Além das Letras - por Leila Míccolis
Sunday, 22 January 2012
posted by Leila
Outro dia, muito cansada, depois de mais um dia exaustivo em companhia de minha tese, percebi-me brincando e logo em seguida olhando atentamente para o design de um clipe de escritório com profunda admiração. Que objeto mais bem bolado: um pentágono formado por um fio de arame em uma espécie de labirinto... Esta descrição me levou rápido a diversas associações: o labirinto de Creta, os arames farpados dos campos de concentração, as texturas dos fios de cabelos asiáticos, e, lógico, ao Pentágono americano... Depois desta quase volta ao mundo em 80 clipes (oitenta em um único), voltei ao Brasil, e, como tinha pensado em fios de cabelo, não demorei muito para lembrar-me do grampo pretinho (outro objeto pequenino e precioso), não o de grampear telefones.... Aliás, o grampo de grampeador também é incrível, mas tão altamente poluente, que uma empresa de consultoria ambiental - a Physis SDA – criou um grampeador que não usa grampos. E o grampo de cabelo não é só útil para as mulheres não: quem algum dia, uma vez na vida pelo menos, não cedeu à tentação de coçar levemente a orelha com um deles?  

Sabemos quem foi o inventor do telefone, do para-raios, da lâmpada elétrica, mas... e dos clipes? Dos elásticos, já que eles são feitos de qualquer material que tende a preservar seu cumprimento, forma e volume contra as forças externas, nos lembramos logo de Newton e a sua lei da ação e reação. Sobre o grampo (de construção) encontrei um site com uma explicação tão interessante, que não resisto em dividir com vocês: sua origem data dos antigos persas, "que precisavam de uma solução para manter firmemente unidos os blocos de pedra que utilizavam nas construções de Pasárgada, sua primeira capital imperial (hoje, no Irã). Foi então que um dos construtores inventou um pedaço de metal torto, como se fossem dois pregos unidos por uma mesma cabeça, que era fincado contra dois blocos. Nasciam os famosos grampos, que serviriam para unir vários objetos ao longo da história".

Sobre os clipes, porém, não encontrei nada, nadinha, o que considero uma tremenda injustiça. O clipe prende, agrega, une democraticamente quaisquer papeis sobre os assuntos mais heterogêneos que resolvamos juntar, dependendo de nossa criatividade ou doideira. Para ele não importa a textura ou o volume de páginas, desde que respeitado, óbvio, sua capacidade proporcional ao seu tamanho: está sempre pronto a ligar, a não deixar as palavras soltas ao vento, com uma vantagem a mais do que o grampo: o clipe prende transitoriamente, permitindo mudar a ordem das páginas à vontade, ou seja, permitindo uma infinidade de combinações sem agredir os papéis (ao contrário, se grampeamos errado alguma página, retirar o grampo, por maior cuidado que se tenha, deixa marcas no papel).

Fiquei pensando que deveria ser um grande elogio revelar para alguém que amamos: você é meu clipe, desde que o outro imediatamente entendesse a mensagem como:  você é meu elo de ligação entre os diferentes aspectos do que sou. Mas, dependendo do outro, talvez a mensagem fosse recebida de modo truncado e surtisse o efeito contrário, como: considero você um objeto para mim, ínfimo e banal... Temos que admitir que há pessoas que complicam tanto a vida que perdem a capacidade e a sensibilidade de perceber a velada dimensão dos objetos simples. 
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Monday, 19 December 2011
posted by Leila
O título acima deveria ser o último verso de um poema (como um grand final para o final do Natal), que nunca saí fiz, talvez porque não haja muito a falar além disso, ou talvez porque o eco do borborinho das lojas cheias chegue até o decassilábico e atrapalhe. Parece que a cada ano as vendas natalinas acontecem mais cedo (este ano no final de outubro já havia promoções) e o compre compre-compre torna-se obrigatório, irresistível, catártico. Nem árvores mais se armam, porque elas já vêm armadas, para poupar tempo. Onde aqueles pares de mãos que se  juntavam pelo menos neste momento para enfeitá-las? Não sou saudosista, gosto muito de viver o meu tempo, mas sinto falta do convívio natalino, da participação individual e coletiva para a chegada da "noite feliz", e confesso que me irritam profundamente as liquidações, remarcações, ofertas a preços de bananas... e que bananas caras, meu Deus! Eu falei Meu Deus? Pois é, em geral só nos lembramos nesta época de Deus Filho para lamentarmos não poder comprar mais e mais e mais...

Os símbolos do Natal estão cada vez menos cristãos, e o Papai Noel é muito mais esperado do que Jesus — já vi perguntarem: cadê meu presente?, mas nunca ouvi: cadê o aniversariante?, ou: cadê meu presente que vou dar a ele? As ceias em geral ostentam, em vez de congregarem; e há quem nem festeje mais o Natal, sob a esfarrapada desculpa de que Natal é todo dia, embora comemore religiosamente (irresistível o duplo sentido) outras datas. Em qualquer sociedade contemporânea, querer escapar ileso de datas convencionais é enorme utopia, afinal até poupança aniversaria; além do mais, sempre nos lembramos de pagar nossas contas no dia certo, para não arcarmos com os juros — estou linkando o que escrevi uma vez no Yubliss sobre o que chamo de calendariofobia. Ou será que, para sermos diferentes, só esquecemos de algumas datas, justo as que podem nos trazer de volta o saudável ritual da celebração? Tenho a impressão de que estamos ficando tão descompromissados com nossas emoções que muitas vezes tememos que a alegria nos fragilize, nos contamine, ou nos corrompa...

Penso que nenhuma comemoração deveria ser uma dia comum. Natal não é um dia como outro qualquer. Pelo menos, não deveria ser, para quem, cristãmente, deseja um mundo mais pacífico, fraterno e amoroso. No entanto, a cada ano ele está mais banalizado, mais consumido, em todos os sentidos. O que persiste em nos lembrar o seu significado é ainda a Missa do Galo transmitida pela televisão, mas que também cada vez perde mais audiência para os mega shows musicais, apresentados no mesmo horário pelas emissoras concorrentes.
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Wednesday, 30 November 2011
posted by Leila

Uns onze anos depois que me formei em Direito pela UFRJ participei de um “reencontro”, desses anuais que os colegas fazem para reviver histórias escolares. Foi desastroso, simplesmente: todos tinham se tornado competentíssimos advogados e eu já nem estava mais atuando na profissão... Era uma tarde de sexta, e nos fins de semana à noite eu coordenava um karaokê poético-musical (a marca diferenciada era eu ter incluído o poético, o que acabou dando muito certo, pois as pessoas tomaram gosto por dizer poesia lá no extinto Botanic, um restaurante que ficou famoso na época pelos eventos culturais, casa noturna dirigida pela saudosa Cecília Petraglia, mãe do ator Ricardo Petraglia). Então eu já destoava desde a roupa, que, por mais discreta que eu tivesse escolhido para aquele momento solene, sempre era uma roupa de show, o que contrastava com o traje do pessoal que acabara de sair da audiência, de terno e gravata, ou as mulheres com seus sombrios e sóbrios tailleurs.

 

Fui até bem recebida pela minha antiga turma: como eu aparecia muito na imprensa justamente pelo sucesso de ter o único karaokê diferente da cidade, logo vi que me consideravam uma espécie de show wooman, uma grande bussiness wooman, o que equivalia para eles a algo parecido com uma empresária de grande sucesso na área de entretenimentos, portanto uma mulher rica e vitoriosa; então, vendo-me com esses olhos, a acolhida foi simpática e as diferenças (até de indumentárias), toleradas. Eu, porém, saí de lá mal, por ver que aquele pessoal outrora tão parecido comigo se tornou tão distante da sede de justiça que tínhamos — agora cada um parecia querer aparecer mais do que o outro, contando suas façanhas jurídicas, muitas delas extremamente injustas, como aquele estuprador que alguém conseguiu inocentar, ou aquele patrão que outro conseguiu que se eximisse de seus deveres trabalhistas. Senti-me uma estranha no ninho. Naquela noite foi difícil conseguir o pique para manter o alto astral do espetáculo, que exigia muito de mim, inclusive em termos de improvisação. A partir de então não participei mais dos reencontros para os quais me convidaram.


No entanto, semana passada reuni-me com algumas colegas da minha turma do La-Fayette, graças a Nilda, organizadora dos encontros, e que me achou pelo Orkut. Fizemos o ginasial no La-Fayette feminino, exclusivamente de meninas, e o clássico no La-Fayette masculino (que era misto) — nesta passagem muitas de nós se separaram (algumas continuaram no colégio feminino cursando o científico). Foi surpreendentemente bom: as "meninas" tinham tido uma vida rica de experiências e adquirido uma sabedoria que só uma prática de vida saudável e intensa nos proporciona. Não resisto a contar uma passagem: para mostrar o clima de sua formação familiar Suzana lembrou-se da calma sabedoria de sua avó: ela (Suzana) e os jovens mais ou menos da mesma idade que ela costumavam caçar em um morro há meia hora de distância. Na hora da saída, a avó fazia uma supervisão final no pessoal e recomendava: "atirem, mas não façam muito barulho, pois se incomodar a sociedade, ela atira". Foi tudo ótimo: gostoso revê-las, conversar sobre passado, presente e futuro despretenciosamente, saber que todas deram (e continuam dando) a volta por cima nos revezes da vida, com garra e delicadeza.

 

O contraponto desses dois encontros me fez pensar nas turmas de que fazemos parte, ou que achamos que pertencemos, e nas escolhas afetivas que nos ligam a determinados grupos. Vejo, por exemplo, nas comunidades do Orkut (não tenho Facebook) muita gente querendo mostrar quais são suas turmas, tribos e praias, porém pouca gente interagindo, colocando comentários ou expondo opiniões sobre seus assuntos preferidos. Os locais e os canais existem, mas sinto falta de diálogo, da contribuição diferenciada no partilhamento, e da troca de ideias (e trocar é sempre uma via de mão dupla). O que adianta os gostos em comum se não temos prazer em  falarmos deles? As redes sociais cada vez mais se transformam em redes sócio-monologadas... Criei uma comunidade chamada profissionalização do escritor, por exemplo, em que os participantes só escrevem no fórum quando precisam divulgar o lançamento de seus livros individuais — só neste momento voltam-se para o coletivo. É silencioso e preocupante este tipo de convívio em que cada um está na sua, e ninguém na de mais ninguém, embora pareçam estar todos ligados e interessadíssimos no debate. Agrupamento não significa união, nem aliança, nem cumplicidade; para que elas existam precisa haver construção diária, conversa, respeito pelas diferenças, carinho e vontade de participar efetivamente da vida de outras pessoas. Ainda bem que tenho amigas queridas, a turma do La-Fayette, e o Yubliss na Internet: pontos de encontro de gente viva e falante, em tempo real.

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Thursday, 27 October 2011
posted by Leila
Deu-se que no dia 15 deste mês - Dia do Professor - li uma crônica, na qual o autor falava das suas aulas de Trabalhos Manuais no colégio como sendo deliciosos momentos de descontraída recreação; não pude deixar de lembrar-me da minha experiência pessoal, extremamente oposta: para mim esta matéria, além de ser um terror, era de grande periculosidade. D. Rosa, mestra de disciplina tão espinhosa, testemunhando meus esforços tenazes (e vãos) para eu não me picar na agulha de costura, ou para eu cortar cartolina sem decepar meu dedo antes, ou mesmo para colar alguma coisa, sem simplesmente colar-me junto na carteira, tinha muita pena de mim: que seria de uma menina, sem essas prendas domésticas, sem esses dotes e habilidades tão úteis, indispensáveis e imprescindíveis no cotidiano de uma mulher? Na cabeça dela, infelizmente nenhum futuro.

 

Em suas aulas, D. Rosa me deixava livre, embora forçosamente tivesse de ser uma liberdade vigiada, de perto e constantemente, porque eu era sinônimo de desastre para mim mesma, sempre prestes a acidentar-me. No fundo, porém, ela não perdera, de todo, a tênue esperança de me ver triunfar, uma vez que fosse. Sei disso porque, no dia em que a aula foi com massa de modelar, enfim ela conseguiu elogiar uma criação minha: era uma ponte — constituída apenas de um arco e pedras incrustadas, feitas na massa sob a pressão de meus dedos. A princípio cautelosa, D. Rosa quis saber de que se tratava e eu disse, tímida: — "Uma ponte".

 

Para minha surpresa, vi-a abrir-se em sorrisos e elogiar-me desmesuradamente para toda a classe. De início, achei que era só um estímulo bondoso; mas, quando ela pediu autorização à minha mãe para exibir minha pequenina ponte na mostra semanal do colégio - Instituto La-Fayette, onde apareciam os melhores e mais perfeitos trabalhos das alunas, convenci-me de que, finalmente, tinha encontrado meu caminho.

 

Minha mãe, toda orgulhosa, levou as amigas para verem minha obra de arte na exposição. Porém minha glória, que supus eterna, foi bastante fugaz: espantada, li o título do meu trabalho escrito em letras garrafais: "DENTADURA". Ao tomar conhecimento de que a minha ponte tinha recebido outro significado semântico, D. Rosa, sem saber o que dizer, apenas abanou a cabeça, desolada pela triste confirmação: triste destino o meu.


Hoje creio que minha professora mudaria de opinião ao ver que perseverei, continuei pela vida insistindo e aprendendo (agora já não tão desajeitadamente e mais arteira, no duplo sentido) a trabalhar com coloridas massas de modelar. Sim, por quê, afinal, o que são a ficção e a literatura senão pontes a ligar magicamente bocas, palavras, paisagens e mãos?

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