Além das Letras - por Leila Míccolis
Tuesday, 19 January 2010
posted by Leila
Não estou falando do meu tamanho, apesar de parecer, à primeira vista, mas do meu microcomputador. Minha relação com ele, a princípio, foi sempre a de atração e rejeição; não por medo da modernidade, mas porque, como boa capricorniana, sempre sondo primeiro antes de confiar por inteiro. Meu parceiro da novela "Kananga do Japão", Wilson Aguiar Filho, maravilhado com o seu computador, me dizia entusiasmado: "quando você tiver o seu, não vai querer saber de mais nada". Longe de ser convencida com este argumento, ao contrário, me calava, achando aquilo uma ofensa velada à minha máquina de escrever eletrônica — aquela grande, cheia de "margaridas" para mudar os tipos de letras, e teclas de atalhos para executar comandos. Até que eu me animei, com "Barriga de Aluguel", devido a um motivo muito simples: estava ficando caro demais manter a máquina eletrônica, principalmente pela borracha que acabava muito rapidamente...

Quando o micro chegou em minha vida, achei que a adaptação foi relativamente fácil, quanto ao teclado de digitação. O pior era criar um arquivo e salvar... Eu escrevia todos os passos (que eram apenas quatro ou cinco) em um caderno, tudo explicadinho. Na hora de fazer, salvava tudo errado. Nestas horas, meu amigo, que pacientemente me ensinava, ficava horas pelo telefone me teleguiando à distância para me ajudar a descobrir onde eu salvara o arquivo perdido, sempre nos lugares mais loucos do mundo, ou melhor do micro, óbvio.

Uma vez, ainda neste estágio preliminar, perdi uma peça de teatro que eu estava criando. Do primeiro arquivo deletado a gente não esquece... A peça se chamava "Fora de Forma" e eu não tinha "backup", aliás,  foi a primeira vez que fui apresentada a um arquivo de segurança, pena que justo em meio a uma situação tão dramática (e a peça era uma comédia...).

Fiquei muito magoada com o micro, porque achei que a culpa era dele, eu não tinha feito nada demais. Ele é que estava a fim de atrapalhar o meu trabalho. Então, lembrei-me dos filmes em que o computador tinha vontade própria e por um bom tempo (alguns minutos) considerei-o um inimigo. E ele agiu assim, realmente. Quando eu estava trabalhando na reformatação da "74.5 - Uma onda no ar" para a TV portuguesa, ele literalmente "explodiu". Fiquei três dias trabalhando com um dos micros da produtora e, quando o meu chegou do conserto, veio com um rombo na "placa mãe". Disseram que, para consertá-lo direito, levariam muito tempo (na verdade, como era a produtora independente quem estava pagando o conserto, ela disse para fazer o micro funcionar rápido, e os técnicos fizeram apenas um "gatilho" provisório). No entanto, a partir daí, ao ver meu computador, mesmo combalido e fraco, quase sem memória, esforçando-se para cumprir suas tarefas (às vezes dezoito horas seguidas de trabalho), sem "esmorecer", sem pifar, sem me deixar na mão, comecei a gostar dele: o danado era resistente como eu, tínhamos garra... na primeira manifestação de simpatia de minha parte, ele recolheu as garras e eu  baixei a guarda.

Vários anos se passaram desde então. Neste exato momento, confesso que não poderia viver sem ele, ou melhor, abandoná-lo seria tão triste quanto me separar de um ente querido — e atentem para o detalhe de eu tê-lo chamado de "ente"...  —,  principalmente depois que eu e o Urhacy instalamos a internet (desde julho/96), construímos nosso site cultural, Blocos, e fizemos muitos amigos. Para mostrar a importância do micro em minha vida, quero contar um episódio: em agosto de 1984, no dia do enterro de meu pai, soube da existência de uma irmã (também filha dele). Quando vim para Maricá, nós duas nos perdemos. Bastante tempo depois ela me reencontrou pelos mecanismos de busca da internet  — há muitos anos mora nos Estados Unidos — e eu que sempre fui criada filha única, soube por ela que já sou tia-avó... Parece trama de novela de televisão, mas é vida real.

Meu computador transformou-se em meu amigo muito querido de todas as horas — de diversão, conversas, jogos, contatos, pesquisas, informações, trabalho, oportunidades, descobertas, revelações, emoções. Portanto, se você ainda está na fase de atração e rejeição pelo seu micro, ultrapasse-a logo: descarte a primeira parte e fique com a segunda, sem medo de sentir os múltiplos orgamos que você terá com ele, nesta prazerosa e vertiginosa viagem a dois.

Categories

No items found

21 comments


Leila
Outro dia aqui no Yubliss havia um tópico em que as pessoas definiam saudade. E eu pensei: saudade é o que se sente quanto a gente perde arquivos importantes do micro... O enterro de lembranças é sempre doloroso. Porém, falemos de alegria, de reaproximações e de memórias vivas! Beijos e obrigada, Sandra!
2 years ago
Visitor
Querida Leila,
de completo me relacionei com sua cronica a respeito dos micros. Demorei a adota-los, mas hoje nao sei viver sem eles.Ate saudade tenho quando passo o dia sem visita-lo.Minha poesia, meus amigos, meus trabalho tudo esta nele guardado, precioso arquivo de mim.E nao posso deixar de mencionar que foram as teias desta rede que trouxe ate voce! Que maravilha!Mais um precioso
reencontro gerado pelo poder do micro em suas vidas!
Sandra
2 years ago
Visitor
2 years ago
Leila
Thaty querida, taí, adorei: "a melhor definição de amor virtual talvez seja nossa relação com o computador". Você sempre preciosa, não é querida? Obrigada por estar por aqui, melhor só se você entrasse para o Yubliss para partilhar de suas peculiares visões de vida. Beijos.
2 years ago
Visitor
Dinda, delícia ler você, sempre, principalmente partilhando esse amor bandido que acho que todos temos pelas maquinetas. Em tempos de notebooks, Ipods e outros que tais modernosos eu mal consigo me entender com um simples celular e a novidade do Bluetooth (espero que a grafia esteja correta - óh, modernidade!).
Mas o seu registro em crônica dessa relação conturbada é muito preciso: o computador é um mal necessário, ou um bem que às vezes nos despreza, desdenha de nossas agonias e apronta das suas, pra nosso desespero...rs
Talvez essa seja a melhor definição de "amor virtual": nossa relação com o computador...rs
beijocas

Thaty Marcondes
2 years ago
Leila
Visitante, obrigada pela leitura e pelo saboroso comentário.
2 years ago
Leila
Márcia, agora o Renato conseguiu "desbloquear" os comentários, e estou respondendo ao seu, de uma semana atrás - alías, uma semana bastante tensa com o micro me pegando peças. Acho que devo tê-lo tratado mal em algum momento e ele resolveu revidar... Mas, já conversei com ele, espero termos chegado a um comum acordo, se não de paz, pelo menos de trégua... rs. Beijo carinhoso, Leila
2 years ago
Visitor
Ler você ,Leila, é musica para os ouvidos,voc~e falando da sua relação com o
micro é gostoso demais.Imagine falando de outras tantas relações tontas.
2 years ago
Márcia
Leila querida, ainda ontem te falei da arte que aprontei em meus emails...rss...acho que ninguém escapa; talvez seja a forma que nossos micros encontrem para nos ensinar a tomarmos mais cuidado com os botões que apertamos...e isso é bom, nos deixa mais alertas com relação às nossas atitudes na vida.
Sim, antes que me esqueça: recuperei todos eles ;-)

Beijos muitos, com carinho,
Márcia
2 years ago
Leila
Vânia, o bom de quem gosta de escrever, como nós, é ter jogo de cintura inclusive para lidar com o micro... rs... Por isso é importante o considerarmos aliado, para termos mais paciência. Porque se o considerarmos um estranho, acabamos em guerra... e tudo o que queremos é paz para nós e para o mundo, não é mesmo? Beijos, querida.
2 years ago
Leila
Jr, muito gostoso o seu relato. Aqui em Maricá, no sítio um tanto afastado do centro da cidade, por conta dos eternos apagões e interrupções de energia, não há nobreak que aguente... Então, crei ou hábito de salvar de minuto em minuto o que estou fazendo - seja email ou texto. O micro moldou esta compulsão, mas ainda acho melhor este "distúrbio" à dor de cabeça de perder o que estou fazendo três a quatro vezes por dia... rs...
2 years ago
Leila
Pois é, Chico, só não coloquei o milhões depois do dois para não parecer que eu estava incitando à suruba coletiva... rs... Mas é por aí mesmo, eu acho.
2 years ago
Leila
É, Biajoni, para os escritores que datilografavam muito, o PC foi uma bênção... Ainda não tenho laptop - na realidade ando de olho nos nettops, mais próprios ao meu tamanho e ao meu bolso. Ainda mais faltando, aqui no sítio, tanta energia elétrica, sempre, meu sonho de consumo também me facilitará bastante a vida.
2 years ago
Leila
Que máximo, Pedro. Acho que é preciso muita coragem para abrir um computador e mexer nos "neurônios" dele, mesmo tendo feito um curso bom como o do Impacta. Esse negócio de ficar na superfície, como em geral são (somos) os usuários de Internet, as vezes me incomoda bastante. O bom, porém, é que mesmo com esta limitação, sempre aprendo algo todo dia ou na rede ou no funcionamento da rede. É um bom exercício zen de percepção... risos
2 years ago
Leila
É, Maria Neusa, este percurso entre a rejeição e a rendição incondicional demora um pouquinho. Por muito tempo (muito mesmo, talvez um ou dois anos) tive muito medo de fazer download, em puxar arquivos de programa para o computador. Até que um dia alguém me disse: e você vai ter este medo até quando? É, pensei, já está na hora de acabar com ele... O bom de romper barreiras é que você aprende muita coisa, inclusive a ser seletiva com o que você importa. Ou seja, cautela é bom, mas cerceamento por medo, gosto não... rs
2 years ago
Visitor
Leila querida,
Compreendo perfeitamente sua resistência ao micro. Também achava que só poderia escrever com a caneta diretamente para o papel.
Sua história me emocionou porque esse micro que foi motivo de desconfiança para muitos, é hoje o grande e inseparável amigo de todas as horas e sua história nos faz supor que se você, brilhante e maravilhosa nas letras teve essa resistência,já não precisamos ficar tão impressionados com o que acontececeu conosco. Bela narração que como sempre empolga quem a lê.
Meu carinho
Vânia Moreira Diniz
2 years ago
jr
Lembro quando começaram a "informatizar" a redação do jornal onde trabalhava. Tinha uma "supervisora" que ligava os computadores e depois salvava as matérias que a gente digitava. Mas legal mesmo era quando alguém, sem querer, dava um pontapé no transformador e desligava tudo, mando pro espaço todo o trabalho feito até ali. Um dia, teve um corte de luz e o material todo dançou. Tivemos que buscar os repórteres em casa para refazer, de cabeça, as matérias do dia. O jornal,que ir pras bancas tipo 5 da manhã, só saiu às 10.
2 years ago
chico abelha
Leiloca, eu não diria que a viagem prazeirosa, vertiginosa e cheia de orgasmos é a dois. Ela é a milhares no nosso caso e se for nesse embalo será a milhões dentro em breve! rs!
2 years ago
Biajoni
não dá nem para lembrar como era antes.
meu deus! jornalismo com máquina de escrever e telefone de mesa com fio!
:>)
para escrever minhas coisas aqui e ali tinha ma olivetti lettera, que carregava numa case... pesadíssima. era meu pré-laptop.
como posso viver sem meu laptop hoje?
;>)
2 years ago
Pedro
Fiz um trabalho extra em 1994 que me rendeu uns dólares. Só que não davam para comprar um Pc no Brasil. Não tive dúvida. Peguei um ônibus de linha e fui para Ciudad Del Este. Trouxe um moderníssimo 486-DX2-66 completo e uma impressora HP. Como estava pago e era meu, enfiei a mão. Teve lances pitorescos, mas acabei aprendendo de lá para cá. Desde o Windows 3.11 até o Vista, que é o que eu tenho atualmente na minha máquina. Tá certo que fiz um curso de Hardware I, na Impacta, uma das melhores escolas de informática do Brasil. Custou o olho da cara, mas desmontei, aprendi o que é cada parte, montei de novo e configurei para nunca mais esquecer e estou sempre aprendenndo. Atualizo toda vez que posso o hardware. Hoje tenho um processador Intel I-7, 6 Gb de RAM ddr3 e uma das mais avançadas placas mães do mercado, a Asus P6T De luxe V2. Mas também, todos esses anos atualizando, só podia estar modernoso mesmo.
2 years ago
maria neusa
Leila: eu também passei por todas essas fases antes de me render.O que me reprime ainda é o medo de quebrar "essa coisa", se apertar no lugar errado..rsrs..mesmo sabendo que o técnico pode consertá-lo.Ainda falta tempo pra eu chamá-lo de ente mas um dia chego lá,já que não sei mais viver sem ele...beijos amigos e solidários da maria neusa
2 years ago

YuBloggers

Categories

No items found

Archive

Not a member?