Por que o BBB tem espantosa audiência? Se os que estão na Casa são interessantes e bonitos e, além disso, criam um tipo de novelinha por “flashes”, por que não ver? Além disso, após um dia estafante, quem resiste a uma poltrona acompanhada de um convite para esvaziar a cabeça diante da impecável imagem da Rede Globo?
Mas os grupos ditos mais politizados da sociedade não gostam de explicações desse tipo, em que não se possa culpar alguém. A esquerda e a direita têm suas teorias.
A esquerda adora a palavra “alienação”. O sociólogo que leu algum manual marxista vocifera: “o público é vítima da manipulação da Rede Globo”. A direita tenta posar de culta: “ah, se nosso povo fosse educado, esses programas imorais não teriam vez”. Por sua vez, sempre atenta ao que imagina como sendo os “formadores de opinião”, a Globo busca anular esses pequenos grupos opositores com a fala de Bial, que é o “intelectual” da emissora. No BBB-10 (o atual), ele brindou os telespectadores com a frase “BBB também é filosofia”. Sei lá qual a razão dele ter falado isso, não pude acompanhar o resto. Ora, o BBB é filosofia? É claro que não no sentido dito pelo Pedro Bial, seja lá qual tenha sido, mas que o programa tem uma audiência explicável pela filosofia, isso é verdade.
O que é necessário notar, no caso, é como que o desdobramento da cultura, em especial a cultura moderna, chegou ao que chegou nos fazendo abraçar a TV na época do “Big Brother Brasil”.
No fundo da alma do homem moderno repousa um longo tapete, tecido por séculos e séculos. Esse tapete ganhou camadas e mais camadas, forrando a subjetividade e ao mesmo tempo forçando as paredes do espírito. Hegel e Nietzsche foram os filósofos que procuraram descrever esse processo apontando para o cristianismo, uma religião tipicamente subjetiva e, assim, bem diferente do paganismo, como um elemento de abaulamento da alma, algo que se tornou fundamental na modernidade. Heidegger, no século XX, fez mais: mostrou a modernidade como uma época em que a narrativa das ciências impera no mundo e, com ela, a idéia de que tudo pode ser dito a partir da relação sujeito-objeto. O sujeito é o que conhece e o que julga, o objeto é o conhecido e o avaliado. Não há estudante na universidade atual que, ao fazer metodologia científica, não seja posto diante dessa regra: o sujeito epistemológico e o objeto da ciência em questão – eis aí o que se tem de entender.
Foucault leu Hegel, Nietzsche e Heidegger. Ele preferiu localizar esse processo de ampliação da subjetividade, essa sofisticação das camadas de tecido do tapete da alma, de uma maneira um pouco diferente. Ele notou que talvez não fosse interessante dar crédito, ao se ler Platão falando de Sócrates, na frase “conhece-te a ti mesmo” como uma frase centrada na idéia de “saber”, e sim na idéia de “cuidado”. Conhecer-se, disse Foucault, nunca foi para Sócrates algo vazio, o conhecer pelo conhecer, mas implicava em uma doutrina do saber viver, dizia respeito ao cultivo de si e, este si, já estava circunscrevendo os poderes da alma, do intelecto, da razão. Antes mesmo que o helenismo tardio dominasse o mundo europeu, Sócrates já seria alguém menos preocupado com o conhecimento, com as Formas platônicas enquanto objeto do conhecimento, e mais afeito a elas enquanto guias para o bem viver.
Assim, Foucault traçou o panorama que desembocou na modernidade. Criamos o “interno” e o “externo” e, nesse mesmo processo, demos importância ao “interno”, a alma. Nessa tarefa, fixamos o que há de verdadeiro como sendo o que há em nosso “íntimo”, sendo tudo o resto o “externo” e, efetivamente, o resto – o que sobra, o que pode sobrar. Com isso dividimos o que entendemos por personalidade: tudo que é nosso, nossa verdadeira personalidade, estaria em nosso íntimo e, no mundo burguês, protegido pela privacidade que, enfim, antigos e medievais não conheceram. Tudo que é o não-verdadeiro e até o falso, o descartável, está na periferia ou no “exterior”, na vida pública. A política e o mercado nos tornam homens públicos, isto é, pessoas que, uma vez no palco, não apresentariam nada além do que é o não-verdadeiro em suas personalidades. Fora do palco, a quatro paredes, o íntimo poderia se manifestar e, então, teríamos acesso ao que há de verdadeiro em cada um de nós. Sendo que tudo que há de verdadeiro é só o que há dentro de cada um de nós – uma vez que até Deus veio parar no nosso coração por meio da religião do amor –, então, nada melhor do que a observação da intimidade para se chegar a uma instância sólida. Ora, mas a intimidade é, também, o lugar do prazer moderno par excelência, que é o sexo. Então, observar o sexo termina por ser, para o homem moderno, o lugar efetivo de contemplação da verdade. Trata-se da verdade de cada um, mas também, da própria Verdade.
Nesse sentido, o BBB realmente tem filosofia. Ficamos presos ao BBB por vários motivos, mas filosoficamente ele nos ganha porque acreditamos – uns de maneira clara para si mesmos e outros apenas por impulsos formados por séculos do desenvolvimento cultural – que vamos dar de cara com a verdade dos que estão na Casa e, então, descobrir a verdade sobre nós mesmos, sobre o Homem, sobre tudo que somos na Terra. O BBB é como que um trabalho de metafísica para os que nunca se imaginaram com alguma necessidade metafísica. Não é religião, é filosofia. Não se trata de encontrar Deus. Mas se trata de encontrar um parente próximo dele, a Verdade.
Quem somos nós, afinal? Eis aí a pergunta que está lá nas entranhas das sinapses de cada telespectador que, como o Homer Simpson, segura a cerveja na mão e espera se haverá um não uma “enrabada” no BBB. Esse sentimento chulo, esse gosto pela fofoca, nada é senão uma forma que só se faz presente porque estamos envolvidos até o último fio de cabelo com a idéia de que vamos captar ali, principalmente no sexo, que é o núcleo da intimidade, o modo de seguir do dístico do Templo de Apolo, o “conhece-te a ti mesmo”.
Foucault não só ensinou isso, ou seja, como entender o BBB, mas ele também quis mostrar que essa esperança era vã. Não há nada de mais verdadeiro no “lado interno” em detrimento do “lado externo”. Somos múltiplos, e nossa cara pública e nossa cara particular e íntima não são o verdadeiro e o falso, e sim apenas lados de uma mesma moeda. Lados de uma moeda são ou ambos verdadeiros ou ambos falsos. Aliás, não somos moedas, pois não temos só duas caras – temos muitas.
Não vamos satisfazer nossa necessidade metafísica pelo BBB. Mas acreditamos tanto nisso, que assistiremos o próximo, para a felicidade do Boninho e para o regozijo de um Bial que está cada vez mais chato.
Post Scriptum 1
- Sr. Filósofo, eu li não um manual marxista, mas TODA a obra do Marx. Ele não está errado, o senhor, por favor, acorde, a Rede Globo é ideológica e então ...
- Sim, sua narrativa não está sendo descartada por todos, eu apenas coloquei a minha narrativa, que busca mostrar a ligação entre o “ibope” do BBB e anseios metafísicos nossos, nossa capa moldada a partir do desenvolvimento da cultura como história da subjetividade. Você poderia ter entendido. Mas, veja, se vai rezar para o São Marx, o faça na sua igreja, OK? Aqui não há altar. Foucault não é aqui um santo. Eu poderia ter falado o que falei com outras implicações, com outros filósofos na mão.
Post Scriptum 2
- Sr. Filósofo, eu também quero dizer o que acho, pois o senhor parece não ter prestado a atenção para o principal. Talvez o senhor esteja até a favor da baixaria. O BBB é imoral. Veja, houve até beijo gay lá. E as crianças ...
- Eu sei. No seu caso, a igreja não é a de Marx, mas é a do Santo Asno. Seu caso é intratável, eu pediria que se matasse e não lesse mais meus textos.
Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo. Twitter: http//twitter.com/ghiraldelli : http://formspring.me/ghiraldelli

Grazi saiu do BBB e foi para o campo concorrido das telenovelas. Ali, não se sai mal não. No entanto, aquele sorriso grande da moça bonita já está no psicanalista. Ela diz que faz análise porque está “sem amigos” (Folha 04/01/09).
Grazi não está querendo substituir um amigo inexistente pela conversa com um amigo pago, o analista. Claro que não. O que ela percebeu é que o ambiente em que vive é um lugar de “pessoas amarguradas” e de “vampiros que só querem sugar a sua energia”, como ela mesma afirmou. Todo ambiente em que o trabalho é o de se expor, de se apresentar bem, tem como revés uma competição mórbida – quem está no ambiente universitário paga um preço semelhante. Todo palco tem mais do que o ator, os telespectadores e o pessoal da produção. O palco contém os que não estão nele contidos – e este é o seu problema. O problema é que o mundo não é um palco, ao passo que nossa sociedade contemporânea incita a todos a buscar sua individualidade em algum tipo de estrelato visual, e não só na realização pessoal segundo seus méritos possíveis. Os que não conseguem ou só conseguem de modo insatisfatório visibilidade que se tornou meta ditatorial nos tempos contemporâneos, se revoltam e, não raro, são mordidos pela mais antiga e terrível entidade, a velha Inveja.
É provável que Grazi esteja apenas se deparando com aquilo que outros, com algum preparo intelectual de auto-conhecimento, tirariam de letra. Aliás, talvez o analista não seja uma boa opção para ela. Pois o problema não está nela e, de certa forma, ela jamais vai poder controlá-lo. Talvez a grande chance de Grazi esteja nos textos de sua própria profissão. É na literatura que aprendemos como que as paixões humanas atuam. A filosofia, por sua vez, pode dar certa autoconsciência à literatura, mas não a substitui nem um pouco nos detalhes do trabalho de cada paixão. O que a filosofia pode fazer, acompanhada da literatura, é dizer para Grazi e para todos que estão envolvidos com um problema semelhante, é que as paixões não deveriam ser lidas só pelo viés moderno, como elementos subjetivos. Teríamos de levá-las mais a sério, e percorrer a história das paixões.
A idéia de que as paixões são subjetivas, são estados da alma que começam e terminam na alma, é uma idéia moderna. Ela é muito nova. Aliás, tal idéia não deveria ser levada tão ao pé da letra, coisa que os psicólogos pouco cultos fazem sem qualquer rubor. A subjetivação das paixões é obra, em grande parte, do cristianismo – e o cristianismo é datado. Os gregos e os romanos partilharam bem menos dessa idéia. Eles tinham as paixões nas figuras de deuses e demiurgos – elementos objetivos, portanto. A própria Inveja era um tipo de deusa ou, melhor dizendo, um tipo de gênio. Sua aparência era horrível, era meio que descarnada e de sua boca saía uma baba verde, um tipo de bílis, além disso, tinha olhos grandes e fundos, e sempre fixos em cada coisa, mas sem brilho. Ela se aproximava das pessoas no sono. Derrubava aquela bílis verde sobre as pessoas, principalmente no peito, e, no amanhecer, eis que a escravidão começava. Tudo que a pessoa contaminada olhava lhe era dolorido, pois lhe parecia muito maior e melhor do que era e, portanto, inalcançável para ela própria. Iniciava-se, então, o percurso triste daquele que era o novo doente dos olhos. A regra dessa doença é bem conhecida popularmente: “a grama do vizinho é sempre mais verde”.
Talvez Grazi não esteja sendo vítima senão disso: do olhar daqueles que estão com essa doença, a doença dos olhos – o efeito de terem sido contaminados com a bílis dessa entidade, a Inveja.
Esse caráter objetivo da Inveja, como os gregos nos mostram, dá a exata dimensão do trabalho inútil do analista sobre Grazi. O que ele pode dizer para ela que a tire de um mundo em que há pessoas contaminadas pelo líquido verde? Nada! Ele não pode lhe ensinar nada. Todas as técnicas que ele pode lhe dar são subjetivas, são de auto-conhecimento e auto-controle. Ora, farão efeito da Grazi sobre a Grazi, mas não incomodarão nem um pouco a figura do demiúrgo da Inveja. Quem vai impedir que essa entidade continue a vagar por aí? Quem vai impedir que essa fantasmagórica Inveja pare de derramar nos seios de outras mulheres (e até mesmo no peito de homens) a sua bílis? Nenhum analista tem esse poder. Caso ele diga que tem, estará mentido. Essa objetividade da Inveja, que só os gregos e romanos conheceram, o cristianismo apagou de vez, transformando-a em sentimento, e dando poder aos psicólogos que sucederam padres e alguns médicos.
Bem, então o psicanalista é um inútil? Bem, o analista poderá ensinar técnicas de escudo. Quase todo analista sabe bem que um dos grandes problemas das pessoas que os procuram é o da delimitação entre o eu e o mundo. Elas não sabem qual é a fronteira entre elas e o mundo, entre elas e os outros. Sendo assim, elas invadem e são invadidas. Elas não sabem colocar barreiras e também não sabem perceber o que é ou não problema delas, problemas que as requisitam de fato. Isso o analista pode fazer. E isso pode até a ajudar a Grazi a se proteger daqueles que ela chamou de vampiros, tentando ensiná-la onde começa a Grazi e onde termina a Grazi. Ele pode atuar muito bem ensinando a evitarmos o panteísmo de nós mesmos, ou melhor, um pan-egoísmo. Ora, mas isso é escudo, um instrumento. Não é uma arma de solução do problema. Pois quem disse que a Inveja vai parar de atuar? A Inveja causa a doença dos olhos. E quem olha para o monumento chamado Grazi, se estiver sob o efeito do líquido verde, não conseguirá não dizer: “ela brilha tanto que é impossível que eu possa chegar a ser ela”. Que analista pode resolver isso para Grazi? Cortar o poder de uma entidade demiúrgica com apenas poderes dos mortais? Bobagem, impossível.
Caso ele seja honesto, o analista terá de dizer: Grazi, aprenda isto: você, enquanto fizer sucesso, será uma eterna solitária, e quando parar de fazer sucesso, caso não tenha se estruturado, será um lixo a mais da Globo para o asilo dos artistas, a ser sustentado pelo Sílvio Santos, porque a Globo é que não vai dar nada para o asilo.