Dentro e Fora - por Chico Abelha
Sunday, 19 August 2012
posted by chico abelha

carpição
car.pi.ção
sf (carpir+ção) Ação de carpir ou desmoitar uma roça; capinação.

 


Segundo o dicionário Michaelis online, esta que se lê acima é a definição da palavra carpição. Para quem não é da roça, para aqueles que não são familiarizados com a terminologia do meio rural, explico; capinar quer dizer passar uma enxada num terreno, de modo a deixa-lo livre de mato.


Etimológicamente, carpição vem de carpere, em Latim e significa arrancar ou colher. Houve um tempo em que carpir significou arrancar os cabelos para demonstrar a dor da perda. Daí a palavra carpideira, pessoa a quem se pagava para chorar os defuntos durante os funerais. Não tenho notícia de que esta prática esteja em uso ainda hoje, mas sei que na roça a palavra carpir está bem viva e não tem caboclo que não saiba o seu significado.


Pois bem, semana passada fui convidado a conhecer uma manifestação popular denominada Carpição, que tem lugar ao pé de uma Santa Cruz, na capela de Nossa Senhora dos Remédios, Bairro dos Remédios, em São Francisco Xavier. Tendo morado por mais de 30 anos no meio rural e não muito longe desta capela, jamais eu havia ouvido falar dessa tal de Carpição. Descobri, depois, que pessoas morando há mais de 40 anos na região, também nunca haviam ouvido falar da Carpição.


Por se tratar de um evento ligado à igreja, imaginei um bando de mulheres vestidas com túnicas pretas, entoando lamentos em volta de um caixão. Nada mais longe da realidade, pois trata-se de uma festa na qual pratica-se um ritual que remonta ao século XVII, segundo consegui saber numa pesquisa rápida. O ritual consiste em carregar 3 viagens de terra de um ponto a outro, nas imediações da capela, com a intenção de que aconteça uma cura ou se resolva um problema qualquer. Neste caso específico que visitei, a terra é retirada de um monte nos fundos da capela e levada até o pé da Santa Cruz, em frente à entrada principal. Antigamente carregava-se a terra dentro de um lenço, num guardanapo de pano ou mesmo nas palmas das mãos, mas hoje, a imensa maioria das centenas de devotos que comparecem a esta festa usam mesmo sacolinhas descartáveis, dessas que dão nos supermercados.


Dizem alguns que o nome dessa tradição teve origem na necessidade de se acertar o terreno para a construção de uma nova igreja na zona rural. Daí o capinar, ou carpir o terreno para limpa-lo e depois cava-lo e acerta-lo, fazendo assim uma terraplenagem na base da enxada. Como o solo destinado à nova igreja era benzido pelo padre, não se podia simplesmente descartar a terra, a qual era depositada ao pé da Santa Cruz e daí para que ela começasse a produzir milagres foi um pulinho. Os devotos que carregam esta terra afirmam que foram curados das mais diversas enfermidades; das mais triviais, como uma dor no braço até casos graves e desenganados de cancer.


É verdade que esta capela de Nossa Senhora dos Remédios já está pronta há muito tempo, o terreno todo acertado, já não há mais onde cavar e hoje a terra é trazida pelo caminhão da prefeitura, uns dias antes da festa. Mas tradição é tradição e uma vez que a coisa continua funcionando e as pessoas alcançando as graças pedidas, quem é que vai questionar esta adaptação circunstancial?


A data convencionada para a realização da Carpição é 15 de agosto, mas com a opção da primeira segunda-feira de agosto, para aqueles que por um motivo qualquer não podem comparecer no diz convencionado. No dia 15 pp, lá fui eu registrar a tal Carpição no Bairro dos Remédios, que fica a uns 60 km de onde eu moro. Saí bem cedinho, pois minha informante me dissera que os primeiros devotos chegam de madrugada e a coisa vai até de noite. Dizem que antigamente era feriado, ninguém trabalhava neste dia, mas hoje é só na roça que alguns ainda guardam este dia.


Lá chegando, a primeira coisa que vi foram os devotos, uns 10 deles, carregando as sacolinhas, pareciam formiguinhas baldeando terra. Uns colocavam a sacola na cabeça, outros nas pernas, em volta da barriga, nos braços e outros, ainda, tinham levado seus animais e os faziam transportar a sacola de terra. Sim, a cura funciona também para os animais e pode-se carregar terra e pedir favores para terceiros, caso em que é preciso aumentar o numero de viagens, desde que sejam sempre múltiplos de 3.


Estacionei o carro, preparei o gravador e a camera fotográfica e já ia partir para o trabalho, quando me lembrei da sugestão de uma sábia amiga. Que antes de mais nada, deve-se participar do evento que se vai registrar, até para que o entrevistador não seja percebido como um intruso. Assim, peguei uma sacolinha no carro e a enchi de terra. Mas o que eu iria pedir? Não me sinto doente! No meio da caminhada tive uma idéia. Resolvi colocar a sacola na altura do coração e pedi que ele nunca se endurecesse. Não sei se foi autosugestão, mas depois que cumpri minhas 3 viagens, uma sensação de leveza muito gostosa me invadiu e permaneceria comigo ao longo de todo aquele dia.


Dentre as pessoas que estavam ali baldeando terra, reconheci vários amigos do tempo em que morei na região. Isso ia me facilitar o trabalho, pensei, pois é sempre mais difícil abordar desconhecidos e quebrar o gelo da desconfiança. Resolvi esperar que um dos meus conhecidos terminasse seu ritual, mas antes disso chegou Antonia, a pessoa que me convidou para conhecer a Carpição.


Antonia foi muito gentil, me trouxe café e umas broas de milho e desandou a falar sobre a Carpição, da beleza que é a fé dessa gente, pessoas de todas as idades cumprindo suas promessas, agradecendo, pedindo graças. Algumas delas vindas até de outros estados! Antonia estava visivelmente empolgada de estar ali. Perguntei se ela iria carregar sua terra ou já havia feito o ritual. Ao que ela respondeu:


__Não, Chico, a minha fé é outra, eu respeito e acho bonito, mas não posso participar.


__Como assim, Antonia? – perguntei sem entender nada, já que era por causa dela que eu estava ali e era evidente que ela estava achando aquilo maravilhoso!


__É que eu sou evangélica e o pastor não permite que a gente frequente essas coisas… Eu venho aqui escondido, eu gosto tanto de ver isso, Chico… – e ela me deu um sorriso maroto!


Enquanto eu reordenava meus pensamentos para dar algum sentido ao que ela acabara de me dizer, meus amigos foram aparecendo e entrevistei-os um a um. Pessoas que eu nem imaginava que fossem religiosas estavam ali, carregando a sua terrinha. Me dei conta que todos eles tinham mais de 80 anos, alguns já estavam na casa dos 90 e vieram todos de ônibus, taxi ou à cavalo. Estes senhores foram os que me ajudaram a construir minhas casas no mato, me ensinaram as plantas boas de fazer chás, a época certa de cortar madeira para não carunchar, como encabar uma enxada, essas coisas que não se aprende na escola. A maioria conheceu a Carpição através dos pais, vinham quando eram pequenos e passaram a vir sempre. Eu estava me sentindo em casa, feliz de reencontrar meus amigos e eles felizes de me ver, depois de tanto tempo.


Lá pro meio dia, senti fome. Eu poderia ter comido um pãozinho e tomado o café que era servido aos devotos por um senhor que fazia este serviço para pagar promessa. Diz ele que vai servir o café até morrer e antes disso vai passar a incumbência para outro (já tem até um candidato na fila…) Mas eu queria comida de verdade, meu corpo magro não pode ficar muito tempo sem combustível. Pensei em pegar o carro e ir até a cidade mais próxima, São Francisco Xavier e bater um rango mineiro, mas quando eu ia entrando no carro estacionado na praça, percebi uma senhorinha apoiada numa dessas portas cortadas na metade e não resisti, pedi para entrevista-la.


Sem me dar conta, acabei falando que estava com fome e, claro, ela me convidou para comer. Enquanto eu me deliciava com as sobras do almoço de dona Virgínia, fui dando vazão à minha curiosidade. Descobri que dona Virgínia tinha vindo morar ali na praça para ficar perto de sua santa de devoção e nunca mais deixar de participar da festa dela em outubro, e da Carpição, que o pai dela proibia quando era criança. Dizia ele que era perda de tempo e não deixava nenhum dos 19 irmãos saírem neste dia, tinham que ficar em casa e trabalhando! Só depois de casada é que dona Virgínia conseguiu vir e, mais tarde, depois da morte do marido, comprou uma casinha e veio morar ao lado da capela de Nossa Senhora dos Remédios. Já está ali há 13 anos, mas tem vindo já há 45 anos.


Diz dona Virgínia que “nos tempo de antes” era muito mais animada a festa da Carpição, que no lugar que eu parei o carro nem se podia entrar, de tantas que eram as barraquinhas vendendo quentão, cerveja, salgadinho, etc… e que vinha muito mais gente. Eu quis saber qual seria o motivo desse “encolhimento” da festa, na opinião dela.


__Ah, seu Chico, “é u povo qui tá perdeno a fé… andô aparecendo muita religião aí, dos crente, tá saino muito dessas igreja dos crente em São Francisco i eles num dexa mexê com santo, aí a turma foi afastano tudo…”


__Mas será que foi só isso mesmo, dona Virgínia? Será que a culpa é só dos  ”crentes”?


__Ah, não! “Tem os padre tamém, eles quere mudá tudo nas festa que é tradição di nóis! Num pódi mexê nessas coisa… tem qui cumpanhá do jeito qui vinha vindo, sinão bagunça tudu!”


__É mesmo, dona Virgínia? Eles quiseram mexer na tradição da Carpição?


__”Quisero mas num consiguiro, a gente si uniro i dissemo qui respeitamo a igreja, mas a tradição num podi sê mudada! A gente se unimo i a festa continua, tá menos mais continua”…


Antes de voltar para São José dos Campos, enchi uma sacolinha com terra do monte ao pé da Santa Cruz. Dona Virgínia me disse que é bom levar pra casa e botar no jardim, que ajuda a família a ter harmonia. Não quis esperar a missa nem o lanche que haveria em seguida, um pão com carne e um café com leite.


View Entire Post
722 comments  
Sunday, 17 June 2012
posted by chico abelha

                       

 

O pessoal estava rezando o terço em frente à casa do festeiro, eram quase umas 50 pessoas, a maioria crianças e senhoras. As crianças eram divididas em meninas, que se fantasiaram de anjinhos e os meninos, todos vestidos de freis franciscanos. De homens adultos, havia dois rapazes para carregar o andor e mais um ou outro senhor de cabelos brancos. Essa pequena multidão ocupava metade da faixa de rolamento, todos convergindo os olhares para o andor de Santo Antonio. Os carros que vinham daquele lado da rua tinham que desviar e trafegar um trechinho na contra mão.


O terço ia lá pelo seu penúltimo mistério, quando um carro estacionado a 30 metros dali abriu o capo traseiro e  inundou a rua com uma música techno, num volume bem mais alto que um ouvido normal pode suportar. Resultado, ninguém mais conseguia escutar dona Vitória, a puxadora do terço. Os devotos de Santo Antonio se entreolharam, alguém tinha que tomar uma providência, não ia dar pra continuar a reza com aquele ensurdecedor bate-estaca eletrônico… Um senhorcrente muito bem vestido, devidamente equipado com sua bíblia, passou exatamente nesta hora e não disfarçou um sorriso de escárnio, pelo visível mal estar instalado entre os adoradores de imagens.


Depois de um minuto de desconforto, seu Dorival, marido de dona Vitória, tomou a iniciativa e foi pedir ao jovem um pouco de respeito pelo santo. O rapaz não desligou o som, apenas baixou o capo e saiu cantando pneus. Pude ouvir de uma beata que falou baixinho:


__Este mundo está mesmo perdido… Rezar que é bom ele não quer…


O último mistério foi rezado durante a procissão, que percorreu o quase quilômetro entre a casa do festeiro e a pracinha do bairro, que era onde as barraquinhas da quermesse e o palco já estavam montados. Rojões estouraram e vivas foram dados a Santo Antônio quando ele adentrou a área cercada de cavaletes, colocados pela prefeitura para isolar a área. Rezou-se então um novo terço, dessa vez um terço luminoso, durante o qual são acesas velas, que os devotos seguram durante toda a reza. As crianças, os anjinhos e os capuchinhos já estão impacientes, não é de sua natureza ficarem quietas durante tanto tempo. Os pais pedem a eles, inutilmente, que se compenetrem e fiquem em oração.


Ao fim do terço, anuncia-se a distribuição de pães bentos. De cima do palco, gentilmente montado pelo candidato a vereador, dona Vitória e seu Dorival distribuem algumas centenas de francesinhos bentos, acondicionados em caixas de papelão, oferta da padaria do portuga.


Novamente se ouve os fogos, agora anunciando o mastro que será erguido, com a bandeira de Santo Antonio. Os mesmos dois jovens que carregaram o andor, agora pregam a bandeira do santo na ponta do mastro de metal e plantam o axis mundi no centro da praça. Em outros anos o mastro já foi de madeira devidamente escolhida, cortada segundo um criterioso ritual pelo padrinho do corte e ornamentado e pintado pelo capitão do mastro. Optou-se pelo metal depois que os vândalos passaram a destruir os de madeira. Só não conseguiram resolver o problema das moças que raspavam um pedaço da madeira do mastro, para fazer o chá milagroso, que teria o poder de trazer aos pés delas um noivo, já no ano seguinte.


Rezas terminadas, pães distribuídos, mastro erguido, começa a parte dita profana. O povo forma imensa filas para comprar ficha e consumir os comes e bebes; quentões, vinhos quentes, bolinhos caipiras e doces diversos. E se divertir na barraca de pescaria, no castelo de plástico inflável, com o bingo, com o correio elegante e finalmente, lá mais para o fim da festa, com a quadrilha improvisada. Alguns pés-de-valsas mais afoitos não se contiveram e já bailaram ao som de pagodes, sambas e sertanejos que rolaram durante toda a festa. Meia noite, pontualmente, encerra-se a festa, foi o combinado com a prefeitura, um acordo conseguido a duras penas, pois muitos vizinhos reclamaram do barulho depois das 22h e quiseram boicotar o evento.


Quando a festa terminou e começaram a desmontar as barracas, dona Vitória se deu por satisfeita, tudo deu certo e não houve nenhum contratempo. Mesmo que o padre tenha se recusado a rezar a missa na praça, como nos anos anteriores. Ele havia proposto que a festa fosse transferida para o pátio da igreja, para congregar os fiéis mais próximos do templo cristão, o que foi veementemente recusado pelos organizadores. Levar a festa para a igreja iria esvaziar o evento! Afinal, o mutirão para a realização desta tradição conta com a ajuda de crentes, umbandistas, espíritas, budistas e até ateus! Se fosse junto à igreja, que por sinal fica a dois quilômetros da praça, muitos desses ajudantes não iriam querer participar.


Ela pensou com seus botões: “Bem que o padre Vicente poderia ter sido mais flexível…"

View Entire Post
27 comments  

                      


Andressa estava desesperada e Alexander deprimido, se arrastando cabisbaixo pelos cantos da casa. Fazia meses que a oficina de funilaria e pintura do casal andava muito mal das pernas, afundada em dívidas e sem clientes. Andressa sabia que a culpa não era do marido, um profissional honesto e trabalhador, mas algo estava muito errado e Andressa precisava, urgentemente, fazer alguma coisa. Melissa, a filhinha do casal, pedira uma mamadeira e as moedas na sopeira da sala não eram suficientes para comprar um simples litro de leite. Era preciso tomar uma providência, a situação chegara a um ponto insustentável.


Com lágrimas brotando dos olhos, Andressa abraçou a filha, se ajoelhou no canto da sala em frente ao retrato amarelado da família, velho de vinte anos. Era uma foto tirada quando ela era criança, numa Festa do Divino Espírito Santo, no sitio do avô em Roseira. Fechou os olhos e deixou-se transportar para aquele tempo de fartura e despreocupação. Ouviu as violas chorando e os tambores rufando, batendo no ritmo acelerado do seu coração ansioso. Sentiu na boca o gosto esfarelento e macio do bolo de fubá com queijo e do café quente e doce, que era servido no sitio do avô nos dias da festa. Lembrar das comidas da infância era como receber um abraço por dentro, um conforto naquele momento de dor.


Há muito que não se realizavam mais as festas do Divino, daquelas que reuniam toda a família. A tradição foi morrendo junto com os velhos e os novos não tinham mais tempo nem espaço para ela, agora que tinham sido engolidos pela lula-lufa das cidades…


Com o coração um pouco mais calmo, Andressa olhou para Melissa e reparou que o vestidinho da filha era o mesmo que ela usara quando a foto da família havia sido tirada. Reparou, também, que a fita que apertava o vestido na altura da cintura, ainda estava faltando o pedaço que tia Amélia tinha cortado para amarrar na bandeira do Divino. A tia estivera desenganada e o que a salvou foi sua fé no Divino. Muitas eram as histórias de graças alcançadas por intermédio do Divino, havia mesmo relatos de milagres… Milagres? Era isso que Andressa estava precisando naquele exato momento!


Sem pensar, como se estivesse sendo conduzida por uma mão invisível, pegou a fita que amarrava o vestido da filhinha e com o restinho de fé que ainda carregava no seu coração, pediu ao Divino que nunca mais deixasse sua filha passar fome. E se seu pedido fosse atendido, ela prometia que, enquanto vivesse, todos os anos, na época de Pentecostes, ia fazer uma festa em sua homenagem, do mesmo jeitinho que seu avô fazia.


O Divino se apiedou de Andressa e não demorou para os clientes começarem a aparecer na oficina de Alexander e o dinheiro entrar no caixa. A situação melhorando aos poucos, as dívidas materiais sendo pagas, mas Andressa não se esquecia da mais importante delas, aquela que fizera com o Divino. Ela queria começar a pagar logo naquele ano e começou a anunciar entre os mais chegados, que quando chegasse a época ela faria uma festança do Divino, em agradecimento à graça alcançada. E na bandeira que ela mesma já confeccionara, ela iria amarrar a fitinha do vestido de Melissa.


O povo achou que ela estava doida, pois Andressa não passava de uma remediada, sua situação ainda não permitia o luxo de dar uma festa nos moldes daquela que o avô patrocinava, com muita comida distribuída a quem chegasse, música, leilão e baile. Mas ela tinha fé, uma fé que crescia a cada dia, na certeza de que o Divino estava por trás da paz que voltara a reinar em seu lar e que Ele iria dar um jeito da festa acontecer. E aos que afirmavam que ela estava ficando louca, dizia que quem daria a festa não seria ela, seria o Divino, ela seria apenas o instrumento.


E realmente, foi se aproximando a época de Pentecostes e a festa se desenhando. Através de pequenas contribuições daqui e dali, toda gente que ficara sabendo da promessa de Andressa quis contribuir com alguma coisa. Um prometeu um porco, outro uma galinha, um saco de batatas, o que estivesse sobrando em casa. Ela não pediu nada, só fazia afirmar sua certeza de que daria a festa e o povo foi doando o que achou de doar.


Na semana da festa, estava quase tudo já preparado e Andressa sentiu saudade do bolo de banana, um quitute que nunca faltou na festa do avô. Foi ela dar falta do bolo que bateu na porta um desses vendedores ambulantes, que carregam a mercadoria num peruzinho. O pai dela foi atender a porta e anunciou que era um vendedor de… bananas, oferecendo dois lindos cachos de nanicas bem granadinhas.


__Ah, meu pai, mande o homem andar, que dinheiro não estamos tendo pra comprar essas bananas.


__Vá lá falar com ele, minha filha, que ele mandou chamar foi a dona da casa.


Ao chegar no portão, o homem já havia descarregando os cachos do peruzinho, dizendo que mandaram entregar naquele endereço. Andressa chegou a perguntar quem havia mandado aquele presente tão providencial, mas o homem não se deu o trabalho de responder, deu as costa e se foi… Ela sentiu um calor percorrendo seu corpo, aquilo, mais uma vez era obra do Divino.


No dia marcado, a festa teve lugar no pátio da oficina do casal, todo enfeitado com bandeirinhas coloridas, ia chegando gente não se sabe de onde, todo mundo com o intuito de ajudar, coisa bonita de se ver. Apareceu até um grupo de Folia do Divino, gente que não se reunia há anos. Eles se organizaram, fizeram as capas vermelhas com a pomba bordada em branco e saíram uns dias antes pela vizinhança, pedindo ajutório para a festa. Montou-se uma cozinha improvisada, com um fogão de lenha feito às pressas, com tijolos de demolição e uma chapa de ferro doada pelo depósito de material. O afogado, prato feito com carne ensopada e farinha de mandioca, estava delicioso segundo os que comeram.


Na hora das rezas, Andressa foi se lembrando de tudo e puxou cada uma delas, inspirada pela devoção e fé que só faziam crescer, à medida que via que tudo ia dando certo e ela pode, sem ter os meios, realizar a festa prometida. A primeira fita a ser amarrada na bandeira, foi, claro, a dela. Seguiram-se muitas outras fitas, de gente buscando ajuda ao Divino, a fama da bandeira se espalhando e a festa crescendo a cada ano.


No primeiro ano, consumiram 15 kg de carne e agora que a festa está em sua décima edição, são precisos 150kg de carne para preparar oafogado. Começaram com não mais de 100 pessoas, se apertando no terreiro da oficina, hoje comparecem mais de mil. O pessoal cede o sitio, a chácara, fazem questão de que seja no local deles, em agradecimento a alguma graça alcançada. Um dia Andressa ainda quer ter o próprio local, um sitio com largueza, para construir sua capelinha e lá colocar sua bandeira do Divino. Ela sabe que vai conseguir, mas não tem pressa, que o Divino faz tudo na hora certa, não é na hora que a gente quer e do jeito que a gente imagina.


Isso tudo Andressa me contou não faz um mes, quando a conheci. Ela se empolga quando fala da presença do Divino em sua vida e das transformações que Ele já fez em sua família e no seu grupo cada vez maior de amigos. É impossível não ficar contagiado com a fé desta mulher. Fiz uma longa entrevista com ela, sobre os aspectos folclóricos da manifestação, que era o que me interessava, mas ela não deixava de ressaltar que nada era por acaso e que só participando da festa eu ia entender o que ela estava contando.


Assim, no dia 03 de maio, bem cedinho, antes do sol nascer, lá estava eu, num sítio da periferia da cidade de São José dos Campos, participando da alvorada da festa, que consiste de uma queima de fogos e a reza com o pessoal que passou a noite ajudando nos preparativos. A maior parte do pessoal do apoio é da família e está vestido com calça branca e blusa vermelha, as cores do Divino. Andressa comanda tudo, dando ordens pelo microfone, recebendo gente que chega e resolvendo os pepinos que vão aparecendo.


E eu ia registrando o que podia, porque acontecia tanta coisa ao mesmo tempo, que eu não dava conta. Num determinado momento, percebi que eu me emocionara e que tinha sido contagiado pelo clima da festa, foi difícil me manter isento e continuar o trabalho. Quando foi na hora de pegar uma fita e fazer um pedido, eu não pensei duas vezes, aceitei uma fita e fiz um pedido eu também. Fui até a bandeira, segurei a fita em baixo da mesma e fiz o meu pedido, a cabeça baixa e a testa encostada no pano vermelho. Não deu para segurar as lágrimas…


Saí do altar enxugando as lágrimas e com alguma dificuldade voltei à minha função de repórter do evento. Um homem se aproximou de mim e perguntou.


__Faz favor, o senhor sabe que horas vai ser o leilão?


__Puxa vida, não sei não moço, não tenho a menor idéia, eu estou aqui a trabalho, sabe?


__Mas o senhor não é da família?


__Eu não, por que?


__Ah, porque o senhor está vestido de vermelho e branco, por isso!


Me dei conta que naquele dia eu tinha escolhido vestir uma calça de veludo clara e minha blusa era de um vermelho muito vivo. Muita coincidência! Rindo, respondi:


__É, talvez eu tenha entrado para a família sem perceber!

View Entire Post
17 comments  
Thursday, 24 May 2012
posted by chico abelha

                       

 

Seu Zizo é um homem franzino, com poucos dentes na boca, mas é dono de uma força de vontade que não se encontra com freqüência por aí não. Seu Zizo praticamente não come, só belisca, que nem passarinho, pois um cancer levou mais da metade do seu estômago. Seu Zizo esteve para morrer, chegou a pesar apenas 30kg, um saco de ossos, estava desenganado pela medicina. Mas seu Zizo não tem apenas força de vontade, seu Zizo tem também uma fé inquebrantável na sua Santa Cruz. Foi nela que ele se agarrou para não ser tragado pela morte antes da hora.


A Santa Cruz entrou na vida do seu Zizo há 7 anos, quando da morte de sua mãe, dona Cida, que era devota fervorosa da mesma. Quando ela era moça, carregou por anos uma chaga na perna, uma coisa muito feia, que medicina nenhuma conseguia curar. Ela tinha tentado erva, garrafada, benzimento, nada dava certo. Um dia, dona Cida resolveu tentar uma promessa para uma cruz, dessas que se veem na beira da estrada marcando o local onde alguém morreu num acidente.


Ajoelhou-se em frente à cruz e depositou toda fé que lhe restava na oração silenciosa que fez ao cruzeiro. Se conseguisse a graça de se curar da ferida, ela prometia construir uma capelinha e todo ano festejar a Santa Cruz. Não deu um mes e a ferida secou; mais outro mes e quem olhasse a perna não via nem cicatriz…


Dona Cida, agradecida pela graça alcançada, construiu então uma capelinha em homenagem à Santa Cruz. Na verdade, a capelinha era apenas um teto de sapé, que servia de proteção à uma cruz de madeira que ela mesma montou, com uns paus do mangueiro velho que tinha sido reformado. Para que a criação não viesse bulir com as flores que plantou em volta da sua capelinha, ela cercou o bico do terreno com cinco fios de arame farpado. Pintou os esteios de branco para fazer vista e mantinha o terreiro em volta da capelinha sempre muito bem varrido. Todo santo dia, antes de reunir o gado para tirar o leite, ela se ajoelhava em frente da cruz e agradecia a sua Santa Cruz.


Fiel à tradição, a cada mes de maio, sempre no dia 3, se não chovesse, ela enfeitava o terreiro com bandeirinhas de papel de seda e dava uma festa em homenagem à Santa Cruz. Ela mesma ia no mato, escolhia e cortava um pau de piranga bem reto, descascava, deixava secar e pintava faixas de 3 cores alternadas. Lá no alto do mastro, que seu marido se encarregava de fincar ao lado da capelinha, ela punha uma bandeira, feita de lençol velho esticado, em que ela caprichosamente pintava a imagem da cruz.


Quando dava 6h da tarde do dia 3, ela soltava uns rojões, que era pra modo de avisar o pessoal que ia começar o terço da Santa Cruz. De primeiro vinham uns gatos pingados, mas com o correr dos anos a cruz criou fama de milagreira e o que eram 10 virou em 100. Dizem as más línguas, que muitos só apareciam pelo café com bolo de fubá que era servido no final, mas o fato é que o grupo de rezadores já estava beirando os 150 quando dona Cida morreu.


Um pouco antes do seu passamento, dona Cida, já desconfiando que não ia durar muito, mandou chamar os 4 filhos. Ela queria que alguém continuasse a tradição, pois sabia da força da sua Santa Cruz e tinha dó de ir embora e ela se acabar. Pediu que um dos filhos prometesse que ia cuidar da capelinha e fazer a festa todos os anos. Os 3 mais velhos deram as desculpas mais esfarrapadas e caíram fora. Sobrou o Zizo, que além de já ter sentido a força da Santa Cruz em sua própria carne, era uma pessoa que nunca soube dizer não.


__Minha mãe, se for para ver um sorriso no seu rosto, eu aceito a incumbência de cuidar da sua igrejinha, prometo cuidar dela enquanto Deus me der forças (seu Zizo chama a capelinha de igrejinha).


Dona Cida pode morrer feliz com a promessa do filho, sabia que Zizo não ia faltar com a palavra. Quem viu a defunta no caixão enfeitado de margaridões amarelos (era mes de abril), pode perceber a expressão serena no rosto da velha. Ela partiu com a sensação do dever cumprido.


A defunta ainda estava quente quando a mulher de Zizo caiu de pau em cima dele, por causa da promessa. Ela andava de namoro com a crença evangélica e já fazia tempo que vinha pedindo ao marido que largasse o culto às imagens. A promessa foi a gota d’água, ela exigiu o divórcio e a guarda dos 2 filhos. Seu Zizo, que não gosta de ver cara feia e não sabe dizer um não, aceitou tudo calado, para não piorar a situação.


Às pressas, ele construiu um 3X4 de bloco de cimento ao lado do ranchinho da Santa Cruz, fez um banheirinho que a pessoa tem que entrar de frente e sair de costas de tão pequeno que é, e foi morar lá sozinho. Com um dinheirinho que foi entrando, construiu com tijolos, uma capela com torre para a sua Santa Cruz, que mede, no mínimo, o dobro do local que ele usa de moradia. Na torre, seu Zizo teve o capricho de deixar duas fendas em forma de cruz e quem passa à noite em frente à capelinha, de longe enxerga uma cruz iluminada por dentro.


A Santa Cruz passou a ser a vida do seu Zizo. Isso eu posso dizer por te-lo conhecido, entrevistado e participado da ultima festa, que foi agora no ultimo dia 20 de maio p.p. A festa cresceu e hoje envolve mais de duzentas pessoas. A humilde reza e o café com bolo evoluíram para um evento que mobiliza toda a comunidade.


Agora a festa não é mais no dia 3 de maio. Ela é feita sempre num domingo e pode ser mudada em função de outras festas ou para conveniência dos participantes. Começa já no sábado, quando a turma faz uma “prova do tambor”, um evento em que o peão, montado em seu cavalo, tem de contornar três tambores no menor tempo possível para ser o campeão. Algumas vezes tem até uma Dança de Moçambique pra animar, mas nesse ano o grupo que costumava vir já estava comprometido com outra festa.


Na verdade a festa começa muito antes, com a “fazeção” de doces, arrecadação de ingredientes para o grande almoço de domingo e prendas para o leilão. No domingo, quem chegar no sitio do seu Antonio, um vizinho do seu Zizo, pode comer uma vaca atolada ou um afogado feitos no capricho, pela esposa do seu Antônio, e isso é de graça, ofertado pela festa. Depois desse almoço, saem em procissão uns 150 cavaleiros, umas 20 charretes e mais alguns automóveis buzinando, todos seguindo o mastro da Santa Cruz pelos 5 km de estrada que liga o sitio do seu Antonio à capelinha do seu Zizo.


A chegada do mastro é o ponto alto da festa, soltam-se rojões e dão-se vivas à Santa Cruz. Não sei se o povo estava muito animado por causa da cerveja, ou foi por causa da camera (eu estava filmando), mas acabaram se esquecendo de colocar a bandeira e fincaram o mastro sem ela, o simbolo da Santa Cruz! Imperdoável, pois o mastro é que leva para o céu os pedidos e promessas dos devotos, ele não podia subir pelado!


Foi um sufoco tirar aquele pauzão pesado de dentro do buraco e na afobação o povo perdeu o controle e o mastro acabou caindo. Sorte que foi em cima da capelinha, pois se fosse no meio do terreiro, certamente teria pego na cabeça de um e seria tragédia na certa. Ficou só no aviso de cuidado.


Em seguida, deveriam rezar o terço e fazer as orações à Santa Cruz, para depois servir um café com pão, enquanto alguém canta um leilão. Acontece que neste ano, a mulher que puxa as rezas está com o marido doente, não poderia vir e pediram a uma outra que viesse substituir. Mas a substituta não apareceu. Perguntaram entre os presentes se alguém saberia puxar, mas ninguém sabia… O remédio foi servirem o café com pão frances e margarina Qualy e darem inicio ao leilão, enquanto esperavam pela rezadeira. Foram saindo as prendas; um saco de ração, um cabresto todo enfeitado, um laço de couro, uma bicicleta ergométrica de segunda mão, um bolo de padaria, um garfo de bicicleta, etc… e nada da mulher chegar.


Eu já estava ficando aflito e cansado, queria ir embora para casa, tinha ficado o dia todo filmando e entrevistando o pessoal. E já estava anoitecendo, dali um pouco nem luz suficiente para filmar ia ter. Fui falar com o seu Zizo, dizer pra ele que me desculpasse mas eu ia embora, não dava mais para esperar.


__Seu Zizo, o que houve que a mulher não apareceu?


__Eu não sei, Chico, tava tudo combinado certinho com ela...


O semblante do seu Zizo estava triste, eu não tinha visto aquele homem desanimado, até aquele momento. Dava dó de ver. Eu tinha prometido a ele fazer um DVD e presenteá-lo mas ia ficar faltando a reza, fazer o que?


__Seu Zizo, eu vou ter que ir embora mesmo, não vai dar para esperar mais, já tá ficando escuro. O senhor não fica chateado, além disso eu estou muito cansado.


Num tom conformado, ele se despediu de mim dizendo:


__Tem nada não, Chico, a luta continua, ano que vem tem mais. Deus não faz nada errado, o que ele faz tá bem feito.


Fiquei sabendo que a mulher que iria puxar o terço acabou indo bater numa outra festa da Santa Cruz que estava acontecendo naquela redondeza e como o terço já havia sido rezado, ela ficou indignada e foi embora, sem ao menos perguntar se a festa era a do seu Zizo. Espero que os pedidos dos devotos da capelinha do seu Zizo não tenham ficado parados na burocracia do céu, por falta do terço não rezado…

View Entire Post
28 comments  
1  2   3   4   > last