Desde criança ouve-se dizer: "muito riso é sinal de pouco siso". Ou seja, é indício de alienação, de imaturidade, de frivolidade, de falta de juízo. Começamos, desta maneira, nosso aprendizado para a tristeza: mas, por que tem que ser assim?
As tradições religiosas — principalmente a judaico-cristã – sempre pregaram a circunspecção, a gravidade, a austeridade, a sisudez. Inclusive a trama de “O Nome da Rosa", de Humberto Eco, gira em torno de um livro filosófico (extremamente sério) que debatia justamente o riso. Tratava-se de uma obra perigosíssima, porque afrouxava a rigidez, exercendo uma crítica antiformalista e propiciando um desmoronamento de dogmas, o que — para os ascetas moralistas — levaria ao caos.
Rir, ato exclusivamente humano — como o amor e a fala — não deveria ser considerado um mal em si. No ocultismo, o riso é força poderosa contra certos feitiços (lá vem cinema de novo: lembram-se das Bruxas de Eastweek?). No cotidiano, ele relaxa toda a musculatura e predispõe a pessoa a desarmar-se, ou, como diria Wilhelm Reich, a destensionar sua armadura corporal. No Brasil, em um período paradoxalmente muito mal-humorado (talvez e principalmente por isso), a partir de 1964, sobressaíram o humor negro dos cartuns, o humor corrosivo das charges, dos quadrinhos, das tiras (Henfil), dos poemas irônicos e satíricos. Rir, naquele momento, era um luxo e uma necessidade, questão de sanidade e profilaxia.
No entanto, algumas expressões que usamos com muita frequência, também se nutrem deste clima soturno: se pisamos sem querer no rabo do gato, por exemplo, dizemos: "— Bem feito!, quem mandou ficar atrás de mim?". Falamos irritados com o outro (como filosofou sabiamente Sartre: "os problemas são os outros"... sempre), sem perceber que estamos exercendo uma certa vingança contra nós mesmos, por não prestarmos a atenção devida ao que ocorre à nossa volta. Então, esta não tão inofensiva expressão dirige-se em verdade a nós próprios, toda vez que tentamos justificar nossas falhas, projetando aparentemente a culpa no outro. Em seu efeito bumerangue parece endereçar-se aos outros, mas volta-se imediatamente contra o arremessador.
Concluir é fácil: em uma sociedade que privilegia mais a sobrevivência do que a vivência é compreensível que o riso, a alegria, a plenitude, a busca da felicidade e do prazer, assuste e por vezes seja até condenada; mas já é tempo de entendermos e filiar-nos à revolução do riso, em vez de exaltarmos uma vida doentiamente desprazerosa, atormentada, sombria, ensopada de lógica formal, mantida em formol.
30 comments
Ariane
Seu texto é sempre motivo de alegria pra mim. E rir é bom demais, os sisudos que me perdoem... rir com você, então, melhor ainda... Beijos,
Flávia Côrtes
Obrigada por sua leitura, amigo, fique com meu abraço.
Abraço,
Fabbio Cortez
“Certa vez uma caneta foi passear lá no sertão
Encontrou-se com uma enxada, fazendo a plantação.
A enxada muito humilde, foi lhe fazer saudação,
Mas a caneta soberba não quis pegar sua mão.
E ainda por desaforo lhe passou uma repreensão.”
Disse a caneta pra enxada não vem perto de mim, não
Você está suja de terra, de terra suja do chão
Sabe com quem está falando, veja sua posição
E não se esqueça à distância da nossa separação.
Eu sou a caneta soberba que escreve nos tabelião
Eu escrevo pros governos as leis da constituição
Escrevi em papel de linho, pros ricaços e barão
Só ando na mão dos mestres, dos homens de posição.
A enxada respondeu: que bateu vivo no chão,
Pra poder dar o que comer e vestir o seu patrão
Eu vim no mundo primeiro quase no tempo de adão
Se não fosse o meu sustento não tinha instrução.
Vai-te caneta orgulhosa, vergonha da geração
A tua alta nobreza não passa de pretensão
Você diz que escreve tudo, tem uma coisa que não
É a palavra bonita que se chama.... educação!
Mas, sabe, Leila, eu acho que não rola o desprestígio do riso, da alegria, da plenitude, da busca da felicidade e do prazer. Pelo contrário, penso que exista uma espécie de euforia obrigatória, de busca permanente e compulsória em direção a esses estados. Penso que a tristeza - ou os estados mais ensimesmados - é que são demonizados, embora sejam condição necessária para reflexão mais profunda.
Quando eu observo o Dalai Lama, pra mim uma pessoa muito séria, ele sempre tem
um sorriso no rosto, mas uma grande firmeza de caráter.
Mas aquele sorriso falso, sedutor, que procura jogar um véu nas más intenções ,é pra mim pior do que cara fechada.
Desde que passei a rir da vida, nunca mais a vesícula deu sinal de vida! rs!