Dentro e Fora - por Chico Abelha
Friday, 29 June 2012
posted by chico abelha

                      

 

Eu não sei bem como foi que aconteceu, mas o fato é que a bicicleta já não é mais o meu meio de transporte preferido. A velocidade se impôs ao bom senso. Em outras palavras, eu escolhi fazer mais coisas em menos tempo, o que, de bicicleta, seria humanamente impossível.


Eu poderia culpar os automóveis e o risco de ser atropelado pelo fato de ter abandonado a bicicleta. Ou então a prefeitura, que privilegia o automóvel e não constrói ciclovias e ainda por cima espalhou placas proibindo bicicletas em alguns dos principais corredores de tráfego. Mas não, fui eu mesmo quem escolheu mudar a velocidade do tempo e agora fico correndo atrás das horas, que me parecem cada vez mais curtas…


Ultimamente, a bicicleta, que já foi minha companheira inseparável nos deslocamentos urbanos, só tem me servido para um passeio eventual, quando consigo cair fora da camisa de força das metas e objetivos e deixo que o presente se imponha. Para estas escapadas, aproveito as horas mais calmas, quando todos estão dormindo ou assistindo uma final de campeonato, como na quarta-feira passada, durante o jogo do Corinthians e Boca Juniors. Sem carros trafegando, foi possível relaxar e me deixar levar pelo movimento repetido das pedaladas, como se elas fossem um mantra silencioso. Me percebi voltando no tempo, quando a cidade não era tão barulhenta e violenta e eu era o dono inquestionável do meu tempo. Porque, hoje, quem é que pode dizer que é dono do seu tempo?


A cortar o silêncio, de vez em quando algum rojão estourava – seria gol dos brasileiros ou dos argentinos? E eu lá me interesso por isso? Os fogos me lembram mais as festas juninas do que futebol ou qualquer outra coisa. E foi para uma dessas festas que minha nostalgia me transportou, trinta anos atrás, quando eu ainda namorava com aquela que seria minha primeira esposa.


Minha namorada era oriental, tinha o biotipo oriental mas eu a considerava muito mais brasileira que eu. Seu nome e compleição sugeriam uma origem chinesa, mas na verdade, em suas veias corria o sangue do povo do Império do Sol Nascente.


Liang era falante e extrovertida e suas roupas sempre tinham alguma coisa estrategicamente colocada, com o intuito evidente de pescar a atenção de olhos distraídos. O que me fascinava nela era uma mistura de docilidade e rebeldia, combinadas em doses que a tornavam irresistível, pelo menos para mim.


Pois bem, fazia muito frio naquela noite de junho, a festa de São João no CTA (área militar em que eu morava com minha familia) já ia terminando, a fogueira só nas brasas e nós tínhamos que acordar cedo no outro dia. Eu para trabalhar e ela para o cursinho pré-vestibular. Era começo de namoro e a gente estava com muita energia sobrando para simplesmente voltar para casa e dormir. Uma troca de olhares foi o suficiente para combinarmos que naquela noite iríamos, como em tantas outras, dormir no Hotel Castilho, uma espelunca localizada no centro da cidade, que nem banheiro nos quartos tinha…


Naquele tempo, eu não tinha carro ainda, nosso meio de transporte era a bicicleta e para ela nos dirigimos, a fim de pedalar os 5 km até o centro da cidade. Ao chegar na bicicleta, uma Caloi Barra Forte aro 24 vermelha, percebi que havia um grande volume amarrado no bagageiro. Olhei para Liang, ela me devolveu um sorriso maroto e eu entendi que aquele era seu presente de aniversário para mim. Desembrulhei o pacote de papel kraft e descobri um edredon com grandes quadrados vermelhos e amarelos, confeccionado por suas habilidosas mãos. Iríamos estreá-lo naquela noite mesmo!


Montamos na bicicleta, eu pedalando e ela na garupa, segurando com uma mão a minha cintura e com a outra o edredon, que tinha quase o mesmo tamanho que ela. Lá fomos nós, alegres de despreocupados, conversando pela madrugada fria e vazia de São José dos Campos do começo dos anos 1980. Não pensávamos, nem no que iam pensar daquela exótica dupla, nem em um possível assalto, isso era coisa de noticiário, não poderia acontecer nunca com a gente. Apenas nos deixávamos guiar pelos impulsos do corpo e do coração.


Ao chegarmos à Praça Afonso Pena, acorrentei a bicicleta em um poste em frente ao hotel, como sempre fiz todas as outras vezes. Pagamos adiantado, como era praxe neste tipo de estabelecimento e fomos logo para o quarto, pois não tínhamos muito tempo para curtirmos nossa liberdade antes do sol apontar no horizonte. Dormir, mesmo, era a última coisa que fazíamos, talvez durante uma ou duas horas. Naquela idade, dormir não era importante, o que contava era viver intensamente, de acordo com o que os instintos e a fantasia pedissem, ou melhor, exigissem!


Lá pelas 6h da manhã, a nosso pedido, o dono do hotel bateu na porta para nos acordar. Nos lavamos rapidamente na pia do quarto, com ajuda de uma toalha e fomos depois para a cozinha, tomar um café da manhã bem do ordinário; café com leite ralo, pão francês borrachento e margarina Saúde. Ruim que fosse, a gente comia com apetite, a fome aumentada pelas horas sem dormir.


A gente estava com pressa, eu ainda tinha que levar Liang para casa dela, mas ainda deu tempo de ler com o canto dos olhos a manchete do jornal O Vale Paraibano, nas mãos de um senhor sentado no saguão do hotel. Ela dizia: “Polícia às voltas com quadrilha de ladrões de bicicleta”. Claro que eu gelei e pensei no pior, mas relaxei quando saímos do hotel e vi que minha bike ainda estava amarrada ao poste. Mas à medida que nos aproximávamos dela, uma sensação de irrealidade foi me tomando. O guidon estava lá amarrado mas eu não conseguia ver o resto da bike! Cheguei a dar duas voltas no poste, em busca da parte faltante do meu veículo! Foi um choque! Era a primeira vez que a vida me levava algo de valor. Cheguei a abrir o cadeado e ia pegar o guidon que fora serrado do corpo da bike, mas me dei conta que seria inútil, um peso morto que eu ia carregar.


Voltamos de ônibus, cada um para sua casa. Eu me sentia como um general derrotado, sentado no ponto de ônibus, segurando aquele edredon colorido. Não conseguia ter raiva de quem me roubou, o sentimento era de frustração ao me deparar com a inexorabilidade da perda. Este episódio marcou o começo do fim da minha inocencia.


Depois desse revés, passei bem uns 20 anos sem bicicleta, acabei me mudando pra roça e quem me levava pra cima e pra baixo era um fusquinha velho. Foi só quando voltei para a cidade que arrumei uma outra bike e nunca mais tive coragem de amarra-la em um poste na rua, deixo sempre em estacionamento de carros ou dentro de alguma casa.

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Wednesday, 2 May 2012
posted by chico abelha

                       


Há muitas lendas em torno das cobras, um animal sempre presente no imaginário popular. Como passei grande parte da minha infancia na roça, escutei todo tipo de histórias sobre cobras, desde as mais simples até as mais elaboradas. Por exemplo, quando eu ia tomar banho no açude, nem em sonho pensava em fazer xixi na água, pois isso poderia atrair uma cobra. Nos passeios pelos pastos, não podíamos nos esquecer de botar um dente de alho no bolso, isso era nossa garantia de que as cobras não iam chegar perto da gente. Mas a mais mirabolante de todas era a história da cobra que mama, contada em volta das fogueiras ou nas conversas que varavam a noite, ao pé do fogão de lenha. Essa lenda diz que existem cobras que mamam na mulher lactante e durante o ato, colocariam a ponta da cauda na boca do bebê para que este não chorasse. Eu, criança que era, ficava assustadíssimo ao imaginar uma cobra invadindo o quarto na calada da noite e se insinuando por debaixo dos cobertores… Muitas vezes tive pesadelos com cobras, por conta dessas histórias.
 

Eu acreditava em tudo aquilo, mas nunca pude comprovar e atribuia minha sorte de nunca ter cruzado com uma cobra ao alho enfiado no bolso ou ao  xixi que nunca arrisquei fazer no açude. Até a idade adulta, nunca tive a oportunidade de encontrar uma cobra solta na natureza, todas as que eu vi foram no Butantã ou no Jardim Zoológico, a uma distância bem segura. Só bem mais tarde, com 24 anos, quando fui morar na floresta, é que me deparei com cobras em seu habitat natural. Encontrei cobras na varanda de casa, dentro do guarda roupas, no jardim brigando com um lagarto, estendidas no meio da trilha, passeando majestosas no madeiramento da casa, dentro de um dos pés das minhas botas de borracha e talvez em algum outro lugar que agora já não me lembro onde foi. Encontrar cobras era corriqueiro, já que elas e eu morávamos no mesmo espaço e nunca criei galinhas, ou patos, ou gansos, tidos como animais que espantam as cobras.


Estaria mentindo se dissesse que tenho medo das cobras, tenho é muito respeito por elas, já que com uma simples mordedura podem causar um grande estrago, até mesmo a morte. Esse mesmo respeito fez com que eu nunca tenha matado nenhuma cobra e se dei cabo de uma ou outra, foi sem querer ou saber, enquanto roçava um mato, sem me aperceber da presença delas. Esse respeito talvez tenha nascido da minha primeira experiência com uma delas, que poderia ter sido traumatizante, mas que me ensinou alguma coisa sobre o comportamento dos ofídios.
 

No tempo em que eu morava na roça, meu banheiro de residuos sólidos, para os que não sabem, era no meio da floresta, num buraco que eu fazia ao pé de uma árvore, que assim se beneficiaria do esterco. A cada vez que era usado, eu cobria com um pouco de terra, por causa do cheiro e das moscas. Habitualmente, ainda meio sonado, lá pelas 6h da manhã, lá ia eu para o buraco me aliviar. Minha constituição física me permite ficar totalmente relaxado quando estou de cócoras, de modo que eu me instalava nesta posição, mirava o buraco, fechava os olhos e entrava num transe meditativo, deixando que a matéria continuasse seu ciclo e me sentindo totalmente integrado com a natureza.
 

Um dia, na época da Quaresma, tinha sido uma noite muito abafada, eu acordei mais cedo, ainda estava meio escuro e cumpri o ritual de todas as manhãs. Já aliviado, abri os olhos e já ia tirando do bolso um tanto de papel higiênico, quando vi, bem na minha frente, a menos de um metro do meu nariz, uma cobra enrolada e com a cabeça levantada. Foi como se eu tivesse dado um “pause” num vídeo, tudo ficou congelado, menos o meu pensamento. Este acelerou e me bombardeou com todas as lembranças das histórias que eu ja tinha ouvido contar sobre cobras.
 

A primeira coisa que eu pensei foi o seguinte: as cobras são cegas e surdas, se eu não me mexer ela não vai me ver e não vai me atacar. Mas logo em seguida me lembrei que as cobras hipnotizam suas vítimas antes de atacarem e subitamente minha teoria não tinha mais validade… Procurei pelo rabo da bicha, para saber se afinava de uma vez, o que caracterizaria minha opositora como venenosa. Mas que nada, o rabo estava escondido debaixo dela, não dava para ver. Meus olhos não desgrudavam da cobra, eu comecei a achar que estava sendo hipnotizado, queria me mexer, mas tinha medo que isso assustasse a cobra… Preferi correr o risco de ser hipnotizado e fiquei na mesma posição.
 

Pensei que tivesse começado a chover, mas era simplesmente o meu suor que escorria pela testa. Por causa do suor, lembrei do cheiro de urina, que atrai as cobras quando estamos nadando e isso aumentou o meu terror. A situação só se complicava, o medo contaminando o pensamento e nenhuma solução se apresentava. Eu estava sozinho, não dava pra contar com ajuda no caso de um acidente e eu a mais de 5km do vizinho mais próximo. A cobra lá, imóvel e aparentemente tranquila; eu cá imóvel e completamente apavorado. Não dava para recuar, atrás de mim se erguia um barranco, não havia espaço. Eu tinha certeza de que a cobra iria me atacar e estava me torturando, como faz um gato que sadicamente brinca com sua presa acuada. O que fazer?

No meio daquele desespero, imagens da minha infancia começaram a surgir de repente; seria o efeito da hipnose da cobra ou aquele filme que dizem que acontece na nossa mente, instantes antes de morrermos? Eu já estava quase a ponto de rezar e me reconciliar com Deus, coisa que eu abominava naquela época, quando um barulho de latidos me trouxe de volta ao presente. Era o cachorro do vizinho, que de vez em nunca aparecia lá em casa, um filhotão, desses que gostam de fazer festa por qualquer motivo. Não deu tempo nem de pensar. Quando me dei conta, o cachorro, o Duque, já estava fazendo festa com a cobra. Surpreendentemente, a cobra não o atacou e começou a se afastar, parecia até que estava brincando com o cachorro, executando os passos de uma dança. Quando achei que estava a uma distância segura, levantei-me e me afastei o mais que pude, mas com os olhos fixos nos dois bichos.

O Duque, vendo que eu caí fora, veio em minha direção fazer festa. Abracei-o com alegria, ainda meio abobado pela tensão de ainda há pouco. Ele nem se deu conta do quanto eu estava feliz com a sua chegada. Atribuí sua coragem à ignorância do perigo, se ele soubesse o risco que correu, será que  teria dançado aquele balé com a cobra? Ou será que ele sabia de alguma coisa que eu ignorava? O fato é que depois desse episódio ganhei confiança, sumiu meu medo das cobras e eu sempre soube o que fazer quando as encontrava, nunca mais fiquei paralisado. Cheguei até a pegar algumas pelo rabo e jogá-las de volta pro mato…

 

 

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O casamento perfeito


Depois de 5 anos vivendo juntos, minha esposa está, finalmente, se transformando na pessoa ideal que eu vislumbrei quando me casei. Está deixando de ser apenas mãe para ser, também, esposa. Isto porque, para minha alegria, os rebentos estão botando as manguinhas de fora e exigindo ter vida própria. Não sem dor no coração, ela percebeu que deve ceder aos anseios dos filhos e abrir mão de suas expectativas e tentativas de controle…


Foi aproveitando essa brecha, ainda um tanto quanto estreita, mas muito clara para mim, que eu propus uma viagem relâmpago, uma reedição da nossa lua-de-mel. Para minha surpresa, ela aceitou sem titubear, um convite para um fim de semana na estância climática de Cunha SP, numa pousada que me seduziu pelo nome, muito sugestivo, de Pousada da Mata. Fiz a reserva de um chalé de luxo, coisa que jamais havia feito antes na vida, para a eventualidade dela mudar de idéia; assim eu teria um trunfo na manga para contra argumentar! Não foi preciso, ela se comportou muito bem e programou para que nada fosse um impedimento do sucesso de nossa viagem.


Sexta-feira, no meio da tarde, nós partimos para a viagem de duas horas de São José dos Campos até Cunha, encravada num “mar de morros“ entre as  Serras, do Mar, da Bocaina e do Quebra-Cangalha. Durante o trajeto fomos conversando e descobri que minha esposa teve uma forte ligação com a cidade de Cunha, onde, por diversas vezes, passou as férias quando criança. A região de Cunha era o destino preferido do meu sogro e sua família.


Chegamos quase ao anoitecer e eu quis dar uma volta para me familiarizar com a cidade antes de nos dirigirmos à pousada, que se localiza na zona rural, distante uns 8 km do centro de Cunha. Um belo portal enfeita a entrada da cidade e dá as boas vindas aos viajantes que chegam do Vale do Paraíba.


Portal da cidade de Cunha SP

Mas alguns metros depois da entrada, a coisa muda e a impressão é de que o portal é apenas fachada. Nem sinal das construções históricas anunciadas nos sites que propagandeiam a cidade, apenas casas comuns e um paisagismo urbano muito pobre e descuidado. Desanimados e temendo a chegada da noite, resolvemos fazer meia volta e tomar o rumo da pousada, para chegarmos lá ainda com luz.


Tomamos um caminho diferente para deixar a cidade e foi possível ver algo que me brochou de vez: uma casa recém construída, praticamente dentro do um riacho que corta cidade. A visão deste descaso ambiental me fez considerar: será que eu havia feito um boa escolha para o nosso idílico fim de semana? Pensamentos negativos rondaram minha cabeça nessa hora… Minha esposa não disse nada, ela tem meditado muito ultimamente e agora ela se observa bastante antes de fazer um comentário negativo. Mas a expressão do rosto não negava, ela estava decepcionada com o que via.


Descaso com a natureza


A chegada na pousada melhorou um pouco nosso humor. O local é bem cuidado, cheio de árvores, nosso chalé tinha uma vista maravilhosa e a recepção de dona Joana nos fez sentir em casa.


Na hora de preencher a ficha de hóspedes, a pergunta tradicional: “Como foi que você descobriu a pousada?”. Eu não me lembrava e tive que refrescar a memória. Lembrei do marceneiro que fez os móveis em casa, ele é de Cunha e fez muita propaganda da qualidade de vida da cidade. Me contou que toda carne, queijo, frango e ovos ele traz de lá e congela, não come nada de açougue ou supermercado. Talvez eu tenha sido influenciado pelo que ele disse e acabei procurando uma pousada em Cunha. Ou ainda, pode ser que minha esposa já tivesse me contado de suas férias na região, não sei, não me lembro. Mas eu fiquei com uma pulga atrás da orelha. Por que eu tinha escolhido Cunha, dentre tantas cidades históricas do Vale do Paraíba? Escrevi na ficha que tinha escolhido por intuição, grafei apenas essas duas palavras. Dona Joana me olhou meio torto mas não disse nada…


Mais tarde, sob encomenda, já que não queríamos arriscar a comida da cidade, dona Joana nos preparou uma sopa de legumes que foi um conforto, foi como receber um abraço por dentro. Cansados da viagem, fomos dormir muito cedo.


Dia seguinte, um frio de lascar, pulamos logo cedo da cama e fizemos uma caminhada de uns 5km pelas redondezas, antes do delicioso café da manhã, preparado por dona Joana e sua filha Ana. Destaque para os bolos de milho e o de batata doce. O fogão de lenha aceso é um must, esquenta o ambiente e dá vida ao local.


Vista do nosso chaléRestaurante, com dona Joana ao fundo


De estomago forrado, saímos para o desconhecido. Já havíamos desistido de nossa intenção inicial, que era fazer alguma trilha no Parque da Serra do Mar, pois o tempo estava fechado e garoento. Meio contrariado e para satisfazer a esposa, fomos para cidade, fazer um turismo de lojas. Foi um boa pedida, ao contrário do que eu supus.


O centro da cidade tem ainda alguns casarões antigos, mas segundo seu Isael e dona Josie, eles estão caindo por descuido de seus proprietários. Seu Isael e dona Josie tem uma loja de artesanato num desses casarões, datado do sec XVIII, com piso hidráulico, forro de taquara, paredes de pedra e algum mobiliário, todos originais. Quando foram alugar, o proprietário disse a eles que podiam trocar tudo e colocar material modernos no lugar! Seu Isael ficou indignado, recusou-se a destruir o patrimônio histórico da cidade e por sua conta restaurou tudo. Mas segundo ele, a maioria do povo da cidade quer mesmo é prédio de apartamentos e não está nem aí para a tradição. Recentemente houve briga na câmara municipal, por causa de um projeto de lei que iria autorizar a construção do primeiro prédio de apartamentos em Cunha. Quem conseguiu segurar foi o “pessoal de fora”, pois os nativos querem mesmo é progresso.


Segundo seu Isael, a população da cidade está diminuindo. Já chegou a 30.000 e hoje está em 25.000. São os jovens debandando em busca de faculdade e empregos que remunerem melhor. Pudemos confirmar esta informação, 100% dos jovens perguntados vai deixar a cidade e não pretende voltar… A alegação comum a todos eles é: “Aqui em Cunha não tem nada, é muito parado”. Se eu fosse jovem, não sei se faria diferente. Cabe aos mais velhos tornar a cidade mais atraente, para não perder a força da sua juventude.

 

                                  

Fachada do armazém do Seu Isael


Uma agradável surpresa foi a descoberta de que Cunha abriga grande quantidade de artesãos do barro, na esteira do casal japonês, Toshiyuki e Mieko Ukeseki e do ceramista português, Alberto Cidraes, que se instalaram na cidade por volta de 1975. Os ceramistas utilizam a técnica Noborigama, arte milenar japonesa de fornos em série, que transforma o barro em pedra ao  atingir a temperatura de 1.350ºC.


Forno Noborigama em Cunha


Os resultados são obras de arte lindíssimas e só não trouxemos alguns para casa pois são peças realmente muito caras. Algumas queimas chegam a durar de 15 a 21 dias, com a temperatura dos fornos rigorosamente controlada para que o trabalho não se perca, com o rachamento das delicadas peças de barro.


Peças de cerâmica à venda em Cunha


Hora do almoço, barriga roncando, eu não tive dúvida, sugeri o Mercado Municipal, que é onde o povo costuma comer. Eu tenho horror desses restaurantes para turistas, onde se come mal e se paga uma fortuna. Minha esposa ofereceu uma pequena resistência, mas cedeu aos meus pedidos, afinal, eu havia passado a manhã toda fazendo a vontade dela, batendo perna pelas mais de 10 lojas que vendem cerâmicas e artesanato na cidade. Não nos arrependemos, o simpático restaurante da dona Rosa nos serviu farta comida caseira, por apenas R$ 10,00 e ainda sobrou muita comida! Imagine, salada mixta, arroz, feijão, tutú, nhoque, ovo frito e bife para duas pessoas por esse preço! Isso não existe no primeiro mundo onde eu vivo!


Fachada do Mercado Municipal de Cunha

A cara feia é porque ela ainda não tinha comido os quitutes de dona Rosa...


Depois do almoço, a pedida foi uma caminhada pela cidade, para fazermos a digestão. Lógico que minha esposa parava em cada lojinha e numa dessas paradas, eu resolvi deixa-la entretida com suas compras e por acaso acabei descobrindo o Espaço Cultural Lavapés, onde estava acontecendo a exposição Tea Party com peças de cerâmica do mundo todo. Mas o melhor de tudo foi o guia e idealizador da exposição, Rogério David, um brasileiro que fugiu do país na época do Plano Collor, viveu 19 anos na Inglaterra e hoje está em processo de mudança para Cunha. Rogério nos deu uma senhora aula ao nos explicar sobre os processos de fabricação de cada uma das 100 peças expostas, parte de sua coleção de mais de 1000 peças, que trouxe na bagagem de volta ao Brasil.


Uma das peças da exposição de Rogério David


Nessas alturas eu já começava a me reconciliar com a cidade de Cunha, meu corpo e espírito haviam sido bem alimentados. Mas não ia durar muito o namoro… Logo mais, à noite, resolvemos comer uma pizza, numa pizzaria numa região até que bem cuidada da cidade. Eram mais de 8h e ao nos sentarmos, fomos informados que o forno ainda não estava quente, e que só começariam a assar pizzas dentro de uma meia hora. Tudo bem, enquanto esparávamos íamos degustar uma malzbier. O garçon, muito prosa, nos informa que apesar de constar no cardápio, estão com falta do produto. E nos sugere a substituição mais estapafúrdia que eu já ouvi de um garçon.


__Vocês não querem trocar a malzbier por um licorzinho de canela com gengibre, por conta da casa?


__Meu filho, você tomaria um sorvete de manga sendo que sua fome é de uma sopa de aspargos?


Ele pareceu não entender minha colocação e ainda insistiu:


__Ah, mas é de graça, por conta da casa, o senhor vai recusar?!?


__Deixa o licor pra lá, me traz  alguma cerveja de boa marca que você tenha aí na sua geladeira. Tem Stella Artois? Tem? Então, traz uma garrafa pra gente.


Na hora de escolher a pizza, outro sufoco. Nosso gosto era comer uma pizza de escarola, rúcula ou brócolis e fizemos o pedido.


__Ah, hoje não temos nada verde, sinto muito! O que temos mais próximo de uma pizza natural seria uma pizza de palmito.


Dessa vez eu não fui irônico, a fome já apertava, pedimos uma margherita, que de manjericão mesmo tinha umas folhinhas secas e quase sem gosto. Depois de pedida, a pizza não demorou, mas ao servir, ele colocou o primeiro pedaço no meu prato. Querendo brincar com ele, perguntei se ele costumava servir primeiro os homens…


__Ah, o senhor me desculpe, é que eu sou soldador, estou fazendo um bico aqui na pizzaria, sabe como é…


Fiquei com pena do rapaz, disse que não tinha importância, mas ao colocar a primeira garfada na boca, não acreditei, a pizza estava fria! Claro que a gente mandou voltar e isso por duas vezes, antes de eles acertarem a temperatura ideal. Uma tragédia!


Não sei se foi por nervosismo, mas o garçon aparecia a cada dois minutos e perguntava:


__Tudo bem por aí?


Ultimamente estou praticando uma política de diplomacia e por isso não respondi nada a cada vez que ele perguntou, me limitei a esboçar sorrisos amarelos… Na hora de ir embora, depois de paga a conta, ele teve a ingenuidade de nos perguntar se gostamos da pizza. Eu respondi com a primeira coisa que me veio à cabeça:


__Olha, a gente se divertiu muito e, certamente, eu terei uma boa história para contar sobre sua pizzaria…


Cansados de tanto andar pela cidade, novamente fomos dormir cedo. Dia seguinte, decidimos pegar estrada logo depois do café da manhã, para não pegar transito na Via Dutra, que costuma encher nos domingos à tarde. Quando passávamos por Cunha, me veio a idéia de comprar uma lembrancinha para minha mãe. Nessas horas eu prefiro comprar algo de comer, pois minha mãe já tem uma casa com armários atulhados de objetos que ela nunca usa e eu não quero contribuir com o excesso que ela já acumula. Assim, fomos ao Mercado Municipal, comprar um queijo parmesão novo, que eu havia visto no dia anterior. A mulher já estava embrulhando o queijo, quando alguém dos fundos da loja disse em alto e bom som:


__Veja se ele não quer levar uma goibada também, Maria Helena, acabou de chegar da roça!


O que a mulher disse sobre a goiabada me avivou a memória de um fato que tinha ficado debaixo do tapete durante muito tempo e que eu não tinha atinado  em nenhum momento durante aquela curta estada em Cunha. Minha mãe, durante minha gravidez, comeu 10 kg de goiabada, mandada vir especialmente da cidade de Cunha. Goiabada é meu doce predileto, eu troco qualquer um por uma goiabada. Ah! E o nome da minha mãe é Maria Helena. Mandei embrulhar também um bom pedaço de goiabada cascão, pra levar de presente junto com o queijo parmesão novo. Saí da cidade com a sensação de “missão cumprida”…


Interior do Mercado Municipal de Cunha

Paisagem na estrada, imediações de Cunha

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Tuesday, 21 February 2012
posted by chico abelha



Semana passada, passeando pelo centro da cidade, encontrei com uma amiga que estava acompanhada por um senhor. Conversa vai, conversa vem, acabei reconhecendo o senhor que estava com minha amiga; era o Nelsinho, um deficiente mental que participou de uma história engraçada, dos tempos que eu estava começando a trabalhar com abelhas. O episódio se deu há uns 30 anos, quando eu ainda era jovem e inconsequente.


Nós morávamos todos em São José dos Campos, nenhum de nós era da roça, e nossas abelhas ficavam em Monteiro Lobato, num terreno que a gente arrendava de um cara que fazia um tráfico de maconha lascado; mas isso a gente só descobriu muito depois. Éramos 4 sócios, o Carlos, a Lúcia, o Clodoaldo e eu. O Nelsinho era irmão do Clodoaldo e tinha que ir sempre com a gente, porque não podia ficar sozinho em casa, devido ao seu problema mental. Íamos em dois carros, um Fusca e um Corcel, lotados de equipamentos apícolas, tudo no esquema para fazer a colheita do mel.


Lá chegando, acendíamos o fumigador, preparávamos os favos vazios nas caixas e vestíamos as roupas especiais, sem as quais nenhum cristão poderia lidar com a fúria das abelhas africanizadas. Pra quem não sabe, nos idos dos anos 1950, as mansas abelhas européias, quando foram acidentalmente cruzadas com as africanas, produziram uma raça muito agressiva, que andou matando muito bicho e muita gente, acostumados que eram à docilidade das européias. Com estas podia-se trabalhar sem proteção mas com as africanizadas, jamais!


Claro que o Nelsinho não ia até as abelhas com a gente, ficava fechado no carro, a uns 30 metros das colméias, com a recomendação expressa de não sair de onde estava. O Clodoaldo, olhando bem dentro dos olhos do irmão, fazia ele repetir que as abelhas eram muito perigosas e que não era pra ele abrir a porta do carro de jeito nenhum.


__Nelsinho não pode abrir a porta do carro, é perigoso, a abelha vai te ferroar! Entendeu? Então repete pra mim.


__Nelsinho não pode abrir a porta do carro é perigoso a abelha ferroar…


Os inocentes, parece que têm uma proteção especial, o Nelsinho nunca sofreu uma picada de abelha, nem quero pensar o que teria acontecido no caso de um acidente. Hoje, eu jamais arriscaria a vida de uma pessoa da maneira como fazíamos com o Nelsinho, mas naqueles tempos a morte era um idéia ainda muito abstrata nas nossas cabeças.


A colheita do mel durava mais ou menos uma hora e era preciso jogar muita fumaça para acalmar as bichinhas, que heroicamente tentavam defender o mel que estava sendo saqueado. Porque era isso mesmo que fazíamos, um roubo do precioso líquido que elas zelosamente armazenavam nos alvéolos, precavendo-se para os tempos de crise. Terminada a limpa, tínhamos que nos livrar das abelhas, para não entrarmos nos carros com os insetos, mas uma ou outra sempre acabava escapando da nossa vista. No entanto, das caixas de mel era impossível tirar todas as abelhas, até porque, na bagunça, elas melecavam as asas e não podiam mais voar. Por causa disso, acondicionávamos as caixas com mel no capô do Fusca e no bagageiro do Corcel e fechávamos bem fechado; só iríamos abrir de novo em casa, quando as abelhas estivessem mais calmas.


O trabalho com as abelhas era pesado e a gente suava muito dentro do macacão. Terminada a colheita, tudo que a gente queria era uma bebida gelada e um salgadinho, necessidade que satisfazíamos no bar da praça principal de Monteiro Lobato. Na cidade, descíamos do carro vestindo os macacões sujos e fedidos de fumaça, a aparência era a última coisa que nos importava e decerto provocávamos um impacto na vida da pacata cidade. O povo nos enchia de perguntas, queria saber de abelha dava muito dinheiro, se a gente podia ensinar apicultura racional, a conversa sempre tendendo para o lado profissional.


Um certo dia, um sujeito veio com uma conversa diferente, quis olhar o mel, disse que não acreditava que a gente colhia tanto quanto dizia que colhia. A gente falou que não dava pra ele ver, que o mel ainda estava com muita abelha brava, que era perigoso abrir ali na cidade, que ele fosse até onde centrifugávamos o mel, para conferir o que dizíamos. O cara parecia aqueles bêbados que ficam repetindo a mesma coisa, ficou bravo com a gente e só faltou nos xingar. Ficou enchendo o saco até entrarmos no carro.


Na única saída da cidade, havia uma rua estreita, na verdade era a própria estrada passando dentro da cidade. Pois bem, no fim dessa rua, avistamos uma multidão, um carro de polícia com a luzes piscando e uma meia dúzia de policiais fechando a rua. Decerto é algum acidente, pensamos, mas não tinha como desviar, aquele era o único caminho pra sair da cidade. À medida que nos aproximávamos, a situação foi se configurando bem diferente do que imaginávamos. O bloqueio era para nós, os guardas cercaram os dois carros, armas em punho e gritando alto:


__Todo mundo pra fora, as mãos na cabeça, qualquer movimento diferente a gente atira!


Aquilo foi um baita susto para nosso pacato grupo de apicultores amadores. Ninguém ali era do mal, não passávamos de um bando de hippies sonhadores, voltando para casa com o seu butim melado, de modo que saímos os 5 de mãos pra cima, sem pronunciar uma palavra.


__O que vocês estão levando aí no carro? Pra que essas roupas que vocês estão vestindo.


Eu respondi com o máximo de tranquilidade que o meu coração saindo pela boca permitiu…


__É mel, seu guarda e essas roupas são para proteção contra ferroada das abelhas.


Ali em volta devia ter uma pequena multidão, umas 50 pessoas acompanhando o espetáculo, como se fosse o último capítulo de uma novela da TV. Os guardas entraram nos carros e revistaram tudo, procurando não sei o que. Aparentemente não acharam nada e o guarda que havia feito falado antes, com pinta de machão, retrucou incrédulo:


__Que mel que nada, abre aí pra gente ver o que tem dentro dos bagageiros dos carros!


Nessa hora foi o Clodoaldo que respondeu:


__Seu guarda, não pode abrir o bagageiro que a abelha tá brava, é perigoso, ela vai ferroar! – e imediatamente o Nelsinho, escutando o irmão todo nervoso falar, emendou em voz alta, pra todo mundo ouvir:


__Não pode abrir o bagageiro que a abelha tá brava é perigoso vai ferroar!


O guarda ficou impaciente, entrou no Fusca, destravou a maçaneta e levantou o capô do carro. Ah, pra quê ele fez aquilo!?! Não deu um segundo e uma valente abelha saiu do mel e sentou o ferrão dentro do nariz do enxerido policial, que imediatamente perdeu a compostura e passou a se debater no asfalto, como um animal acuado. Formou-se um branco na frente do Fusca, todo mundo afastou de medo das abelhas. Compadecido do incauto polícia, corri para socorre-lo e sem pensar, meti a mão na narina do homem, pois se o ferrão não fosse retirado, continuaria a injetar o dolorido veneno. Ele não ofereceu resistência, tamanha a dor que devia estar sentindo. Depois de tirar o ferrão, esfreguei o local da ferroada com um pedaço de cebola, que eu carregava no bolso, ela funciona como um atenuante da dor.


A cena era patética; o policial sentado no chão, eu ajoelhado ao lado dele, esfregando a cebola. Aliviado da dor, ele me olhou como se fosse um feiticeiro que praticou sua magia. Nessa hora, decerto repetindo o que o Clodoaldo disse baixinho, o Nelsinho falou pra todo mundo ouvir:


__Bem feito eu disse pra não abrir o bagageiro que a abelha estava brava…


E o que se ouviu foram as gargalhadas e o aplauso do povo que admirava a cena. Anos mais tarde, quando eu me mudei para Monteiro Lobato, acabei ficando amigo desse policial e ele me contou que a operação havia sido montada para flagrar o tráfico de maconha que eles sabiam que estava acontecendo no sitio em que ficavam nossas abelhas. Sorte que eles estavam procurando coisa grande, porque se tivessem procurado nos bolsos do Nelsinho eles iam encontrar os baseados que a gente tinha enrolado, prontinhos pra fumar. O Nelsinho era o nosso esconderijo mais seguro, no caso de sermos parados uma batida policial…

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