Além das Letras - por Leila Míccolis
Tuesday, 10 July 2012
posted by Leila

Eis-me face a face com o Face. Inegável que ele tem sido tão importante para certas pessoas (companhia? informação? comunicação?) que um casal paulista registrou o nome do filho de Facebookson, em agradecimento por ambos terem-se conhecido lá (o amor é lindo... embora o garoto, quiçá traumatizado, nunca queira ter filhos na vida). Quanto a mim, resisti por longo tempo a entrar, pelo frenetic show que há nele. Porém estão lá muitos amigos que gostam de conversar pelo Face muito mais do que por e-mail, e decidi participar depois de prestar meu exame de doutorado – o que fiz, exatamente no dia seguinte. Para meu espanto e surpresa, tenho me divertido muito com ele.

 

Há muito disso: vitrines sem conteúdo, armazéns de frases feitas. Porém até nestas dá para encontrar certa graça, se nos propomos a questioná-las. Outro dia, alguém postou algo do gênero: não seja o sol que brilha, mas o vagalume que ilumina. Comentário meu: “acho que devemos ser os dois, sol de dia e vagalume à noite, porque os brilhos são diferentes”. E pensei: já imaginou só vagalumes de dia? Ia ser muito escuro, igual à noite. (Amo o sol...).

 

Há também gatófilos e cachorrófilos como eu, então me sinto em casa e tão à vontade que me animei a fazer dois álbuns de fotos: Afetos múltiplos e Eventos inesquecíveis: estes últimos com encontros marcantes, em geral com poetas – tem até Cora Coralina lá: conheci-a em 1982, quando fui a coordenadora do setor de Literatura do Rio no 1º Festival de Mulheres nas Artes (Teatro Ruth Scobar/SP). Aliás, depois que coloquei Coralina, muito mais gente me encontrou no Face. Chamo este fenômeno de brilho por osmose: se você é amigo de quem conhece algum nome famoso, parece que você passa a estar mais perto dessa celebridade. As pessoas “se sentem”. Sentem-se importantes também.

 

Alguém há de me perguntar: e por quê você quis aparecer ao lado de Coralina: não foi pelo mesmo motivo? Não, o meu foi afetivo, o partilhamento de um momento de grande emoção. Quando vi aquela senhora tão velhinha entrar no Festival (nem sabíamos se ela iria, pois não tinha confirmado a presença) fiquei encantada: ela parecia tão doce quanto os doces que fazia. Caminhava com dificuldades, ajudada por duas amigas. Dei para ela autografar o catálogo do evento, e ela perguntou-me intrigada, sem nem me olhar: - “Você não comprou meu livro?”. Presenteei-lhe com a verdade: “não tenho dinheiro no momento, Cora”. Então ela levantou os olhos muito límpidos, me viu – este instante foi incrível – sorriu para mim (que gracinha!) e disse, como quem faz uma travessura inocente e nova:  “Sabe?, eu nunca autografei um catálogo”... e ficamos conversando um pouco – a fila de  autógrafos era enorme – sobre a “dor e a delícia” de gostarmos de fazer poesia. Depois, ela sugeriu que eu ficasse por ali, perto dela (como se eu pudesse sair... eu estava em estado de transe hipnótico), e de vez em quando, entre uma e outra dedicatória, trocávamos algumas frases, eu e Coralinda.


Falei de vitrine no início mas, em meio a tantas mensagens, observo que a visibilidade pessoal esperada e tão alardeada é um tanto relativa: há que sermos garimpeiros ou entrarmos no Face com o espírito de “caça ao tesouro” ("sem lenço e sem documento", leia-se, sem mapa com pistas); porém, esperta que sou, já sei onde encontrar meus ouros: tenho tido muito prazer em acompanhar as inteligentes postagens do Chico (chequei até a compartilhar uma música através dele), da Ivana, do Zeballos, da Márcia Sanchez, da Leninha, do Braulio Tavares, do Affonso Romano, do Henrique Cairus, da prata da casa - Urha e Mônica Banderas - entre vários outros. Isso me faz pensar no óbvio: o ser humano estraga ou enriquece as redes sociais de que participa. Simples assim.

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28 comments


Leila
Ana, ótima ponderação (há anos não uso essa palavra, resquícios da advocacia em minha vida...): realmente o caminho do meio é o mais sábio. Porém o ritmo do face faz com que leiamos depressa o mundo de informações que ele contém, e não nos detenhamos nos tesouros que ele entre-esconde... porque para isso é preciso uma certa calma e determinação para encontrar-se agulhas em palheiros. Então, é o próprio compasso acelerado dele que induz inerentemente a não-moderação. Entrar no face, é entrar neste frenesi, e muitas vezes nesta compulsão de notícias, novidades, ideias. Daí, até para quebrar este ritmo, me parece uma boa deixar de acessá-lo algumas vezes por semana. Adotei este método... rs.
10 months ago
Leila
Heloisa, muito obrigada por seu "retrato falado" de mim, tão generoso. Todos nós somos estrelas, só que, como eu digo em um poema meu, alguns preferem se iluminar, outros insistem em brilhar... Beijos, queridíssima.
10 months ago
Visitor
Para dizer como gosto do face e como ele tem sido interessante, eu entrei em contato contigo através dele! Um poeta conhecido uma vez, depois de ler o que eu escrevi, disse que eu precisava te conhecer e mandou um link de uma página tua onde li teus poemas e foi amor à primeira lida. Sempre tive vontade de te conhecer, e o face acabou por nos aproximar. Esta foi uma das coisas boas. Porém, como tudo na vida, tem seus lados bons e ruins. Vale o bom senso e a moderação. Vinho é bom, agora toma 5 garrafas para ver como é que tu ficas... Vale a pena dar uma analisada no uso e na valorização do mesmo na vida da gente.
Grande abraço

Ana Laura Kosby
10 months ago
Visitor
Querida Leila,
você não é nem o sol nem o vaga-lume, vc é uma galáxia inteira. Eu imagino a emoção de estar com Cora Coralina, veneranda pela idade, pela história de vida tanto quanto pela poesia. Bem, eu sou fã de Leila Míccolis, como sempre digo, por tudo o que ela É,por sua poesia, pela história de vida, pela humildade, sensibilidade, capacidade de... tudo, até de responder a todos, de acordo com o nível evolucionário de cada interlocutor. Eu acho maravilhoso ser sua contemporânea, acompanhar o desenvolvimento desse seu potencial. É emocionante, é maravilhoso.Quanto ao face, como em todo o Universo... eu penso que o homem parece mais é estragar. Mas mesmo quando parece estragar, está depurando algo, aprendendo muito, e... melhorando... Os que vieram pra enriquecer o entorno são poucos. E você está entre esses poucos. Parabéns, querida, e muito obrigada, sempre! Beijão da Maria Heloísa.
11 months ago
Leila
Denise, você sempre lendo e comentando meus textos, muito obrigada por este seu carinho. Pois é, eu relutei muito em colocar fotos, mas, afinal, por quê não? É uma espécie de diário iconográfico... de repente achei válido preservar minhas memórias (algumas delas pelo menos) em vida. Beijo afetuoso para você, querida.
11 months ago
Leila
Everi, parabéns pelos 13 anos do Telescópio. Blocos este mês completa 16. Somos do tempo em que havia pouquíssimos sites culturais na rede. Quanto à entrevista, agradeço, escreve para blocos para combinarmos. E apareça sempre por aqui.
11 months ago
Leila
Querida Márcia, não há o que agradecer. Por onde você for eu a seguirei... rs. Beijo carinhoso.
11 months ago
Visitor
Leila, no início relutamos mesmo em aceitar o convite. Porém, ficamos ilhados no orkut, e - mail e outros. Quando resolvemos conferir, lá estão vários amigos, e ainda reencontramos muitos que perdemos o contato com o passar do tempo. Quando confirmada a pessoa, percebemos que voltamos em algum lugar do passado. ( Assisti a umas 4 vezes esse filme )
Fazemos amizades e até nos conhecemos pessoalmente, e ficando face a face mesmo.
Que felizarda você, conhecer e ficar ao lado de Cora Coralina. Fiquei emocionada confesso.
Quando sabemos usar a ferramenta, tudo dá certo sim.
Gostei muito da sua análise e reflexão. É por aí mesmo, enviamos mensagens aos amigos e respondem na hora.
Adoro as suas crônicas e esse, digamos, encontro, no qual você nos retorna muito hilária.
Denise Moraes.
Um abraço.
11 months ago
Visitor
querida LEILA! quando puder estarei postando textos seus no site telescopio.vze.com
estamos comemorando 13 anos na net,e neste ano entrevistamos TOM ZÉ, DANIELA ESCOBAR (atriz),ARNALDO BAPTISTA (ex-mutantes),CINEASTA LUIZ ROSEMBERG FILHO, PRETENDEMOS entrevistar voce nas próximas edições comemorativas de 2012,tudo bem?? meu email:jornaltelescopio@gmail.com
11 months ago
Márcia
Leila queridíssima, adorei sua crônica e agradeço pelo carinho de me colocar entre seus ouros, viu? Que bom que é assim! Isso me deixa toda prosa! Fiquei emocionada pela maneira como se refere, nas fotos de seu álbum, a Cora Cora(linda) – adorei seu trocadilho...rs... Fiquei com dó do coitado do Facebookson...judieira desse menino! Quanto ao facebook, é por aí mesmo: ele é, a meu ver, uma vitrine de ególatras – não são todos, obviamente, pois há muuuuuuuuuuuuuuuuuuuita gente boa, com capacidade para muito mais do que o espaço oferece. Além disto, é mais um local para nos encontrarmos e trocarmos figurinhas. O que me deixa intrigada, porém, é ser incluída em grupos, sem que me convidem, grupos estes em que seus membros só publicam seus trabalhos e quase nunca comentam o trabalho alheio.
Obrigada por fazer parte de minha vida, dindinha!
Beijos carinhosos,
Márcia
11 months ago
Leila
Querida Chris, o que faz o lugar ainda mais belo é a alta vibração de quem nos visita. Um beijo querida, vou colocar nossa foto no meu álbum do Face provavelmente na quinta-feira.
11 months ago
Visitor
Leila querida, aqui na Alemanha está excepcionalmente quente! rs. É que estamos (finalmente) no verão. O inverno por aqui é "longo e tenebroso" como se pode imaginar e o verão curtíssimo. Pelo menos essa semana posso lembrar com carinho dos ares de Maricá! Saudades do nosso encontro aí nesse lugar belíssimo.
Beijos.
Chris Herrmann
11 months ago
Leila
Muito obrigada, visitante. Bom que você vai passar a acompanhar o que escrevo.
11 months ago
Leila
Chico, que o teu xará, o outro Chico (Buarque) me desculpe, mas eu também penso duas vezes antes de agir, principalmente lá. E também concordo com o que você disse: o face em si não é bom nem mau, cabe a nós fazermos dele uma via de comunicação legal ou superficial (a rima é proposital...). O mais interessante é que o Face se transforma em um bom exercício, se a gente pretende conhecer melhor a alma humana (e todo escritor tem esta intenção, em grau maior ou menor): diz-me o que postas e dir-te-ei quem és... rs. Beijos, querido.
11 months ago
Leila
Chris, que bom vê-la aqui. Sim, há um lado ótimo, dos amigos saberem de nós e nós deles. Isso eu gosto muito. Ampliar lugares de encontros amigos e afetivos me dá grande prazer. E como está o tempo aí na Alemanha? Aqui em Maricá faz o inverno resolveu ser rigoroso: ontem, na nossa sala, a temperatura era de 9 graus, de madrugada... Beijos.
11 months ago
Leila
É sim, Ivana, lógico que é. E nem só de brilho ou luz somos feitos; também temos um lado sombra, como os psicólogos já alertaram, e não há como negá-lo. Pois é, às vezes tenho vontade de pegar essas frases de efeito facebookianas e comentar... Futuramente, acho que elas serão vistas como vemos hoje as "frases de caminhão"... rs. Mas há umas engraçadas, mesmo que não concordemos com elas; as piores são, justamente, as que escondem mensagens do tipo que você captou mesmo. Essas eu acho perniciosas, porque induzem a que repitamos velhos padrões que já se mostraram falidos há muito tempo. No mais, nada a agradecer, amiga, disse e repito: você é um dos meus tesouros no Face. Bjs.
11 months ago
Visitor
ideia bastante interessante a dessa coluna que acompanharei.
11 months ago
Leila
Queridíssima Leninha, você faz parte destes registros afetivos, que agora torno públicos. Pesquisadora, poeta, grande amiga... em breve uma foto nossa estará lá no álbum. No mais, o Face sempre me lembra o título de um livro do João Cabral (aliás, da década de 1970): Museu de tudo... Um museu de tudo pós-moderno... rs. Beijos, linda. Muitos.
11 months ago
Visitor
Querida Leila,
gostei muito de ler suas considerações sobre o Facebook. Há mesmo de tudo por lá, desde rir a espantar, de bom e de ruim. Como você, resisti por um tempo. Porém há o lado bom de poder comunicar-se com pessoas queridas.
Um grande beijo e muito sucesso.
Chris
11 months ago
Leila
Obrigada, querida, estes "points" virtuais são ótimos, ainda mais quando os amigos com quem conversamos são gente que a gente ama. Carinho meu enorme, Clarisse.
11 months ago
Leila
Obrigada pela leitura e comentário, Vânia, pois é: o Face tem me dado momentos de boas reflexões e sorrisos. Beijos.
11 months ago
chico abelha
Leila, o Face é o espelho da sociedade humana, meio embaçado porque as ferramentas que ele oferece limitam alguns desvarios mais ousados, mas reflete bem o que temos por aí afora, com a vantagem inegável de colocar o mundo todo ao alcance dos dedos.
Comemoro a sua entrada na rede, pois entendo que ela é uma ferramenta poderosa, não sendo ruim nem boa em si, mas sim o que fazemos dela...
Grato pelo elogio, eu cuido muito daquilo que coloco lá no Facebook pois o mundo já muito está cheio de lixo (vide seu post anterior...)
Bjão!
11 months ago
Visitor
Querida Leila,
gostei muito de ler suas considerações sobre o Facebook. Há mesmo de tudo por lá, desde rir a espantar, de bom e de ruim. Como você, resisti por um tempo. Porém há o lado bom de poder comunicar-se com pessoas queridas.
Um grande beijo e muito sucesso.
Chris
11 months ago
IVANA MIHANOVICH
Amada Leila,

Conhecer Coralina pessoalmente deve ter sido mesmo emocionante... Tua poesia não é doce feito a dela, porque de cana sai açúcar e de café sai ouro negro. Cada uma em seu momento, todas complementares. E fico feliz de saber que ela te reconheceu e te acolheu. Aliás, só podia, sendo sensível como transparece ser.

Tudo na Terra tem face de luz e face de sombra e em tudo que é novo, penso que entramos com o Mago, com o espírito jovem. A curiosidade jovial em xeretar o novo nos leva a alguma confusão temporária. Adicionamos montes de "amigos", vamos no fluxo da febre e demora um tempo até percebermos a quantidade de asneiras que vem na rede desse rio. Aí separamos os alhos dos bugalhos e a tal rede só então torna-se nossa, não mais aquele vai da valsa. Como vc disse muitíssimo bem: o ser humano estraga ou enriquece as redes sociais de que participa.

O Dalsan certa vez disse uma frase que adotei: "essa coisa de frase de efeito facebookiana"...rs.
O ser humano contemporâneo é agarrado em fasthink, como em fastfood, então frase de efeito é aquela faca de dois "legumes": às vezes ilumina, às vezes só mascara a preguiça de pensar. Mas como em qualquer rio selvagem, aprende-se em que canto ficam as tilápias, em qual os dourados e assim vai. Pode-se, então, pescar onde estão os peixes que nos interessam. Muito me honra, aliás, que vc tenha me incluído na sua pescaria...rs.

Bjs gdes, obrigada por escrever!

PS: a tal frase do sol e do vagalume é meio besta, acho... Parece ideia de padre jesuíta, aquela coisa de fazer-se pequenino e não almejar nada maior, sei lá...rsrs. Além do que vc comentou, eu acho que seja o Sol ou o vagalume, o candeeiro ou a lanterna de pilha, uma vela de cera ou uma tocha havaiana, apenas vá e seja o que é. Né não?...rs
11 months ago
Leninha
Que gracinha de crônica! É assim mesmo, no facebook encontra-se de tudo: doido, deprimido, eufórico, compulsivo, alegre, amigos de fachada, amigos de verdade... Bom que você garimpou, querida, e obrigada por acompanhar minhas postagens. Eu também tenho o maior prazer em acompanhar as suas. Seus álbuns estão uma beleza! Eventos inesquecíveis e Afetos múltiplos mostram como os autores dos anos 70-80-90-2000 trabalharam e ainda trabalham, se divertiam e ainda se divertem, em prol da literatura, da poesia, da mulher, enfim, da cultura brasileira. E Cora Coralina? É como você diz: tão doce quanto os doces que ela fazia. Um beijo e parabéns por todos os registros.
11 months ago
Visitor
esqueci de assinar... sobre o brilho nos encontros,

Clarice Villac, 10.07.2012
11 months ago
Visitor
Leila, os encontros brilham na medida da realidade...
É bom saber que você está mais próxima...
11 months ago
Visitor
Querida Leila,
Gostei muitíssimo do seu texto. E imagino a emoção de estar ali com Coralina, deve ter sido maravilhoso poder olhá-la, sentir e trocar ideias com ela.
Quanto ao Face também aconteceu comigo ter tido uma certa resistência para entrar. Mas estou achando bom e como você diz estar entre tantos autores conhecidos e contemporâneos. Belo texto!
beijos
Vânia Moreira Diniz
11 months ago

YuBloggers

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