Sempre que vejo em bancas de jornais alguma revista como “Criativa”, “Faça você mesmo”, etc., transformando trabalhos manuais em momentos de descontraída recreação, não posso deixar de lembrar-me da minha experiência pessoal, extremamente oposta: para mim, esta Trabalhos Manuais era a matéria que eu tinha mais dificuldades (depois das aulas de Desenho, até hoje não sei desenhar literalmente nada). D. Rosa, mestra de disciplina tão espinhosa, testemunhando meus esforços tenazes (e vãos) para eu não me picar na agulha de costura, ou para eu cortar cartolina sem cortar meu dedo antes, ou ainda colar alguma coisa, simplesmente sem colar-me junto na carteira, tinha muita pena de mim: que seria de uma menina sem essas prendas domésticas, sem esses dotes e habilidades tão úteis, indispensáveis e imprescindíveis no cotidiano de uma mulher destinada a casar e a ter filhos? Eu lia em seus olhos preocupação e uma certa previsão sombria a respeito de meu futuro domesticamente inglório.
Em suas aulas, D. Rosa me deixava livre, embora forçosamente tivesse de ser uma liberdade vigiada, de perto e constantemente, porque eu era um perigo para mim mesma, sempre prestes a acidentar-me, a todo momento. No fundo, porém, ela não perdera, de todo, a tênue esperança de me ver triunfar, uma única vez que fosse. Sei disso porque, no dia em que a aula foi com massa de modelar, enfim ela pôde elogiar uma criação minha: uma ponte — constituída apenas de um arco e pedras incrustadas, feitas na massa sob a pressão de meus dedos. A princípio cautelosa, D. Rosa quis saber de que se tratava e eu disse, tímida: — "Uma ponte".
Para minha surpresa, vi-a abrir-se em sorrisos e elogiar-me desmesuradamente. De início, achei que era só um estímulo bondoso; mas, quando ela pediu autorização à minha mãe para exibir minha pequenina ponte na mostra semanal do colégio, onde apareciam os melhores e mais perfeitos trabalhos, eu me convenci de que, realmente, tinha encontrado meu caminho: de agora em diante eu me especializaria só em fazer pontes.
Minha mãe, toda orgulhosa, levou as amigas para verem minha obra de arte no dia da inauguração, sempre às sextas-feiras. Porém meus momentos de plena realização, que supus eterna, foram fugazes. Como título, em letras garrafais, lia-se: "DENTADURA". Ao tomar conhecimento de que a minha ponte tinha outro significado semântico, D. Rosa, sem saber o que dizer, apenas abanou a cabeça, desolada e conformada: triste destino o meu, que até quando eu acertava, errava.
Hoje, creio que minha professora mudaria de opinião, ao ver que continuei pela vida insistindo e aprendendo (agora já não tão desajeitadamente) a trabalhar com coloridas e deliciosas massas de modelar. Sim, pois afinal, não são a ficção e a literatura pontes, mágica ligação que une bocas – com ou sem dentaduras –, palavras e mãos?...
20 comments
Meu projeto agora anda sendo a dança, quero e preciso voltar a dançar! rs
Beijo!
Lindo texto, simples e bem construído, gostoso de ler.
E que coisa isso, nao?...
Eu tenho até hoje uma tartaruga completamente tôsca e ainda por cima azul-marinho, pq era a cor que eu fiquei afins naquele dia, oras...rs
Foi um fracasso total, minha professora de artes me olhava igual a essa sua D. Rosa....rsrs
Dá-lhe artes e esportes - eu, que sou um desajeito só e já era gordinha desde bem pequena; era um inferno servir de piada geral qdo eu aparecia naqueles calções ridículos entrando na bunda. Que gente podre de burra esse povo de escola, falemos sério. Como é que a ninguém ocorria que coisas como essas fazem um tremendo mal prá uma cabecinha iniciante? Como tb faz mal um coitado incapaz de escrever bem e ter que ler a redaçao lá na frente, como fizeram com um amiguinho meu. Ele lendo aquela porcaria literária e a classe rindo, pensa bem que disparate!...
Ô, Deus... A gente sobrevive razoavelmente no prumo, meramente pelos meandros do destino, nao?...kkkkkkkk
Um beijo carinhoso,
Márcia
Em contrapartida, já reparou que a maioria das pessoas que trazem o dom das habilidades manuais mostram isso desde cedo?
No antigamente, rs, era bonitinho mas elas não GANHAVAM o incentivo necessário para continuar e desenvolver esse talento ao seu ápice, acho que isso já mudou um pouco hoje, não? E acabam se conduzindo por um caminho comum tendo a arte correndo em suas veias.
Agora, numa coisa diferimos, eu era fã de Educação Física! Era uma das minhas melhores notas junto com Português, Redação, Inglês e Música. O resto eu era um desastre! rsrsrs
Beijos e adorei o papo.
eu tb sou da época do ginásio... e como vc tinha os trabalhos manuais....kkkk eu tb não ia mto bem..... vc me levou a parar e voltar no tempo.... e lembrar de um cinzeiro de latão que tive de fazer em uma dessas aulas.....
recordar é viver..... bjs
Mas as redações... as redaçõessssss.... eu amava redações!
Tínhamos que ganhar mais pontos por aquilo que amamos fazer, não acha?