Ao longo dos tempos, artistas tentaram dar faces aos heróis, ídolos, ilustrar histórias e lendas. Em “A Imagem Mítica”, Joseph Campbell mostra como artistas interpretaram mínimos detalhes físicos ou geográficos, utilizando eles mesmos metáforas visuais, para compor seus desenhos.
Quando foi contratado para pintar a Capela Sistina, Michelangelo Buonarroti era, ele mesmo, crítico do moralismo agressivo da Santa Igreja Romana. Pesquisador furioso da anatomia humana, é possível que Michelangelo tenha transformado boa parte da “sua” capela em um estudo de anatomia humana, como revela o pesquisador brasileiro Gilson Barreto, autor do livro “A Arte Secreta de Michelângelo – Uma Lição de Anatomia na Capela Sistina”. Barreto vê, nos contornos e detalhes das pinturas, referências muitas vezes detalhadas de órgãos e vísceras humanas, como se a capela fosse “uma pessoa” ou “várias pessoas”, como se o templo fosse o corpo e as pessoas ali, com as rezas e crenças constituíssem sua alma. É uma imagem metafórica poderosa, interessante, que mais parece uma “viagem” de Barreto e é possível que jamais saibamos a verdade, já que Michelangelo não deixou instruções quanto a isso.

Para corporificar Moisés, o cinema americano chamou Charlton Heston, herói de filmes de ação, que tinha uma ‘physique du rôle’ forte, física. Não sei se é possível medir como um filme como “Os Dez Mandamentos” (1956), vencedor do Oscar de efeitos visuais, arrastou para a fé cristã milhares de pessoas, crentes de que as imagens na tela reproduziam fielmente o que havia “acontecido” na Bíblia. É conhecida a história de que pessoas se ajoelhavam diante de Heston nas ruas. Ativista dos direitos civis nos anos 60, Heston, católico, virou depois presidente da Nacional Rifle Association, defensor do porte de armas na América, em 1998 e apoiou os governos conservadores de Reagan e dos Bush, pai e filho.
Dois dos maiores quadrinistas do mundo, Robert Crumb e Osamu Tezuka fizeram, cada um, sua leitura visual de livros sagrados. Tezuka interpretou visualmente, sem grande preocupação com a fidelidade ao texto e injetando boa dose de seu humor peculiar, proveniente do estilo mangá, à coleção de fôlego, em 14 volumes lançados no Brasil, a história de "Buda". Aponta talvez a postura não reverencial que o oriental tem para seus textos sagrados, uma relação mais “relaxada”, amigável. Já Robert Crumb, autor fundador do movimento comic underground americano na década de 70, transgressor, aliado à cultura de sexo, drogas e rock’n’roll – e considerado um dos 100 gênios vivos – dedicou boa parte de seus últimos anos na adaptação fiel do "Gênesis" para os quadrinhos. De origem judia, Crumb avisa na introdução do livro:
“Se minha interpretação visual e literal do livro do Gênesis ofender ou ultrajar alguns leitores, o que parece inevitável dada a reverência de tantas pessoas por ele, tudo o que posso dizer em minha defesa é que abordei isso como um trabalho de pura ilustração, sem intenção de ridicularizar ou fazer piadas visuais.”

Impressiona o aviso de Crumb. E também a reverência e a fidelidade que ele procura. O livro podia ser adotado por igrejas, em cursos de catecismo. Eu não ficaria impressionado se isso acontecesse.
Talvez, para Crumb, esteja aí a grande piada.
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