Além das Letras - por Leila Míccolis
Sunday, 22 August 2010
posted by Leila
Quando eu morava no Rio (e ainda comia peixe), costumava ir com uma amiga paraense ao Arataca de Copacabana, saborear pupunhas como entrada e surubim como prato principal, delícias acompanhadas por uma das marcas de cerveja que mais gostávamos.

Ficamos tão habituées da casa, que o maître, quando o local ainda estava vazio, à tarde, nos contava alguns causos acontecidos no restaurante e, deles, um em especial me é inesquecível: um garção no primeiro dia do emprego lá, foi advertido de que não havia peixes de água doce naquele dia; o rapaz, não sabendo o que era pupunha (palmito) e não querendo ser desagradável, diante do pedido de um cliente assíduo, respondeu: — "Desculpe-me, senhor, mas a pupunha está em falta". E acrescentou, muito compenetrado: — "É que a pupunha está em desova...".  

Lembro-me sempre deste episódio quando leio diariamente tanto falso expert falando difícil para disfarçar seu pouco conhecimento de algum assunto: enrolam a língua, juntam palavras que pouco ou nenhum nexo têm, são capazes de argumentar com bombásticas frases de efeito, e acabam, em sua soberba, se achando soberbos, ainda mais se podem exibir dois ou três livros em seu currículo ou mencionar que têm mais um a caminho (sobre algum assunto que eles achem de suma importantância para a humanidade...).  

Sejam poetas ou prosadores há muitos parecidos com o garção do restaurante. Pior é que ainda existe quem, inadvertidamente, ache que falar difícil é sinal de cultura e sabedoria, e aplauda o orador ou o escritor. Muito triste. Por isto, tenho sempre o cuidado de omitir algum título que porventura tenha conseguido nesta vida, e também detesto o ar de superioridade do "magister dix", para que as pessoas me achem o máximo, só porque não entendem o que eu digo: não quero que uma piada se torne, em minha prática de vida, um exercício árido e estéril de grandiloquência e estrelismo pessoal, nem quero reduzir-me a uma piada. Saber adequar a fala a diversos tipos de ouvintes, é habilidade que me orgulho de aprender respeitosa e diariamente com os outros, para além das letras.

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8 comments


Leila
Pois é, Chico, até quando não é problema do micro o infeliz leva a culpa. Também, quem manda já ter aprontado tantas comigo, não é? Eu vi que a ordem foi registrada certinho, bem legal. Bjs.
1 year ago
chico abelha
Entrou, Leila, agora o comentário do Pedro entrou! Ainda bem que o site manteve a ordem, aí ficou tudo coerente... não foi o seu micro não... rs!
1 year ago
Leila
Que bom, Ivana, fico toda feliz de ler este comentário vindo de você, uma das pessoas mais deliciosas e cristalinas que conheço. Meu beijo e meu obrigada.
1 year ago
Leila
Olha, Chico, em sã consciência não fiz isso não... Mas estou achando meu micro "de ovo virado" hoje comigo: acabo de mandar parabéns aos meus amigos que aniversariam hoje no orkut, e nenhuma mensagem entrou, tive de escrever tudo de novo... Mas, como gosto de refletir sobre o que faço, acabo de perceber que, simpesmente não cliquei no aceitar... menos mau do que ter apagado, não é? rs... O comentário acaba de entrar (pelo menos por aqui)... Beijos.
1 year ago
IVANA MIHANOVICH
Leila, queridíssima, o texto é delicioso, cristalino e, além disso, encerra uma verdade com a qual concordo completamente...rs
Obrigada por escrever!
bjs gdes
1 year ago
chico abelha
Leila, eu acho que vc apagou o comentário do Pedro... e respondeu a um comentário fantasma... rs!
1 year ago
Leila
EXATAMENTE, Pedro. E, diria eu mais: pupunhetam exuberantemente, à vista de todos... rs.
1 year ago
Pedro
Notadamente, é exacerbante a canícula que grassa na urbe. E as pupunhas não desovam, hahahaha porque na realidade, elas pupunhetam nas frondes das árveres.
1 year ago

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