acatar o que ela me dizia, sem demonstrar minha raiva e indignação, pois achei que isso não seria o mais inteligente naquela situação. No entanto, minha lingua não se conteve e com um sorriso doce eu disse:
__A senhora tem razão, vida a gente só tem uma e é bom estar sempre atento para não cairmos em armadilhas.
Não sei o o que ela entendeu, mas de má vontade me deu passagem, isso depois que eu coloquei em suas mãos o valor acordado pela consulta. Contudo eu ainda não estava a salvo, tinha ainda que passar pelos sujeitos na sala. Não sei se foi minha imaginação, mas a cara deles, que já não era de muitos amigos, estava pior ainda e para meu desespero, a porta da rua estava trancada. Senti a pressão no ambiente. Um deles gritou para dona Cida, se estava tudo bem, se ele podia deixar a gente sair. Deduzi que havia um código entre eles, algum sinal que não havia sido dado. De longe, escutamos a voz de dona Cida.
__Pode abrir, Sansão, eles vão mas eles voltam…
Saímos dali o mais depressa possível e senti um grande alívio quando ganhei a rua. Não sei se foi paranóia, mas tive a nítida sensação de que havíamos escapado por um triz de uma situação muito perigosa.
Passados cinco anos, já me esquecera do episódio e lá estava eu, diante do numero 157, prestes a tocar a campainha daquela fatídica casa, prestes a realizar a profecia de dona Cida, de que eu iria voltar… Nervoso, pensei, será que o endereço estava certo? Conferi com minha amiga, não havia duvida, era o 157 mesmo. Eu já não tinha mais a barba e os cabelos compridos daquela época, isso me deu um certo alívio, mas não evitou que um suor frio ensopasse minha roupa. Minha amiga tocou a campainha e não demorou, uma senhora muito simpática abriu a porta. Nos apresentamos e ela respondeu:
__Ah, podem entrar, o Sebastião me disse que vocês viriam, podem entrar!
Na soleira da porta, perguntei à senhora, há quanto tempo eles moravam naquela casa.
__Nos mudamos para cá faz um ano, a muito custo conseguimos tirar um bando de ciganos que atrasavam os aluguéis e quase me botaram a casa abaixo. Uns salafrários se o senhor quer saber, salafrários de marca maior!
Em pensamento, concordei com a senhora, mas ao transpor a soleira daquela porta, fui obrigado a concordar com dona Cida também…
















