No Divã da Tia Van
Sunday, 24 January 2010
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O exílio do imaginário é um dos capítulos do livro Fragmentos de um Discurso Amoroso (1977), do semiólogo, filósofo e sociólogo Roland Barthes. Esse exílio ao qual Barthes se refere é a renúncia do sujeito, em relação ao estado amoroso. As linhas abaixo são uma breve reflexão, sob um olhar psicanalítico e literário, deste fragmento do fragmento.

Ao renunciar do estado amoroso, o sujeito se vê exilado do seu imaginário. O que Barthes quis dizer com isto?

Mais adiante, Barthes define o imaginário como "energia delirante", ao se referir a Werther e seu imaginário. Delirante ao ponto de Werther, personagem de Goethe, ter se suicidado por amor - e ter suscitado vários suicídios entre seus leitores. Barthes afirma que o delírio amoroso pode ser domesticado. Sua perda, não.

O luto da imagem amorosa é o mais doloroso. Caio Fernando Abreu, na crônica Extremos da Paixão, explica bem este luto imaginário: “O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a) - mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER”.

O exílio do imaginário traz ao sujeito uma economia psíquica. Afinal, a energia libidinal não será mais investida totalmente no outro. Mas há um resto, resto do outro, que insiste e persiste no sujeito. O que fazer com esse quantum que agora resta?

Freud, no texto Metapsicologia, afirma que o objeto pode não estar verdadeiramente morto, mas “apenas perdido em tanto quanto objeto de amor”. Novamente, há um resto.

Barthes aponta a possibilidade de que talvez, quem sabe, com sorte, o sacrifício do Imaginário dê acesso ao verdadeiro amor. Mas como sustentar o amor, com a queda do imaginário? As fantasias caem e o sujeito se presentifica, assim, deveria ser – que bom que fosse!

O sujeito tenta se desvencilhar do imaginário amoroso, com muito custo, e sem sucesso. “O imaginário queima por baixo”, diz Barthes. Tentativa falha, o desejo amoroso ainda arde – angústia, discursos, ciúmes – imaginário fênix, é morto e (re)torna das cinzas. Vulcão extinto, sempre pronto a entrar em erupção.


Vanessa Souza Moraes

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18 comments


Visitor
Vanessa, eu não sei proque vc explicou, não percebeu que o Francisco José já sabia tudo, apenas não tinha certeza?

Agora, falando sério:

Esse assunto, não fosse trágico, seria apaixonante, sem querer (parafrasear o Jô Soares, já parafraseando) fazer trocadilho já fazendo.
2 years ago
Este é o ideal, Chico. Nem sempre alcançado...
2 years ago
chico abelha
Vanessa, agora deu pra entender. Eu achei que era isso mesmo, mas não tinha certeza.

O mais forte neste seu post, o que falou pra mim, foi que, com o sacrifício do imaginário podemos, talvez, quem sabe, com sorte, ter acesso ao verdadeiro amor. Eu acredito nisso...
2 years ago
"renunciar do estado amoroso": dar basta nesta delícia que é estar apaixonado.

"exilado do seu imaginário": Neste caso, de suas mais profundas fantasias. Usando o imaginário do Lacan - que consiste em imaginário, simbólico e real, dimensões do espaço habito pelos seres falantes - ele é o lugar das identificações e relações duais. Ficou mais simples?
2 years ago
chico abelha
Isto, Vanessa.

Ao renunciar do estado amoroso, o sujeito se vê exilado do seu imaginário.

O que é "renunciar do estado amoroso" e se ver "exilado do seu imaginário"?
2 years ago
Chico,
Acaso me perguntares, mais precisamente, em que parte "boiaste", eu posso ser mais clara na resposta ;)
2 years ago
chico abelha
Vanessa, sou um curioso de todas as áreas. Nesse texto, contudo, eu boiei solenemente! Me ajude e às pessoas comuns que querem saber do que se trata!
2 years ago
Visitor
Sou suspeito em Falar de Barthes...Todavia acho importante salientar que o ensaísta do cotidiano autor entre outros de Como viver junto, O neutro, Crítica e verdade, etc...contínua a seduzir de forma erudita e ao mesmo tempo esteta novos leitores através de seus textos. Como bem escreveu Susan Sontag "Barthes fazia literatura no próprio ato de falar de literatura" ou nas próprias palavras do próprio autor "O real não é reprentável, e é porque os homens querem constantemente representá-lo por palavras que há uma história da literatura".
Obs: Confesso que o texto que vc usou não conheço a ponta de comentar, neste sentido acabei indo para área de minha atuação (Literatura),desde já parabéns pelo espaço.
2 years ago
Visitor
Muito bom o texto, acredito que o amor perdido ainda seja amor, mas ele assume outra forma quanto a esperança de viver esse amor, se ela for reduzida a pó e cinza, ainda se pode aproveitar os resíduos desses sonhos mortos de adubo para a eternidade.
2 years ago
PS: para os que comentarem aqui e não são cadastrados no YuBliss, por favor deixem nome e endereço do blog - para que eu possa responder depois. Obrigada!
2 years ago
Obrigada, Ciça!

O blog já existia, mas eu comecei a participar a partir de hoje.

Hahahaha, não vamos espalhar estes seus pernsamentos subversivos para nossos analistas lacanianos - que a gente apanha de cinto.
2 years ago
Visitor
Ok, já aprendi... ;)
2 years ago
Visitor
Fui eu (Ciça) quem escreveu o comentário abaixo... Como faço para me "cadastrar"? rs
2 years ago
Visitor
Uma verdadeira aula sobre aquilo que queima, dói, mas também habilita. Amar de verdade não é para os escrupulosos, muito menos para os que temem a queda. Tendo a ousadia de discordar de Barthes, creio que o delírio amoroso não pode ser domesticado, pois sua natureza é selvagem. O luto deste nem se fala. É a fratura exposta do desejo, medo que não se esvai, simbiose desfeita à força... A despeito dessa violência, acho difícil encontrar alguém que abrisse mão desse estar-com, dessa aliança quase psicótica com o imaginário, a fim de se preservar. Mais vale uma morte à la Werther que uma vida sem entrega.

É um novo blog? Começaste bem.
2 years ago
Visitor
Revelação
Composição: Clodô e Clésio

Um dia vestido
De saudade viva
Faz ressuscitar
Casas mal vividas
Camas repartidas
Faz se revelar

Quando a gente tenta
De toda maneira
Dele se guardar
Sentimento ilhado
Morto, amordaçado
Volta a incomodar
2 years ago
Obrigada, Pedro!

Acho que cada fio de cabelo branco, cada ruga, isto que chamas de colcha de retalhos, tem mesmo relação com esse tipo de queda. Não é bom, mas cair também é importante. Perder-se também é caminho, disse Clarice Lispector.
2 years ago
Pedro
A propósito do contexto, se for assim, então eu sou uma colcha de retalhos de sensações e emoções. E as perdas e danos foram tantos que, contabilizados em cada ruga, em cada fio de cabelo branco, em cada queda dele e em cada vez que minha expressão facial decaia, me fizeram desvanecer tão rapidamente, como ao vampiro da lenda, que em minutos, de um exemplar completo de criatura, vira pó ao sol da fresta que recebe o dia no páteo do castelo. A luz da razão e da realidade destruiu completamente não só o meu estado delirantemente amoroso, mas a mim mesmo. É visível.
2 years ago
Pedro
Inaugurando com chave de ouro sua participação como blogueira, Vanessa. Parabéns e vida longa a essa contribuição para que ao menos, possamos, através da leitura de sua considerações, compreender, senão o porquê, ao menos onde erramos na nossa vida. Muito bom. Viva Lacan!
2 years ago

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