Home > Além das Letras - por Leila Míccolis > O micro e eu
Não estou falando do meu tamanho, apesar de parecer, à primeira vista, mas do meu microcomputador. Minha relação com ele, a princípio, foi sempre a de atração e rejeição; não por medo da modernidade, mas porque, como boa capricorniana, sempre sondo primeiro antes de confiar por inteiro. Meu parceiro da novela "Kananga do Japão", Wilson Aguiar Filho, maravilhado com o seu computador, me dizia entusiasmado: "quando você tiver o seu, não vai querer saber de mais nada". Longe de ser convencida com este argumento, ao contrário, me calava, achando aquilo uma ofensa velada à minha máquina de escrever eletrônica — aquela grande, cheia de "margaridas" para mudar os tipos de letras, e teclas de atalhos para executar comandos. Até que eu me animei, com "Barriga de Aluguel", devido a um motivo muito simples: estava ficando caro demais manter a máquina eletrônica, principalmente pela borracha que acabava muito rapidamente...
Quando o micro chegou em minha vida, achei que a adaptação foi relativamente fácil, quanto ao teclado de digitação. O pior era criar um arquivo e salvar... Eu escrevia todos os passos (que eram apenas quatro ou cinco) em um caderno, tudo explicadinho. Na hora de fazer, salvava tudo errado. Nestas horas, meu amigo, que pacientemente me ensinava, ficava horas pelo telefone me teleguiando à distância para me ajudar a descobrir onde eu salvara o arquivo perdido, sempre nos lugares mais loucos do mundo, ou melhor do micro, óbvio.
Uma vez, ainda neste estágio preliminar, perdi uma peça de teatro que eu estava criando. Do primeiro arquivo deletado a gente não esquece... A peça se chamava "Fora de Forma" e eu não tinha "backup", aliás, foi a primeira vez que fui apresentada a um arquivo de segurança, pena que justo em meio a uma situação tão dramática (e a peça era uma comédia...).
Fiquei muito magoada com o micro, porque achei que a culpa era dele, eu não tinha feito nada demais. Ele é que estava a fim de atrapalhar o meu trabalho. Então, lembrei-me dos filmes em que o computador tinha vontade própria e por um bom tempo (alguns minutos) considerei-o um inimigo. E ele agiu assim, realmente. Quando eu estava trabalhando na reformatação da "74.5 - Uma onda no ar" para a TV portuguesa, ele literalmente "explodiu". Fiquei três dias trabalhando com um dos micros da produtora e, quando o meu chegou do conserto, veio com um rombo na "placa mãe". Disseram que, para consertá-lo direito, levariam muito tempo (na verdade, como era a produtora independente quem estava pagando o conserto, ela disse para fazer o micro funcionar rápido, e os técnicos fizeram apenas um "gatilho" provisório). No entanto, a partir daí, ao ver meu computador, mesmo combalido e fraco, quase sem memória, esforçando-se para cumprir suas tarefas (às vezes dezoito horas seguidas de trabalho), sem "esmorecer", sem pifar, sem me deixar na mão, comecei a gostar dele: o danado era resistente como eu, tínhamos garra... na primeira manifestação de simpatia de minha parte, ele recolheu as garras e eu baixei a guarda.
Vários anos se passaram desde então. Neste exato momento, confesso que não poderia viver sem ele, ou melhor, abandoná-lo seria tão triste quanto me separar de um ente querido — e atentem para o detalhe de eu tê-lo chamado de "ente"... —, principalmente depois que eu e o Urhacy instalamos a internet (desde julho/96), construímos nosso site cultural, Blocos, e fizemos muitos amigos. Para mostrar a importância do micro em minha vida, quero contar um episódio: em agosto de 1984, no dia do enterro de meu pai, soube da existência de uma irmã (também filha dele). Quando vim para Maricá, nós duas nos perdemos. Bastante tempo depois ela me reencontrou pelos mecanismos de busca da internet — há muitos anos mora nos Estados Unidos — e eu que sempre fui criada filha única, soube por ela que já sou tia-avó... Parece trama de novela de televisão, mas é vida real.
Meu computador transformou-se em meu amigo muito querido de todas as horas — de diversão, conversas, jogos, contatos, pesquisas, informações, trabalho, oportunidades, descobertas, revelações, emoções. Portanto, se você ainda está na fase de atração e rejeição pelo seu micro, ultrapasse-a logo: descarte a primeira parte e fique com a segunda, sem medo de sentir os múltiplos orgamos que você terá com ele, nesta prazerosa e vertiginosa viagem a dois.
Quando o micro chegou em minha vida, achei que a adaptação foi relativamente fácil, quanto ao teclado de digitação. O pior era criar um arquivo e salvar... Eu escrevia todos os passos (que eram apenas quatro ou cinco) em um caderno, tudo explicadinho. Na hora de fazer, salvava tudo errado. Nestas horas, meu amigo, que pacientemente me ensinava, ficava horas pelo telefone me teleguiando à distância para me ajudar a descobrir onde eu salvara o arquivo perdido, sempre nos lugares mais loucos do mundo, ou melhor do micro, óbvio.
Uma vez, ainda neste estágio preliminar, perdi uma peça de teatro que eu estava criando. Do primeiro arquivo deletado a gente não esquece... A peça se chamava "Fora de Forma" e eu não tinha "backup", aliás, foi a primeira vez que fui apresentada a um arquivo de segurança, pena que justo em meio a uma situação tão dramática (e a peça era uma comédia...).
Fiquei muito magoada com o micro, porque achei que a culpa era dele, eu não tinha feito nada demais. Ele é que estava a fim de atrapalhar o meu trabalho. Então, lembrei-me dos filmes em que o computador tinha vontade própria e por um bom tempo (alguns minutos) considerei-o um inimigo. E ele agiu assim, realmente. Quando eu estava trabalhando na reformatação da "74.5 - Uma onda no ar" para a TV portuguesa, ele literalmente "explodiu". Fiquei três dias trabalhando com um dos micros da produtora e, quando o meu chegou do conserto, veio com um rombo na "placa mãe". Disseram que, para consertá-lo direito, levariam muito tempo (na verdade, como era a produtora independente quem estava pagando o conserto, ela disse para fazer o micro funcionar rápido, e os técnicos fizeram apenas um "gatilho" provisório). No entanto, a partir daí, ao ver meu computador, mesmo combalido e fraco, quase sem memória, esforçando-se para cumprir suas tarefas (às vezes dezoito horas seguidas de trabalho), sem "esmorecer", sem pifar, sem me deixar na mão, comecei a gostar dele: o danado era resistente como eu, tínhamos garra... na primeira manifestação de simpatia de minha parte, ele recolheu as garras e eu baixei a guarda.
Vários anos se passaram desde então. Neste exato momento, confesso que não poderia viver sem ele, ou melhor, abandoná-lo seria tão triste quanto me separar de um ente querido — e atentem para o detalhe de eu tê-lo chamado de "ente"... —, principalmente depois que eu e o Urhacy instalamos a internet (desde julho/96), construímos nosso site cultural, Blocos, e fizemos muitos amigos. Para mostrar a importância do micro em minha vida, quero contar um episódio: em agosto de 1984, no dia do enterro de meu pai, soube da existência de uma irmã (também filha dele). Quando vim para Maricá, nós duas nos perdemos. Bastante tempo depois ela me reencontrou pelos mecanismos de busca da internet — há muitos anos mora nos Estados Unidos — e eu que sempre fui criada filha única, soube por ela que já sou tia-avó... Parece trama de novela de televisão, mas é vida real.
Meu computador transformou-se em meu amigo muito querido de todas as horas — de diversão, conversas, jogos, contatos, pesquisas, informações, trabalho, oportunidades, descobertas, revelações, emoções. Portanto, se você ainda está na fase de atração e rejeição pelo seu micro, ultrapasse-a logo: descarte a primeira parte e fique com a segunda, sem medo de sentir os múltiplos orgamos que você terá com ele, nesta prazerosa e vertiginosa viagem a dois.
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21 comments
de completo me relacionei com sua cronica a respeito dos micros. Demorei a adota-los, mas hoje nao sei viver sem eles.Ate saudade tenho quando passo o dia sem visita-lo.Minha poesia, meus amigos, meus trabalho tudo esta nele guardado, precioso arquivo de mim.E nao posso deixar de mencionar que foram as teias desta rede que trouxe ate voce! Que maravilha!Mais um precioso
reencontro gerado pelo poder do micro em suas vidas!
Sandra
Mas o seu registro em crônica dessa relação conturbada é muito preciso: o computador é um mal necessário, ou um bem que às vezes nos despreza, desdenha de nossas agonias e apronta das suas, pra nosso desespero...rs
Talvez essa seja a melhor definição de "amor virtual": nossa relação com o computador...rs
beijocas
Thaty Marcondes
micro é gostoso demais.Imagine falando de outras tantas relações tontas.
Sim, antes que me esqueça: recuperei todos eles ;-)
Beijos muitos, com carinho,
Márcia
Compreendo perfeitamente sua resistência ao micro. Também achava que só poderia escrever com a caneta diretamente para o papel.
Sua história me emocionou porque esse micro que foi motivo de desconfiança para muitos, é hoje o grande e inseparável amigo de todas as horas e sua história nos faz supor que se você, brilhante e maravilhosa nas letras teve essa resistência,já não precisamos ficar tão impressionados com o que acontececeu conosco. Bela narração que como sempre empolga quem a lê.
Meu carinho
Vânia Moreira Diniz
meu deus! jornalismo com máquina de escrever e telefone de mesa com fio!
:>)
para escrever minhas coisas aqui e ali tinha ma olivetti lettera, que carregava numa case... pesadíssima. era meu pré-laptop.
como posso viver sem meu laptop hoje?
;>)