BIBLOS AD HUMUS
Às vezes quando penso que sei muito
e conto esses meus livros nas estantes,
e lembro os outros tantos que escrevi,
pergunto aos grandes sábios do Planeta,
Aos simples que nem têm biblioteca,
de que me vale ter lido Cervantes,
Pessoa e William Shakespeare de Assis...
... e aos pés de Paulapóstolo me junto.
Caído do cavalo em plenestrada,
rasgado em quedabismo sou fiasco
e vejo que estes livros são maçãs,
São frutos proibidos das manhãs,
são passos que buscando alçar Damasco,
fazem meu rastro em pó, pois não sei nada!
Paulo Urban
31 de dezembro, MMXI
13h – dec. her.

Biblioteca de Alexandria, Egito, século III a. C.
Grande Sala reconstituída segundo pesquisas arqueológicas de tudo aquilo que restou, melhor dizendo, do nada que restou após sua destruição em 415 d. C. por conta de uma horda de cristãos fanáticos que a incendiou completamente.
Um dos poetas contemporâneos com cuja obra muito me identifico é Alan Rodrigues de Carvalho, cujos sonetos malditos (e outros tantos eróticos) deveriam ser trazidos à luz por alguma editora, ainda que o charme desse poeta seja o de mais à vontade andar assim, à sombra acadêmica, sob a proteção do mais secreto crepúsculo das letras.
Privei-me intensamente dos soturnos ares de sua mente luminosa durantes os três saudáveis e consecutivos anos em que compartilhamos dos mesmos bancos escolares. Àquela época, deliciávamo-nos com as aulas de literatura ministradas pela Prof.ª Marta Marques da Silva, que tanto nos fez amar a mitologia clássica como descobrir o gênio de Machado, também com o ministério do Prof. Roberto Melo Mesquita, de quem herdamos, muito além de sua bem conceituada gramática, o amor pelos sonetos.
A propósito, Prof. Mesquita considerava a “forma soneto”, desde que preservadas fossem a economia e a riqueza imagética pelas penas dos poetas, verdadeiras obras-primas emolduradas em quatro quadros, dois quartetos e dois tercetos; pequenas operetas de musicalidade rítmica a dar conta de toda uma história inteiramente contada, começo, meio e fim, em suas justas e perfeitas tão-somente 14 linhas (de infinitas entrelinhas, é claro).
É que a verdadeira arte, seja ela qual for, requer dose de medida, tal qual a vemos fluir livre, sem que dela se desperdice uma só gota, em toda ação de justa Temperança, tal qual nos ensina o Arcano XIV do Tarô, grande selo oculto da Tradição da Alquimia.
Também em relação a esta artesotérica, cumpre dizer que Alan e eu comungamos de uma mesma fontescola, posto sermos discípulos de Christiano Sotero, 78 anos, também nosso mestre sonetista, que em sua bibliotecalquímica, oculta seu particular tesourencantado, todo ele formado por iluminuras, poções alquímicas, nosódios e florais, além de seus próprios sonetalquímicos, um dos quais já tive a honra de publicar aqui (o leitor interessado em conhecê-los, por gentileza, visite Panterespectro).
E foi assim, visando quadrar o círculo, buscando unir o sal à água, tentando estreitar os caminhos seco e úmido na febril procura pela Pedra e pelo Elixir, que Alan Rodrigues e eu nos encontramos no Templo da Grande Jornada, na Iniciação ao longo da qual, muito distantes ainda dos Mistérios que ousamos penetrar, buscamos sub rosa sonetar, cada qual à sua moda, dando conta da retorta alquímica que nos foi confiada, conforme nos orienta fazer toda a práxis esotérica e literária de Sotero.

Augusto dos Anjos (1884-1914)
Apresento-vos, pois, conforme prometido havia em Dama de Paus, o soneto Artinnatura de Alan Rodrigues de Carvalho, a expressar o êxtase em que se traduziu seu contato, desses que fazem arrebatar, encontro dele com o mestre Augusto dos Anjos que, em sua consciência de quiróptero, visitou-o certa noite na caverna onde ele escreve, fazendo com que a verdade se levantasse das pedras mortas, a abrir-lhe assim todas as portas para os ensinamentos esotéricos que o poetaugusto nos legou cifrado e bem codificado na singularidade do Eu, obra-máxima de sua alma.
Por isso, segue o signo:
ARTINNATURA
Às noites em meu quarto solitário
ouço batidas fortes e sonoras;
lúgubre carrilhão das densas horas,
retumba a madrugada em campanário.
Nas asas dos morcegos a alma aflora;
errante, voa e cumpre o itinerário,
refaz item por item questionário
que no escuro dos quartos sempre mora.
Inquietações da angústia da caverna
gotejam feito versos de um soneto,
explodem feito dor em dinamites;
- Augusto, acende logo tua lanterna!
E vê pingando em último terceto,
dos Anjos, pranto em estalactites.
Alan Rodrigues de Carvalho,
madrugada de 3 de agosto do ano da graça de 2001
VIDARCANO XIII
(porque o melhor epitáfio não vale mais que estar aqui)
Qual Dama é esta a morte que só espera?
Se é fim, ou torvelinho, ou labirinto,
Se é parte de mim mesmo que eu não sinto,
Soubesse, escaparia à Esfinge-Fera.
Se a morte é doce espírito de absinto,
Se a morte é uma mandala noutra esfera,
Quem sabe então morrer seja a quimera,
Passagem para o haver mundo distinto.
Profundalém das pedras, das cavernas,
No abismo dissoluto do vazio,
Meus chackras se transmutam iridescentes...
A porta da gaiola se abre em fio,
Minha alma se desfia em ceninternas
Que me abrem luz e túnel incandescentes!
Paulo Urban
18 de outubro, MMXI
15h – dec. heróicos
Crédito de imagem:
"O Ciclo" - Arcano XIII do Tarô da Nova Consciência; óleo sobre tela do renomado artista plástico Eduardo Vilela

RITO DE NÚPCIAS DOS KRÉTERES
Singrei navestelar, quadrante Teta,
à caça de outras vidas, novos seres...
- Um curso em dobra 8, linda alferes!
- Perfeito, capitão! – Traçada a meta,
Surgiu então na tela a Lua Ceres,
satélite de Ontárius, seu planeta,
que em órbita de Kirgam, estrela neta,
era morada inóspita dos Kréteres.
Criaturas com guelras, corpescamas,
cujas núpcias demoram dez eons...
Um macho fecundava a fêmea em glória;
Depois de engravidá-la, vai-se embora;
e até que eclodam os novos ovos bons,
meu Sol já será morto, sem ter chamas!

Paulo Urban
Comandantestelar do Aquarismo
Galáxaguas de São Pedro, Cosmosferas.
Datestelar: 8.21.20.11
crédito das imagens:
- Avery-Frost Orion; copirigth de J. S. Artists; Hamlyn Publishing Group Limited, London.
- Híbrido Homem-cobra; ilustr. de Jean Torton (nosso Kréter, ou o que de mais perto pude encontrar desse espécime, criaturas jamais fotografadas, quer pela NASA, quer pela Starfleet Federation)