
Grazi saiu do BBB e foi para o campo concorrido das telenovelas. Ali, não se sai mal não. No entanto, aquele sorriso grande da moça bonita já está no psicanalista. Ela diz que faz análise porque está “sem amigos” (Folha 04/01/09).
Grazi não está querendo substituir um amigo inexistente pela conversa com um amigo pago, o analista. Claro que não. O que ela percebeu é que o ambiente em que vive é um lugar de “pessoas amarguradas” e de “vampiros que só querem sugar a sua energia”, como ela mesma afirmou. Todo ambiente em que o trabalho é o de se expor, de se apresentar bem, tem como revés uma competição mórbida – quem está no ambiente universitário paga um preço semelhante. Todo palco tem mais do que o ator, os telespectadores e o pessoal da produção. O palco contém os que não estão nele contidos – e este é o seu problema. O problema é que o mundo não é um palco, ao passo que nossa sociedade contemporânea incita a todos a buscar sua individualidade em algum tipo de estrelato visual, e não só na realização pessoal segundo seus méritos possíveis. Os que não conseguem ou só conseguem de modo insatisfatório visibilidade que se tornou meta ditatorial nos tempos contemporâneos, se revoltam e, não raro, são mordidos pela mais antiga e terrível entidade, a velha Inveja.
É provável que Grazi esteja apenas se deparando com aquilo que outros, com algum preparo intelectual de auto-conhecimento, tirariam de letra. Aliás, talvez o analista não seja uma boa opção para ela. Pois o problema não está nela e, de certa forma, ela jamais vai poder controlá-lo. Talvez a grande chance de Grazi esteja nos textos de sua própria profissão. É na literatura que aprendemos como que as paixões humanas atuam. A filosofia, por sua vez, pode dar certa autoconsciência à literatura, mas não a substitui nem um pouco nos detalhes do trabalho de cada paixão. O que a filosofia pode fazer, acompanhada da literatura, é dizer para Grazi e para todos que estão envolvidos com um problema semelhante, é que as paixões não deveriam ser lidas só pelo viés moderno, como elementos subjetivos. Teríamos de levá-las mais a sério, e percorrer a história das paixões.
A idéia de que as paixões são subjetivas, são estados da alma que começam e terminam na alma, é uma idéia moderna. Ela é muito nova. Aliás, tal idéia não deveria ser levada tão ao pé da letra, coisa que os psicólogos pouco cultos fazem sem qualquer rubor. A subjetivação das paixões é obra, em grande parte, do cristianismo – e o cristianismo é datado. Os gregos e os romanos partilharam bem menos dessa idéia. Eles tinham as paixões nas figuras de deuses e demiurgos – elementos objetivos, portanto. A própria Inveja era um tipo de deusa ou, melhor dizendo, um tipo de gênio. Sua aparência era horrível, era meio que descarnada e de sua boca saía uma baba verde, um tipo de bílis, além disso, tinha olhos grandes e fundos, e sempre fixos em cada coisa, mas sem brilho. Ela se aproximava das pessoas no sono. Derrubava aquela bílis verde sobre as pessoas, principalmente no peito, e, no amanhecer, eis que a escravidão começava. Tudo que a pessoa contaminada olhava lhe era dolorido, pois lhe parecia muito maior e melhor do que era e, portanto, inalcançável para ela própria. Iniciava-se, então, o percurso triste daquele que era o novo doente dos olhos. A regra dessa doença é bem conhecida popularmente: “a grama do vizinho é sempre mais verde”.
Talvez Grazi não esteja sendo vítima senão disso: do olhar daqueles que estão com essa doença, a doença dos olhos – o efeito de terem sido contaminados com a bílis dessa entidade, a Inveja.
Esse caráter objetivo da Inveja, como os gregos nos mostram, dá a exata dimensão do trabalho inútil do analista sobre Grazi. O que ele pode dizer para ela que a tire de um mundo em que há pessoas contaminadas pelo líquido verde? Nada! Ele não pode lhe ensinar nada. Todas as técnicas que ele pode lhe dar são subjetivas, são de auto-conhecimento e auto-controle. Ora, farão efeito da Grazi sobre a Grazi, mas não incomodarão nem um pouco a figura do demiúrgo da Inveja. Quem vai impedir que essa entidade continue a vagar por aí? Quem vai impedir que essa fantasmagórica Inveja pare de derramar nos seios de outras mulheres (e até mesmo no peito de homens) a sua bílis? Nenhum analista tem esse poder. Caso ele diga que tem, estará mentido. Essa objetividade da Inveja, que só os gregos e romanos conheceram, o cristianismo apagou de vez, transformando-a em sentimento, e dando poder aos psicólogos que sucederam padres e alguns médicos.
Bem, então o psicanalista é um inútil? Bem, o analista poderá ensinar técnicas de escudo. Quase todo analista sabe bem que um dos grandes problemas das pessoas que os procuram é o da delimitação entre o eu e o mundo. Elas não sabem qual é a fronteira entre elas e o mundo, entre elas e os outros. Sendo assim, elas invadem e são invadidas. Elas não sabem colocar barreiras e também não sabem perceber o que é ou não problema delas, problemas que as requisitam de fato. Isso o analista pode fazer. E isso pode até a ajudar a Grazi a se proteger daqueles que ela chamou de vampiros, tentando ensiná-la onde começa a Grazi e onde termina a Grazi. Ele pode atuar muito bem ensinando a evitarmos o panteísmo de nós mesmos, ou melhor, um pan-egoísmo. Ora, mas isso é escudo, um instrumento. Não é uma arma de solução do problema. Pois quem disse que a Inveja vai parar de atuar? A Inveja causa a doença dos olhos. E quem olha para o monumento chamado Grazi, se estiver sob o efeito do líquido verde, não conseguirá não dizer: “ela brilha tanto que é impossível que eu possa chegar a ser ela”. Que analista pode resolver isso para Grazi? Cortar o poder de uma entidade demiúrgica com apenas poderes dos mortais? Bobagem, impossível.
Caso ele seja honesto, o analista terá de dizer: Grazi, aprenda isto: você, enquanto fizer sucesso, será uma eterna solitária, e quando parar de fazer sucesso, caso não tenha se estruturado, será um lixo a mais da Globo para o asilo dos artistas, a ser sustentado pelo Sílvio Santos, porque a Globo é que não vai dar nada para o asilo.
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Grande abraço e muito obrigado!