Diferente da grande maioria dos animais, o ser humano, ao nascer, não é capaz de subsistir de maneira autônoma. Ele precisa incondicionalmente da ajuda; basicamente, não tem instintos que não seja o de mamar. Diferente dos pintinhos que sabem diferenciar a ameaça de um gavião da presença inofensiva de uma pomba ou das tartarugas que correm para o mar assim que nascem, instintivamente e para fugir dos ataques das cegonhas, o bebê humano parece quase sem "registros instintivos". Campbell diz que o homem nasce "12 anos antes da hora".
Seria durante esses 12 anos que o bebê se transforma em ser humano: aprende a caminhar, "a falar, a pensar e a cogitar em termos do vocabulário local". Para Campbell, a religião – a transmissão da mitologia – é essencial nesse período, já que "ensinam-nos a responder positivamente a certos sinais, e negativamente, ou com medo, a outros; e a maior parte desses sinais ensinados não pertencem à ordem natural, mas a alguma ordem social local. Eles são socialmente específicos, embora os impulsos que ativam e controlam provenham da natureza, da biologia e do instinto. Cada mitologia é, consequentemente, uma organização de sinais libertadores culturalmente condicionados, estando as tensões naturais e culturais neles presentes tão amalgamadas que distinguir umas das outras, em muitos casos, é quase impossível". Para Campbell, o estímulo da mitologia faria disparar o instinto inerente na criança.

Passado esse período, o adolescente deve confiar no instinto apreendido para buscar sua vida, seus desafios e até suas transgressões. É natural. Quando a criança cresce em um ambiente de pressão religiosa, dentro de uma família ou uma comunidade religiosa demais, "não participando das formas culturais do restante da civilização", como diz Campbell, "e até mesmo as desprezando e ofendendo", ela (a criança) pode se transformar em um adulto desorientado e até mesmo perigoso, no âmbito mais amplo.
O problema, de maneira geral, é que as religiões não querem "desmamar" o religioso, não querem "liberá-lo" para a vida; querem mantê-lo sempre debaixo de suas asas de "respeito e medo", engrossando as fileiras daqueles que defendem sua crença, engordando os cofres, cerrando fileiras pela batalha daquilo em que crêem.
Nesse sentido, a religião devia ser para as crianças. E para os velhos, no outono da vida, que podiam se apoiar em belas histórias de amor e morte para assegurar que viveram de maneira correta e plena.
7 comments
Não tou falando sobre instintos sexuais, não. Eu escrevo e leio sobre outras coisas também, juro. :)
O "visitante que não é o marcos vp" sou eu, Malva Mauvais, tá?
Esse lance dos instintos é questionado por filósofos de linha historicistas. Dewey, por exemplo, afirma que mesmo a respiração é aprendida, ainda que a necessidade de respirar seja "natural".
Dar essa importância toda aos instintos é herança do positivismo, do cientificismo, coisa que faz um tremendo sucesso desde o século XIX, marromeno.
Historicistas (não encontro classificação melhor pra isso) mostram o quanto a história e a cultura (e os mitos, é claro) constróem o homem, inclusive essa concepção do que é "natural" e "instintivo".
Beijoca.
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não estaremos falando sobre instintos sexuais, pois não?
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aí, como vc diz, o buraco é mais embaixo.
:>*
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temos instinto sim, e a mitologia além de disparar alguns deles, também freia outros. a educação deve ser um aprendizado para a autonomia, mas boa parte das religiões não quer que tenhamos nenhuma autonomia - seguimos atrelados ao medo de um olho que tudo vê ou por um apocalipse iminente.
a partir da interação social, estabelecemos condutas - mas elas talvez se baseiem mais no círculo social religioso, caso frequentemos algum, do que em nossa vontade mais ampla. veja quantos casamentos são engendrados dentro de círculos religiosos, por exemplo.
MarcosVP