Dentro e Fora - por Chico Abelha
Saturday, 7 July 2012
posted by chico abelha


Aqui no Vale do Paraíba, a cada dia que passa, os processos artesanais de produção de alimentos estão afundando mais e mais no buraco escuro do esquecimento. Hoje, só quem faz uma farinha de milho ou de mandioca, uma rapadura ou uma taiada, é a gente mais velha, que acaba fazendo mais por saudosismo do que por necessidade. Comprar pronto é tão mais fácil e barato que ninguém quer se dar o trabalho de plantar, moer, torrar, cozinhar, apurar, secar, etc… Pra que fazer se o supermercado está aí na esquina, oferecendo variedades e sabores para todos os gostos e bolsos?


No entanto, graças a Deus, ainda existem algumas gentes teimosas, que insistem em fazer como antigamente. É o caso dos meus amigos lá no Bairrinho, que todos os anos fazem rapadura e taiada. Taiada, pra quem não sabe, é a rapadura com o acréscimo de farinha de mandioca e gengibre. Só comendo pra saber que gosto tem e eu garanto que é gostoso, menos enjoativo que a rapadura pura, que é feita só do caldo da cana apurado.


Pois bem, no inverno chove pouco, a cana está madura e o teor de açucar elevado. É o momento ideal para se fazer a rapadura. Sabendo do meu interesse pelo folclore e tudo que envolve a sabedoria popular, meus amigos do Bairrinho me convidaram para assistir o ritual da feitura da rapadura. Eles são uma família de origem rural, que andou flertando com a cidade por uns tempos, mas que acabou voltando para a roça. Seu Sebastião, dona Dora e seus filhos, Elder e Eden, moram num pedacinho do paraíso aqui na terra, cuidam de uma chácarazinha deliciosa na periferia da cidade, uma peça de resistência que vem bravamente enfrentando a especulação imobiliária que vem devorando a bocadas gulosas, a nossa combalida zona rural.



Cheguei cedo na chácara para fotografar o pessoal ainda decepando a cana, mas não deu tempo, ela já estava toda cortada e empilhada ao lado da moenda elétrica. Tinha sido cortada um dia antes, pra ir amolecendo e facilitar a moagem. Seu Sebastião já estava terminando de limpar a moenda e em seguida pos-se a enfiar a cana, explicando que as melhores variedades são a Javanesa, a Cristal e a Caiana verdadeira, que dão um caldo mais doce e bem clarinho.



Enquanto seu Sebastião vai moendo a cana, dona Dora limpa um enorme tacho de cobre, com ajuda de seu filho Elder. É preciso tirar todo zinabre, que é um baita veneno e isso se faz esfregando muito limão cravo com sal grosso, que atua como abrasivo. Eu não sei a capacidade do tacho, só sei que foram despejados bem uns 120 litros de caldo de cana ali dentro, devidamente coados num grande coador de pano. O bagaço que sobra da cana moída eles levam de peruzinho para se decompor ao lado da horta, que nesta família nada se perde, tudo volta para a terra, fechando o ciclo da vida.



Caldo coado já no tacho, é hora de acender o fogo no fogão construído pelo seu Sebastião. Éden, o filho mais novo, se encarrega de colocar os paus da maneira certa, que acender o fogo exige ciencia, não é qualquer um que faz não… E depois de aceso, tem que controlar bem, não pode ser muito fogo porque senão entorna o caldo e não pode ser pouco senão demora demais.



Quando o caldo começa a ferver, tem que ir tirando a espuma, procedimento que além de ajudar a não entornar, faz a rapadura ficar mais clarinha porque se remove as impurezas. O processo todo demora horas, dependendo da quantidade de caldo de cana. O pessoal vai revezando, porque o braço cansa e o calor é intenso ao lado do fogo.



Enquanto Eden, Elder e até mesmo eu cuidamos de mexer o caldo fervente, dona Dora vai preparar o almoço e seu Sebastião prepara as forminhas de madeira onde será despejada a rapadura no ponto certo. Aliás, é muito importante ficar atento ao ponto; tem o ponto de melado, ponto de açucar e ponto de rapadura. Tem gente que sabe do ponto só de olhar para o caldo fervendo, mas pra se ter certeza, o melhor é pegar um pouco de massa quente, jogar numa panela com água fria e ver o que acontece. Se formar uma bola consistente, que não se desfaz na mão, é chegada a hora de tirar o tacho do fogo e colocar no chão, continuar mexendo até esfriar um pouco e só então enformar, despejando nas forminhas uma por uma. Dez minutos depois a rapadura está durinha e pode ser desenformada.


 

 


Depois que o tacho esfria, sempre sobra um pouco de açucar endurecido grudado nas bordas. Diga-se de passagem aí está a origem do nome rapadura. Quando se fazia açucar no Brasil colonial, a sobra endurecida nos tachos era raspada pelos escravos, e assim foi batizado este delicioso doce nacional.


Como meus amigos do Bairrinho não gostam de perder nada, jogam uma agua quente no tacho “sujo” e com ela preparam o que chamam café de rapadura, uma bebida deliciosa, parecida com café, mas com um sabor mais suave.



Os homens terminam a faxina e dona Dora vai passar o café de rapadura na cozinha. Eu a acompanho pois quero registrar mais esta novidade que ainda não conhecia. Dona Dora gosta de conversar e eu de perguntar. Vou fuçando a vida dela, perguntando onde aprendeu isso e aquilo, é uma delícia escutar essa mulher, uma aula de história viva.


No meio da nossa conversa ela diz que se lembrou muito de mim quando foi visitar sua terra natal no fim de semana passado. Eu estranhei ela dizer isso, pois não tenho ligação com a cidade de Redenção da Serra. Perguntei a ela:


__Mas por que a senhora se lembrou de mim, dona Dora se eu nem conheço a cidade de Redenção?


__Ah, porque ocê gosta de fotografá as coisa véia e eu tava visitando a igreja de lá, que é de 1902 e virô um museu com essas coisa antiga, penêra, monjolo, sabe? Desse jeito de fazê de antigamente…


Não me contive e interrompi a fala dela com a minha risada solta. Ela riu também, porque dona Dora é uma pessoa de bem com a vida, pega carona fácil na felicidade do outro. Mas minha risada foi pelo inusitado da observação dela. As coisas que ela vê como antigas e velhas, eu vejo como novas e inspiradoras, para quando o homem esgotar essa sua mania de fazer em série e sem personalidade. Para quando a humanidade perceber que o artesanato dá sentido à vida, enquanto o mecanicismo empobrece o espírito.


Processos como este, feitos em escala familiar, sem cartão de ponto e salário, dignificam o homem e é o que a humanidade está precisando.


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Monday, 16 April 2012
posted by chico abelha

Quem chega a Luminosa, vindo pela estrada do Bairro Cantagalo, é presenteado com uma vista ímpar deste povoado, distrito de Brazópolis MG. Visto de longe, o casario representa que é um presépio muito bem arrumadinho, no meio de um imenso vale cercado por altas montanhas. As casinhas todas ajuntadas, formando um anel em torno da igreja de Nossa Senhora da Candelária, me lembrou uma cidadela medieval. Em volta do anel de casas, um mosaico de tons de verde, formado por plantações de banana, eucalipto, milho e os pastos.

 

                        


Luminosa é um pouso do roteiro do Caminho da Fé, um percurso de uns 500 km, que começa em Tambaú SP e termina em Aparecida do Norte, onde fica a imagem da padroeira do Brasil. Meu interesse em Luminosa não tinha nada a ver com fé, eu estava ali procurando o local que poderia vir a ser minha futura morada. Um pedacinho de uns 3 alqueires, para eu passar o resto de minha existência bem longe dessa loucura, que é a vida na cidade. É verdade que me encantei com o nome, Luminosa, que despertou fantasias de um lugarejo encantado, em que a Luz imperava sobre as Trevas. Isso durou até eu botar os meus pés na praça principal...


Antes de chegarmos ao povoado, por sugestão do Juarez, que foi nosso guia na região, demos uma parada no alambique do Guido, um aposentado, ex-funcionário da Telefônica, que resolveu produzir pinga nas terras do sogro. Fiquei encantado com o lugar, pois o que o Guido construiu, é mais ou menos o que eu pretendo para mim num futuro próximo. Além do alambique, Guido adaptou a sede da fazenda e recebe peregrinos, que tem a opção de comer no restaurante, comandado por dona Eloá, sua simpática e falante esposa.


A propriedade é grande, tem espaço sobrando para a manada de búfalos que corre solta pelos pastos. O ambiente é bem rural, não tem nada a ver com esses hotéis fazenda em que se pode circular de salto alto pelas dependências. Ali é pé no barro mesmo.


A principal atração do local são as pingas, de modo que Guido nem pergunta se queremos ou não ouvir e já começa a discorrer sobre os diversos tipos de destilação e mistura que prepara. São pelo menos uns 20 tipos diferentes de pinga que ele deixa descansando com frutas e ervas. Tem pinga com banana, jaboticaba, maracujá, café, cravo e canela, lima e cambuci. E cada uma dessas o fregues tem o direito de experimentar. Eu não tinha ido ali comprar pinga, mas depois das histórias e da degustação, não dá para não comprar nada. Acabei levando uma garrafa de pinga com cambuci, que é uma fruta silvestre muito azeda, com um perfume delicioso, que parece um disco voador, segundo alguns e uma empada, segundo outros. É pratimente desconhecida da gente da cidade. Quando se fala em cambuci, as pessoas associam à pimenta, não à fruta.

 

                               



Depois das pingas, assuntamos um pouco sobre terras à venda e já íamos embora, quando eu vi um pé que suspeitei que fosse de ora-pro-nobis, uma trepadeira espinhuda, cujas folhas são altamente proteicas. Como faz tempo que eu procuro uma muda dessa planta, pedi um galhinho, depois de confirmar com dona Eloá, que era mesmo a tal ora-pro-nobis. Dona Eloá é uma figura, apesar de ter morado em São Paulo, é nascida ali mesmo e tem grande conhecimento de tudo que é coisa de roça. Nossa conversa engatou e fomos longe, falando de matos que se usa comer. Bredo, taioba, serralha, bertalha e mais um tanto de folhagem que o pessoal joga fora e não dá a mínima bola, tipo folha de mandioca, batata doce, etc…

 

                            


Dona Eloá, vendo meu interesse pelas plantas e sabendo que íamos a Luminosa, me preveniu que eu ia ficar muito chateado quando chegasse no povoado.


__Mas por que, dona Eloá? Eu estou gostando tanto daqui, foi amor à primeira vista, desde lá em cima do morro, quando vinhamos descendo. Isso aqui é um beleza, parece um pedacinho do paraíso na Terra…


__Ah é! Mas isso é porque você ainda não chegou na pracinha e não viu as árvores que quase morreram, sufocadas de tanta fumaça de maconha.
 

__Como assim? Que história esquisita é essa?
 

Dona Eloá deu uma risada gostosa e emendou:


__Elas foram condenadas, ficaram doentes de tanta maconha que respiraram e tiveram que sofrer uma amputação… Vá ver com seus próprios olhos, daí você vai entender o que eu estou dizendo.


Saímos dali intrigados com a história da mulher. Quem sabe foi efeito do álcool, pois durante a nossa conversa ela enxugou um copo americano cheinho de pinga! Mas logo que chegamos ao povoado, uma visão terrível nos fez pensar que talvez a história de dona Eloá não fosse assim tão descabida. O que vimos foram os tocos de umas vinte árvores grossas que havia sido cortadas e de onde rebrotavam alguns galhinhos verdes, um horror! Quem tivera a coragem de cometer tal crime e para que? Teriam as árvores ficado doentes mesmo e por segurança tiveram suas copas podadas? Mas eram árvores de diferentes espécies, não podiam todas ficar doentes de uma hora para outra! Teria sido um vendaval? Mas neste caso as casas teriam sido destruidas também. Eu não encontrava uma justificativa plausível para a cena degradante daquelas árvores despojadas de sua dignidade e reduzidas a meros troncos com desajeitadas perucas verdes. Uma cena feia de ver, tão feia e triste que eu nem quis fotografar.


Indignado e curioso para saber o que tinha acontecido, resolvi perguntar na venda da praça, um armazém de secos e molhados, desses que vendem de tudo e que não existem mais nas cidades maiores. No balcão, Dona Cleide e sua filha Bernardete, modorrentamente saboreavam uma pipoca fria, espalhada em uma assadeira de bolo e um café doce e fraco. Mal entramos e já fomos convidados a partilhar do banquete. Na roça, é desfeita não aceitar, cada um pegou um copinho de café e um punhado de pipocas. Com a fome que eu estava, até que não achei tão ruim… Nessas comunidades pequenas, logo que veem que somos de fora, é comum perguntarem o que estamos achando do lugar. Foi o que Bernardete fez e ao que respondi.


__Olha, aqui é muito bonito, mas não estou entendendo esses tocos de árvores cortadas. Me disseram que elas estavam condenadas e foram cortadas por isso, é verdade?


__Ah! As árvores da praça, é uma tristeza o que houve, mas não teve jeito. Eles tiveram que cortar para instalar as cameras de vigilância. Se não cortassem as árvores, as cameras não iam poder vigiar nada. O povo ficou revortado, muita gente não gostou, mas não tinha o que fazer.


__Mas por que vocês não se mobilizaram, não fizeram um abaixo assinado para resolver o problema de outra maneira, sem ter que cortar as árvores?


Não sei se ela não entendeu o que eu perguntei, mas a resposta que me deu foi esta:


__A gente fez um abaixo assinado, mas foi para não construir um banheiro na praça.


__Como assim, não estou entendendo?


__É que se fizessem o banheiro, os maconheiros iam se esconder lá para fazer suas safadezas, não ia adiantar as cameras…


Subitamente, se apagaram todas as luzes da fantasia que eu fiz do povoado de Luminosa e ela mergulhou numa região de trevas escuras… Pedi ajuda a Nossa Senhora da Candelária, que mande muita luz para aquele povo.

                                                           

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Tuesday, 27 March 2012
posted by chico abelha

                      


Meu recente trabalho como pesquisador de Folclore tem me colocado em contato com pessoas ímpares. É gente que faz o que faz porque gosta, porque precisa saciar uma fome da alma; gente em cujas vidas não existe distinção entre o sagrado e o profano.


Domingo passado meu grupo de trabalho foi visitar uma dessas pessoas, dona Mariana, uma pérola escondida na zona rural de Caçapava, SP. Nosso interesse por ela surgiu da necessidade de registrar uma manifestação de fé que vem desaparecendo nos últimos tempos, a “Recomenda de Almas”, também conhecida como “Encomenda de Almas” ou “Recomendação de Almas”, dependendo de onde ela tem lugar. Em resumo, a recomenda de almas consiste em um grupo de pessoas, vestidos de branco, que saem durante a Quaresma, carregando uma vela, um crucifixo, altas horas da noite, cantando e rezando pelas almas que padecem no inferno, purgatório ou vagam pelo espaço. Que fique bem claro, este ritual de "Recomenda de Almas" é praticado por católicos. 


Curiosa nata, dona Mariana é uma espécie de “antropóloga informal”,  o que, a meu ver, a torna ainda mais interessante. Coincidência ou não, lá pelos 9 anos de idade, o primeiro programa que viu na televisão, recém-chegada à sua casa, foi uma emissão sobre índios da Amazônia. Desde então, acalentou o sonho de ir conhece-los em seu habitat natural. Aos 21 anos conseguiu realizar o sonho, ela era auxiliar de enfermagem e pegou carona com um médico da Escola Paulista de Medicina, que fazia um trabalho entre os indios no Pará.


Mariana conseguiu autorizações e permissões da Funai e depois de fazer alguns cursos de especialização, começou um trabalho na área de medicina preventiva. Aprendeu o dialeto local e passou a viver entre os indios. Nesta época, conheceu um indio que morava na cidade e os dois se apaixonaram, casaram-se e quis o destino que viessem morar em Caçapava, onde estão há 30 e tantos anos.


Viveram um tempo na cidade e pouco tempo depois mudaram-se para zona rural, neste endereço onde os encontramos, o Bairro da Tataúba (que quer dizer “madeira boa de pegar fogo, na lingua tupi”). Nesta localidade, Mariana descobriu com os antigos, o povo de mais idade, que havia algumas tradições que estavam morrendo, dentre elas a Recomendação das Almas. Mais que depressa, ela anotou todas as rezas deste rito, antes que essas pessoas morressem, pois a tradição era apenas oral e iria desaparecer com a morte dos poucos que a conheciam.


Mariana a não pode deixar de notar a semelhança que havia entre este ritual de encomenda de almas e o que ela tinha vivenciado durante o tempo que viveu nas diversas tribos indígenas no norte do país. O respeito aos mortos e as rezas para as almas eram muito semelhantes. Os indios tem grande respeito pelas almas, chegando mesmo a enterrar os corpos na soleira de suas casas, umm mode de assegurar que as almas fiquem por perto dos vivos. Nos dois casos, passam um ano realizando rezas para que as almas se encaminhem ao céu.


Isso tudo incentivou Mariana a reabilitar a tradição na comunidade de Tataúba, o que vem fazendo há mais de 8 anos. Foram as informações sobre este ritual que fomos buscar com Mariana, domingo passado. Como precisávamos do audio das rezas, pedimos a ela que entoasse as mesmas. Mariana vestiu-se a caráter, colocou um véu branco sobre sua cabeça, acendeu um vela diante de um pequeno altar que mantém em sua sala, compenetrou-se e deu início às ladainhas, lendo as rezas de um caderninho em que havia compilado tudo à mão. Não parecia uma encenação, pelo menos não para mim.


Terminado nosso trabalho, já estávamos indo embora, eu fiquei a sós com dona Mariana por um instante, ela me pegou pelo braço e perguntou baixinho:


__Francisco, você tem alguma parente próxima que morreu recentemente?


Que eu soubesse, não, não tinha ninguém. Ela continuou:


__Pois bem, havia a alma de mulher aqui, agora, enquanto eu rezava, e a figura dela me lembrou você, por isso perguntei. Se você se lembrar quem é, saiba que ela foi bem recomendada.


Eu agradeci, entrei no carro e partimos de volta para São José dos Campos. Não demorou muito, ainda no caminho de casa, recebi uma ligação telefônica me dizendo que minha irmã, que lutava contra um cancer já há mais de ano, tinha acabado de falecer. Eu a vi claramente indo ao encontro da Luz.


                      


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Sunday, 11 March 2012
posted by chico abelha

 

É um defeito meu querer me ocupar, estar sempre fazendo algo útil e produtivo. Na verdade é mais que um defeito, é pior, é um vício disfarçado de virtude. Porque o se ocupar é visto como uma boa qualidade no meio em que fui criado. Existe até um dito popular que afirma - O ócio é a oficina do diabo. Imagino que isso tenha um peso enorme sobre a consciência da maioria das pessoas, ninguém questiona, é como se esta informação já viesse impressa no DNA.


Definitivamente, a sociedade não vê com bons olhos um ser desocupado e eu, como a maioria, prefiro não ser visto com maus olhos, de modo que procuro me ocupar o tempo todo… Ou procurava, até sexta feira passada, quando eu perambulava pelo centro da cidade, esperando que o mecânico desse um jeito no suspiro do tanque de combustível do meu carro, que estava entupido.


Como o conserto deveria ser rápido, coisa de umas duas horas, decidi não percorrer os 7 km de volta pra casa e fiquei ali pelo centro mesmo, passeando entre os camelôs que agora infestam a região. Percorri as bancas montadas na praça, em frente à Igreja Matriz e uma passada de olhos rápida nos títulos dos DVDs não me mostrou nada interessante, só blockbusters. Eu já havia caminhado uns 20 minutos, com uma pesada mochila às costas (por causa do computador, caso eu resolvesse trabalhar um pouco enquanto esperava), e procurei um banco sob as árvores, para descansar. Mas cadê que eu encontrava um banco vazio? Estavam todos ocupados por… desocupados! Daquele tipo de desocupados que você vê que não estão fazendo nada mesmo. Um pensamento rápido me passou pela cabeça – “Será que essa gente não tem mais o que fazer da vida além de se sentar num banco de praça?” Ao mesmo tempo que tive a impressão de que eles me olhavam como se eu fosse um estrangeiro perdido, recém-chegado ao país dos desocupados…


Que fazer? As costas já me doíam, eu estava a ponto de me sentar ali no chão da praça mesmo quando me lembrei que dentro da igreja há bancos, e que além de ser bem fresquinho, seria também um descanso para os ouvidos. Adentrei o templo quase vazio, sentei-me no ultimo banco, depositei a mochila a meu lado e pude, finalmente, relaxar. Respirei fundo um par de vezes, tentei meditar, mas foi impossível, não consegui ficar parado, observando o ar entrando e saindo das minhas narinas. Senti uma vontade irresistível de abrir o computador e começar um relato sobre as minhas impressões do centro da cidade. Mas eu não podia fazer isso ali, seria muito desrespeitoso. Quer dizer, poder eu podia, mas não queria que me expulsassem do templo como Jesus fez com os vendilhões, isso não! Quem sabe um banco não havia vagado na praça?


Saí da igreja e procurei um banco, mas ainda não havia nenhum lugar vago. Na verdade havia chegado mais gente, a cidade começava a se encher, o sol cada vez mais quente e eu cogitei voltar pra casa. Já ia caminhando na direção da  rodoviária, pra pegar o ônibus, quando dei de cara com um salão de beleza e lembrei que meus cabelos já tinham sido objeto de crítica por mais de uma pessoa nos últimos dias. Resolvi aproveitar então a oportunidade. Entrei no salão e passei reto por um homem que estava na porta, com um olhar fixo de quem parecia estar muito longe dali. A cabeleireira que fazia o penteado de uma perua me informou que quem cortava cabelo masculino era o senhor de olhar fixo, aquele por quem eu tinha passado na entrada.


Me aproximei do senhor de olhar fixo e perguntei se podia cortar meu cabelo. Ele me respondeu com um sorriso e apontou a cadeira de barbeiro vazia. Seu Ivan, um moreno escuro, esguio e quase sem cabelos brancos, não tinha pressa nenhuma, fazia tudo com uma lentidão bahiana. No papo, descobri que ele era mesmo bahiano, nascido em Valença, ao sul de Salvador. Descobri também que ele tem quase 80 anos, aparenta apenas 60 e que adora conversar. A cada pergunta que eu fazia, Seu Ivan interrompia o corte, se postava à minha frente e respondia com uma minúcia virginiana. O que ele me contava era tão interessante que, por mais que eu tentasse, não conseguiria me irritar com a lentidão do homem… Eu escutava tudo e ainda perguntava mais.


Primeiro quis saber o que estava procurando o seu olhar distante, aquele que eu notei quando entrei.


__Nada, moço, eu não procurava nada, não. Estava é assistindo o filme da vida, minha diversão enquanto não corto cabelo – assim dizendo, colocou-se à minha frente e fez um discurso sobre a pressa que os paulistas tem no sangue e ele , como bahiano há mais de 50 em solo paulista, ainda não conseguiu entender. Ele continuou…


__Já fiz foi perguntar para todo tipo de gente. E foi gente importante, assessor de prefeito, professor de faculdade, filósofo, eles dizem que isso não é coisa para se entender, é da natureza do povo aqui do sul, dos descendentes de europeus.


Depois, eu quis saber como é que ele mantinha a forma, se fazia algum exercício para manter aquela forma aos 80 anos.


__Meu exercício é andar de casa até o trabalho, do trabalho de volta pra casa.


Imaginei que ele morasse longe, alguns kilometros, no mínimo.


__Moro não, minha casa é a duas quadras daqui, ao lado do Mercado.


__Mas como é que o senhor mantém essa forma, assim, magrinho e esperto?


Mais uma vez ele parou a tesoura, foi para minha frente e me contou tim tim por tim tim, como é que ele mesmo preparava, todos os dias, seu café da manhã, almoço e janta, que esse era o segredo da sua saúde de ferro. Que pão branco com manteiga ele não comia, que isso faz é muito mal à saúde! Comer fora, segundo  ele, é muito arriscado, nunca se sabe o que vai pela cabeça do cozinheiro enquanto prepara a comida… Eis o relato resumido:


__Primeiro eu cozinho duas bananas compridas bem maduras, ou pode ser um inhame grande, mas os dois tem que ser com a casca. Quando ficou molezinho eu descasco, coloco num prato, ralo meio coco fresco, adiciono uma pitada de sal, outra de açúcar e pronto, é o meu café, que tomo desde menino. No almoço é feijão de corda verde (quando tem, senão é maduro mesmo), arroz e mistura, mais um jerimum ou uma couve, ambos refogados. De noite é só uma sopa, pode ser do que for, mas tem que ser sopa. E sobremesa não me dou o luxo, isso é coisa para o paladar de gente mimada.


__Mas e nem uma frutinha de vez em quando, Seu Ivan? – perguntei pois havia visto uma maçã ao lado dos seus apetrechos de barbeiro.


__Fruta eu trago sempre aqui pro trabalho, como só quando o estômago reclama.


__E remédio, o senhor toma algum medicamento, Seu Ivan?


__Tomo não, isso de remédio é perdição, o sujeito começa com um e dali a pouco é uma renca que ele tem que tomar. Não presta, não!


Seu Ivan ia me contando tudo isso enquanto cortava minha sobrancelha, aparava os pelos que saem do nariz e do ouvido, coisa que nenhum barbeiro jamais fez comigo. Lavou meus cabelos com xampu e deu finalmente por terminado. Ficou muito bom, gostei do corte e perguntei a ele onde tinha aprendido, onde ele tinha feito curso de barbeiro.


__Na vida, meu filho, aprendi olhando o barbeiro na minha cidade, comecei a cortar quando tinha 15 anos e nunca mais parei.


Revelando todo meu preconceito, perguntei a ele se nunca quis estudar para ser outra coisa na vida. A resposta veio à altura:


__Mas eu estudo, meu filho, eu estudo cada pessoa que senta nesta cadeira e aprendo com cada uma delas.


Aquilo me desconcertou e eu não pude evitar de abrir um sorriso para aquele bahiano mais do que sossegado. Nesta hora, tocou o celular, era o mecânico avisando que o carro já estava pronto.


__Mas já está pronto? Você não falou duas horas? – indaguei surpreso.


__Mas já passou mais que isso, Chico! – me respondeu o mecânico.


Olhei para o relógio e me dei conta, havia passado uma hora e meia na cadeira do Seu Ivan, tomando um curso intensivo de relaxamento à moda bahiana. Paguei o corte e saí para a rua. Decidi não ir direto para o mecânico. Sem pressa, tomei um caminho mais longo e passei no Mercado para comprar uma penca de banana comprida e um coco maduro, só para experimentar…

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