Ombudsmãe - por Tais Vinha
Monday, 10 May 2010
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A primeira mãe, no seu Santo Dia, ganhou uma faca. Não era uma faca qualquer. Era uma faca artesanal, francesa. Meio faca, meio canivete. Excelente para uma réplica de Ramba chique. Olhou para o marido com cara de interrogação. Quem colecionava facas daquele tipo era ele. Depois de um tempo veio a explicação. Ele tinha se deparado com uma oferta incrível. Mas a loja só vendia o conjunto com 3 unidades. Ele arrumou alguém que comprasse 1 delas. A outra ficou com ele. E a terceira, ele deu pra ela no Dia das Mães. 

Ela respirou fundo e aguardou. No Dia dos Pais, comprou-lhe uma panela de pressão. A amiga alertou: 

- Ele vai te dar uma panelada na cabeça!

A resposta veio rápida:

- Ele que tente! Eu tenho uma faca!


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A segunda mãe já tinha ficado a ver navios no seu Dia. Esse ano, resolveu "lembrá-lo". 

- O dia das mães é daqui a 2 semanas...já escolheu meu presente?

- O dia das mães é daqui a 1 semana...o que vou ganhar?

Na véspera, foi mais sutil:

- O dia das mães é amanhã...tá lembrado de alguma coisa?

O marido resolve sair com o filho mais velho. Volta 4 horas depois com um tênis poderoso no pé e um sorrisinho maroto nos lábios.

No dia seguinte, a rainha do lar acorda e fica esperando a homenagem.

Os filhos se aproximam, a abraçam e o marido entrega o presente. Ela abre. Era um brinde do shopping center, trocado com a nota fiscal do tênis que ele comprou pra ele. 

A casa caiu. Ainda bem que o brinde não era uma faca.
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Tuesday, 27 April 2010
posted by Tais



Vamos observar dois gansos. Um deles foi criado solto no campo. Não é muito grande, mas é ágil, rápido e tem a saudável musculatura de uma ave que cresceu nadando na lagoa, perseguindo insetos e correndo de um lado para outro com seu bando.

O outro é uma ave bem maior e vistosa. Porém se olharmos de perto percebemos que é meio disforme, estufada, desajeitada. Foi criada na gaiola para virar foie gras. Desde pequeno, seus cuidadores enfiaram-lhe comida goela abaixo para que crescesse rapidamente e virasse um excelente patê. Nunca correu pelo terreiro. Nunca teve oportunidade de explorar um formigueiro. Nunca se divertiu em capturar um peixinho na lagoa. Sua vida sempre foi receber ração e digeri-la rapidamente para conseguir suportar a próxima refeição.

Fiz essa analogia, depois de ouvir um relato de uma amiga sobre dois jovens que conheceu recentemente. Eles estudam em uma dessas escolas que despejam conteúdo sobre crianças e adolescentes, como se as preparassem para serem moídas. Diariamente eles recebem uma quantidade imensa de informação, que os obriga a dedicar muitas horas do dia sobre apostilas e livros. Semanalmente, fazem provas. A vida deles é sobreviver a elas. Digerem a informação até passar pela prova e depois partem para a próxima carga de informação. Como fazem os gansos foie gras com a comida.

Se analisarmos, muito desse conhecimento virará gordura. Isto é, não servirá para muita coisa na vida adulta. Será, literalmente, deletado. E o que restará disso é um jovem que cresceu sem exercitar os músculos da reflexão, do pensamento, da descoberta. São jovens que foram treinados, desde a mais tenra idade, a receber ao invés de ir atrás. A decorar ao invés de refletir. A sobreviver ao aprendizado ao invés de vivê-lo intensa e alegremente.

Pobres meninos e meninas foie gras. Podem até, um dia, conseguir voar para o sul. Mas terão que se esforçar muito, muito, muito para escapar do moedor.

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Thursday, 15 April 2010
posted by Tais


Essa semana fiz algo inédito. Dei uma de mãe passional. E aviso: cuidado com elas!

Sou do tipo que, antes de sair fazendo justiça com as próprias mãos, tento ponderar, procurar o caminho da justiça, da coordenação, da professora, da imprensa, dos discursos inflamados, das cartas para o senado, para o conselho tutelar e o que for.

Mas dessa vez deu a louca.

Meu filho tem um colega que, repetidas vezes, o humilhou. Até agora, segui os manuais e deixei que ele resolvesse, acompanhando de longe, aconselhando e dando força para que ele fosse à luta.

Até que semana passada o tal colega se superou. Humilhou novamente meu garoto, fazendo-o de bobo. E a situação chegou a um ponto que ele não conseguiu mais resolver por conta própria. Era engolir o sapo (e esperar os próximos) ou alguém maior e mais forte dar um jeito.

Não tive dúvida. Peguei o telefone e liguei pra mãe dele. Nunca tinha feito isso. Fui educada, tinha que ver, mas contei a ela o que aconteceu e solicitei providências.

Obviamente, a mãe do outro menino exerceu o direito absoluto de ficar do lado do filho dela e de me achar ridícula. Mas resolveu a situação. De um modo que discordo, mas cada mãe é livre para resolver da forma que melhor lhe aprouver os B.O.s da prole.

Hora depois, com a cabeça fria, a ficha caiu e consegui refleti melhor sobre o acontecido. Tinha dado uma de galinha choca. Da mais pura estirpe. Do tipo que é apontada nas reuniões de pais e festinhas.

E me senti ótima!
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Wednesday, 31 March 2010
posted by Tais


Ontem surpreendi meu filho, de 11 anos, atravessando uma avenida de maneira bem imprudente. Foi uma coincidência daquelas que só Deus explica. Eu passava no local, quando vi alguém correndo na frente dos carros. Descobrir que aquele alguém era meu menino, foi como levar um soco no estômago. "Como assim?! Mas faz 11 anos que a gente te ensina a atravessar a rua com cuidado?! Você sabe como deve ser, você sabe do perigo!"

Passado o susto, veio o "pensativo" (ele nunca me abandona).

Fiquei me questionando se não havíamos dado autonomia a ele cedo demais. Mas atravessar a rua foi algo que nunca imaginei que ele fosse se arriscar. Ensinamos tanto. Recomendamos tanto. Demos exemplo. Somos do tipo que só atravessa na faixa, que espera os carros passarem, que olha para os dois lados. E eu conheço meu garoto. Ele nunca foi imprudente. Achei que, neste assunto, estávamos seguros.

Até ontem.

Hoje acho que nós, pais, nunca estaremos 100% seguros com relação às atitudes dos nossos filhos. Por mais que orientemos, por mais que recomendemos, por mais que eles dêem indícios de que estão prontos, nunca saberemos a hora certa de soltá-los, nem se eles, a partir dali, irão agir como esperamos. Se serão espertos na internet. Se praticarão sexo seguro. Se dirigirão com responsabilidade. Se lidarão de maneira saudável com a abundante oferta de drogas. Se vão se apaixonar por alguém bacana. Se estarão em boa companhia quanto tomarem o primeiro porre.

Decidi que não vou voltar atrás e cassar a autonomia dada ao meu filho. Mas cuidarei para que um monitor da escola o acompanhe na travessia desta avenida perigosa. Por quanto tempo isso será necessário? Não sei. E acho que nunca saberei.

Mas como dizia meu pai, na sabedoria de quem colocou 5 filhos no mundo, "o que não der pra ensinar, deixa que a vida ensina."

Ainda estou aprendendo. Agora é a vez do meu filho.
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