Na palestra “O Confronto entre Oriente e Ocidente na Religião”, de 1970, recolhida no livro “Para Viver os Mitos” (Cultrix, 2000), Joseph Campbell faz uma análise sobre por que as pessoas estavam procurando cada vez mais o alento espiritual em religiões orientais. Ele diz que, quando era estudante, na década de 20, não imaginavam que na década de 70 (!) ainda haveria pessoas inteligentes querendo ouvir e pensar sobre religião. “Todos nós tínhamos absoluta certeza, naqueles dias, de que o mundo acabara com a religião. A ciência e a razão estavam no comando”. O “reino racional da democracia” apontava para a justiça e as desigualdades sociais pareciam cada vez menores. Na década de 60, porém, houve no ocidente, um repentino interesse pelas religiões orientais. Diz Campbell, inicialmente, sobre isso:
“A imagem bíblica do universo simplesmente não é mais satisfatória; nem o é a nação bíblica de uma raça de Deus, à qual todas as outras devem servir (Isaías 49:22-23; 61:5-6); nem, tampouco, a idéia de um código de leis transmitidas do alto e que devem valer por todo tempo. Os problemas sociais do mundo atual não são os de uma remota região do velho Levante, no século VI a.C.. As sociedades não são estáticas; nem podem as leis de uma servir a outra. Os problemas do nosso mundo não são sequer tocados por aqueles Dez Mandamentos talhados em pedra que levamos de um lugar para outro como uma bagagem e que, na verdade, foram negligenciados no próprio texto consagrado, um capítulo depois de terem sido anunciados (Êxodo 21:12-17, em seguida a 20:13). O conceito ocidental moderno de um código legal não é de uma lista de editais divinos incontestáveis, mas o de uma compilação de estatutos racionalmente elaborada, e em evolução, feita por seres humanos falíveis em conselho, para a realização de metas sociais racionalmente admitidas como verdadeiras (e portanto temporais). Entendemos que nossas leis não são ordenadas por decretos divinos; e também sabemos que lei alguma de povo algum na Terra jamais o foi. Dessa maneira, sabemos – quer ousemos dizer isso ou não – que nossos religiosos não têm mais direito de reivindicar autoridade incontestável para as suas leis morais do que para a sua ciência. E, por fim, até mesmo em seu papel particular e pessoal de dar conselhos espirituais, o religioso tem sido agora ultrapassado pelos psiquiatras – e de fato a tal ponto que muitos sacerdotes estão, eles próprios, procurando psicólogos para que estes lhes ensinem como cumprir melhor sua função pastoral. A magia de seus próprios símbolos tradicionais não mais funciona para curar, mas apenas para confundir.”
Incrível como o trecho parece atual e pode servir para várias coisas, não?
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