Metáfora - por Luiz Biajoni
Monday, 12 April 2010
posted by Biajoni

 

Marcelo Gleiser é o grande nome nacional na divulgação científica, nosso Dawkins tupiniquim, embora relativista no ataque às religiões. Faz parte do time que acha que é possível a convivência pacífica entre religião e ciência. Seu artigo no Caderno Mais! de ontem (11 de Abril), na Folha de São Paulo, além de citar Joseph Campbell, faz um apanhado dessa sua idéia de convívio pacífico e merece ser lido por todos os que se interessam pelo tema. Assim, reproduzo abaixo:

Começo hoje com a definição de mito dada por Joseph Campbell, uma das grandes autoridades mundiais em mitologia: "Mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre". Sabemos que mitos são narrativas criadas para explicar algo, para justificar alguma coisa. Na prática, não importa se o mito é verdadeiro ou falso; o que importa é sua eficiência.

Por exemplo, o mito da supremacia ariana propagado por Hitler teve consequências trágicas para milhões de judeus, ciganos e outros. O mito que funciona tem alto poder de sedução, apelando para medos e fraquezas, oferecendo soluções, prometendo desenlaces alternativos aos dramas que nos afligem diariamente.

A fé num determinado mito reflete a paixão com que a pessoa se apega a ele. No Rio, quem acredita em Nossa Senhora de Fátima sobe ajoelhado centenas de degraus em direção à igreja da santa e chega ao topo com os joelhos sangrando, mas com um sorriso estampado no rosto. As peregrinações religiosas movimentam bilhões de pessoas por todo o mundo. É tolo desprezar essa força com o sarcasmo do cético. Querendo trazer a ciência para um número maior de pessoas, eu me questiono muito sobre isso.

Como escrevi antes neste espaço, os que creem veem o avanço científico com uma ambiguidade surpreendente: de um lado, condenam a ciência como sendo materialista, cética e destruidora da fé das pessoas. "Ah, esses cientistas são uns chatos, não acreditam em Deus, duendes, ETs, nada!"

De outro, tomam antibióticos, voam em aviões, usam seus celulares e GPSs e assistem às suas TVs digitais. Existe uma descontinuidade gritante entre os usos da ciência e de suas aplicações tecnológicas e a percepção de suas implicações culturais e mesmo religiosas. Como resolver esse dilema?




A solução não é simples. Decretar guerra à fé, como andam fazendo alguns ateus mais radicais, como Richard Dawkins, não me parece uma estratégia viável. Pelo contrário, vejo essa polarização como um péssimo instrumento diplomático. Como Dawkins corretamente afirmou, os extremistas religiosos nunca mudarão de opinião, enquanto um cientista, diante de evidência convincente, é forçado eticamente a fazê-lo. Talvez essa seja a distinção mais essencial entre ciência e religião: o ver para crer da ciência versus o crer para ver da religião.

Aplicando esse critério à existência de entidades sobrenaturais, fica claro que o ateísmo é radical demais; melhor optar pelo agnosticismo, que duvida, mas não nega categoricamente o que não sabe. Carl Sagan famosamente disse que a ausência de evidência não é evidência de ausência. Mesmo que estivesse se referindo à existência de ETs inteligentes, podemos usar o mesmo raciocínio para a existência de divindades: não vejo evidência delas, mas não posso descartar sua existência por completo, por mais que duvide dela. Essa coexistência do existir e do não-existir é incômoda tanto para os céticos quanto para os crentes. Mas talvez seja inevitável.

A ciência caminha por meio do acúmulo de observações e provas concretas, replicáveis por grupos diferentes. A experiência religiosa é individual e subjetiva, mesmo que, às vezes, seja induzida em rituais públicos. Como escreveu o psicólogo americano William James, a verdadeira experiência religiosa é espiritual e não depende de dogmas. Apesar de o natural e o sobrenatural serem irreconciliáveis, é possível ser uma pessoa espiritualizada e cética.

Einstein dizia que a busca pelo conhecimento científico é, em essência, religiosa. Essa religião é bem diferente da dos ortodoxos, mas nos remete ao mesmo lugar, o cosmo de onde viemos, seja lá qual o nome que lhe damos.

*Marcelo Gleiser é escritor, professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover, EUA.

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6 comments


Visitor
Bia, o em cima do muro às vezes dele eu não conheço, porque não conheço quase nada do Marcelo Gleiser. Mas eu tenho achado cada vez mais que tucanaram a honestidade de quem diz "não tomo partido porque não sei e sei que não há como saber". Acho que um cientista com essa capacidade tem uma lucidez que é o jeito de ver o mundo que eu sinto com maior conforto diante do desconfortoque é a incerteza diante da vida.

eu não acredito, quando penso em coisas metafísicas, em nada que foi criado pelo humano para explicar o que a gente não entende. nesse sentido sou atéia. mas como é que vou falar que sei alguma merda desta vida? então tenho que dizer que sou agnóstica.

gostei muito da posição em cima do muro do marcelo gleiser. como o muro é alto, a visão dele é ampla e, como com visão ampla a gente vê coisas distantes, ele consegue ver muito. mas também consegue ver que não há como enxergar tudo do muito que vê.

acho que só assim é possível ampliar a visão das coisas, enxergar mais fundo ou, no mínimo (que é o máximo) criar uma visão própria do que o olho enxerga (isso aí não é a arte?)

imagina um sujeito lá de um lado do muro, com todas as certezas, com tudo prontinho na vida, na cabeça, no comportamento, na moral, nas regras... como é que um infeliz desses vira cientista? não vira. e como é que um infeliz desses vira artista? não vira de jeito nenhum.

como é que alguém consegue criar uma coisa, e criar é pegar esse mundo e expressar o resultado do mundo vindo cá pra dentro, sem ter incertezas? certeza é o seguinte: pega um saco de pipoca de microondas no supermercado, mete no microondas, regula o forno conforme a receitinha da embalagem e fica pronta aquela pipoca daquele jeitinho exato que se se imaginou mas que ninguém estabeleceu qual é.

existe isso? não. então, pra que a gente vai cobrar certeza de gente inteligente, criativa, genial? não tô falando do marcelo gleiser apesar de ter gostado muito do texto. tô falando das pessoas em geral.

pô, ainda bem que não existe A PIPOCA. se existisse pronto, acabou. ninguém ia querer inventar UMA pipoca com queijinho, OUTRA pipoca com leite condensadinho... afinal, se existe A PIPOCA, pra que umas certas pipocas, né?



1 year ago
Biajoni
marcosVP vc está certo. quando eu disse que o gleiser é um pouco em cima do muro, eu não disse que é neste texto, eu disse que é "às vezes".
:>)
1 year ago
Visitor
Este texto é bem próximo do que penso. E eu não vejo com "em cima do muro". Ele me parece perfeitamente assertivo. Afinal, o centro não deixa de ser, com efeito, "Uma Posição", ou estou errado? ;-)
Abs, MarcosVP
1 year ago
Biajoni
entendo e acho bacana, dan. gosto dele mesmo. um pouco em cima do muro às vezes, mas bem sensato, elegante e inteligente. né, chico?
1 year ago
Dan
O Marcelo Gleiser não se diz ateu como Dawkins, mas agnóstico. O seu texto para o Flha mostra uma certa discrição. No seu livro "Criação Imperfeita", se refere a um certo dogmatismo (quase um monoteísmo científico)quando resalta a tentativa da física em explicar a natureza como um conjunto de regras unitário. Reverenciando a criatividade da natureza, Gleiser ressalta ainda que fenômenos físicos em desequilíbrio podem revelar muito mais coisas sobre a origem do Universo do que as leis simétricas que os físicos constroem para descrever o mundo.
1 year ago
chico abelha
Sensato este Marcelo Gleiser.
1 year ago

YuBloggers

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