Além das Letras - por Leila Míccolis
Tuesday, 22 June 2010
posted by Leila

Junho e julho lembram-me logo os arraiais juninos, com balões e fogueiras; ambos, porém, são espécies em extinções — eles por representarem grande perigo para a rede elétrica elas por requererem paciência, tempo e muita habilidade na montagem (falando-se em rede e em fogueira, li há pouco tempo que a  palavra fogueira também designa um peixe brasileiro: fogueira na água...). Existe no Brasil uma fogueira bastante famosa, por ter entrado no livro dos recordes como a maior do mundo: é a baiana de Caruaru, acesa na noite da véspera de São Pedro, com 17 metros de altura, levando 48 horas para se extinguir, armada no Pátio do Convento dos Capuchinhos — talvez para transmutar a lembrança das sinistras fogueiras das Inquisições, embora, conversando com um amigo semana passada, ele me comentou sobre uma teoria teológica pessoal interessante: que na Idade Média não se queimou ninguém, só na Contra-Reforma — argumento no mínimo instigante, que me motiva até a pesquisar posteriormente mais sobre o assunto.


Modernamente uma outra espécie também ganhou fama e prestígio: a utilizada como importante exercício vivencial, em qualquer época do ano, porém mais predominante nesta – anda-se sobre as chamas, como prova de coragem e pleno domínio de si mesmo (os yogues já faziam isso, através dele tornar-se um exercício do poder da mente, não se deixavam afetar pelo calor, frio ou fome): a partir da prova de fogo, literalmente, a pessoa rompe  com diversos condicionamentos interiores e passa a ser outra pessoa, pois, vencido o desafio, seu medo vira cinzas... Ômar Souki, com quem troquei e-mails, usa frequentemente esta prova final em seus cursos, falando entusiasticamente deste método em seu livro "Acorde! Viva seu sonho! — A magia da palavra em suas mãos". Eu nunca andei em brasas (pelo menos sobre fogueiras), mas, bem antes de travar conhecimento com a PNL, vi nosso caseiro em Barão de Mauá —  não confundir com Marquês de Mauá, muito mais nobre... — repetir três vezes o trajeto, calmamente, de cá pra lá, de lá pra cá, de cá pra lá. Ele só fazia isso nas fogueiras das noites de S. João e S. Pedro, mais ou menos à meia-noite. Era uma espécie de ritual pessoal, de homenagem prestada aos seus santos de devoção, enfim, era uma de prova de fé. Por isto se tornava um espetáculo tão impressionante; nos sentíamos pequenos diante daquele homem humilde — nós, mulheres e homens de pouca fé e/ou muito medo.


Hoje em dia, até porque há cada vez menos festas (inclusive juninas) na cidade, também estão sumindo as fogueiras, que eu adoro. Quando compramos a casa de Maricá achei que veria muitas delas na região, tochas iluminando as noites de inverno rigoroso. Não vi. Aqui, em vez de inocentes e alegres fogaréus só há queimadas e incêndios - dolosos ou culposos, mas sempre criminosos. Uma tristeza. Sem portas nem janelas, no início da construção, e com um mato gigantesco crescendo ao redor do nosso "castelo" (igual àquela cantiga de roda da Bela Adormecida), a fogueira era o modo de unirmos, em um momento difícil, de grandes precariedades,  o útil, ao belo e ao agradável: afugentávamos mosquitos, nos reuníamos perto daquele calor aconchegante e ficávamos recordando histórias, falando da vida ou filosofando sobre as cores das próprias chamas — vermelhas, amarelas, verdes, azuis e quase negras, dependendo do tipo de toco de madeira, de papel ou de saco plástico que queimávamos. A fogueira ardia à nossa frente e, meio que hipnotizados, por dentro ardíamos misteriosamente também, talvez tentando nos lembrar dos fogos ancestrais e seculares.


De há muito o ser humano conseguiu domesticar o fogo, trazendo-o para dentro de casa, no intuito de satisfazer suas necessidades e prazeres. E as fogueiras juninas, junto com o lirismo delas, estão se apagando. Até aqui, no nosso sítio, elas estão muitíssimos mais escassas, porque as árvores se multiplicaram, cresceram muito, e há pouco espaço para elas. Lembro-me porém de um episódio que achei muito lindo na última festa junina que fizemos, perto de uma dessas fogueiras crepitosas: um menino viu o pai soltando uma “Lágrima de Nossa Senhora” — fogo de artifício cujo efeito é apenas apenas fazer cair uma rápida chuva branca, mas cujo formato parece um tipo de rojão. E, vendo aquele “tudo de papelão com pólvora” apontado para um certo pedaço do céu, o menino gritou, aflitíssimo:
“— Papai, papai, cuidado com a lua...”.

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16 comments


Leila
Sim, Simone, entendo, mas tomar cuidado quando mexemos com os elementos (e elementais) da natureza — fogo, terra, água e ar — é fundamental, porque eles podem ser ferozes também e queimar, soterrar, afogar e sufocar. Há que ter também um certo temor e até certa reverência a estas forças, no sentido de respeitá-las, à alguma distância. O ser humano acha que "domesticou" o fogo, mas apenas o levou para mais próximo de si... rs. No meu caso pessoal, confesso que adoraria ter uma lareira para me esquentar nessas noites de inverno, perto porém não demasiado do fogo... rs...
1 year ago
Simone
Leila, depois que meu ex-forno lançou chamas no meu rosto, minha relação com o fogo mudou um pouco...hoje tenho forno elétrico e tomo muito mais cuidado com
qualquer tipo de fogo...isso também pra nos fazer lembrar que o que nos fascina também pode nos machucar bastante.
1 year ago
Leila
Márcia, é isso mesmo, você definiu muito bem: místico e mágico. A dança das labaredas em movimento é um espetáculo que gosto muito de assistir em silêncio, justamente como rezar. É mais um ritual que anda se perdendo, e um ritual de agregação, de troca, de interação. Um ritual muito profundo que vem desde tempos imemoriais... Beijos, querida, e mais uma vez obrigada por estar sempre presente.
1 year ago
Leila
Ivaninha,
pois é, eu sou fascinada pelo fogo. Inteiramente. Visceralmente. Ancestralmente. Encontro nele uma lição de aproximação, de acolhimento, de aquecimento mesmo. Acho que é por isso que gosto tanto do sol (não só no tarot... rs). Sou movida a sol, a calor, e as fogueiras me remetem a tudo isto. Obrigada por me ler, linda. Beijos.
1 year ago
Márcia
Eba, como é bom ler Leila Míccolis!!
Adoro fitar o fogo em lareiras e fogueiras. Cores e movimentos que fascinam, como num convite irrecusável a um diálogo místico, misterioso, mágico e completamente silencioso com nosso eu. É como rezar...
Lindo texto, querida. Deu saudades das festas de adolescência junto a amigos queridos e inesquecíveis.
Beijo carinhoso,
Márcia
1 year ago
IVANA MIHANOVICH
Vc me fez lembrar das fogueiras de Beltane, acesas no - se nao me engano - solstício de verão, na religião celta (diz a lenda...).
Ter o fogo assim perto realmente faz mta diferença. Uma lareira, uma fogueira, uma salamandra, um fogão de lenha... Olhar e mexer com o fogo devolve energia e nos remete a algo ancestral.
Uma delícia de texto com um final profundamente aquecedor, Leila querida.
Obrigada
Bjs
1 year ago
Leila
Obrigada mais uma vez, Paradóquisso, pela intervenção e análise tão lírica que você teceu ao meu texto.
1 year ago
Leila
Obrigada, visitante, este tempo atual, apressado e veloz, não permite muito as conversas nas calçadas da rua ou ao redor da fogueira. E cada vez nos distanciamos mais da troca de experiências, por vezes tão sábias.
1 year ago
Visitor
Que final gostoso, Leila!
compartilho sua tristeza pela perda das festas juninas e do compartilhamento entre amigos cada vez mais escasso na sociedade que só visa lucro.
1 year ago
Pedro
Quando eu disse figura literária poética, quis destacar a frase do menino, gritada ao pai num momento de excitação, em meio ao reboliço de uma festa junina, mas que leva em seu bojo toda a fantasia e toda a pureza inerente ao mundo infantil, captada com eficiência pelos sensores afiados do sistema cognitivo da Leila. Uma forte carga poética, porque o que faz o poeta senão dizer as coisas comuns de maneiras especiais? Não é a festa, não são os fogos, nem as 'lágrimas de nossa senhora' que me embeveceram eme emocionaram, mas sim, a grandiloquência da capacidade de imaginar daquela criança e a sensibilidade da narradora, que fechou seu texto com o ápice, o clímax do sonho e da maneira bastante especial com que as crianças são felizes. Feliz, também, a arquitetura do texto.
1 year ago
Leila
Pois é, Chico, estas festas juninas atuais são tão sem graça, sei lá, servem mais para arrecadar dinheiro através da pescaria, dos doces, dos vinhos, da barraca de beijos (embora, lógico, a barraca de beijos sempre serviu para isto mesmo... rs). Eu gosto das festas juninas do Nordeste. Logo no começo do mês um amigo de Pernambuco me disse: as festas juninas aqui já começaram, estão ótimas... e aí me deu idéia de falar delas, de como eu ainda as vejo, embora não as veja mais. rs. Bjs.
1 year ago
Leila
Pois é, Rosa Maria, os balões japoneses, pequeninos, não eram problemas para a rede elétrica, e a gente se divertia para valer com as roupas, chapéus, bigotes, pintinhas no rosto... Era um carnaval em junho, na verdade. Eu não sou nostálgica, mas sinto falta das fogueiras e do que elas, de alguma forma, nos traziam ou nos comunicavam. Beijos, querida.
1 year ago
chico abelha
Leila, tentamos fazer uma festa junina aqui no condomínio mas ninguém, nenhum morador quis organizar. Daí apareceu o pessoal da igreja Católica e se propos fazer a festa, desde que arrumássemos cadeiras, som, fogueira, banheiro químico, segurança e cuidássemos da limpeza. Não bastasse isso, todo o dinheiro arrecadado ficaria para a igreja terminar de construir um monstro de cimento... Não aceitamos! Não faz muitos anos, cada um trazia uma comida ou bebida, todo mundo ajudava a montar a fogueira, e o som era de um carro que estacionava na área da festa. As barracas eram feitas de bambu (ainda com as folhas) da moita ali do lado, cobertas com lonas ou plástico e o dinheiro arrecadado só cobria as despesas. A fogueira ficava acesa madrugada adentro e as conversas rolando animada pelo quentão ou vinho quente que sobrara. Ah, tinha também a hora dos fogos de artifício, que hoje parece que só dão o ar da graça quando tem gol em jogo de futebol...
1 year ago
Rosa Maria
Que lindo, Leila!
Me fez retornar às minhas infância e adolescência e também experimentar certa nostalgia das festas juninas que minha família fazia nos amplos quintais das casas em que morávamos e das quais participavam parentes e a vizinhança. Aquecidos pela fogueira brincávamos, cantávamos e dançávamos a quadrilha, sem nos importar com a famosa garoa paulistana.
Obrigada Leila!
1 year ago
Leila
Seu comentário aqueceu esta minha fria véspera de S. João, muito obrigada. Que as fogueiras do mundo possam nos reunir sempre.
1 year ago
Pedro
Uma figura literária poética, que brinca com a fantasia e espantosamente, é muito mais extensa que sua evidente brevidade. Tocante.
1 year ago

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