Além das Letras - por Leila Míccolis
Monday, 22 February 2010
posted by Leila

Desde criança ouve-se dizer: "muito riso é sinal de pouco siso". Ou seja, é indício de alienação, de imaturidade, de frivolidade, de falta de juízo. Começamos, desta maneira, nosso aprendizado para a tristeza: mas, por que tem que ser assim?

 

As tradições religiosas — principalmente a judaico-cristã – sempre pregaram a circunspecção, a gravidade, a austeridade, a sisudez. Inclusive a trama de “O Nome da Rosa", de Humberto Eco, gira em torno de um livro filosófico (extremamente sério) que debatia justamente o riso. Tratava-se de uma obra perigosíssima, porque afrouxava a rigidez, exercendo uma crítica antiformalista e propiciando um desmoronamento de dogmas, o que — para os ascetas moralistas — levaria ao caos.


Rir, ato exclusivamente humano —
como o amor e a fala — não deveria ser considerado um mal em si. No ocultismo, o riso é força poderosa contra certos feitiços (lá vem cinema de novo: lembram-se das Bruxas de Eastweek?). No cotidiano, ele relaxa toda a musculatura e predispõe a pessoa a desarmar-se, ou, como diria Wilhelm Reich, a destensionar sua armadura corporal. No Brasil, em um período paradoxalmente muito mal-humorado (talvez e principalmente por isso), a partir de 1964, sobressaíram o humor negro dos cartuns, o humor corrosivo das charges, dos quadrinhos, das tiras (Henfil), dos poemas irônicos e satíricos. Rir, naquele momento, era um luxo e uma necessidade, questão de sanidade e profilaxia.

 

No entanto, algumas expressões que usamos com muita frequência, também se nutrem deste clima soturno: se pisamos sem querer no rabo do gato, por exemplo, dizemos: "— Bem feito!, quem mandou ficar atrás de mim?". Falamos irritados com o outro (como filosofou sabiamente Sartre: "os problemas são os outros"... sempre), sem perceber que estamos exercendo uma certa vingança contra nós mesmos, por não prestarmos a atenção devida ao que ocorre à nossa volta. Então, esta não tão inofensiva expressão dirige-se em verdade a nós próprios, toda vez que tentamos justificar nossas falhas, projetando aparentemente a culpa no outro. Em seu efeito bumerangue parece endereçar-se aos outros, mas volta-se imediatamente contra o arremessador.

 

Concluir é fácil: em uma sociedade que privilegia mais a sobrevivência do que a vivência é compreensível que o riso, a alegria, a plenitude, a busca da felicidade e do prazer, assuste e por vezes seja até condenada; mas já é tempo de entendermos e filiar-nos à revolução do riso, em vez de exaltarmos uma vida doentiamente desprazerosa, atormentada, sombria, ensopada de lógica formal, mantida em formol.

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30 comments


Leila
Muito obrigada, Ariane, que bom que você chegou até mim pelo humor... Beijos.
1 year ago
Leila
Flávia, obrigada, querida. Elogio vindo de outra escritora como você me deixa muito feliz. Beijos.
1 year ago
Visitor
Oi Leila, Estava aqui pensando na revolução do riso que esses meninos do humor (Band;Mtv) vêm fazendo ai fui procurar no google e vi seu texto. Gostei muito.
Ariane
1 year ago
Visitor
Amiga, querida,
Seu texto é sempre motivo de alegria pra mim. E rir é bom demais, os sisudos que me perdoem... rir com você, então, melhor ainda... Beijos,
Flávia Côrtes
1 year ago
Leila
Rogel querido, ter você como meu leitor é motivo para rir de alegria. Amanhã, estarei no seu fórum sobre Budismo, estou querendo aprender ainda mais com você, que já me ensina tanto.
1 year ago
ROGEL
amiga, rir é o meu remédio, diziam os antigos e os novos, como você sabe viva a alegria de encontrar você aqui!
1 year ago
Leila
Fabbio, muito estrelado seu comentário-depoimento, tal como o céu de nossas infâncias. Acho que é exatamente por aí, restaurar um pouco da ludicidade que há em nós, porque a lei da força de gravidade é importantíssima para o planeta, mas restringe, em se tratando de pessoas, concorda? rs...
Obrigada por sua leitura, amigo, fique com meu abraço.
1 year ago
Visitor
Lembro-me, Leila, de minha infância e primeira adolescência, eu sentado com meu pai nas velhas cadeiras de praia que púnhamos na calçada em frente de casa, à noitinha, a ouvir um programa humorístico no radinho de pilha. Como me deliciava com aqueles momentos estrelados, com aquela atmosfera mágica que só as crianças conseguem administrar! Nós ali, eu e meu querido pai-amigo a dividir risos bobos e um saco de amendoim, ou pedaços humildes de pão francês dormido cortados à mão. Como era simples sorrir, como nascia fácil e límpida aquela alegria. Creio ser o riso algo ligado à pureza, mesmo que essa pureza desencadeie-se do ridículo, de um mico, nosso ou de outrem. Meu pai não está mais por aqui há muito tempo, mas as belezas da vida - se o permitirmos - mantêm-se conosco - curriculum vitae... Ainda me lembro também da seção "Rir é o Melhor Remédio", das revistas Seleções com que ele me presenteava de vez em quando. Essas coisas tão simples corroboram-se no nosso ser, fazem-nos melhores enfrentadores do duro cotidiano, pois têm a ver com amor, com o frescor da vida. E podemos restaurar isso em nós, mesmo como seres humanos "sérios", essa máquina de problemas em que nos transformamos dia após dia. Claro que podemos, essa criança está em todos nós. E o riso é ferramenta importante, quiçá precípua, nessa reconstrução.

Abraço,
Fabbio Cortez
1 year ago
Leila
Maravilha, Monik, quanto mais gente nesta corrente, melhor! Beijos.
1 year ago
Leila
Visitante, não conhecia este provérbio. Eu concordo. Só mudaria "é uma das" medicinas... Mas acho que é um bom começo a gente sorrir um pouco mais e tentar irritar-se um pouco menos. Fácil não é, com tanta gente nos provocando, nos tensionando, nos cobrando o que não deveriam, com tanto tumulto em torno de nós... rs... Porém eu penso que vale tentar. Beijoca tb.
1 year ago
Monik
Apoio totalmente a "Revolução do riso" sob todos os aspectos, mesmo sendo tachada de boba ou louca. Tô nessa vibe. Valeu Leila!
1 year ago
Visitor
Leila, lembrei de proverbio que diz " o sorriso e' medicina para alma".Quando estou triste, vou correndo brincar com meus pequenos sobrinhos e logo, logo, a alegria inocente deles enchem meus labios de risos. A tristeza vai embora rapidinho... Uma beijoca, querida!
1 year ago
Leila
Tem nada a ver cum nóis mermo não, sô! Minha caneta sabe que ela tem o nome de caneta mas precisa cavucar um bocado a terra da vida... rs.. Conhecia a letra não e, hoje, o micro está de bom humor, demorou mas acabou passando o vídeo... Bj.
1 year ago
Leila
Exatamente, Lilian é por aí mesmo... Bom a gente conversar e trocar idéias com quem sabe das coisas. Beijo carinhoso.
1 year ago
Lílian
Issaí, Leila! "Poema-piada" é coisa séria (no bom sentido)! :)) É declaração de princípios na arte, né? Bj.
1 year ago
chico abelha
Ah, pra que vc foi juntar as duas? Conhece aquela musica A Enxada e Caneta, Leila? Não tem comparação com "nóis" viu?!? Rsrsrsrs!





“Certa vez uma caneta foi passear lá no sertão
Encontrou-se com uma enxada, fazendo a plantação.
A enxada muito humilde, foi lhe fazer saudação,
Mas a caneta soberba não quis pegar sua mão.
E ainda por desaforo lhe passou uma repreensão.”
Disse a caneta pra enxada não vem perto de mim, não
Você está suja de terra, de terra suja do chão
Sabe com quem está falando, veja sua posição
E não se esqueça à distância da nossa separação.
Eu sou a caneta soberba que escreve nos tabelião
Eu escrevo pros governos as leis da constituição
Escrevi em papel de linho, pros ricaços e barão
Só ando na mão dos mestres, dos homens de posição.
A enxada respondeu: que bateu vivo no chão,
Pra poder dar o que comer e vestir o seu patrão
Eu vim no mundo primeiro quase no tempo de adão
Se não fosse o meu sustento não tinha instrução.
Vai-te caneta orgulhosa, vergonha da geração
A tua alta nobreza não passa de pretensão
Você diz que escreve tudo, tem uma coisa que não
É a palavra bonita que se chama.... educação!

1 year ago
Leila
Acertei, não? Pois é, Chico, é desse riso interior, principalmente, que eu falo. Um riso que deixa a gente feliz feliz, por dentro: você, com a enxada, eu com a minha enxada-caneta... rs. Aliás, acho tão bonito quando você faz nela, que a próxima coluna vai ter muito da mãe-terra nela.
1 year ago
chico abelha
Acertou em cheio, Leila. Quando estou com a enxada na mão, minha alma canta e meu coração sorri...
1 year ago
Leila
Exatamente, Lilian, era a obra de Aristóteles (que eu tanto amo) sobre a comédia. Eu até gostaria de concordar com você, mas infelizmente não posso. A própria comédia, até hoje, é considerado gênero menor... e o "Poema Piada" (que de piada, aliás, tem muito pouco, ele é mais irônico do que anedótico, pelo menos aqui no Brasil), também é pouco valorizado. Mas, tomara que o riso esteja ganhando terreno... Beijos.
1 year ago
Leila
Malaguetina, você chata? É ruim, heim... Duvido e faço pouco... rs. Beijão.
1 year ago
Leila
Que delícia de comentário, Chico. Pois é, eu também era séria enquanto fui advogada. E tinha muita complicação renal... Tive de vencer muito do meu mau humor e também aprendi a negociar com Saturno, que rege meu signo... Adoro os anéis dele, mas seu clima de peso e de pesadelo, não. Até hoje não rio facilmente, mas, como eu falei para o Pedro, rir é, de alguma forma, sentir-se de bem com a vida. Tenho certeza de quando você está com uma enxada na mão, seu coração está sorrindo, mesmo que seu rosto esteja suando em bicas e enrugado... rs.
1 year ago
Leila
Muito obrigada pela leitura, visitante. Pena que, sem saber quem você é, não posso agradecer nominalmente.
1 year ago
Leila
Ah sim, Simone, com certeza. Eu não estava mencionando a aparente alegria, daquele sorriso alvar ou amarelo de quem se cala, mas não consente... Nem naquele caso que o Raimundo Correa retratou muito bem em Mal Secreto ("Quanta gente que ri talvez existe/ Cuja verdade única consiste/ em parecer aos outros venturosa"). Tudo o que é atrelado à falsidade, não me soa bem. Neste sentido, é melhor fecharmos o riso, sim, aliás não precisamos dele o tempo todo. Meu texto fala da alegria verdadeira, que também pode (e deve) ser exeercitada, em uma sociedade tão "sorumbática" como a nossa... Beijos.
1 year ago
Lílian
Se não me engano, em "O Nome da Rosa" falava-se de um texto perdido de Aristóteles, especificamente sobre a comédia (e, portanto, o riso). No que nos chegou da Poética, há apenas uma menção breve à comédia.

Mas, sabe, Leila, eu acho que não rola o desprestígio do riso, da alegria, da plenitude, da busca da felicidade e do prazer. Pelo contrário, penso que exista uma espécie de euforia obrigatória, de busca permanente e compulsória em direção a esses estados. Penso que a tristeza - ou os estados mais ensimesmados - é que são demonizados, embora sejam condição necessária para reflexão mais profunda.
1 year ago
Visitor
QUE TEXTO GOSTOSO, INTELIGENTE E BEM HUMORADO!
1 year ago
Simone
Pra mim a seriedade vem muito mais do teor das palavras, da intenção e principalmente da franqueza de quem fala, da convicção.
Quando eu observo o Dalai Lama, pra mim uma pessoa muito séria, ele sempre tem
um sorriso no rosto, mas uma grande firmeza de caráter.
Mas aquele sorriso falso, sedutor, que procura jogar um véu nas más intenções ,é pra mim pior do que cara fechada.
1 year ago
Esse último parágrafo é ótimo Leiloca...eu já tava ficando chata, até ler e refletir essa maravilha de mensagem.Obrigada.
1 year ago
chico abelha
Até os meus quarenta anos eu fui muito sério. Tinha dores na vesícula de me botarem no chão por horas, imóvel, até que ela se fosse. Nessa época, conheci uma mulher que não tinha pudor nenhum de dar todas as risadas que ela merecia. Grudei na mulher, aprendi com ela e hoje encho a sala quando eu rio. Recebo uns olhares cruzados de gente séria, mas não me policio mais, de jeito nenhum, eu nem penso pra rir! Rio!
Desde que passei a rir da vida, nunca mais a vesícula deu sinal de vida! rs!
1 year ago
Leila
Pedro, lê-lo é sempre muito bom, não só pelo que você escreve, mas como você escreve... - Tá rindo de quê? é ótimo. Uma vez estávamos eu e mais três amigos, tomando um táxi em Curitiba e a mala do táxi estava meio aberta, fazendo um barulho engraçado, e os quatro começamos a rir. O motorista ficou um bicho e falou exatamente: - tá rindo de quê? Quando soube o motivo, parou o carro, fechou a mala direito e voltou dizendo: acabou a graça. Lógico que não levou gorgeta... Concordo interiamente com você: o riso e o bom humor ameaçam muito as pessoas de mal com a vida.
1 year ago
Pedro
A minha filha puxou para mim. É risonha. E tem problemas parecidos com os que tive a vida toda. Tem gente - e muita gente - que odeia quem é risonho. "Tá rindo de quê?" se perguntam mentalmente, ao acionar todos os dispositivos possíveis e imagináveis ao seu alcance para ver, com rara satisfação, em algum momento, aquele sorriso se desmanchar. Aí eu lembro também o Reich, cito um personagem que usou para se explicar à sociedade, que foi Peer Gynt, de Ibsen. Num determinado ponto, ele diz: "-Peer Gynt acabará com o pescoço quebrado e se isso não acontecer, as pessoas cuidarão de fazer com que aconteça." A autenticidade, a personalidade descontraída e por conseguinte alegria alheia é o maior castigo para o infeliz. E quanta gente há neste mundo vasto mundo, que esconde, sob uma aparência politicamente correta, um poço de tristeza, mágoa e infelicidade! Nesse torvelinho de emoções oculto sob uma face pálida e impassivel, revela-se todo o ódio e toda a paixão despertados por um inocente sorriso alheio, provocando, inexplicavel mas intensamente, choro, dor e tristeza e também justificando, como o escorpião ao sapo da fábula: "- Sinto muito, mas é de minha natureza!"
1 year ago

YuBloggers

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