Encantamento & Nova Consciência, por Paulo Urban

BIBLOS AD HUMUS

 

 

Às vezes quando penso que sei muito

e conto esses meus livros nas estantes,

e lembro os outros tantos que escrevi,

pergunto aos grandes sábios do Planeta,

 

 

Aos simples que nem têm biblioteca,

de que me vale ter lido Cervantes,

Pessoa e William Shakespeare de Assis...

... e aos pés de Paulapóstolo me junto.

 

 

Caído do cavalo em plenestrada,

rasgado em quedabismo sou fiasco

e vejo que estes livros são maçãs,

 

 

São frutos proibidos das manhãs,

são passos que buscando alçar Damasco,

fazem meu rastro em pó, pois não sei nada!

 

 

Paulo Urban

31 de dezembro, MMXI

13h – dec. her.

 

 

 Biblioteca de Alexandria, Egito, século III a. C.  

Grande Sala reconstituída segundo pesquisas arqueológicas de tudo aquilo que restou, melhor dizendo, do nada que restou após sua destruição em 415 d. C. por conta de uma horda de cristãos fanáticos que a incendiou completamente.   

 

 

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Thursday, 20 October 2011
posted by Paulo

VIDARCANO XIII

(porque o melhor epitáfio não vale mais que estar aqui)

 

 

Qual Dama é esta a morte que só espera?

Se é fim, ou torvelinho, ou labirinto,

Se é parte de mim mesmo que eu não sinto,

Soubesse, escaparia à Esfinge-Fera.

  

Se a morte é doce espírito de absinto,

Se a morte é uma mandala noutra esfera,

Quem sabe então morrer seja a quimera,

Passagem para o haver mundo distinto.

 

 Profundalém das pedras, das cavernas,

No abismo dissoluto do vazio,

Meus chackras se transmutam iridescentes...

 

 

A porta da gaiola se abre em fio,

Minha alma se desfia em ceninternas

Que me abrem luz e túnel incandescentes!

 

 

Paulo Urban

18 de outubro, MMXI

15h – dec. heróicos

 

Crédito de imagem:
"O Ciclo" - Arcano XIII do Tarô da Nova Consciência; óleo sobre tela do renomado artista plástico Eduardo Vilela

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Wednesday, 31 August 2011
posted by Paulo


RITO DE NÚPCIAS DOS KRÉTERES

 

 

Singrei navestelar, quadrante Teta,

à caça de outras vidas, novos seres...

- Um curso em dobra 8, linda alferes!

- Perfeito, capitão! – Traçada a meta,

 

Surgiu então na tela a Lua Ceres,

satélite de Ontárius, seu planeta,

que em órbita de Kirgam, estrela neta,

era morada inóspita dos Kréteres.

 

Criaturas com guelras, corpescamas,

cujas núpcias demoram dez eons...

Um macho fecundava a fêmea em glória;

 

Depois de engravidá-la, vai-se embora;

e até que eclodam os novos ovos bons,

meu Sol já será morto, sem ter chamas!

 

 

Paulo Urban

 Comandantestelar do Aquarismo

Galáxaguas de São Pedro, Cosmosferas.

Datestelar: 8.21.20.11


crédito das imagens:
- Avery-Frost Orion; copirigth de J. S. Artists; Hamlyn Publishing Group Limited, London.

- Híbrido Homem-cobra; ilustr. de Jean Torton (nosso Kréter, ou o que de mais perto pude encontrar desse espécime, criaturas jamais fotografadas, quer pela NASA, quer pela Starfleet Federation) 
 

 

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A TEMPESTADE E O TARÔ DE SHAKESPEARE

We are such stuff as dreams are made on



 

Iniciei minha leitura de Shakespeare (1564-1616) tinha 15 anos, e o fiz junto com minha auto-iniciação ao tarô. Dei a mim mesmo naquele natal de 1980 um presente duplo: Dogma e Ritual da Alta Magia, Ed. Pensamento, complexo tratado do século XIX de magia teórico-operativa de Eliphas Levi (1816-1875), e também The Complete Works of William Shakespeare, Spring Books of London, 1958, a trazer suas 37 peças, os 160 sonetos e seus outros 5 poemas. O dinheiro pra isso consegui com meu avô, que viria a falecer na semana seguinte, no último dia do ano. Considero sejam estas duas obras a melhor relíquia que me ficou de sua herança.

 

E foi assim, apadrinhado por este meu avô, muito católico era ele, e sem que ele soubesse onde eu havia aplicado a importância que me dera, que me iniciei em duas das mais proibidas questões do esoterismo Ocidental: Shakespeare e o Tarô. E me iniciei no segundo tema quase sem saber que o fazia. Descobri-o conforme lia a citada obra-prima do mago Levi, toda ela uma verdadeira iniciação à alma do tarô, capítulo por capítulo desenhada, a discutir a fundo os aspectos mágico-esotéricos dos 22 Arcanos Maiores. Tudo está lá, tim-tim por tim-tim; entrego, pois, a chave descoberta, mas é preciso ter olhos que sabem ver para abrir as portas do Templo com ela. Bem... ocorre que àquela época não havia quase livros nem baralhos de tarô em todo o Brasil; vasculhando as melhores livrarias de São Paulo, tive mesmo que me contentar com algumas publicações populares da ed. Pensamento, duas das quais, ainda que deixando muito a desejar, vinham ao menos acompanhadas de seus respectivos baralhos – um deles, aliás,  uma razoável reprodução do clássico Tarô de Marselha, com os quais pude ver como a “coisa” funciona e cria vida. Mas li também Meditações sobre os 22 Arcanos do Tarô, edições Paulinas, sem dúvida o melhor e mais profundo texto sobre o tarô até hoje escrito. Seu autor? Um monge alemão, filósofo desconhecido, célebre alquimista cujo verdadeiro nome me foi soprado na Iniciação sofrida nos terraços de Notredame,  e eu o ouvi da boca do mestre Christiano Sotero, naquela primavera de 1996.



 

Mas antes que outras peças do grande quebra-cabeças sejam dadas, tratemos aqui das peças que mais nos interessam, escritas pelo célebre bardo nascido em Strattford-upon-Avon, 100 milhas noroeste de Londres, cujo nome nos oferece nada menos que 4 mil maneiras diferentes de ser pronunciado, conforme roga a variedade com que ele surge na ortografia inglesa, indo de Shaxpere a Shagsespire, de Xhaghsspear a Shykesspeer, também sem prejuízo algum chamado de Chiquespirra pelos mais cultos caipiras do interiorzão de São Paulo e Minas.

 

Iniciei a leitura das 1081 páginas do calhamaço Spring Books por The Tempest, julgando fosse ali, naquela Tempestade, estivesse guardado o tormentoso começo de tudo, já que era este o primeiro texto a figurar no livro. Ledo engano; aprendi depois, esta é justamente a última peça escrita pelo dramaturgo. Ocorre que desde 1623, quando se compôs o “1º Fólio de Shakespeare” a reunir suas peças todas, A Tempestade, ocasionalmente esquecida pelos editores Heminges & Condell (ambos haviam sido amigos do poeta e dele herdaram parte de sua fortuna), acabou sendo de última hora agregada à edição, razão pela qual foi impressa à frente das demais peças. Tendo este Fólio shakespeareano servido de modelo a inúmeras outras publicações, muitas são as edições mundo afora que até hoje trazem A Tempestade como a primeira entre as 37 peças, cuja grande maioria se fez encenar no arrojado Globe Theatre. Seu nome se deve à forma do prédio, três andares erguidos em forma de arena, inaugurado em 1594, às margens do Tâmisa, com capacidade para 2.500 pessoas sentadas, ou três mil, considerando os que se contentavam, como eu logicamente o faria, em assistir às peças de Shakespeare (mesmo as que levam 3 a 4 horas de espetáculo) pagando um pouco menos por isso, mas tempo todo em pé.    

 

Finalizada em 1611, apresentada no mesmo ano, The Tempest estreou trazendo nada menos que o próprio Shakespeare a encarnar o papel de Próspero, poderoso mago protagonista de toda a trama. Próspero acha-se há 12 anos exilado em sua ilha, desde quando seu trono (era ele o legítimo Duque de Milão) fora usurpado por Antônio, que o traíra, irmão do Rei Nápoles. Gonzalo, conselheiro de Antônio, cuidara para que seu barco estivesse provido de centenas de livros, maioria deles tratados de magia (obras-fonte para os tratados esotéricos que o mago francês Eliphas Levi escreveria séculos mais tarde). Gonzalo arremete Próspero e sua filha Miranda, uma criança de 3 anos, ao mar. Ainda que sob ordens de Antônio houvesse zelado para que o barco estivesse devidamente furado, o caso é que Próspero consegue atracar em uma ilha distante, domínios da temível bruxa Sycorax. Próspero a vence com sua magia, expulsa-a para sempre da ilha e adota para si um de seus medonhos servos, o monstro Calibã, figura infeliz e disforme, 1/3 homem, 1/3 peixe, 1/3 tartaruga. De quebra, liberta de um ancestral carvalho o gênio Ariel, espécie de anjo protetor, que fora ali aprisionado por Sycorax, mas Próspero o subjuga igualmente, prometendo-lhe, entretanto, um dia devolver-lhe a liberdade. Quando Miranda cresce, Calibã tenta explorar sua beleza, mas seu pai intervém; salva a virgindade da filha e condena a deformada besta aos mais pesados trabalhos, tornando-se ele próprio agora um severo dono para o monstro. Miranda nada sabe sobre a realeza de seu passado, nem se lembra de ter visto em toda a sua vida homem algum além do pai. Ela está com 15 anos quando Ariel vem avisar Próspero que uma nau, trazendo seus desafetos todos, passa ao largo, no estreito próximo à ilha. Nela, entre marinheiros e tripulantes, estão Alonso, rei de Nápoles, acompanhado de seu filho, o jovem Fernand; também sobre o convés está Antônio, o traidor que usurpara seu trono, acompanhado do fiel Gonzalo.

 

Próspero não perde a chance e ordena a Ariel que cause, pois, uma tempestade, que faça assim naufragar o navio, cuidando, entretanto, de salvar a todos e fazer com que venham bater nas diferentes praias de sua ilha. Finalmente, estava armada sua vingança! Assim pensaram todos quando se encerrou o 1º ato naquela estreia em Londres, numa noite sem tempestade nem chuva, mas com o Tâmisa inteiramente coberto pelo fog. E eu que não vou ser besta de contar aqui como é que termina a história; aliás, vou contar tudo sim, mas não bestamente (e conto ainda mais detalhes no soneto), senão de um modo que não estrague o desencadear surpreendente dos fatos que levarão todos os antigos inimigos de Próspero a ficar completamente entregues à sua mercê. Quando então, todos esperamos que seus inimigos sejam vingados, ou ainda que certas insinuações de diálogo desencadeiem alguma nova tragédia shakespeareana, o clímax da trama se dissolve numa bem esperançosa mensagem de cura e amor à toda a humanidade! E Próspero ainda faz casar sua filha com Fernand! Vixi, agora é que contei tudo mesmo! Mas não faz mal, mesmo porque nada disso tem lá tanta importância na peça quanto o fato de ser ela, A Tempestade, acima de tudo, como soem fazer a as boas tempestades, anúncio de melhores tempos!

 

Sim, isto porque ao perdoar seus inimigos, Próspero dá um voto de confiança ao bom entendimento entre os homens, e propõe que todos nós saibamos nos despir das personagens que muitas vezes assumimos e que nos iludem quanto à nossa verdadeira essência. O mago Duque de Milão vence em todas as frentes: recupera seu legítimo trono, casa com felicidade sua filha, transforma Calibã num monstrengo dos mais razoáveis e, finda sua tarefa de recolocar todas as coisas e a própria vida em ordem, conforme prometido fora, restitui finalmente a liberdade a Ariel.

 

Ato inédito, Próspero inventa ainda o primeiro momento em toda a história do teatro em que o ator transpõe a convencional barreira da “quarta parede” e interage com o público: deixando de lado o caduceu, isto é, abrindo mão de seu poder mágico, humanamente e por meio de sua fala poética, convida toda a plateia a dar as mãos como gesto de aprovação para que ele e toda a trupe sobre o palco possam se transportar diretamente a Milão, já que o navio que trouxera seus visitantes, como todos viram, naufragara no 1º ato. E é assim, por força da magia do público, que as cortinas descem sobre os personagens e quando se erguem ninguém mais está em cena. Voltaram para Milão, compreendem os entusiasmados espectadores, e por força da magia do bem!, sim, porque ser original é coisa própria desses gênios!

 

A Tempestade traduz, pois, um libelo a uma nova ordem entre os homens, onde possa prosperar o amor e o perdão; é também uma divertida apologia à liberdade, por meio dela Shakespeare anuncia o advento de uma Nova Consciência a ser alcançada pelo espírito humano, propõe que subjuguemos nossas forças brutas mais instintivas, que movem Calibãs e Ariéis dentro de nós, capazes de constelar realidades duras ou suaves, brutas ou sensíveis, trágicas ou pacíficas, terríveis ou amorosas. Afinal, todos somos dotados de um espírito indomado, com o qual precisamos nos entender até que possamos dar a ele, seguramente, sua completa liberdade, driblando o perigo de cairmos todos, na falta disso, na pobreza existencial; o segredo está em alimentar nosso Ariel com a esperança de uma consciência viva e mais iluminada.     

 

A Tempestade, marco de uma nova era dramatúrgica, propõe ao psiquismo coletivo que se cure o quanto antes de suas velhas mazelas, afinal, passada a tormenta, eis que é chegada a bonança de melhores dias. Mas ela marca também a despedida de nosso bardo dos palcos. Do alto de sua glória, famoso em toda a Inglaterra, Shakespeare nada mais encenaria até sua morte, que ocorreria dali a cinco anos. Não por acaso, fez desta sua última temporada sublime razão para proferir pela fala de Próspero toda a magia de seu derradeiro legado:

 

“Nós somos todos do estofo com que se fazem os sonhos,

E nossa vida é curto intervalo entre dois sonos”.

 

Ao que minha filha, hoje com 13, desde quando há anos me ouviu pela primeira vez ler isso pra ela, replicou:

 - Ou será que a vida é que é sono, pai? Um sono entre dois sonhos? (...)

 

Na imponderabilidade da questão de uma criança, na impossibilidade de uma resposta adulta que nos sirva, deito meu Tarô sobre a mesa, sonhando com realidades melhores, imaginando situações presentes e futuras... 

  
   

        

SHAKESPROSPEARE

 

- Encerro meus trabalhos como Próspero,

na ilha entre meus livros, com Miranda,

ad mysterium res unius perpetranda,

meu sonho é vivo e não morre de véspera.

 

- Mandei gênio Ariel soprar de banda

causando a Tempestade em todo o Bósforo,

que bem fez naufragar antigas víboras,

serpentes cujo mal meu bem abranda.

 

- Meu usurpado trono recupero,

patifes eu perdoo em minha ilha;

eu caso com Fernand a minha filha;

na cura das tragédias, venço Homero;

 

liberto Calibã, ser dos bisonhos...

- Somos feitos do estofo que urde os sonhos!

 

 

Paulo Urban,

Sonetinglês (3 quartetos + dístico):

manhã paulistana de 21 de julho, MMXI

no trânsito, a  caminho do consultório


créditos: Tarocchi di Shakespeare é criação do artista plástico italiano Luigi Scapim, edito da Dal Negro, Treviso
Arcano I - É Shakespeare quem aparece como Mago
Arcano zero - Traz o espírito Ariel a soprar a Tempestade
Valete de Paus - Traz Calibã, prestes a tentar deflorar Miranda

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