L' salut por Pablo Santurbano
Monday, 15 August 2011
posted by Pablo

A mastigação é tão antiga quanto andar para frente. Literalmente. Foram nossos ancestrais mamíferos que começaram a andar sem deslocar o tronco lateralmente, como o fazem répteis e anfíbios. Foram também os mamíferos os primeiros animais a apresentar uma mandíbula capaz de mastigar, preparando o alimento para a digestão, que passou a chegar ao sistema digestivo já triturado. Esta adaptação permitiu uma economia de energia na digestão do alimento, restando, desta forma, mais energia para outras atividades como a locomoção mais rápida e as interações sociais. Antes de mastigar, os ancestrais répteis dos mamíferos utilizavam a mandíbula apenas para agarrar a presa, sendo o estômago responsável pela preparação do alimento para a digestão (como acontece até hoje nos répteis modernos, como as serpentes que engolem animais inteiros, digeridos por dias).

Foi também através da economia de energia que o grande cérebro humano pôde surgir, entre os animais, o maior cérebro em relação ao corpo. O cozimento da carne, além de fornecer proteínas, reduziu o esforço mastigatório dos primeiros humanos que, consequentemente, passaram a economizar energia na mastigação e na digestão (tente digerir uma carne crua). Os humanos primitivos tiveram, então, energia de sobra para que o cérebro pudesse se desenvolver. Com uma menor necessidade de esforço para a mastigação, os músculos temporais responsáveis pelo movimento mandibular atrofiaram, permitindo um maior crescimento dos ossos do crânio, que, por sua vez, propiciou mais espaço na caixa craniana para um cérebro maior.

Com a tecnologia surgiram grandes aprimoramentos na alimentação, que suplantaram quase que por completo o trabalho da mandíbula. O uso de talheres, o consumo de grãos e farinhas, seguidos pela industrialização e os alimentos processados quase não exigem esforço dos músculos e da articulação da mandíbula, que passam a ter um comportamento mecânico inadequado. E, como diz um provérbio chinês, “aquilo que não mexe, vai doer”. Porém, não é necessariamente apenas a mandíbula que sofre. O que poucos sabem é que a mecânica mandibular está intimamente relacionada com a mecânica da cabeça, pescoço e braço. Provavelmente todos já nos flagramos uma vez ou outra apertando os dentes ao fazer força com as mãos ou com o braço.

Dores em ombros, braços, pescoço, algumas dores de cabeça, além da famosa dor no trapézio, podem ter origem em distúrbios da mecânica mandibular. Tudo isso acontece porque a mandíbula não é utilizada do modo que deveria, ou seja, mastigando alimentos crus ou mesmo rasgando a carne cozida sem a ajuda de talheres. Não é que deveríamos abrir mão dos talheres e passar a cortar os filés com os dentes a fim de evitar dores (apesar de que provavelmente isto ajudaria), mas seria interessante olharmos o ser humano de um ponto de vista mais natural.

A cultura e a tecnologia tendem a nos fazer pensar que estamos separados do mundo natural. Enquanto somos, na verdade, uma pequena parte de um processo evolutivo de bilhões de anos. Se a história da Terra fosse proporcionalmente distribuída no período de um dia, os humanos surgiriam nos últimos trinta segundos deste dia. Nossa sociedade adquiriu muito conhecimento, mas continua ignorante em relação às nossas origens, enfrentando as questões relacionadas à saúde e ao bem-estar de forma imediatista e reducionista. Nestes casos uma observação mais abrangente, que encare o contexto no qual evoluímos, pode iluminar grandes problemas do humano moderno.

View Entire Post
8 comments  
Tuesday, 21 June 2011
posted by Pablo

Sem o desenvolvimento tecnológico provavelmente nossa espécie não teria dominado o planeta.

E a alimentação foi provavelmente a maior força impulsionadora da tecnologia. Por volta de dois milhões de anos atrás foi a pedra lascada que permitiu aos nossos ancestrais, desprovidos de garras ou presas naturais, que se alimentassem de carne. Em seguida, o fogo permitiu menor gasto energético para mastigar e digerir esta carne. Grandes primatas gastam 48% de seu tempo acordados mastigando, enquanto nós gastamos menos de 10%. Tal economia de energia pôde, portanto, ser revertida ao cérebro, que pôde interagir com outros cérebros. Desta forma, com a boca liberada da mastigação e energia de sobra para pensar, nossos ancestrais puderam criar a linguagem e os símbolos. Após terem se alimentado, sentados no chão em torno da fogueira, puderam criar a cultura. A agricultura só veio bem depois, por volta de 12 mil anos atrás, e provocou um grande crescimento populacional, pois a escassez de alimentos pôde ser mais bem controlada.

Esta é provavelmente o início da história de como nós desenvolvemos a tecnologia, uma vez relativamente resolvido o problema dos alimentos. A partir de então muitas descobertas facilitaram a vida humana, visto que a tecnologia caminhou naturalmente em direção ao conforto, que embora tenha sido primordial à vida moderna, provocou consequências importantes em nossa saúde.

Talvez o hábito de sentar-se longe do chão tenha sido um dos maiores equívocos para o corpo humano. A cadeira, que a princípio era um objeto qualquer sem encosto, surgiu a fim de afastar o corpo do chão frio e sujo. Em seguida, com o aparecimento das sociedades humanas mais complexas, surgiram os assentos com encosto, em forma de trono (os primeiros registros são de cinco mil anos atrás no Egito), indicador de poder e status. Mas foi só no século XIX que a revolução industrial possibilitou à maioria dos cidadãos ocidentais que possuíssem cadeiras em casa. Assim, junto à diminuição do trabalho braçal a cadeira mostrou-se uma vilã da saúde.

Sentamos o dia inteiro e a todo o momento. Você provavelmente lê este texto sentado. Nós comemos, nos locomovemos, trabalhamos e até nos divertimos sentados. Por melhor que seja a cadeira esta jamais oferecerá ao corpo humano o que ele verdadeiramente necessita para ser saudável, sua capacidade mais marcante e inerente, o caminhar em pé.

É bastante difícil imaginar nossa sociedade funcionando sem cadeiras. Qual seria o número atual de cadeiras no mundo? Certamente maior que o número de pessoas, pelo menos se forem consideradas as sociedades ocidentalizadas, nas quais as cadeiras estão em todos os lugares. Em casa, no ambiente de trabalho, nos auditórios, restaurantes, praças, carros, ônibus e, de certa forma, até nos banheiros. Pois até para nossas necessidades fisiológicas adotamos a postura sentado. E é por isso que muitos sofrem com o intestino preso (além das questões alimentares), pois quando estamos sentados algumas alças intestinais não são sustentadas como deveriam, dificultando o trânsito intestinal.

Sentar-se de cócoras é uma postura muito mais natural. Nossos ancestrais, antes da cadeira, comiam, conversavam, faziam trabalhos manuais e até iam ao banheiro desta forma. Até o século XIX ainda era assim aqui no ocidente, porém, atualmente, muitos perdem a capacidade de se agachar assim que deixam a infância, enquanto no oriente, seja na civilização oriental, indiana ou islâmica, a maioria das pessoas conserva tal hábito.

Na via do desenvolvimento tecnológico entramos na contramão da saúde corporal. O ideal seria aproveitarmos os confortos tecnológicos, mas aplicando em nosso corpo doses de vida natural necessárias para o bem-estar. Ao nascermos nossos genes não reconhecem o desenvolvimento cultural e o ambiente artificial que vivemos. Nosso corpo espera que o mundo se apresente naturalmente, sem cadeiras, alimentos industrializados ou computadores.

View Entire Post
6 comments  
Tuesday, 7 June 2011
posted by Pablo

Existe um grande inimigo oculto da saúde. Um problema subestimado por muito tempo pelas autoridades competentes do mundo ocidentalizado, no qual seus cidadãos gozam de um conforto sem precedentes, mas pagam com seu bem-estar e com sua saúde.

 

Michele Obama, a primeira dama estadunidense, lidera desde 2010 a campanha Let’s move (numa tradução livre, “vamos nos mover”) que propõe formar uma geração de crianças mais saudáveis, evocando a importância de uma alimentação melhor e de uma vida fisicamente mais ativa.

 

Acontece que, bem embaixo de nossos narizes, desenvolve-se uma pandemia, da qual muitos daqueles que lêem este texto provavelmente já sofrem sem se dar conta. Esta é uma epidemia mundial de negligência ao corpo e redução da inteligência corporal, chamada de distonia cinestésica pelo proeminente fisioterapeuta, escritor e educador Tom Myers. Para Tom, nossa cultura não estimula o desenvolvimento da inteligência cinestésica, que é a capacidade de desenvolver a sensibilidade corporal e de elaborar e realizar movimentos.

 

Com um corpo ignorante desenvolvemos mais facilmente tensões musculares desnecessárias, dores musculoesqueléticas e degeneração precoce. Isso acontece porque vivemos num ambiente inapropriado física e culturalmente para as necessidades de nosso corpo. Por exemplo, embora passemos a maior parte de nossos dias sentados (enquanto nosso corpo foi moldado pela natureza para andar e permanecer em pé) não fomos educados por nossa família ou pelo sistema educacional a lidar corporalmente com esta circunstância.

 

Nossa habilidade de se movimentar vem sendo progressivamente excluída de nossa cultura. Na idade média, com a dominação cultural da igreja católica, a vivência corporal foi anulada em prol da espiritual. Em seguida, a revolução científica separou definitivamente o mundo físico do psicológico, um modelo que passou a estimular o desenvolvimento da racionalidade em detrimento do corpo. Por fim, a revolução industrial desencadeou um processo de redução do esforço físico no trabalho. O resultado disso tudo é que, hoje, se comparados aos nossos ancestrais recentes ou a outras culturas (como a indiana ou a oriental) apresentamos um compreendimento do corpo pobremente desenvolvido.

 

A cultura ocidental supervaloriza a lógica e a racionalidade ao passo que desvaloriza a vivência e as sensações. Nosso aprendizado é exclusivamente voltado para os sentidos visuais e auditivos. Há séculos aprisionamos nossas crianças atrás de uma cadeira na escola e as bombardeamos com as explicações escritas, desenhadas e faladas do professor. Desta forma não se utiliza as vivências corporais como ferramenta para o aprendizado.

 

O fato é que todos nós possuímos diferentes tipos de inteligência, em maior ou menor grau. Grandes músicos são dotados de maior nível de inteligência musical, enquanto grandes escritores possuem maior inteligência linguística. Contudo, em nossa sociedade, o desenvolvimento da inteligência corporal restringe-se basicamente às artes do espetáculo, aos esportes ou à reabilitação. A inteligência corporal deveria fazer parte de nosso cotidiano, mas não é incorporada ao desenvolvimento do cidadão.

 

O corpo humano é desenhado para estar em movimento. Sofreríamos menos de desconfortos físicos se o utilizássemos da forma para o qual a natureza o moldou. Uma sociedade intelectualizada corporalmente seria uma sociedade com um maior período de autonomia, já que a alta expectativa de vida nos conduz para idades cada vez mais avançadas. Teríamos também uma menor propensão às dores e disfunções musculoesqueléticas, mas principalmente, teríamos indivíduos mais conscientes da amplidão da vida por meio da vivência do próprio corpo.

View Entire Post
2 comments  
Tuesday, 24 May 2011
posted by Pablo

A força da natureza atualmente é a humanidade. Nossas cidades, plantações, indústrias e represas mudaram a paisagem da Terra. Antropoceno ou “era humana” é como o prêmio Nobel Paul Crutzen define este período que vivemos. Segundo Paul as grandes mudanças no planeta no último século foram provocadas exclusivamente pelos humanos. Desde o fim da era do gelo que o planeta não passava por mudanças tão significativas. Animais e plantas estão sofrendo a maior extinção dos últimos 67 milhões de anos, desde que um meteoro varreu os dinossauros da face da Terra.


Isto tudo acontece pelo fato de que há dois milhões de anos os humanos burlaram a evolução ao utilizar a cultura e a tecnologia para sobreviver. Eis um exemplo, ao invés de desenvolver biologicamente, por meio da evolução, dentes e garras afiadas para caçar o homem inventou a pedra lascada (uma ferramenta que simulava a garra) e, assim, pode caçar, se alimentar de carne e, consequentemente, ter mais chances de sobreviver. Não possuímos grande força física, nossa força física é a cultura, sem ela não existiria humanidade ou progresso humano, desde antes da revolução agrícola até a revolução da informação.


Nosso progresso cultural foi tão grande que nosso corpo não conseguiu acompanhar. Há uma discrepância muito grande entre aquilo para o que a natureza preparou nosso corpo para fazer e o que nosso corpo faz. Para entender este “desentendimento” é preciso analisar toda nossa evolução, considerando a espécie humana resultado de um imenso processo evolutivo de 3,5 bilhões de anos, no qual as espécies sobreviviam por possuir características favoráveis à sobrevivência. Em nosso caso, andar sobre dois membros no ambiente árido no qual evoluímos foi uma grande vantagem, pois permitiu uma locomoção eficiente, além da visualização de predadores e caças.


Somos hoje sete bilhões de humanos, pouco mais da metade vivendo em ambientes urbanos. Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor todos os adultos sofreram, sofrem ou sofrerão dor musculoesquelética. Como fisioterapeuta entendo que a urbanização é a grande causa desse sofrimento. Nosso corpo evoluiu num ambiente absolutamente natural, contudo a cultura e a tecnologia supriram a necessidade do corpo evoluir, o que fez a seleção natural atuar com menos força na biomecânica do corpo.


Ano passado, o bioantropólogo Daniel Lieberman publicou na principal revista científica do mundo um estudo que balançou os alicerces da prática de atividade física. Ele comprovou que indivíduos que treinavam corrida descalços absorviam melhor o impacto do que aqueles que treinavam de tênis. Tênis que supostamente deveriam ajudar a amortecer os impactos. Em outras palavras, o tênis, um objeto tecnológico desenvolvido para melhorar a saúde de quem o utilizar, provavelmente, foi um dos grandes responsáveis por muitas das lesões sofridas por esportistas amadores nos últimos 40 anos.


O fato é que nossa biomecânica não foi preparada para cadeiras, calçados ou carros. A natureza não preparou nosso corpo para tal. Para compreender verdadeiramente os problemas do humano moderno, precisamos entender em quais circunstâncias nosso corpo se desenvolveu e em quais o forçamos a viver. Os fatores culturais interferem de modo cruel em nossa saúde, porém são negligenciados pelo modelo de saúde vigente. Dores e desconfortos devem ser observados de um ponto de vista mais abrangente, associando as ciências biológicas às humanas. O ser humano é biológico, mas, ao mesmo tempo, cultural.

View Entire Post
12 comments  
1  2   > last