O poema mais famoso do escritor argentino Jorge Luis Borges não é de sua autoria. Trata-se do poema intitulado “Instantes”, que circula até hoje pelas caixas de e-mails, desde os primórdios da internet, emocionando as pessoas. É o poema que diz que a gente deveria ter amado mais, cometido mais erros, ver o sol se pôr mais vezes. Como não era de Borges – depois ficamos todos sabendo – a banda Titãs tratou de surrupiar alguns versos e transformou o poema em um hit radiofônico, estranhamente chamado de "Epitáfio".
A história desse apócrifo de Borges é interessante. Originalmente, segundo inúmeros estudos, era um poema de um humorista, Don Herold, publicado numa Seleções de Readers Digest, em 1953. O texto começava com a espirituosa frase “É claro que não se pode desfritar um ovo, mas não há lei que proíba pensar nisso” – e seguiam-se algumas coisas que o autor não teria feito, mas faria se tivesse uma segunda chance. Como quase todo o poema de Herold consiste em anáforas (os versos começam quase sempre com as mesmas palavras, “devia ter...”), é possível que boa parte das pessoas que copiaram o texto e passaram para frente acrescentaram ali algo que não fizeram no passado, mas que gostariam de ter feito. Como, por exemplo, ter tomado mais sorvete.
As pessoas sempre estão a se arrepender do que não fizeram.

Ou fazem coisas com a consciência tranqüila, para não se arrependerem depois. Consta que a viúva de Borges, Maria Kodama, alguém que sempre viveu com a acusação velada de ter utilizado de sua beleza e proximidade com o poeta para se casar com ele e herdar sua fortuna, pediu que parassem de depositar em sua conta os direitos autorais do falso poema de Borges. Interessante, pois não?
E os Titãs, que buscaram no misterioso poema a melosidade necessária para um hit, precisavam também de um refrão, já que o poema não tinha um. O verso escolhido foi “O acaso vai me proteger enquanto eu estiver distraído”, uma frase rebuscada para dizer mais ou menos o que diz Zeca Pagodinho em outro hit, “Deixa a vida me levar” – com mais propriedade e credibilidade, em que emenda: “Sou feliz e agradeço por tudo o que Deus me deu”.
Se deixar levar, ao acaso, pode ser o mesmo que se deixar “nas mãos de Deus”? Não seria a mesma filosofia que poderia mover Maria Kodama a deixar que o destino ou o acaso continuasse a depositar em sua conta os dividendos desse poema enviesado que seu marido definitivamente não escreveu?
Ou para que o acaso funcione de fato como a mão de Deus precisamos ter princípios morais?
8 comments
"deixe a vida me levar" é quase um alívio.
Não creio em acaso, acho que tudo é resultado de alguma ação, mesmo
que não nos demos conta disso.
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Sempre penso nisso: a idéia de uma justiça divina foi inventada por pessoas sortudas.
Borges, Fernando Pessoa e Luis Fernando Veríssimo não têm tido muita sorte na época da internet...
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visitante aí debaixo, exatamente: quando é bom é o acaso da sincronicidade, que coisa linda! quando é ruim é a porra do azar!
;>)
(assinem os comentários, para sabermos com quem falamos)
Eu tenho lá minha fé. Mas creio profundamente que princípios morais regem qualquer tipo de fé,crença ou tenha seu deus o nome que quiser.. enfim, chame de acaso ou de mão divina, se tiver uma conduta coerente, terá resultados coerentes...ou poética e talebanianamente falando: vai colher o que plantou!
no meu caso, planto beijocas estaladas no Bia =) um dia recebo um abração ao vivo!!!
Dava para escrever um tratado filosófico sobre isso. Longe de mim pretender fechar isso em apenas um aforismo. Mas como a gente precisa viver e às vezes precisa-se de alguma bússola moral para se nos guiar, seja ela religiosa ou materialista, pois não tê-la traz conseqüências sérias, eu costumo usar uma frase da Bíblia que me toca a alma: "Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas.” (Mt 10:16)". Sobre esta premissa, o acaso pode agir bem ou mal. O que quer que venha, poderá ser aceitável.
Abs.
MarcosVP
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