1 - Eu gosto da natureza em gênero, número e flores.
2 – Para se viver de escrever não é preciso inspiração, mas coragem.
3 – Digo sempre que sou poeta, porque em poetisa todo mundo pisa...
4 – Antes da construção de uma casa, o dinheiro é pros alfinetes. Durante, pros pregos...
5 - Observo aqui no sítio, que em tempo das vacas magras, até capim custa a crescer.
6 – Amo viajar de avião: aprendi que acima das nuvens cinzentas, a mais de 15.000 pés de altura, há sempre sol.
7 – Prefiro verdades fétidas a mentiras perfumadas.
8 – Eis uma dúvida que às vezes me assalta: se não houvesse o “se”, o que seria do “quase”?
9 – Criei um lema que para mim, e ele me ajudou muito numa fase em que eu achava que estava bebendo muito: quem pode o mais, pode o menos. (Mas fácil não é...).
10 – Em minha vida só achei que o melhor da festa era esperar por ela, quando realmente a festa foi péssima.
11 – Sou sucinta; mas conheço gente que abre tanto parênteses em sua conversa ou narrativa, que acaba falando por hipertextos...
12 - Se somos todos irmãos, cadê minha parte na herança dos Rockfellers?
13 – Também ainda não descobri os seis graus de separação entre eu e o Dustin Hoffmann...
14 – Eu sou quem sou e quem não sou também.
15 – Para mim, Caminho do Meio é nem jogar lenha na fogueira, nem água fria na fervura...
16 – A repressão que castra nossos corpos é a mesma que censura nossos textos.
17 - Tudo é Rio, mas, para quem nunca quis sair da Zona Sul, Maricá fica em outro planeta.
18 – Em geral os “ismos” me desistimulam.
19 - Há dias em que, em plena manhã, eu acordo de lua.
20 – Quem tem dono é gato.
21 – Adoro pimenta: quando a comida está boa, realça o gosto; quando está ruim, disfarça-o.
22 – Não acho que os fins justificam os mails...
23 – Às vezes preciso ser radical. Exemplo: sei que quando quero emagrecer um mísero quilo não posso engordar nem uma mínima grama.
24 – Já faz algum tempo que parei de querer sustentar o mundo sobre os ombros: me dava muita dor nas costas.
25 – Sou feita também de déficits. Afinal, quem tem que fechar sempre com saldo positivo não é gente, é banco.
Epa!!!, e agora os meus 25 fatos para o Yubliss? Não faz mal. Faço outros (com muito prazer...).
Junho e julho lembram-me logo os arraiais juninos, com balões e fogueiras; ambos, porém, são espécies em extinções — eles por representarem grande perigo para a rede elétrica elas por requererem paciência, tempo e muita habilidade na montagem (falando-se em rede e em fogueira, li há pouco tempo que a palavra fogueira também designa um peixe brasileiro: fogueira na água...). Existe no Brasil uma fogueira bastante famosa, por ter entrado no livro dos recordes como a maior do mundo: é a baiana de Caruaru, acesa na noite da véspera de São Pedro, com 17 metros de altura, levando 48 horas para se extinguir, armada no Pátio do Convento dos Capuchinhos — talvez para transmutar a lembrança das sinistras fogueiras das Inquisições, embora, conversando com um amigo semana passada, ele me comentou sobre uma teoria teológica pessoal interessante: que na Idade Média não se queimou ninguém, só na Contra-Reforma — argumento no mínimo instigante, que me motiva até a pesquisar posteriormente mais sobre o assunto.
Modernamente uma outra espécie também ganhou fama e prestígio: a utilizada como importante exercício vivencial, em qualquer época do ano, porém mais predominante nesta – anda-se sobre as chamas, como prova de coragem e pleno domínio de si mesmo (os yogues já faziam isso, através dele tornar-se um exercício do poder da mente, não se deixavam afetar pelo calor, frio ou fome): a partir da prova de fogo, literalmente, a pessoa rompe com diversos condicionamentos interiores e passa a ser outra pessoa, pois, vencido o desafio, seu medo vira cinzas... Ômar Souki, com quem troquei e-mails, usa frequentemente esta prova final em seus cursos, falando entusiasticamente deste método em seu livro "Acorde! Viva seu sonho! — A magia da palavra em suas mãos". Eu nunca andei em brasas (pelo menos sobre fogueiras), mas, bem antes de travar conhecimento com a PNL, vi nosso caseiro em Barão de Mauá — não confundir com Marquês de Mauá, muito mais nobre... — repetir três vezes o trajeto, calmamente, de cá pra lá, de lá pra cá, de cá pra lá. Ele só fazia isso nas fogueiras das noites de S. João e S. Pedro, mais ou menos à meia-noite. Era uma espécie de ritual pessoal, de homenagem prestada aos seus santos de devoção, enfim, era uma de prova de fé. Por isto se tornava um espetáculo tão impressionante; nos sentíamos pequenos diante daquele homem humilde — nós, mulheres e homens de pouca fé e/ou muito medo.
Hoje em dia, até porque há cada vez menos festas (inclusive juninas) na cidade, também estão sumindo as fogueiras, que eu adoro. Quando compramos a casa de Maricá achei que veria muitas delas na região, tochas iluminando as noites de inverno rigoroso. Não vi. Aqui, em vez de inocentes e alegres fogaréus só há queimadas e incêndios - dolosos ou culposos, mas sempre criminosos. Uma tristeza. Sem portas nem janelas, no início da construção, e com um mato gigantesco crescendo ao redor do nosso "castelo" (igual àquela cantiga de roda da Bela Adormecida), a fogueira era o modo de unirmos, em um momento difícil, de grandes precariedades, o útil, ao belo e ao agradável: afugentávamos mosquitos, nos reuníamos perto daquele calor aconchegante e ficávamos recordando histórias, falando da vida ou filosofando sobre as cores das próprias chamas — vermelhas, amarelas, verdes, azuis e quase negras, dependendo do tipo de toco de madeira, de papel ou de saco plástico que queimávamos. A fogueira ardia à nossa frente e, meio que hipnotizados, por dentro ardíamos misteriosamente também, talvez tentando nos lembrar dos fogos ancestrais e seculares.
De há muito o ser humano conseguiu domesticar o fogo, trazendo-o para dentro de casa, no intuito de satisfazer suas necessidades e prazeres. E as fogueiras juninas, junto com o lirismo delas, estão se apagando. Até aqui, no nosso sítio, elas estão muitíssimos mais escassas, porque as árvores se multiplicaram, cresceram muito, e há pouco espaço para elas. Lembro-me porém de um episódio que achei muito lindo na última festa junina que fizemos, perto de uma dessas fogueiras crepitosas: um menino viu o pai soltando uma “Lágrima de Nossa Senhora” — fogo de artifício cujo efeito é apenas apenas fazer cair uma rápida chuva branca, mas cujo formato parece um tipo de rojão. E, vendo aquele “tudo de papelão com pólvora” apontado para um certo pedaço do céu, o menino gritou, aflitíssimo:
“— Papai, papai, cuidado com a lua...”.
Tive sempre especial aversão à versão do tal "olho por olho, dente por dente". Levei algum tempo para entender o porquê; atualmente, consigo explicar o porquê através de um provérbio: "um erro não justifica outro”. Ou, em linguagem jurídica, lembrando os tempos de advogada que fui, a ninguém é lícito arguir o ilícito em proveito próprio...
O provérbio incomodou-me até outubro de 1988, quando acabei entrando no meio de uma novela da Manchete chamada, justamente, "Olho por Olho"... Era uma trama pesada de vingança familiar. Foi em meio à ficção que "caí na real" e acabei entendendo que o "olho por olho, dente por dente" não tinha necessariamente a interpretação que a maioria das pessoas lhe conferia. Não significava, como a primeira vista podia parecer, uma exortação a que as pessoas saíssem por aí fazendo justiça com as próprias mãos, matando, ferindo, aleijando, cegando...; não era uma apologia à vingança, mas se referia, sutilmente, ao efeito bumerangue da lei do retorno, de fácil compreensão através de outro provérbio: "quem semeia vento, colhe tempestade". Ou: "quem com ferro fere, com ferro será ferido". Ou ainda, se preferirem as leis da física: "À toda ação corresponde uma reação de mesma intensidade, na mesma direção e em sentido contrário" (segundo a terceira Lei de Newton).
Contente com a nova interpretação de uma máxima que a princípio me parecia tão cruel e irracional em sua passionalidade, e que, de repente, opostamente me proporcionava reflexões tão interessantes, esqueci-me dela, apaziguada. Passou. Mas só até outro dia, quando uma frase genial de Gandhi me trouxe de volta o antigo dito. Dizia: "Olho por olho... e o mundo acabará cego".
Sempre que vejo em bancas de jornais alguma revista como “Criativa”, “Faça você mesmo”, etc., transformando trabalhos manuais em momentos de descontraída recreação, não posso deixar de lembrar-me da minha experiência pessoal, extremamente oposta: para mim, esta Trabalhos Manuais era a matéria que eu tinha mais dificuldades (depois das aulas de Desenho, até hoje não sei desenhar literalmente nada). D. Rosa, mestra de disciplina tão espinhosa, testemunhando meus esforços tenazes (e vãos) para eu não me picar na agulha de costura, ou para eu cortar cartolina sem cortar meu dedo antes, ou ainda colar alguma coisa, simplesmente sem colar-me junto na carteira, tinha muita pena de mim: que seria de uma menina sem essas prendas domésticas, sem esses dotes e habilidades tão úteis, indispensáveis e imprescindíveis no cotidiano de uma mulher destinada a casar e a ter filhos? Eu lia em seus olhos preocupação e uma certa previsão sombria a respeito de meu futuro domesticamente inglório.
Em suas aulas, D. Rosa me deixava livre, embora forçosamente tivesse de ser uma liberdade vigiada, de perto e constantemente, porque eu era um perigo para mim mesma, sempre prestes a acidentar-me, a todo momento. No fundo, porém, ela não perdera, de todo, a tênue esperança de me ver triunfar, uma única vez que fosse. Sei disso porque, no dia em que a aula foi com massa de modelar, enfim ela pôde elogiar uma criação minha: uma ponte — constituída apenas de um arco e pedras incrustadas, feitas na massa sob a pressão de meus dedos. A princípio cautelosa, D. Rosa quis saber de que se tratava e eu disse, tímida: — "Uma ponte".
Para minha surpresa, vi-a abrir-se em sorrisos e elogiar-me desmesuradamente. De início, achei que era só um estímulo bondoso; mas, quando ela pediu autorização à minha mãe para exibir minha pequenina ponte na mostra semanal do colégio, onde apareciam os melhores e mais perfeitos trabalhos, eu me convenci de que, realmente, tinha encontrado meu caminho: de agora em diante eu me especializaria só em fazer pontes.
Minha mãe, toda orgulhosa, levou as amigas para verem minha obra de arte no dia da inauguração, sempre às sextas-feiras. Porém meus momentos de plena realização, que supus eterna, foram fugazes. Como título, em letras garrafais, lia-se: "DENTADURA". Ao tomar conhecimento de que a minha ponte tinha outro significado semântico, D. Rosa, sem saber o que dizer, apenas abanou a cabeça, desolada e conformada: triste destino o meu, que até quando eu acertava, errava.
Hoje, creio que minha professora mudaria de opinião, ao ver que continuei pela vida insistindo e aprendendo (agora já não tão desajeitadamente) a trabalhar com coloridas e deliciosas massas de modelar. Sim, pois afinal, não são a ficção e a literatura pontes, mágica ligação que une bocas – com ou sem dentaduras –, palavras e mãos?...