O Caixeiro Viajante - por Tony A.
Tuesday, 25 May 2010
posted by Tony



Eu nunca fui um estudante exemplar. Não era disciplinado muito menos estudioso. Meu objetivo sempre foi passar de ano, e só. Estudava sempre na última hora para a prova e o mínimo necessário.

 

Frequentei a mesma escola estadual do pré-primário até o colegial (não sei como isto é chamado hoje em dia..., 1º e 2º graus ?). Já era figurinha conhecida entre os professores... Alguns me conheciam desde meus 8 anos... Inclusive Dna. Olímpia, a professora de geografia, que por coincidência (azar para mim na época) foi minha única professora desta matéria, que eu achava um saco!

 

Dna. Olímpia para mim sempre foi uma velha... Usava uns óculos de aros grossos na ponta do nariz, olhos sempre bem pintados, cabelos invariavelmente armados e só depois de anos notei que era baixinha...

 

Certo dia, se não me falha a memória, no terceiro/quarto ano do ginasial, eu com aproximadamente 16 anos, estava tagarelando com a colega do lado em sua aula... Ela escrevendo na lousa, de costas, fala com voz firme:

 

-Almeida! Pare de conversar! Só estou ouvindo a sua voz!

 

Parei por uns instantes, mas como eu não tinha terminado o que eu estava falando, continuei...

 

Dna. Olímpia ainda de costas, um pouco mais irritada:

 

-Almeida! Isto vai cair na prova!  Pare de conversar!!

 

Bocudo que eu era, resmunguei baixo:

 

-É só ler esta merda de livro. Para quê ter aula disto?

 

Dna. Olímpia, pára de escrever, se vira e esbraveja:

 

-Eu ouví o que o você disse! Você está suspenso de minhas aulas até as provas deste bimestre!! Vamos ver se o senhor se vira sozinho...

 

Eu era bocudo, mas teimoso e orgulhoso também. E eu não podia repetir de ano de jeito nenhum!!! A partir daquele dia, em todas as aulas de geografia, Dna. Olímpia esperava eu sair da sala para entrar... Seguia-me com os olhos até a biblioteca que ficava no mesmo corredor.

 

Estudei como nunca tinha estudado em minha vida. Pegava a matéria com meus colegas, decorava o livro da aula e pesquisava em outros livros da biblioteca... A bibliotecária me olhava espantada!! O quê deu no Almeida???

 

Eu estava disposto a vencer o desafio, provar para aquela velha que ela era totalmente inútil!! O que uma motivação faz!!

 

Fiz a prova. Dna. Olímpia, como de costume, chamou um a um para entregar a prova corrigida. Ao chamar meu nome, olhou por cima dos óculos, e disse olhando bem para os meus olhos:

 

-Parabéns Almeida. Viu? Não doeu, não é?

 

Olhei minha nota, 9,5. Dei um sorriso maroto e agradeci.

 

Terminei o colegial. Escolhemos Dna. Olímpia para ser nossa paraninfa. Ela abraçou todos na festa da formatura, inclusive eu!!

 

Passaram 6 anos... Eu no cursinho para  o vestibular conheci uma garota americana que para poder concluir o colegial no Brasil tinha que fazer uma prova de compatibilidade em geografia!! E me perguntou se eu conhecia alguma professora que pudesse ajudá-la.

Imediatamente lembrei da Dna. Olímpia! Fomos à minha antiga escola e ela continuava lecionando lá... Esperamos ela terminar sua aula e discretamente me aproximo de sua mesa...

 

-Oi Dna. Olímpia... Lembra de mim? Almeida?

 

Sem levantar o rosto, ela faz aquele mesmo gesto... Olha por cima dos óculos e fala baixinho:

 

-Claro Almeida, como você está? Veio me visitar?

 

Eu expliquei o caso da minha amiga e ela imediatamente se prontificou ajudar. Tirou os óculos vagarosamente, o colocou sobre a mesa, e disse sorrindo:

 

-Graças a Deus vivi até este dia para rir desta ironia, não é Almeida?

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Friday, 7 May 2010
posted by Tony


Meu pai era filho único, portanto minha avó morou conosco a vida toda e claro, ajudou a educar a mim e meus irmãos, do jeito dela...

 

Ela nasceu na Sicilia, veio para o Brasil naquela leva de imigrantes italianos para serem colonos nas fazendas de café no interior de São Paulo. Não sabia escrever em italiano e muito menos em português, aliás, siciliano não se escreve, é um dialeto de pronúncia bem difícil... Criou meu pai sozinha, costurando fardas para o quartel do exército na R.São Caetano.

 

Temperamento forte, decidida, valente! Para ela não tinha tempo feio, encarava qualquer problema de frente. E sempre atenta a tudo a sua volta, principalmente quanto às minhas atitudes quando criança. Confesso, eu era o seu neto preferido...

 

Para cada situação ela tinha uma metáfora,uma história... Com aquele sotaque carregado, sempre me dizia: “la frutta chi ti piaci, Io como al grumo!“ (da fruta que você gosta eu como o caroço)  Entre muitas outras que eu mal entendia a frase por completo, mas eu captava a mensagem!

 

Certo dia, eu já com meus 10 anos, fazendo a lição de casa na mesa da sala e ela fazendo seu crochê no sofá só me observando por cima dos óculos de vez em quando... Jogo o lápis, encosto na cadeira e reclamo! Que saco! Chega! Depois eu termino...

 

Ela, lança um olhar ameaçador e murmura: “Non andarire dritto al cuore di alcachooofra!”

 

Eu na realidade só entendi “alcachofra”... E eu adorava e adoro alcachofra, é uma flor comestível de sabor único. Tem todo um ritual para degustá-la... Começa raspando com os dentes a extremidade de cada folha mergulhada no azeite com um pãozinho fresco para acompanhar... As folhas vão diminuindo de tamanho a medida que chegamos ao miolo... A fase final é o descarte de um tipo de uma pelugem (muito chato isso) e finalmente o miolo da alcachofra! Tenro, sabor marcante, fácil de comer, o principal!!

 

Pelo sim pelo não, terminei a lição... Mas o que minha avó disse afinal de contas?

À noite, peço a ela que repita aquela frase da “alcachofra” para o meu pai, ela sorri e

diz: “Non andarire dritto al cuore di alcachofra!”

 

Meu pai também sorri e diz para mim:

- O que você aprontou?

- Nada! Eu só estava fazendo a lição de casa! (omiti o “que saco” e o “chega”...)

 

- O que a sua avó quis dizer é que não se pode ir direto ao miolo da alcachofra, temos que raspar cada folhinha primeiro... “Não vá direto ao coração da alcachofra!” Ou seja, você vai ter o trabalho de tirar uma a uma e aproveitar o pouco que cada uma tem até chegar o momento de poder comer o miolo, que é a parte mais gostosa, fácil...

 

E pergunta já com tom de advertência:

- Por acaso você reclamou de ter que fazer a lição?

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