Sabemos quem foi o inventor do telefone, do para-raios, da lâmpada elétrica, mas... e dos clipes? Dos elásticos, já que eles são feitos de qualquer material que tende a preservar seu cumprimento, forma e volume contra as forças externas, nos lembramos logo de Newton e a sua lei da ação e reação. Sobre o grampo (de construção) encontrei um site com uma explicação tão interessante, que não resisto em dividir com vocês: sua origem data dos antigos persas, "que precisavam de uma solução para manter firmemente unidos os blocos de pedra que utilizavam nas construções de Pasárgada, sua primeira capital imperial (hoje, no Irã). Foi então que um dos construtores inventou um pedaço de metal torto, como se fossem dois pregos unidos por uma mesma cabeça, que era fincado contra dois blocos. Nasciam os famosos grampos, que serviriam para unir vários objetos ao longo da história".
Sobre os clipes, porém, não encontrei nada, nadinha, o que considero uma tremenda injustiça. O clipe prende, agrega, une democraticamente quaisquer papeis sobre os assuntos mais heterogêneos que resolvamos juntar, dependendo de nossa criatividade ou doideira. Para ele não importa a textura ou o volume de páginas, desde que respeitado, óbvio, sua capacidade proporcional ao seu tamanho: está sempre pronto a ligar, a não deixar as palavras soltas ao vento, com uma vantagem a mais do que o grampo: o clipe prende transitoriamente, permitindo mudar a ordem das páginas à vontade, ou seja, permitindo uma infinidade de combinações sem agredir os papéis (ao contrário, se grampeamos errado alguma página, retirar o grampo, por maior cuidado que se tenha, deixa marcas no papel).
Fiquei pensando que deveria ser um grande elogio revelar para alguém que amamos: você é meu clipe, desde que o outro imediatamente entendesse a mensagem como: você é meu elo de ligação entre os diferentes aspectos do que sou. Mas, dependendo do outro, talvez a mensagem fosse recebida de modo truncado e surtisse o efeito contrário, como: considero você um objeto para mim, ínfimo e banal... Temos que admitir que há pessoas que complicam tanto a vida que perdem a capacidade e a sensibilidade de perceber a velada dimensão dos objetos simples.
Uns onze anos depois que me formei em Direito pela UFRJ participei de um “reencontro”, desses anuais que os colegas fazem para reviver histórias escolares. Foi desastroso, simplesmente: todos tinham se tornado competentíssimos advogados e eu já nem estava mais atuando na profissão... Era uma tarde de sexta, e nos fins de semana à noite eu coordenava um karaokê poético-musical (a marca diferenciada era eu ter incluído o poético, o que acabou dando muito certo, pois as pessoas tomaram gosto por dizer poesia lá no extinto Botanic, um restaurante que ficou famoso na época pelos eventos culturais, casa noturna dirigida pela saudosa Cecília Petraglia, mãe do ator Ricardo Petraglia). Então eu já destoava desde a roupa, que, por mais discreta que eu tivesse escolhido para aquele momento solene, sempre era uma roupa de show, o que contrastava com o traje do pessoal que acabara de sair da audiência, de terno e gravata, ou as mulheres com seus sombrios e sóbrios tailleurs.
Fui até bem recebida pela minha antiga turma: como eu aparecia muito na imprensa justamente pelo sucesso de ter o único karaokê diferente da cidade, logo vi que me consideravam uma espécie de show wooman, uma grande bussiness wooman, o que equivalia para eles a algo parecido com uma empresária de grande sucesso na área de entretenimentos, portanto uma mulher rica e vitoriosa; então, vendo-me com esses olhos, a acolhida foi simpática e as diferenças (até de indumentárias), toleradas. Eu, porém, saí de lá mal, por ver que aquele pessoal outrora tão parecido comigo se tornou tão distante da sede de justiça que tínhamos — agora cada um parecia querer aparecer mais do que o outro, contando suas façanhas jurídicas, muitas delas extremamente injustas, como aquele estuprador que alguém conseguiu inocentar, ou aquele patrão que outro conseguiu que se eximisse de seus deveres trabalhistas. Senti-me uma estranha no ninho. Naquela noite foi difícil conseguir o pique para manter o alto astral do espetáculo, que exigia muito de mim, inclusive em termos de improvisação. A partir de então não participei mais dos reencontros para os quais me convidaram.
No entanto, semana passada reuni-me com algumas colegas da minha turma do La-Fayette, graças a Nilda, organizadora dos encontros, e que me achou pelo Orkut. Fizemos o ginasial no La-Fayette feminino, exclusivamente de meninas, e o clássico no La-Fayette masculino (que era misto) — nesta passagem muitas de nós se separaram (algumas continuaram no colégio feminino cursando o científico). Foi surpreendentemente bom: as "meninas" tinham tido uma vida rica de experiências e adquirido uma sabedoria que só uma prática de vida saudável e intensa nos proporciona. Não resisto a contar uma passagem: para mostrar o clima de sua formação familiar Suzana lembrou-se da calma sabedoria de sua avó: ela (Suzana) e os jovens mais ou menos da mesma idade que ela costumavam caçar em um morro há meia hora de distância. Na hora da saída, a avó fazia uma supervisão final no pessoal e recomendava: "atirem, mas não façam muito barulho, pois se incomodar a sociedade, ela atira". Foi tudo ótimo: gostoso revê-las, conversar sobre passado, presente e futuro despretenciosamente, saber que todas deram (e continuam dando) a volta por cima nos revezes da vida, com garra e delicadeza.
O contraponto desses dois encontros me fez pensar nas turmas de que fazemos parte, ou que achamos que pertencemos, e nas escolhas afetivas que nos ligam a determinados grupos. Vejo, por exemplo, nas comunidades do Orkut (não tenho Facebook) muita gente querendo mostrar quais são suas turmas, tribos e praias, porém pouca gente interagindo, colocando comentários ou expondo opiniões sobre seus assuntos preferidos. Os locais e os canais existem, mas sinto falta de diálogo, da contribuição diferenciada no partilhamento, e da troca de ideias (e trocar é sempre uma via de mão dupla). O que adianta os gostos em comum se não temos prazer em falarmos deles? As redes sociais cada vez mais se transformam em redes sócio-monologadas... Criei uma comunidade chamada profissionalização do escritor, por exemplo, em que os participantes só escrevem no fórum quando precisam divulgar o lançamento de seus livros individuais — só neste momento voltam-se para o coletivo. É silencioso e preocupante este tipo de convívio em que cada um está na sua, e ninguém na de mais ninguém, embora pareçam estar todos ligados e interessadíssimos no debate. Agrupamento não significa união, nem aliança, nem cumplicidade; para que elas existam precisa haver construção diária, conversa, respeito pelas diferenças, carinho e vontade de participar efetivamente da vida de outras pessoas. Ainda bem que tenho amigas queridas, a turma do La-Fayette, e o Yubliss na Internet: pontos de encontro de gente viva e falante, em tempo real.
Em suas aulas, D. Rosa me deixava livre, embora forçosamente tivesse de ser uma liberdade vigiada, de perto e constantemente, porque eu era sinônimo de desastre para mim mesma, sempre prestes a acidentar-me. No fundo, porém, ela não perdera, de todo, a tênue esperança de me ver triunfar, uma vez que fosse. Sei disso porque, no dia em que a aula foi com massa de modelar, enfim ela conseguiu elogiar uma criação minha: era uma ponte — constituída apenas de um arco e pedras incrustadas, feitas na massa sob a pressão de meus dedos. A princípio cautelosa, D. Rosa quis saber de que se tratava e eu disse, tímida: — "Uma ponte".
Para minha surpresa, vi-a abrir-se em sorrisos e elogiar-me desmesuradamente para toda a classe. De início, achei que era só um estímulo bondoso; mas, quando ela pediu autorização à minha mãe para exibir minha pequenina ponte na mostra semanal do colégio - Instituto La-Fayette, onde apareciam os melhores e mais perfeitos trabalhos das alunas, convenci-me de que, finalmente, tinha encontrado meu caminho.
Minha mãe, toda orgulhosa, levou as amigas para verem minha obra de arte na exposição. Porém minha glória, que supus eterna, foi bastante fugaz: espantada, li o título do meu trabalho escrito em letras garrafais: "DENTADURA". Ao tomar conhecimento de que a minha ponte tinha recebido outro significado semântico, D. Rosa, sem saber o que dizer, apenas abanou a cabeça, desolada pela triste confirmação: triste destino o meu.
Hoje creio que minha professora mudaria de opinião ao ver que perseverei, continuei pela vida insistindo e aprendendo (agora já não tão desajeitadamente e mais arteira, no duplo sentido) a trabalhar com coloridas massas de modelar. Sim, por quê, afinal, o que são a ficção e a literatura senão pontes a ligar magicamente bocas, palavras, paisagens e mãos?