Bertrand Russel em seu ensaio “Estoicismo e Saúde Mental”, publicado em “O Elogio ao Ócio”, conta que o filósofo Frederic William Henry Myers perguntou certa vez a um religioso o que ele achava que iria lhe acontecer quando morresse. O homem respondeu: “Ora, eu acho que vou desfrutar a eterna bem-aventurança, mas preferia que você parasse de fazer perguntas desagradáveis”. É como diz Woody Allen: “Não é que eu tenha medo da morte, só não queria estar lá quando ela chegar”.

Li certa vez, não lembro onde, que o medo da morte é o que mais leva as pessoas à religião. A perda de um ente querido, uma enfermidade ou a velhice - a própria ou de alguém próximo - uma adversidade, um acidente, algo que faça resplandecer como realidade a face feia da morte e logo invocamos um Deus, procuramos algum barqueiro sombrio a quem pagar o óbolo da transposição para o outro lado do mistério. E fazemos uma força descomunal para acreditar que sim, é verdade, existe esse outro lado bonito, verde e pacífico onde esperaremos nossos entes queridos e viveremos debaixo de árvores frondosas, em frugais almoços como se fosse sempre domingo. O além parece ser sempre um domingo eterno.
Há, porém, uma angústia em todos de talvez não termos sido bastante bons para conseguirmos esse reino dominical. A avó de um amigo, aos 82 anos, teme não ter tido uma vida suficientemente reta para entrar no reino dos céus – e passa seus últimos dias a se lamentar e chorar e orar e temer o dia do juízo que se aproxima. Ela teme a morte hoje mais do que jamais temeu: a religião não lhe confortou em nada.
Paradoxalmente, pessoas mais racionais, como o próprio Russel afirma, sofrem menos com a morte, de maneira geral. Isso porque procuram não pensar nela, já que esse é um exercício inútil. “Devemos dizer para nós mesmos: ‘Sim, ela pode acontecer, e daí?’”, ensina Russel. Afinal, acreditando ou não em algo, pode sempre nos restar a confiança de que nosso Criador não quer o nosso mal, seja nessa vida, seja na vida além.
Certo?
25 comments
Valeu, bia!
22 hours ago
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marcosvp, depois da MORTE o DESÂNIMO com as coisas corriqueiras da vida é o segundo fator que leva as pessoas a religião. a gente desanima mesmo. é nesse momento, muitas vezes, que temos que usar nossa serenidade e nossa serendipidade.
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paulo, isso mesmo. obrigado pelo comentário.
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simone, imagina que o além fosse de igual sofrimento? aí, bem, aí... pra que mesmo existir, né?
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john, substituimos o apreender pelo aprender - o sentir pelo saber, é o racionalismo que vc cita. de qualquer maneira, temos que usar o racionalismo para não acreditar em qualquer coisa que alguém diz em cima de um púlpito. e nosso coração para nos guiar pelos mitos, na jornada da vida.
[]s
"Sinceramente, tenho passado uns dias em que minha religiosidade tem sido mais instrumental que emocional.
Abs.
MarcosVP "
este e' o nosso dilema, perdemos a espiritualidade, temos que reaaprender. ou seja temso que desaprender o racionalismo que intensificou barbaramente depois deo renascimento. e' preciso pensar em termos de Cosmo e do homem pre-moderno para resgatar nossa espiritualidade. ou melhor, talvez nem precise pensar em nada mas sentir.
Sufocante pode ser sim um dos adjetivos para o sofrimento,
que é realmente inerente á vida humana...claro que não é só
isso, senão não há cristão ou não cristão que aguente!!
Pelo que sei,segundo o budismo, as reencarnações são sucessivas, muito
rápidas, podendo ser em outros seres do reino animal ou vegetal,
difícil conseguir estar na Terra Pura...ou seja, sofrimento que
não acaba mais!!!!rsrsrsrs
É fato que a religião vive da morte, do medo da morte. Outro dia, encontrei um japonês no ônibus e conversa vai conversa vem, o velhinho me disse que o grande responsável pela criação de Deus - portanto da religião - foi um vírus. De tanto morrer de doenças sem se ter idéia do porque, os seres humanos passaram a atribuir à causas sobrenaturais suas males físicos e daí para as desventuras foi um passo.
Abs.
MarcosVP
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vida, nós sabemos, é sofrimento. buda ensinou. ok, não é SÓ sofrimento, mas o sofrimento está sempre bem ali, certo?
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numa possível vida além também teríamos esse sofrimento ou não?
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Na sua resposta à Pimentinha você está dizendo que acha a rotina terrena sufocante? Não sei se entendi bem a imagem.
Porque alimentar uma continuação???Aff,uma vida já é suficiente,rss...desculpe minha simplicidade
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Pra mim, serve de consolo aquela frase de Epicuro, que diz mais ou menos que a morte não é problema nosso, porque quando estamos, ela não está; quando ela está, não estamos nós. Se vou me borrar de medo na hora do "desencontro", saberei mais tarde. :)
Uia! Isso aqui dá um post novo: "querendo um retorno à vida selvagem, relendo rousseau, querendo que o homem pague (até com o final catastrófico do mundo pela revolta da natureza - olhaí a natureza tão amarga e, hmmm, temperamental quanto deus!)". Depois vou ver se vc já escreveu sobre essa onda ecocatastrofista. :)
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Biajoni, perdao pelo pensamento simples, e onde fica o cosmo, o universo, a naturaza, e nos que somos parte?
Voltaire acertou: "deus criou o homem e o homem o pagou com a mesma moeda".
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Mas, se for uma compensação ou um presente, pode ser.
Por isso, muitos crentes , religiosos em geral, vivem com vistas no Além.
Esse desejo e esse temor norteiam seus comportamentos.
Eu não temo a Deus, não o vejo assim, como um Pai severo, nem um Pai bondoso,
porque nem consigo conceber Deus.
Mas ter princípios humanos , responsabilidade,alegria de viver são
fundamentais para essa vida, não para a próxima, que nem sabemos se existe.