Encantamento & Nova Consciência, por Paulo Urban
Sunday, 7 March 2010
posted by Paulo

Bestiário Alquímico de Christiano Sotero é uma das obras poéticas que compõem sua extensa sonetoteca. Opus lucem, per crucem! Este seu bestiário traz um detalhado estudo sobre os monstros mitológicos, subclassificados todos eles em reinos e famílias, com ilustrações feitas a nanquim pelas mãos do próprio Christiano, exímio desenhista em pretebranco.  

 

O Bestiário explorado pelo mestre é um universinfinito que inclui faunos, centauros, minotauros e sereias, pégasos e unicórnios, lobisomens e vampiros, harpias, grifos e quimeras, basiliscos e manticores, o leviatã e o tifão, as esfinges e outros demônios, além do formidável kraken, polvo que engole embarcações em torvelinho. Traz ainda uma incrível descrição do Lagarto Gigante de Madagascar, com o relato de bordo de alguns marinheiros que já o avistaram de longe e, por isso, escaparam de sua furiosa cauda, determinante de inúmeros naufrágios.



 

Híbridas ou não, aladas, terrestres, marítimas ou pertencentes ao quartuniverso, as bestas fantásticas são infinitas em suas espécies. Em se tratando dos dragões, por exemplo, Christiano tem dezenas deles sonetografados em versos que nos dão nítida imagem destes bestarcanos voadores. O Bestiário de Sotero é resultado de décadas de pesquisa, fruto de incursões de meu mestre pelos mais estranhos mundos que ele já pôde ou costuma visitar. Toda vez que ele se serve de um cálice de Mandrágora misturada ao Helleborus niger, Christiano acessa os reinos interditos da grecialquímica, viaja pelas cordilheiras dos Incas, pelas planícies do Egito ou, ainda, sobrevoa as ilhas perdidas dos oceanos distantes, cujos mares se situam além de todos os espelhorizontes que nossos olhos já viram.  

 

Escolhi, entretanto, não a mais terrível, senão, talvez, a mais sensível das peças do Bestiário Alquímico para aqui representá-lo: trata-se de Raposáguia, soneto em decassílabos heróicos em que o mestre nos conta de como sofreu, certa feita, sua densinterna transformação, inspirada pela raposa, um de seus animais de poder. No soneto, ela, a raposa, se transforma primeiramente em lobo, e na pele e nos olhos deste, visita e reconhece suas salas mais profundas, para então sair das cavernas de si mesmo e retornar à mata de onde viera, de onde, após sofrer nova metamorfose, parte em vôo libertário, transformado agora o lobo em águia, a abraçar os céus de uma nova consciência luminosiluminada. 

 

RAPOSÁGUIA

 

Fez-se Loba a Raposa, um ser noturno,

e adentrou na caverna aos passos lentos

e espreitando em seus modos mais cinzentos

chegou ao seu profundo andar soturno.

 

Atravessou a noite em seus tormentos,

exorcizou falanges por seu turno

e em busca de seu par de asas diurno,

chorou ao pé da rocha os seus lamentos.

 

Transmutou assim chumbestanho em prata

e o couro transformou em penas francas;

das patas, duas garras, duas asas

 

E alçou-se da caverna além da mata;

Raposa em seus mistérios voa em brasas,

Rainha em liberdade de Águias Brancas!

 

C+S.:.

N.N.D.N.N

 

 

N.D. (Nota do discípulo): O vermelho da pele das raposas, o cinzento do lobescuro aqui descrito, bem como a águia branca a voar liberta, são cores que se reportam em alegoria às três grandes fases em que se desdobra todo o processo alquímico, implícito nas entrelinhas do sonetalquímico, a saber: o rubedo, o nigredo e o albedo.    

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Monday, 25 January 2010
posted by Paulo

                       
O sagrado texto
do Taoísmo Tao Te Ching, atribuído ao “Velho Sábio” Lao Tse (séc. VI a.C.) nos ensina em seu primeiro aforismo que “o Tao do qual se pode falar, não é o Tao”. Afinal, explica-nos Lao Tse, “os nomes que lhe podem ser dados nunca são seu verdadeiro nome”. O mesmo ensinamento aprendi em meu pessoal contato com o ancião poetalquimista Christiano Sotero, em relação à Alquimia; pois, aquela da qual se pode falar, nunca é a verdadeira Alquimia. Tal regra serve para as Tradições autênticas, assim como a Cabala, a medicina andina, o Yoga, e outras cosmovisões humanespirituais. O Tao também nos diz em seu quadragésimo segundo aforismo, considerando a interação entre as energias opostas e ao mesmo tempo complementares de Yin e Yang, que “o Um gera o dois, o dois gera o três, e o três se reparte em dez mil coisas”. “Dez mil coisas que são UM”, completou certa feita Christiano Sotero, meu mestre sonetista.

E o filósofo comparou ainda nossa efêmera condição humana à temporaneidade das eras, dos dias e das horas, que passam por nós e nos entretêm com suas mais incríveis maravilhas, quer para o deslumbramento da alma, quer para o enfeitiçamento do ego. E Christiano apontou também a similitude do aforismo chinês com a sempiterna mudança de Heráclito de Éfeso, e estabeleceu seu paralelanalógico à Roda de Samsara dos hindus. “Samsara é Nirvana; Nirvana é Samsara”, enunciou-me Sotero a grande máxima do Tantrismo, que prega a existência de uma realidade transcendente a ser descoberta na lide e nos dias, no mais simples cotidiano de nossos prazeres sensoriais. “Se em nosso estado ordinário, o prazer não passa de um substituto da iluminação, na Iluminação propriamente dita”, disse ele, “o prazer se revela como êxtase, mas nos é impossível falar dele!”

E Christiano voltou assim ao ponto alquímico de onde havíamos partido em nossa tertúlia, ponto este que fechava um ciclo sobre si mesmo, tal qual a serpente a morder a própria cauda, que se devora enquanto se vomita, que se consome enquanto se transforma, realizando plenamente o metafísico mistério de seu Oroboro. Christiano Sotero é autor de vários textos de alquimia, e compõe sonetalquímicos, centenas deles que, espero, sejam publicados um dia. Espelhando-me em suas águas, senti-me chamado a escrever algo do gênero.

                           


 

OROBORO

 

Descalço piso em mármore carrara,

despido bato à porta em teu umbral;

no alforje trago o azoto, trago o sal,

também o pergaminho que separa

 

o quadrado do círculo do Graal.

Dou-te a senha; penetro em tua clara

Catedral. Tomo a espada, empunho a vara,

exponho-te o mercúrio selenal.

 

Lágrima-orvalho é prisma desta aurora,

acende em nossas almas luz que chora;

deitemo-nos no altar do sacro ofício,

 

desçamos ao mais fundo precipício,

subamos juntos presos desde o início:

a Roda de Samsara nos namora !

 

Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo

 

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