Além das Letras - por Leila Míccolis

Sempre que vejo em bancas de jornais alguma revista como “Criativa”, “Faça você mesmo”, etc., transformando trabalhos manuais em momentos de descontraída recreação, não posso deixar de lembrar-me da minha experiência pessoal, extremamente oposta: para mim, esta Trabalhos Manuais era a matéria que eu tinha mais dificuldades (depois das aulas de Desenho, até hoje não sei desenhar literalmente nada). D. Rosa, mestra de disciplina tão espinhosa, testemunhando meus esforços tenazes (e vãos) para eu não me picar na agulha de costura, ou para eu cortar cartolina sem cortar meu dedo antes, ou ainda colar alguma coisa, simplesmente sem colar-me junto na carteira, tinha muita pena de mim: que seria de uma menina sem essas prendas domésticas, sem esses dotes e habilidades tão úteis, indispensáveis e imprescindíveis no cotidiano de uma mulher destinada a casar e a ter filhos? Eu lia em seus olhos preocupação e uma certa previsão sombria a respeito de meu futuro domesticamente inglório.

 

Em suas aulas, D. Rosa me deixava livre, embora forçosamente tivesse de ser uma liberdade vigiada, de perto e constantemente, porque eu era um perigo para mim mesma, sempre prestes a acidentar-me, a todo momento. No fundo, porém, ela não perdera, de todo, a tênue esperança de me ver triunfar, uma única vez que fosse. Sei disso porque, no dia em que a aula foi com massa de modelar, enfim ela pôde elogiar uma criação minha: uma ponte — constituída apenas de um arco e pedras incrustadas, feitas na massa sob a pressão de meus dedos. A princípio cautelosa, D. Rosa quis saber de que se tratava e eu disse, tímida: — "Uma ponte".

 

Para minha surpresa, vi-a abrir-se em sorrisos e elogiar-me desmesuradamente. De início, achei que era só um estímulo bondoso; mas, quando ela pediu autorização à minha mãe para exibir minha pequenina ponte na mostra semanal do colégio, onde apareciam os melhores e mais perfeitos trabalhos, eu me convenci de que, realmente, tinha encontrado meu caminho: de agora em diante eu me especializaria só em fazer pontes.

 

Minha mãe, toda orgulhosa, levou as amigas para verem minha obra de arte no dia da inauguração, sempre às sextas-feiras. Porém meus momentos de plena realização, que supus eterna, foram fugazes. Como título, em letras garrafais, lia-se: "DENTADURA". Ao tomar conhecimento de que a minha ponte tinha outro significado semântico, D. Rosa, sem saber o que dizer, apenas abanou a cabeça, desolada e conformada: triste destino o meu, que até quando eu acertava, errava.

 

Hoje, creio que minha professora mudaria de opinião, ao ver que continuei pela vida insistindo e aprendendo (agora já não tão desajeitadamente) a trabalhar com coloridas e deliciosas massas de modelar. Sim, pois afinal, não são a ficção e a literatura pontes, mágica ligação que une bocas – com ou sem dentaduras –, palavras e mãos?...

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20 comments


Leila
Monik também é atividade física... lúdica. Nada como podermos unir o útil ao agradável, não é mesmo? Beijos.
1 year ago
Leila
Pois é, Ivana, escola nos dá muitas vezes um punhado de traumas que temos de descobrir já não tão na adolescência (porque na adolescência a gente quer é aproveitar a vida) e tentar encontrar uma válvula de escape... o que nem sempre também é bom, dependendo desta válvula... Mas, ficam as crônicas, que é um meio racional de relembrar o que precisamos exorcisar... rs. Beijos, estou te escrevendo amanhã (segunda).
1 year ago
Monik
Oi Leila! Até hoje gosto de exercícios, mas faço poucos.
Meu projeto agora anda sendo a dança, quero e preciso voltar a dançar! rs
Beijo!
1 year ago
IVANA MIHANOVICH
Leila, adoreeeeeiiiiii!!!!!!!!!!
Lindo texto, simples e bem construído, gostoso de ler.
E que coisa isso, nao?...
Eu tenho até hoje uma tartaruga completamente tôsca e ainda por cima azul-marinho, pq era a cor que eu fiquei afins naquele dia, oras...rs
Foi um fracasso total, minha professora de artes me olhava igual a essa sua D. Rosa....rsrs
Dá-lhe artes e esportes - eu, que sou um desajeito só e já era gordinha desde bem pequena; era um inferno servir de piada geral qdo eu aparecia naqueles calções ridículos entrando na bunda. Que gente podre de burra esse povo de escola, falemos sério. Como é que a ninguém ocorria que coisas como essas fazem um tremendo mal prá uma cabecinha iniciante? Como tb faz mal um coitado incapaz de escrever bem e ter que ler a redaçao lá na frente, como fizeram com um amiguinho meu. Ele lendo aquela porcaria literária e a classe rindo, pensa bem que disparate!...
Ô, Deus... A gente sobrevive razoavelmente no prumo, meramente pelos meandros do destino, nao?...kkkkkkkk
1 year ago
Leila
Márcia querida, "choquei" com tantos elogios. Estou longe de ser tudo isto, querida... Agora, quanto a você, não sei no que diz respeito ao desenho, mas tenho um objeto aqui feito por you que me atesta que, em matéria de artesanato, você é ÓTIMA!!! Sobre D. Rosa... era apenas uma bondosa senhora solteirona que queria para as alunas o destino que ela não teve: e casar e ter filhos, requeriam (para ela) tudo aquilo para o qual eu não tinha a menor aptidão... Bjs.
1 year ago
Leila
Monik, adorei o que você falou: pois é, o pessoal que tinha a habilidade do artesanato nas veias (e até outras artes paralelas, artísticas e criativas), casaram, foram mães e continuaram a usá-las, como se não fossem artes, como se apenas fossem "trabalhos domésticos" comuns, inerentes aos seus afazeres familiares. Já nós, tivemos de enveredar por outros caminhos, mais "fora" do padrão daquele tempo. E quanto à ginástica, até faz até hoje ou não?
1 year ago
Leila
Rosa, eu era o terror do catch ball, porque eu estudava horas de piano e não ia torcer meu pulso ou abri-lo por causa de uma bola... Vivia perto da rede, mas todo mundo sabia que eu era completamente inútil. Acho que só me mexi para pegar uma bola na vida e jogá-la de volta... que rede grande era aquela!!! No final eu levava atestado médico para não fazer ginástica (me acidentei muito com aquele salto de "obstáculo" que valia para as meninas maiores, mas não para mim... No Trabalho Manual e no Desenho eu até me esforçava, na ginástica, fazia o que podia, quando podia... Engraçado que há um ano resolvi colocar a ginástica na minha vida, e, atualmente, não vivo sem ela... Mas, lógico, não com saltos ou outros marabalismos circenses... rs...
1 year ago
Rosa Maria
Claro, educação física! Eu havia me esquecido dela. Na minha época tinha um negócio (rsrsrs) chamado ginástica restritiva ao qual eu vivia recorrendo por conta da minha disritmia cerebral para fazer apenas exercícios leves. Hoje pago o preço dessa preguiça através do sobrepeso de meu corpo.
1 year ago
Márcia
Leila querida, não posso deixar de rir diante desta sua história...rss...é hilária!! Também não tenho nenhuma habilidade com desenhos e sempre disse que se alguém fosse me avaliar a partir deles, meu QI seria de ostra. Ainda bem que existem outras formas de medir nossa capacidade intelectual! Sua professora que me desculpe, mas ela não foi capaz de ver, em seu trabalho, o que você antevia: a ponte esculpida com pedras incrustadas representa você e suas joias preciosas - você nos transporta para um lugar onde as possibilidades, antes inexistentes, se tornam reais. A luz que vem de você se irradia em cores e formas, dando a noção exata da raridade de seu ser.
Um beijo carinhoso,
Márcia
1 year ago
Monik
O mais interessante disso tudo é que nos sentíamos como pôias por não sermos dotadas dessa 'habilidade manual' e logo à frente na vida descobrimos que, ok, tudo bem, podemos buscar nosso melhor em outras coisas.

Em contrapartida, já reparou que a maioria das pessoas que trazem o dom das habilidades manuais mostram isso desde cedo?

No antigamente, rs, era bonitinho mas elas não GANHAVAM o incentivo necessário para continuar e desenvolver esse talento ao seu ápice, acho que isso já mudou um pouco hoje, não? E acabam se conduzindo por um caminho comum tendo a arte correndo em suas veias.

Agora, numa coisa diferimos, eu era fã de Educação Física! Era uma das minhas melhores notas junto com Português, Redação, Inglês e Música. O resto eu era um desastre! rsrsrs
1 year ago
Leila
É Tenzin, é isso mesmo... acho que a gente aprende muito com as inabilidades, não só nos servem para começar a entender nossos limites, como para nos fortalecer no rompimento deles, em outras áreas, naturalmente... rs. Muitos beijos e obrigada por estar conversando comigo aqui.
1 year ago
Leila
Rosa Maria, também fiz o Clássico. Pôxa, não sabia que tinha tantas irmãs de inabilidade manual... Não me sinto mais tão só e perdida em conjecturas solitárias... rs... Ainda havia mais uma "matéria" que eu era péssima: educação física... Mão para mim foi feita para escrever, acariciar gatos, e outros prazeres como tais... rs. Beijos e obrigada por se juntar ao "clube"... rs
1 year ago
Rosa Maria
Leila, claro que eu me lembro dessa época. A gente aprendia latim também! Mas eu confesso que eu peguei segunda-época duas vezes: uma de trabalhos manuais e outra de desenho. Eu era uma negação ao cubo rsrsrs! Até hoje, embora tenho melhorado muito, eu me considero "gauche" nessa área de habilidades manuais. Em compensação sou como a Monik, eu me destacava pelas redações. Eu era chamada pelas professoras, inclusive no clássico (sim porque eu fui fazer clássico, né)a ler minhas redações, lá na frente, para a classe toda ouvir. E recebia bônus nas notas de português por causa delas rsrsrs.
1 year ago
Tenzin
Leila querida lembrei da minha professora de "", "croche, corte e costura"( pois é ideia da minha mãe !) Coitadinha da professora dona Mercedes o maximo que consegui fazer com as roupas que ela tentou me ensinar a cortar e costurar foram almofadas e tapetes de retalho rsrs, quanto ao croche esse sim renderam enormes correntes de linha feias e desfeitas , e hoje me dá coragem pra ir e começar tudo de novo qts vezes for necessario! Beijo
1 year ago
Leila
Vai rindo... pimenta nos olhos dos olhos é refresco, não é, danadinho?... bj.
1 year ago
chico abelha
Leila, sabe esses formulários de hotel, conta bancária, crédito, etc... que eles pedem a profissão? Cada vez eu escolho uma, e da próxima vez que for preencher um deles, vou dizer sem pestanejar: construtor de pontes! rsrsrs!
1 year ago
Leila
Monik, eu ainda conseguia ser pior em desenho do que em trabalhos manuais... por aí você pode muito bem calcular o desastre que eu era. Até hoje não sei fazer nem uma casa... Quando tive de fazer psicotécnico para alguma coisa, eu dizia para meu ex-marido, que era psicológo: me ensina a fazer uma árvore ou um homem ou uma mulher, por favor... Ele ria e me dizia: faz o que você sabe, porque seus desenhos são tão infantis que qualquer profissional vai achar ou que você é débil ou QI altíssimo... o restante dos testes é que vão dizer quem você é e aí você se sairá bem... Bem, eu sempre passei nos psicotécnicos da vida... mas no fundo eles deveriam dizer: nossa!", com um QI tão alto e tão débil... rss... Agora, lógico que em português eu era a primeira da classe... afinal, bastava escrever... era o que me salvava. Somos bem parecidas nisso, nãO? ;-)
Beijos e adorei o papo.
1 year ago
Leila
Ely, agora seu cinzeiro me lembrou de um trabalho que consistia em "vestirmos" uma garrafa qualquer com papéis coloridos em formato de losângulos nossa... acho que a professora se arrependeu muito de ter dado esta tarefa... meus losângulos ficaram tão disformes que mais pareciam quadrados ovalados... Agora, quanto ao vagonite... bom, este é um capítulo à parte... você já calcula o que saía não é? rs... Bjs e obrigada pelo comentário.
1 year ago
linda história Leila.....
eu tb sou da época do ginásio... e como vc tinha os trabalhos manuais....kkkk eu tb não ia mto bem..... vc me levou a parar e voltar no tempo.... e lembrar de um cinzeiro de latão que tive de fazer em uma dessas aulas.....
recordar é viver..... bjs
1 year ago
Monik
Legal Leila! Compartilho com vc inaptidão para artes manuais, para vc ter idéia, fui reprovada em desenho no ginásio.

Mas as redações... as redaçõessssss.... eu amava redações!

Tínhamos que ganhar mais pontos por aquilo que amamos fazer, não acha?
1 year ago

YuBloggers

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