Home > No Divã da Tia Van > Digressões sobre o exílio do imaginário

O exílio do imaginário é um dos capítulos do livro Fragmentos de um Discurso Amoroso (1977), do semiólogo, filósofo e sociólogo Roland Barthes. Esse exílio ao qual Barthes se refere é a renúncia do sujeito, em relação ao estado amoroso. As linhas abaixo são uma breve reflexão, sob um olhar psicanalítico e literário, deste fragmento do fragmento.
Ao renunciar do estado amoroso, o sujeito se vê exilado do seu imaginário. O que Barthes quis dizer com isto?
Mais adiante, Barthes define o imaginário como "energia delirante", ao se referir a Werther e seu imaginário. Delirante ao ponto de Werther, personagem de Goethe, ter se suicidado por amor - e ter suscitado vários suicídios entre seus leitores. Barthes afirma que o delírio amoroso pode ser domesticado. Sua perda, não.
O luto da imagem amorosa é o mais doloroso. Caio Fernando Abreu, na crônica Extremos da Paixão, explica bem este luto imaginário: “O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a) - mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER”.
O exílio do imaginário traz ao sujeito uma economia psíquica. Afinal, a energia libidinal não será mais investida totalmente no outro. Mas há um resto, resto do outro, que insiste e persiste no sujeito. O que fazer com esse quantum que agora resta?
Freud, no texto Metapsicologia, afirma que o objeto pode não estar verdadeiramente morto, mas “apenas perdido em tanto quanto objeto de amor”. Novamente, há um resto.
Barthes aponta a possibilidade de que talvez, quem sabe, com sorte, o sacrifício do Imaginário dê acesso ao verdadeiro amor. Mas como sustentar o amor, com a queda do imaginário? As fantasias caem e o sujeito se presentifica, assim, deveria ser – que bom que fosse!
O sujeito tenta se desvencilhar do imaginário amoroso, com muito custo, e sem sucesso. “O imaginário queima por baixo”, diz Barthes. Tentativa falha, o desejo amoroso ainda arde – angústia, discursos, ciúmes – imaginário fênix, é morto e (re)torna das cinzas. Vulcão extinto, sempre pronto a entrar em erupção.
Vanessa Souza Moraes
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18 comments
Agora, falando sério:
Esse assunto, não fosse trágico, seria apaixonante, sem querer (parafrasear o Jô Soares, já parafraseando) fazer trocadilho já fazendo.
O mais forte neste seu post, o que falou pra mim, foi que, com o sacrifício do imaginário podemos, talvez, quem sabe, com sorte, ter acesso ao verdadeiro amor. Eu acredito nisso...
"exilado do seu imaginário": Neste caso, de suas mais profundas fantasias. Usando o imaginário do Lacan - que consiste em imaginário, simbólico e real, dimensões do espaço habito pelos seres falantes - ele é o lugar das identificações e relações duais. Ficou mais simples?
Ao renunciar do estado amoroso, o sujeito se vê exilado do seu imaginário.
O que é "renunciar do estado amoroso" e se ver "exilado do seu imaginário"?
Acaso me perguntares, mais precisamente, em que parte "boiaste", eu posso ser mais clara na resposta ;)
Obs: Confesso que o texto que vc usou não conheço a ponta de comentar, neste sentido acabei indo para área de minha atuação (Literatura),desde já parabéns pelo espaço.
O blog já existia, mas eu comecei a participar a partir de hoje.
Hahahaha, não vamos espalhar estes seus pernsamentos subversivos para nossos analistas lacanianos - que a gente apanha de cinto.
É um novo blog? Começaste bem.
Composição: Clodô e Clésio
Um dia vestido
De saudade viva
Faz ressuscitar
Casas mal vividas
Camas repartidas
Faz se revelar
Quando a gente tenta
De toda maneira
Dele se guardar
Sentimento ilhado
Morto, amordaçado
Volta a incomodar
Acho que cada fio de cabelo branco, cada ruga, isto que chamas de colcha de retalhos, tem mesmo relação com esse tipo de queda. Não é bom, mas cair também é importante. Perder-se também é caminho, disse Clarice Lispector.