Metáfora - por Luiz Biajoni
Friday, 19 February 2010
posted by Biajoni

O poema mais famoso do escritor argentino Jorge Luis Borges não é de sua autoria. Trata-se do poema intitulado “Instantes”, que circula até hoje pelas caixas de e-mails, desde os primórdios da internet, emocionando as pessoas. É o poema que diz que a gente deveria ter amado mais, cometido mais erros, ver o sol se pôr mais vezes. Como não era de Borges – depois ficamos todos sabendo – a banda Titãs tratou de surrupiar alguns versos e transformou o poema em um hit radiofônico, estranhamente chamado de "Epitáfio".


A história desse apócrifo de Borges é interessante. Originalmente, segundo inúmeros estudos, era um poema de um humorista, Don Herold, publicado numa Seleções de Readers Digest, em 1953. O texto começava com a espirituosa frase “É claro que não se pode desfritar um ovo, mas não há lei que proíba pensar nisso” – e seguiam-se algumas coisas que o autor não teria feito, mas faria se tivesse uma segunda chance. Como quase todo o poema de Herold consiste em anáforas (os versos começam quase sempre com as mesmas palavras, “devia ter...”), é possível que boa parte das pessoas que copiaram o texto e passaram para frente acrescentaram ali algo que não fizeram no passado, mas que gostariam de ter feito. Como, por exemplo, ter tomado mais sorvete.


As pessoas sempre estão a se arrepender do que não fizeram.



Ou fazem coisas com a consciência tranqüila, para não se arrependerem depois. Consta que a viúva de Borges, Maria Kodama, alguém que sempre viveu com a acusação velada de ter utilizado de sua beleza e proximidade com o poeta para se casar com ele e herdar sua fortuna, pediu que parassem de depositar em sua conta os direitos autorais do falso poema de Borges. Interessante, pois não?


E os Titãs, que buscaram no misterioso poema a melosidade necessária para um hit, precisavam também de um refrão, já que o poema não tinha um. O verso escolhido foi “O acaso vai me proteger enquanto eu estiver distraído”, uma frase rebuscada para dizer mais ou menos o que diz Zeca Pagodinho em outro hit, “Deixa a vida me levar” – com mais propriedade e credibilidade, em que emenda: “Sou feliz e agradeço por tudo o que Deus me deu”.


Se deixar levar, ao acaso, pode ser o mesmo que se deixar “nas mãos de Deus”? Não seria a mesma filosofia que poderia mover Maria Kodama a deixar que o destino ou o acaso continuasse a depositar em sua conta os dividendos desse poema enviesado que seu marido definitivamente não escreveu?


Ou para que o acaso funcione de fato como a mão de Deus precisamos ter princípios morais?

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8 comments


Simone
Nesse mundo de permanente esforços para oter coisas, ter um momento
"deixe a vida me levar" é quase um alívio.
Não creio em acaso, acho que tudo é resultado de alguma ação, mesmo
que não nos demos conta disso.
1 year ago
Biajoni
aaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh, visitante, assine!
:>)
1 year ago
Visitor
gostei da idéia que você jogou no twitter:"Quando é bom atribuímos a Deus, quando é ruim, é azar".
Sempre penso nisso: a idéia de uma justiça divina foi inventada por pessoas sortudas.
Borges, Fernando Pessoa e Luis Fernando Veríssimo não têm tido muita sorte na época da internet...
1 year ago
Biajoni
obrigado, marcos vp. sua consideração faz o post ir adiante, é a intenção desse blog e dessa sequência de posts cheios de perguntas. estou perguntando muito, para gerar mais questionamentos, como esse seu.
:>)
visitante aí debaixo, exatamente: quando é bom é o acaso da sincronicidade, que coisa linda! quando é ruim é a porra do azar!
;>)
(assinem os comentários, para sabermos com quem falamos)
1 year ago
Visitor
Se bem que quando é bom vira acaso e se é ruim, vira azar... e foi por acaso que atribuíram ao Borges??? Ou a gente dá uma mãozinha pro acaso se virar em sucesso??
Eu tenho lá minha fé. Mas creio profundamente que princípios morais regem qualquer tipo de fé,crença ou tenha seu deus o nome que quiser.. enfim, chame de acaso ou de mão divina, se tiver uma conduta coerente, terá resultados coerentes...ou poética e talebanianamente falando: vai colher o que plantou!
no meu caso, planto beijocas estaladas no Bia =) um dia recebo um abração ao vivo!!!
1 year ago
Visitor
Belíssima pergunta esta da última frase. Dá para engatar uma em seguida: "Se isto é verdade, quais os princípios morais que levariam Deus a nos ajudar, já que existem tantos princípios morais divergentes e excludentes por aí atribuídos igualmente a Deus?"

Dava para escrever um tratado filosófico sobre isso. Longe de mim pretender fechar isso em apenas um aforismo. Mas como a gente precisa viver e às vezes precisa-se de alguma bússola moral para se nos guiar, seja ela religiosa ou materialista, pois não tê-la traz conseqüências sérias, eu costumo usar uma frase da Bíblia que me toca a alma: "Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas.” (Mt 10:16)". Sobre esta premissa, o acaso pode agir bem ou mal. O que quer que venha, poderá ser aceitável.

Abs.
MarcosVP
1 year ago
Biajoni
a idéia é discutir isso aqui, lilian. gostei bastante da sua colocação. mas eu acredito que o acaso exista sim, o ENDEUSAMENTO do acaso ou as tentativas de explicar o acaso, utilizando teorias das mais malucas, são parecidas às teorias de explicar Deus.
:>)
1 year ago
Lílian
Penso que o acaso, se é que existe, só depende dos princípios morais na medida em que temos, sempre, princípios morais (ou imorais, ou amorais, dependendo do ponto de vista). Qualquer escolha, ato, pensamento, valor, ideologia, crença ou seja lá o que for tem em sua base os pressupostos. Uhn... pensando aqui: "deixar a vida me levar" não é também uma escolha? :)
1 year ago

YuBloggers

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