No Divã da Tia Van


O título ficou vago, eu sei. Do que trata o texto? Normalmente eu escrevo e, só depois, escolho um título. Lembro-me dos tempos da faculdade de jornalismo: em sei-lá-que-semestre, a turma teve que produzir uma revista. Todos tinham que ler as reportagens de todos e opinar sobre os títulos. Essa parte do título nos tomou mais tempo e energia do que a própria produção dos textos. Os “pais” das histórias não aceitavam, sem relutar, os nomes que os colegas queriam dar aos seus “filhos”. Certa vez nomeei um escrito com o título: “O pior do texto é escolher o título”.

Mas não é sobre a função do nome que desejo escrever. Assassinando aquela regra básica do jornalismo, de que o lead deve chamar o leitor para o principal, começo escrevendo sobre o que não vou me referir. A psicanálise sobrepõe-se ao jornalismo, nesse momento – para mim, Vanessa Souza, fique claro.

Participei dias atrás de um colóquio internacional de psicanálise. Na verdade, escrita e psicanálise. Foram três dias de imersão do tema, umas 10 horas por dia, além das discussões para além do auditório. Voltando para a vida aqui fora, passei mais quatro dias a escrever todas as minhas anotações, frases, referências, pinçando os temas, buscando o que ficou vago, mergulhando naquilo que mais marcou. Por isso, o meu dossiê pessoal sobre essa vivência, que resultou em 37 páginas digitadas em fonte 12 – e uma possível tendinite – será esmiuçado nesse espaço.

Uma das falas do colóquio que mais me instigou foi a de Flávia Trocoli, da Unicamp, pós-doutora em lingüística e psicanalista. O tema apresentado por ela foi “O legado de nossa miséria: contingência e transmissão em Machado de Assis”.

Só agora, voltarei ao título. “Qualquer direção que ele pudesse tomar, jamais a encontraria”, palavras de Flávia. A frase é sobre Bentinho e Capitu. Nesse momento, lembrei-me de um amigo psicólogo, que me contou um dia, por e-mail, em tom confessional, que ficou, e é, até hoje, apaixonado pela personagem Capitu. Na ocasião, não me ative aos seus motivos. Agora, compreendo melhor…

Vale deixar claro que eu não sou especialista lato sensu, nem stricto sensu, em Machado de Assis ou literatura, eu o li na infância/adolescência, e meus olhares sobre as coisas, palavras e pessoas mudaram muito desde então.

Trocoli coloca Capitu como a indecifrável e não toda dita. Bentinho deseja dizer-lhe muitas coisas, mas faltava-lhe a língua. Rememorando o que não disse, a falta de palavras se duplica, e o atormenta. “A impossibilidade de dizer é proporcional à aniquilação”, afirma a psicanalista.

E o que são os olhos de ressaca de Capitu? A tormenta, o que atormenta Bentinho, que é incapaz de dizer o que o estonteava e tonteava. Até a queda. “Se me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo” (Dom Casmurro).

Em Dom Casmurro dá-se o ato da traição quando o outro faz falta e abandona. E essa falta, que é só nossa, traz ares de ressaca. E o desencontro. Pois qualquer direção que ele pudesse tomar, jamais a encontraria.
 
OBS: este escrito foi publicado antes no Amálgama. Ele esta aqui pois ainda o considero atual - e relevante.

Vanessa Souza Moraes

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Sunday, 24 January 2010
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O exílio do imaginário é um dos capítulos do livro Fragmentos de um Discurso Amoroso (1977), do semiólogo, filósofo e sociólogo Roland Barthes. Esse exílio ao qual Barthes se refere é a renúncia do sujeito, em relação ao estado amoroso. As linhas abaixo são uma breve reflexão, sob um olhar psicanalítico e literário, deste fragmento do fragmento.

Ao renunciar do estado amoroso, o sujeito se vê exilado do seu imaginário. O que Barthes quis dizer com isto?

Mais adiante, Barthes define o imaginário como "energia delirante", ao se referir a Werther e seu imaginário. Delirante ao ponto de Werther, personagem de Goethe, ter se suicidado por amor - e ter suscitado vários suicídios entre seus leitores. Barthes afirma que o delírio amoroso pode ser domesticado. Sua perda, não.

O luto da imagem amorosa é o mais doloroso. Caio Fernando Abreu, na crônica Extremos da Paixão, explica bem este luto imaginário: “O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a) - mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER”.

O exílio do imaginário traz ao sujeito uma economia psíquica. Afinal, a energia libidinal não será mais investida totalmente no outro. Mas há um resto, resto do outro, que insiste e persiste no sujeito. O que fazer com esse quantum que agora resta?

Freud, no texto Metapsicologia, afirma que o objeto pode não estar verdadeiramente morto, mas “apenas perdido em tanto quanto objeto de amor”. Novamente, há um resto.

Barthes aponta a possibilidade de que talvez, quem sabe, com sorte, o sacrifício do Imaginário dê acesso ao verdadeiro amor. Mas como sustentar o amor, com a queda do imaginário? As fantasias caem e o sujeito se presentifica, assim, deveria ser – que bom que fosse!

O sujeito tenta se desvencilhar do imaginário amoroso, com muito custo, e sem sucesso. “O imaginário queima por baixo”, diz Barthes. Tentativa falha, o desejo amoroso ainda arde – angústia, discursos, ciúmes – imaginário fênix, é morto e (re)torna das cinzas. Vulcão extinto, sempre pronto a entrar em erupção.


Vanessa Souza Moraes

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