Dentro e Fora - por Chico Abelha
Saturday, 7 July 2012
posted by chico abelha


Aqui no Vale do Paraíba, a cada dia que passa, os processos artesanais de produção de alimentos estão afundando mais e mais no buraco escuro do esquecimento. Hoje, só quem faz uma farinha de milho ou de mandioca, uma rapadura ou uma taiada, é a gente mais velha, que acaba fazendo mais por saudosismo do que por necessidade. Comprar pronto é tão mais fácil e barato que ninguém quer se dar o trabalho de plantar, moer, torrar, cozinhar, apurar, secar, etc… Pra que fazer se o supermercado está aí na esquina, oferecendo variedades e sabores para todos os gostos e bolsos?


No entanto, graças a Deus, ainda existem algumas gentes teimosas, que insistem em fazer como antigamente. É o caso dos meus amigos lá no Bairrinho, que todos os anos fazem rapadura e taiada. Taiada, pra quem não sabe, é a rapadura com o acréscimo de farinha de mandioca e gengibre. Só comendo pra saber que gosto tem e eu garanto que é gostoso, menos enjoativo que a rapadura pura, que é feita só do caldo da cana apurado.


Pois bem, no inverno chove pouco, a cana está madura e o teor de açucar elevado. É o momento ideal para se fazer a rapadura. Sabendo do meu interesse pelo folclore e tudo que envolve a sabedoria popular, meus amigos do Bairrinho me convidaram para assistir o ritual da feitura da rapadura. Eles são uma família de origem rural, que andou flertando com a cidade por uns tempos, mas que acabou voltando para a roça. Seu Sebastião, dona Dora e seus filhos, Elder e Eden, moram num pedacinho do paraíso aqui na terra, cuidam de uma chácarazinha deliciosa na periferia da cidade, uma peça de resistência que vem bravamente enfrentando a especulação imobiliária que vem devorando a bocadas gulosas, a nossa combalida zona rural.



Cheguei cedo na chácara para fotografar o pessoal ainda decepando a cana, mas não deu tempo, ela já estava toda cortada e empilhada ao lado da moenda elétrica. Tinha sido cortada um dia antes, pra ir amolecendo e facilitar a moagem. Seu Sebastião já estava terminando de limpar a moenda e em seguida pos-se a enfiar a cana, explicando que as melhores variedades são a Javanesa, a Cristal e a Caiana verdadeira, que dão um caldo mais doce e bem clarinho.



Enquanto seu Sebastião vai moendo a cana, dona Dora limpa um enorme tacho de cobre, com ajuda de seu filho Elder. É preciso tirar todo zinabre, que é um baita veneno e isso se faz esfregando muito limão cravo com sal grosso, que atua como abrasivo. Eu não sei a capacidade do tacho, só sei que foram despejados bem uns 120 litros de caldo de cana ali dentro, devidamente coados num grande coador de pano. O bagaço que sobra da cana moída eles levam de peruzinho para se decompor ao lado da horta, que nesta família nada se perde, tudo volta para a terra, fechando o ciclo da vida.



Caldo coado já no tacho, é hora de acender o fogo no fogão construído pelo seu Sebastião. Éden, o filho mais novo, se encarrega de colocar os paus da maneira certa, que acender o fogo exige ciencia, não é qualquer um que faz não… E depois de aceso, tem que controlar bem, não pode ser muito fogo porque senão entorna o caldo e não pode ser pouco senão demora demais.



Quando o caldo começa a ferver, tem que ir tirando a espuma, procedimento que além de ajudar a não entornar, faz a rapadura ficar mais clarinha porque se remove as impurezas. O processo todo demora horas, dependendo da quantidade de caldo de cana. O pessoal vai revezando, porque o braço cansa e o calor é intenso ao lado do fogo.



Enquanto Eden, Elder e até mesmo eu cuidamos de mexer o caldo fervente, dona Dora vai preparar o almoço e seu Sebastião prepara as forminhas de madeira onde será despejada a rapadura no ponto certo. Aliás, é muito importante ficar atento ao ponto; tem o ponto de melado, ponto de açucar e ponto de rapadura. Tem gente que sabe do ponto só de olhar para o caldo fervendo, mas pra se ter certeza, o melhor é pegar um pouco de massa quente, jogar numa panela com água fria e ver o que acontece. Se formar uma bola consistente, que não se desfaz na mão, é chegada a hora de tirar o tacho do fogo e colocar no chão, continuar mexendo até esfriar um pouco e só então enformar, despejando nas forminhas uma por uma. Dez minutos depois a rapadura está durinha e pode ser desenformada.


 

 


Depois que o tacho esfria, sempre sobra um pouco de açucar endurecido grudado nas bordas. Diga-se de passagem aí está a origem do nome rapadura. Quando se fazia açucar no Brasil colonial, a sobra endurecida nos tachos era raspada pelos escravos, e assim foi batizado este delicioso doce nacional.


Como meus amigos do Bairrinho não gostam de perder nada, jogam uma agua quente no tacho “sujo” e com ela preparam o que chamam café de rapadura, uma bebida deliciosa, parecida com café, mas com um sabor mais suave.



Os homens terminam a faxina e dona Dora vai passar o café de rapadura na cozinha. Eu a acompanho pois quero registrar mais esta novidade que ainda não conhecia. Dona Dora gosta de conversar e eu de perguntar. Vou fuçando a vida dela, perguntando onde aprendeu isso e aquilo, é uma delícia escutar essa mulher, uma aula de história viva.


No meio da nossa conversa ela diz que se lembrou muito de mim quando foi visitar sua terra natal no fim de semana passado. Eu estranhei ela dizer isso, pois não tenho ligação com a cidade de Redenção da Serra. Perguntei a ela:


__Mas por que a senhora se lembrou de mim, dona Dora se eu nem conheço a cidade de Redenção?


__Ah, porque ocê gosta de fotografá as coisa véia e eu tava visitando a igreja de lá, que é de 1902 e virô um museu com essas coisa antiga, penêra, monjolo, sabe? Desse jeito de fazê de antigamente…


Não me contive e interrompi a fala dela com a minha risada solta. Ela riu também, porque dona Dora é uma pessoa de bem com a vida, pega carona fácil na felicidade do outro. Mas minha risada foi pelo inusitado da observação dela. As coisas que ela vê como antigas e velhas, eu vejo como novas e inspiradoras, para quando o homem esgotar essa sua mania de fazer em série e sem personalidade. Para quando a humanidade perceber que o artesanato dá sentido à vida, enquanto o mecanicismo empobrece o espírito.


Processos como este, feitos em escala familiar, sem cartão de ponto e salário, dignificam o homem e é o que a humanidade está precisando.


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Friday, 29 June 2012
posted by chico abelha

                      

 

Eu não sei bem como foi que aconteceu, mas o fato é que a bicicleta já não é mais o meu meio de transporte preferido. A velocidade se impôs ao bom senso. Em outras palavras, eu escolhi fazer mais coisas em menos tempo, o que, de bicicleta, seria humanamente impossível.


Eu poderia culpar os automóveis e o risco de ser atropelado pelo fato de ter abandonado a bicicleta. Ou então a prefeitura, que privilegia o automóvel e não constrói ciclovias e ainda por cima espalhou placas proibindo bicicletas em alguns dos principais corredores de tráfego. Mas não, fui eu mesmo quem escolheu mudar a velocidade do tempo e agora fico correndo atrás das horas, que me parecem cada vez mais curtas…


Ultimamente, a bicicleta, que já foi minha companheira inseparável nos deslocamentos urbanos, só tem me servido para um passeio eventual, quando consigo cair fora da camisa de força das metas e objetivos e deixo que o presente se imponha. Para estas escapadas, aproveito as horas mais calmas, quando todos estão dormindo ou assistindo uma final de campeonato, como na quarta-feira passada, durante o jogo do Corinthians e Boca Juniors. Sem carros trafegando, foi possível relaxar e me deixar levar pelo movimento repetido das pedaladas, como se elas fossem um mantra silencioso. Me percebi voltando no tempo, quando a cidade não era tão barulhenta e violenta e eu era o dono inquestionável do meu tempo. Porque, hoje, quem é que pode dizer que é dono do seu tempo?


A cortar o silêncio, de vez em quando algum rojão estourava – seria gol dos brasileiros ou dos argentinos? E eu lá me interesso por isso? Os fogos me lembram mais as festas juninas do que futebol ou qualquer outra coisa. E foi para uma dessas festas que minha nostalgia me transportou, trinta anos atrás, quando eu ainda namorava com aquela que seria minha primeira esposa.


Minha namorada era oriental, tinha o biotipo oriental mas eu a considerava muito mais brasileira que eu. Seu nome e compleição sugeriam uma origem chinesa, mas na verdade, em suas veias corria o sangue do povo do Império do Sol Nascente.


Liang era falante e extrovertida e suas roupas sempre tinham alguma coisa estrategicamente colocada, com o intuito evidente de pescar a atenção de olhos distraídos. O que me fascinava nela era uma mistura de docilidade e rebeldia, combinadas em doses que a tornavam irresistível, pelo menos para mim.


Pois bem, fazia muito frio naquela noite de junho, a festa de São João no CTA (área militar em que eu morava com minha familia) já ia terminando, a fogueira só nas brasas e nós tínhamos que acordar cedo no outro dia. Eu para trabalhar e ela para o cursinho pré-vestibular. Era começo de namoro e a gente estava com muita energia sobrando para simplesmente voltar para casa e dormir. Uma troca de olhares foi o suficiente para combinarmos que naquela noite iríamos, como em tantas outras, dormir no Hotel Castilho, uma espelunca localizada no centro da cidade, que nem banheiro nos quartos tinha…


Naquele tempo, eu não tinha carro ainda, nosso meio de transporte era a bicicleta e para ela nos dirigimos, a fim de pedalar os 5 km até o centro da cidade. Ao chegar na bicicleta, uma Caloi Barra Forte aro 24 vermelha, percebi que havia um grande volume amarrado no bagageiro. Olhei para Liang, ela me devolveu um sorriso maroto e eu entendi que aquele era seu presente de aniversário para mim. Desembrulhei o pacote de papel kraft e descobri um edredon com grandes quadrados vermelhos e amarelos, confeccionado por suas habilidosas mãos. Iríamos estreá-lo naquela noite mesmo!


Montamos na bicicleta, eu pedalando e ela na garupa, segurando com uma mão a minha cintura e com a outra o edredon, que tinha quase o mesmo tamanho que ela. Lá fomos nós, alegres de despreocupados, conversando pela madrugada fria e vazia de São José dos Campos do começo dos anos 1980. Não pensávamos, nem no que iam pensar daquela exótica dupla, nem em um possível assalto, isso era coisa de noticiário, não poderia acontecer nunca com a gente. Apenas nos deixávamos guiar pelos impulsos do corpo e do coração.


Ao chegarmos à Praça Afonso Pena, acorrentei a bicicleta em um poste em frente ao hotel, como sempre fiz todas as outras vezes. Pagamos adiantado, como era praxe neste tipo de estabelecimento e fomos logo para o quarto, pois não tínhamos muito tempo para curtirmos nossa liberdade antes do sol apontar no horizonte. Dormir, mesmo, era a última coisa que fazíamos, talvez durante uma ou duas horas. Naquela idade, dormir não era importante, o que contava era viver intensamente, de acordo com o que os instintos e a fantasia pedissem, ou melhor, exigissem!


Lá pelas 6h da manhã, a nosso pedido, o dono do hotel bateu na porta para nos acordar. Nos lavamos rapidamente na pia do quarto, com ajuda de uma toalha e fomos depois para a cozinha, tomar um café da manhã bem do ordinário; café com leite ralo, pão francês borrachento e margarina Saúde. Ruim que fosse, a gente comia com apetite, a fome aumentada pelas horas sem dormir.


A gente estava com pressa, eu ainda tinha que levar Liang para casa dela, mas ainda deu tempo de ler com o canto dos olhos a manchete do jornal O Vale Paraibano, nas mãos de um senhor sentado no saguão do hotel. Ela dizia: “Polícia às voltas com quadrilha de ladrões de bicicleta”. Claro que eu gelei e pensei no pior, mas relaxei quando saímos do hotel e vi que minha bike ainda estava amarrada ao poste. Mas à medida que nos aproximávamos dela, uma sensação de irrealidade foi me tomando. O guidon estava lá amarrado mas eu não conseguia ver o resto da bike! Cheguei a dar duas voltas no poste, em busca da parte faltante do meu veículo! Foi um choque! Era a primeira vez que a vida me levava algo de valor. Cheguei a abrir o cadeado e ia pegar o guidon que fora serrado do corpo da bike, mas me dei conta que seria inútil, um peso morto que eu ia carregar.


Voltamos de ônibus, cada um para sua casa. Eu me sentia como um general derrotado, sentado no ponto de ônibus, segurando aquele edredon colorido. Não conseguia ter raiva de quem me roubou, o sentimento era de frustração ao me deparar com a inexorabilidade da perda. Este episódio marcou o começo do fim da minha inocencia.


Depois desse revés, passei bem uns 20 anos sem bicicleta, acabei me mudando pra roça e quem me levava pra cima e pra baixo era um fusquinha velho. Foi só quando voltei para a cidade que arrumei uma outra bike e nunca mais tive coragem de amarra-la em um poste na rua, deixo sempre em estacionamento de carros ou dentro de alguma casa.

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Wednesday, 25 April 2012
posted by chico abelha

                     


Urano é o planeta do imprevisível, das mudanças súbitas, de tudo aquilo que é original e excêntrico. Minha esposa é uma aquariana, de modo que eu posso esperar qualquer coisa dela, menos um relacionamento programado e sem sobressaltos. Talvez minha vida estivesse muito morna e sem sal quando me decidi por esta mulher; não sei. O fato é que já me acostumei a não ter nenhuma expectativa sobre o dia de amanhã. Ficar ao lado dela tem sido um ótimo exercício de desapego às idéias fixas e hábitos arraigados.


Semana passada, por exemplo, nós dois tínhamos a certeza (?) de que nossas vidas de aposentados, passaríamos numa roça bem distante da cidade, cuidando de um sitiozinho orgânico na serra da Mantiqueira. Eu já tinha traçado um plano detalhado, de como seria meu regresso à natureza, num lugar com muita água e floresta. Mas acontece que no meio da semana houve mudança de planos e por sugestão de uma paciente dela, fomos visitar um terreno na periferia da cidade, numa região que eu desconhecia e que imaginava muito deteriorada. Ledo engano! O local está bem conservado e a cidade ainda não conseguiu botar seus tentáculos por ali.


Na verdade, se fosse só por mim, eu nunca teria ido, pois a região que fomos visitar é muito próxima da cidade. Mas dessa vez resolvi fazer a vontade da esposa, até para não ter que conviver com cara feia… Assim, num ensolarado sábado de manhã, que eu teria passado junto às minhas plantinhas na horta, fiz o enorme sacrifício de ir conhecer um condomínio fechado, em nome da paz e da tranquilidade no meu relacionamento.


Já no caminho, uns 8km de uma agradável e pacata estrada asfaltada, o ambiente bucólico se fazia sentir. Comecei a mudar conceito, ou melhor, o preconceito que eu tinha daquela região. Decidi vestir a fantasia de comprador interessado e que fosse o que Deus quisesse. Afinal, eu não tinha muito a perder.


O porteiro nos recebeu com um sorriso, coisa incomum em portarias de condomínios fechados e nos apresentou o corretor, sr Kazuo. O sr Kazuo é um nissei muito simpático, que, com uma paciência que só os orientais tem, nos mostrou cada lote que havia disponível para venda; o que não era pouca coisa, pois o empreendimento é relativamente novo. Imagino que na intenção de nos agradar e estando acostumado com outro tipo de cliente, seu discurso salientava vantagens que não eram exatamente as que estávamos procurando. Foi dificil faze-lo entender que queríamos um lote mais afastado, contíguo à area de preservação, grudado mesmo com a floresta. Para ele, o ideal seria um lote ao lado das benfeitorias, da pista de bocha e dos equipamentos de fitness, cercado de vizinhos e de cimento…


Sendo zona rural, eu não tinha dúvida que a água ali seria de poço artesiano ou talvez de uma nascente ali mesmo. Para desencargo de consciência, perguntei ao sr Kazuo, que prontamente me respondeu:


__Ah! Água é da Sabesp,  muito boa, com isso o senhor não precisa se preocupar.


__Como assim, sr Kazuo, da Sabesp? São 8km daqui até a cidade, eles estenderam tubulação até aqui?


__Não, a água é de poço artesiano, mas o senhor não se preocupe que é tratada  e esterelizada pela Sabesp aqui no condomínio mesmo, não sobra nenhum microorganismo vivo!


O sr Kazuo falava aquilo como se fosse uma grande vantagem e eu nem me dei o trabalho de explicar que preferia água viva, de nascente, sem os venenos que a companhia de abastecimento coloca na nossa água…


Depois de mais de hora rodando no condomínio, minha esposa e eu nos entendemos e decidimos perguntar o preço de um lote que tinha conseguido a proeza de agradar nós dois.


__Sr Kazuo, aquele lote que tem o cupinzeiro, quanto…


Ele nem me deixou terminar a frase, me interrompeu, achando que eu poderia estar preocupado com um ataque de cupins…


__Sr Francisco não precisa se preocupar, esses cupins não são os mesmos que comem a madeira, pode construir no local tranquilamente, que eles não vão atacar sua casa.


Mais uma vez eu não retruquei, deixei ele continuar com ideia de que éramos clientes convencionais, assustados com a natureza. O que eu queria mesmo era saber o preço do único lote que tinha nos interessado ali. Para minha surpresa, o valor era razoável e compatível com nosso orçamento. Foi o que bastou para eu começar a mudar de ideia e considerar abrir mão do sonho de morar na roça. Um clima de encantamento tomou conta de nós, era visivel que minha esposa tinha ficado muito animada e, surpreendentemente, eu também embarcara na onda.


Ficamos de fazer uma contraproposta e na hora de ir embora, vi que havia algumas casas simples a uns 500m do condominio e perguntei quem eram os moradores. O sr Kazuo não pode esconder seu embaraço, quase ficou gago, e como deve ser uma pessoa que não sabe mentir, confessou:


__Sr Francisco, essas casas são de um assentamento de sem-terra, mas o senhor não precisa se preocupar que nosso sistema se segurança é muito bom, os muros são fortes e temos sensor no perímetro todo.


Disse isso quase que pedindo desculpas pela presença dos assentados. Mal sabia ele que, no meu modo de ver, isso não era, de modo nenhum, um ponto negativo. Eu me lembrei que esses assentados são os produtores de quem eu habitualmente compro verduras e legumes orgânicos, numa feirinha semanal, um pessoal que há tempos eu vinha ensaiando visitar.

Fiz cara de paisagem e, mais outra vez, não disse nada, ia dar trabalho explicar isso pra ele, nem acho que conseguiria tal façanha! Voltamos para casa e discutimos os prós e os contras de morar naquele local. Os prós ganharam de goleada e no mesmo dia à noite fizemos a contra-proposta, que no domingo mesmo foi aceita, quase que integralmente pela incorporadora.


No dia seguinte, uma segunda feira, eu voltei ao terreno com uma cavadeira, para cavar uns buracos aqui e eli e me certificar que o terreno era firme. Enquanto eu estava furando o solo, perdido no meio da braquiária, apareceu o Domenico, que se apresentou como o zelador do condomínio. Achei estranho, pois o sr Kazuo nem comentou que o condomínio tinha um zelador. Mas o Domenico se impôs pela simpatia e vontade de ajudar, seu discurso passou confiança. Logo percebi seu interesse pela preservação da natureza e amor pelo trabalho.


Terminados meus buracos e feita a confirmação de que o terreno era firme, Domenico me convidou para corrermos as divisas. Ele me mostrou os açudes cheios de peixes, as frutíferas que havia plantado e já estavam produzindo, me levou até uma nascente na mata, trocamos idéia sobre algumas ervas medicinais; acabamos passando bem umas tres horas explorando o condominio, indo a lugares que um morador comum nunca iria. Demos até uma escapada ao assentamento, onde travei conhecimento com o pessoal e conseguimos umas frutas frequinhas, colhidas no pé. Foi uma troca muito proveitosa.


Na hora de nos despedirmos, o Domênico, entusiasmado, disse:


__Seu Chico, na próxima gestação o senhor tem que ser o síndico aqui do condominio. O senhor é muito diferente do pessoal de poder requisitivo que eu conheço, o senhor pensa igual à gente!


Prometi a ele que ia gestar a ideia de ser síndico, conforme  me foi requisitado… Daquele momento em diante me senti como se já estivesse morando naquele condominio. E tudo isso aconteceu em questão de menos de 3 dias!

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Monday, 16 April 2012
posted by chico abelha

Quem chega a Luminosa, vindo pela estrada do Bairro Cantagalo, é presenteado com uma vista ímpar deste povoado, distrito de Brazópolis MG. Visto de longe, o casario representa que é um presépio muito bem arrumadinho, no meio de um imenso vale cercado por altas montanhas. As casinhas todas ajuntadas, formando um anel em torno da igreja de Nossa Senhora da Candelária, me lembrou uma cidadela medieval. Em volta do anel de casas, um mosaico de tons de verde, formado por plantações de banana, eucalipto, milho e os pastos.

 

                        


Luminosa é um pouso do roteiro do Caminho da Fé, um percurso de uns 500 km, que começa em Tambaú SP e termina em Aparecida do Norte, onde fica a imagem da padroeira do Brasil. Meu interesse em Luminosa não tinha nada a ver com fé, eu estava ali procurando o local que poderia vir a ser minha futura morada. Um pedacinho de uns 3 alqueires, para eu passar o resto de minha existência bem longe dessa loucura, que é a vida na cidade. É verdade que me encantei com o nome, Luminosa, que despertou fantasias de um lugarejo encantado, em que a Luz imperava sobre as Trevas. Isso durou até eu botar os meus pés na praça principal...


Antes de chegarmos ao povoado, por sugestão do Juarez, que foi nosso guia na região, demos uma parada no alambique do Guido, um aposentado, ex-funcionário da Telefônica, que resolveu produzir pinga nas terras do sogro. Fiquei encantado com o lugar, pois o que o Guido construiu, é mais ou menos o que eu pretendo para mim num futuro próximo. Além do alambique, Guido adaptou a sede da fazenda e recebe peregrinos, que tem a opção de comer no restaurante, comandado por dona Eloá, sua simpática e falante esposa.


A propriedade é grande, tem espaço sobrando para a manada de búfalos que corre solta pelos pastos. O ambiente é bem rural, não tem nada a ver com esses hotéis fazenda em que se pode circular de salto alto pelas dependências. Ali é pé no barro mesmo.


A principal atração do local são as pingas, de modo que Guido nem pergunta se queremos ou não ouvir e já começa a discorrer sobre os diversos tipos de destilação e mistura que prepara. São pelo menos uns 20 tipos diferentes de pinga que ele deixa descansando com frutas e ervas. Tem pinga com banana, jaboticaba, maracujá, café, cravo e canela, lima e cambuci. E cada uma dessas o fregues tem o direito de experimentar. Eu não tinha ido ali comprar pinga, mas depois das histórias e da degustação, não dá para não comprar nada. Acabei levando uma garrafa de pinga com cambuci, que é uma fruta silvestre muito azeda, com um perfume delicioso, que parece um disco voador, segundo alguns e uma empada, segundo outros. É pratimente desconhecida da gente da cidade. Quando se fala em cambuci, as pessoas associam à pimenta, não à fruta.

 

                               



Depois das pingas, assuntamos um pouco sobre terras à venda e já íamos embora, quando eu vi um pé que suspeitei que fosse de ora-pro-nobis, uma trepadeira espinhuda, cujas folhas são altamente proteicas. Como faz tempo que eu procuro uma muda dessa planta, pedi um galhinho, depois de confirmar com dona Eloá, que era mesmo a tal ora-pro-nobis. Dona Eloá é uma figura, apesar de ter morado em São Paulo, é nascida ali mesmo e tem grande conhecimento de tudo que é coisa de roça. Nossa conversa engatou e fomos longe, falando de matos que se usa comer. Bredo, taioba, serralha, bertalha e mais um tanto de folhagem que o pessoal joga fora e não dá a mínima bola, tipo folha de mandioca, batata doce, etc…

 

                            


Dona Eloá, vendo meu interesse pelas plantas e sabendo que íamos a Luminosa, me preveniu que eu ia ficar muito chateado quando chegasse no povoado.


__Mas por que, dona Eloá? Eu estou gostando tanto daqui, foi amor à primeira vista, desde lá em cima do morro, quando vinhamos descendo. Isso aqui é um beleza, parece um pedacinho do paraíso na Terra…


__Ah é! Mas isso é porque você ainda não chegou na pracinha e não viu as árvores que quase morreram, sufocadas de tanta fumaça de maconha.
 

__Como assim? Que história esquisita é essa?
 

Dona Eloá deu uma risada gostosa e emendou:


__Elas foram condenadas, ficaram doentes de tanta maconha que respiraram e tiveram que sofrer uma amputação… Vá ver com seus próprios olhos, daí você vai entender o que eu estou dizendo.


Saímos dali intrigados com a história da mulher. Quem sabe foi efeito do álcool, pois durante a nossa conversa ela enxugou um copo americano cheinho de pinga! Mas logo que chegamos ao povoado, uma visão terrível nos fez pensar que talvez a história de dona Eloá não fosse assim tão descabida. O que vimos foram os tocos de umas vinte árvores grossas que havia sido cortadas e de onde rebrotavam alguns galhinhos verdes, um horror! Quem tivera a coragem de cometer tal crime e para que? Teriam as árvores ficado doentes mesmo e por segurança tiveram suas copas podadas? Mas eram árvores de diferentes espécies, não podiam todas ficar doentes de uma hora para outra! Teria sido um vendaval? Mas neste caso as casas teriam sido destruidas também. Eu não encontrava uma justificativa plausível para a cena degradante daquelas árvores despojadas de sua dignidade e reduzidas a meros troncos com desajeitadas perucas verdes. Uma cena feia de ver, tão feia e triste que eu nem quis fotografar.


Indignado e curioso para saber o que tinha acontecido, resolvi perguntar na venda da praça, um armazém de secos e molhados, desses que vendem de tudo e que não existem mais nas cidades maiores. No balcão, Dona Cleide e sua filha Bernardete, modorrentamente saboreavam uma pipoca fria, espalhada em uma assadeira de bolo e um café doce e fraco. Mal entramos e já fomos convidados a partilhar do banquete. Na roça, é desfeita não aceitar, cada um pegou um copinho de café e um punhado de pipocas. Com a fome que eu estava, até que não achei tão ruim… Nessas comunidades pequenas, logo que veem que somos de fora, é comum perguntarem o que estamos achando do lugar. Foi o que Bernardete fez e ao que respondi.


__Olha, aqui é muito bonito, mas não estou entendendo esses tocos de árvores cortadas. Me disseram que elas estavam condenadas e foram cortadas por isso, é verdade?


__Ah! As árvores da praça, é uma tristeza o que houve, mas não teve jeito. Eles tiveram que cortar para instalar as cameras de vigilância. Se não cortassem as árvores, as cameras não iam poder vigiar nada. O povo ficou revortado, muita gente não gostou, mas não tinha o que fazer.


__Mas por que vocês não se mobilizaram, não fizeram um abaixo assinado para resolver o problema de outra maneira, sem ter que cortar as árvores?


Não sei se ela não entendeu o que eu perguntei, mas a resposta que me deu foi esta:


__A gente fez um abaixo assinado, mas foi para não construir um banheiro na praça.


__Como assim, não estou entendendo?


__É que se fizessem o banheiro, os maconheiros iam se esconder lá para fazer suas safadezas, não ia adiantar as cameras…


Subitamente, se apagaram todas as luzes da fantasia que eu fiz do povoado de Luminosa e ela mergulhou numa região de trevas escuras… Pedi ajuda a Nossa Senhora da Candelária, que mande muita luz para aquele povo.

                                                           

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