Metáfora - por Luiz Biajoni
O programa duplo da segunda-feira foi “Homens que Encaravam Cabras” e "Religulous”. Os filmes tem muita coisa em comum.

O primeiro filme tem um time de astros e conta a história verdadeira de um impressionante grupo de militares místicos e doidões que acreditavam em paranormalidade e poderes da mente. O exército faz experiências com eles, a ponto de imaginar que alguns podiam matar animais com o poder da mente. O estranho título vem justamente de uma dessas experiências, quando um dos protagonistas da trama, interpretado por um genial George Clooney, encara uma cabra até matá-la. O núcleo de doidões começa a se desfazer quando um dos soldados acaba se matando, com um tiro na cabeça, depois de uma sessão de LSD. E quando a luta pelo poder dentro do grupo começa a se dividir entre os personagens de Jeff Bridges e de Kevin Spacey. A grande piada dentro do filme é a presença de Ewan McGregor, que já foi Obi-Wan Kenobi na saga “Star Wars”, fazendo o jornalista que quase começa a acreditar em uma “raça” de “militares Jedi”. O filme é baseado no livro do jornalista Jon Ronson, que também inspirou o personagem de McGregor.


Para mim, através da ridicularização do misticismo setentista, cheio de drogas, o filme provocou certa vergonha alheia de amigos que ainda acreditam em coisas assim, como a visão remota ou aquelas bobagens de Carlos Castañeda.


Nesse sentido, “Religulous” é ainda mais sensacional, pois desanca diretamente e também de maneira bem-humorada a maioria das grandes religiões através do questionamento direto de alguns grandes líderes. É um documentário, dirigido por Larry Charles, o mesmo de “Borat”. Mas é muito melhor que “Borat”, até por ser verdadeiro e com um personagem muito mais carismático que o repórter fictício do Cazaquistão. Falo de Bill Maher, comediante famoso nos EUA. Ele ridiculariza completamente a religião e seus inacreditáveis crentes. É incrível como ele consegue provocar os entrevistados com perguntas simples como “Você acredita MESMO no que está falando?”, desconcertando o entrevistado.


Não creio que tenha sido lançado no Brasil - alguém me disse que o filme não conseguiu distribuidores em boa parte dos países, a gente pode imaginar o porquê. Mas dá para baixar na internet. Recomendo muitíssimo, especialmente a entrevista com um bispo do Vaticano, um velhinho simpático que, lá pelas tantas, rindo muito, diz: “Quem é que ainda acredita nessas coisas?!”.


 


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Thursday, 15 April 2010
posted by Biajoni

Todos estão preocupados com nossas crianças. O Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro questiona a Rede Globo sobre Klara Castanho, a garotinha Rafaela, da Novela “Viver a Vida”, um dos pouco motivos para se acompanhar a trama de Manoel Carlos. A Justiça pode ter atrapalhado o desenvolvimento da carreira de Maysa, a garotinha que falava o que lhe passava à cabeça ao patrão Silvio Santos. O ápice do que chamaram de “exploração” da menor foi um susto que o patrão lhe causou e resultou em choro. Mais recentemente, foi divulgado que uma tal Lady Gaga mirim estava cobrando para aparecer em programas de TV – e a Vara da Infância e Juventude apareceu para “monitorar” o caso. Nesses três exemplos, é bom que se diga que os pais acompanham os filhos e que as emissoras fazem acompanhamento pedagógico e psicológico. Difícil discordar que Klara Castanho é uma grande atriz mirim e que Maysa é uma comunicadora nata. Não conheço a Lady Gaga mirim.

Mais grave, é claro, são as acusações de pedofilia, que estão aparecendo em enxurrada contra representantes da Igreja Católica.

Mas gostaria de relacionar os casos das garotinhas acima ao que tenho visto em programas religiosos evangélicos, tarde da noite. Especialmente da Igreja Mundial do Poder de Deus. E perguntar onde estão o Ministério Público e a Vara da Infância e Juventude para “monitorar” o que está acontecendo ali.



Apenas no programa de ontem (14/04), em alguns minutos, o pastor Roberto Damásio, com um chapelão de caubói e fala caipira, fez:

- Uma garotinha de uns 8 anos, que se apresentou como cega, dizer para a mãe que não era mais cega, enquanto todos se acabavam em lágrimas;

- Uma garotinha de uns 9 anos, toda torta, andar com esforço aparente. A mãe trazia documentos que “comprovavam” que ela não andava há muito tempo;

- Um garotinho o abraçar, pela cura do câncer que a igreja teria proporcionado. Mostrou VT do garotinho careca, fazendo quimio. Os fiéis exultaram, a mãe disse que os médicos afirmaram que se o garoto fosse para cirurgia, ele “ficaria na mesa”. O pastor Damásio: “ele ia morrer, né?”. E o garotinho ali, assustado.

Até quando vão explorar crianças e a fé de desavisados?

Essas crianças sabem ou saberão um dia o que aconteceu?

Houve cura de fato?

De quem é a responsabilidade por apurar veiculações desse tipo?

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Monday, 12 April 2010
posted by Biajoni

 

Marcelo Gleiser é o grande nome nacional na divulgação científica, nosso Dawkins tupiniquim, embora relativista no ataque às religiões. Faz parte do time que acha que é possível a convivência pacífica entre religião e ciência. Seu artigo no Caderno Mais! de ontem (11 de Abril), na Folha de São Paulo, além de citar Joseph Campbell, faz um apanhado dessa sua idéia de convívio pacífico e merece ser lido por todos os que se interessam pelo tema. Assim, reproduzo abaixo:

Começo hoje com a definição de mito dada por Joseph Campbell, uma das grandes autoridades mundiais em mitologia: "Mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre". Sabemos que mitos são narrativas criadas para explicar algo, para justificar alguma coisa. Na prática, não importa se o mito é verdadeiro ou falso; o que importa é sua eficiência.

Por exemplo, o mito da supremacia ariana propagado por Hitler teve consequências trágicas para milhões de judeus, ciganos e outros. O mito que funciona tem alto poder de sedução, apelando para medos e fraquezas, oferecendo soluções, prometendo desenlaces alternativos aos dramas que nos afligem diariamente.

A fé num determinado mito reflete a paixão com que a pessoa se apega a ele. No Rio, quem acredita em Nossa Senhora de Fátima sobe ajoelhado centenas de degraus em direção à igreja da santa e chega ao topo com os joelhos sangrando, mas com um sorriso estampado no rosto. As peregrinações religiosas movimentam bilhões de pessoas por todo o mundo. É tolo desprezar essa força com o sarcasmo do cético. Querendo trazer a ciência para um número maior de pessoas, eu me questiono muito sobre isso.

Como escrevi antes neste espaço, os que creem veem o avanço científico com uma ambiguidade surpreendente: de um lado, condenam a ciência como sendo materialista, cética e destruidora da fé das pessoas. "Ah, esses cientistas são uns chatos, não acreditam em Deus, duendes, ETs, nada!"

De outro, tomam antibióticos, voam em aviões, usam seus celulares e GPSs e assistem às suas TVs digitais. Existe uma descontinuidade gritante entre os usos da ciência e de suas aplicações tecnológicas e a percepção de suas implicações culturais e mesmo religiosas. Como resolver esse dilema?




A solução não é simples. Decretar guerra à fé, como andam fazendo alguns ateus mais radicais, como Richard Dawkins, não me parece uma estratégia viável. Pelo contrário, vejo essa polarização como um péssimo instrumento diplomático. Como Dawkins corretamente afirmou, os extremistas religiosos nunca mudarão de opinião, enquanto um cientista, diante de evidência convincente, é forçado eticamente a fazê-lo. Talvez essa seja a distinção mais essencial entre ciência e religião: o ver para crer da ciência versus o crer para ver da religião.

Aplicando esse critério à existência de entidades sobrenaturais, fica claro que o ateísmo é radical demais; melhor optar pelo agnosticismo, que duvida, mas não nega categoricamente o que não sabe. Carl Sagan famosamente disse que a ausência de evidência não é evidência de ausência. Mesmo que estivesse se referindo à existência de ETs inteligentes, podemos usar o mesmo raciocínio para a existência de divindades: não vejo evidência delas, mas não posso descartar sua existência por completo, por mais que duvide dela. Essa coexistência do existir e do não-existir é incômoda tanto para os céticos quanto para os crentes. Mas talvez seja inevitável.

A ciência caminha por meio do acúmulo de observações e provas concretas, replicáveis por grupos diferentes. A experiência religiosa é individual e subjetiva, mesmo que, às vezes, seja induzida em rituais públicos. Como escreveu o psicólogo americano William James, a verdadeira experiência religiosa é espiritual e não depende de dogmas. Apesar de o natural e o sobrenatural serem irreconciliáveis, é possível ser uma pessoa espiritualizada e cética.

Einstein dizia que a busca pelo conhecimento científico é, em essência, religiosa. Essa religião é bem diferente da dos ortodoxos, mas nos remete ao mesmo lugar, o cosmo de onde viemos, seja lá qual o nome que lhe damos.

*Marcelo Gleiser é escritor, professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover, EUA.

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Tuesday, 6 April 2010
posted by Biajoni

Na palestra “O Confronto entre Oriente e Ocidente na Religião”, de 1970, recolhida no livro “Para Viver os Mitos” (Cultrix, 2000), Joseph Campbell faz uma análise sobre por que as pessoas estavam procurando cada vez mais o alento espiritual em religiões orientais. Ele diz que, quando era estudante, na década de 20, não imaginavam que na década de 70 (!) ainda haveria pessoas inteligentes querendo ouvir e pensar sobre religião. “Todos nós tínhamos absoluta certeza, naqueles dias, de que o mundo acabara com a religião. A ciência e a razão estavam no comando”. O “reino racional da democracia” apontava para a justiça e as desigualdades sociais pareciam cada vez menores.  Na década de 60, porém, houve no ocidente, um repentino interesse pelas religiões orientais. Diz Campbell, inicialmente, sobre isso:

“A imagem bíblica do universo simplesmente não é mais satisfatória; nem o é a nação bíblica de uma raça de Deus, à qual todas as outras devem servir (Isaías 49:22-23; 61:5-6); nem, tampouco, a idéia de um código de leis transmitidas do alto e que devem valer por todo tempo. Os problemas sociais do mundo atual não são os de uma remota região do velho Levante, no século VI a.C.. As sociedades não são estáticas; nem podem as leis de uma servir a outra. Os problemas do nosso mundo não são sequer tocados por aqueles Dez Mandamentos talhados em pedra que levamos de um lugar para outro como uma bagagem e que, na verdade, foram negligenciados no próprio texto consagrado, um capítulo depois de terem sido anunciados (Êxodo 21:12-17, em seguida a 20:13). O conceito ocidental moderno de um código legal não é de uma lista de editais divinos incontestáveis, mas o de uma compilação de estatutos racionalmente elaborada, e em evolução, feita por seres humanos falíveis em conselho, para a realização de metas sociais racionalmente admitidas como verdadeiras (e portanto temporais). Entendemos que nossas leis não são ordenadas por decretos divinos; e também sabemos que lei alguma de povo algum na Terra jamais o foi. Dessa maneira, sabemos – quer ousemos dizer isso ou não – que nossos religiosos não têm mais direito de reivindicar autoridade incontestável para as suas leis morais do que para a sua ciência. E, por fim, até mesmo em seu papel particular e pessoal de dar conselhos espirituais, o religioso tem sido agora ultrapassado pelos psiquiatras – e de fato a tal ponto que muitos sacerdotes estão, eles próprios, procurando psicólogos para que estes lhes ensinem como cumprir melhor sua função pastoral. A magia de seus próprios símbolos tradicionais não mais funciona para curar, mas apenas para confundir.”

Incrível como o trecho parece atual e pode servir para várias coisas, não?

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