É feito de palavra tudo o que não é carneE também a carne é palavra
Carne, palavra densa moldada ao toque
E o toque é palavra
A parte que me toca é a palavra no moedor de carne que dá a palavra que toca ao outro
E o outro é ele mesmo palavra
Este poema foi publicado na revista Filosofia, Ciência & Vida número 47, de junho de 2010, no Encarte do Professor, acompanhando matéria sobre filosofia da linguagem, de Ofélia Marcondes, reproduzido parcialmente abaixo:
“Foi legau falah kom vc...... t+...... a genti c ve por aih......”. Entendeu? Vou tentar de novo: “foi LegaU fAlaH kum VUxXxE...... T+...... A gENti SI Ve POR AiH......”. Piorou? Nem esquente a cabeça: eu também tenho preguiça de ler internetês e tá cheio de gente que não consegue ler Guimarães Rosa e José de Alencar.
A comparação parece uma heresia? Talvez esse diálogo dê umas pistas sobre o que está acontecendo com a língua materna:
Pesquisador: Você usa o internetês na escola?
Aluno: Não, só na internet. Nos outros lugares, a gente usa o português arcaico.
O diálogo é inventado, mas a expressão “português arcaico”, usada por um jovem estudante para se referir à norma culta, apareceu em um trabalho acadêmico sobre o internetês. É engraçado e faz a gente se sentir velha, mas tem sentido: a língua muda o tempo todo e, no espaço de uma geração ou no curto tempo de duração de uma gíria da moda, nossa forma de falar e escrever já está ficando “antiga”.
Ainda assim, todas as vezes em que se deparam com mudanças, os indignados do idioma levantam os dedos e as vozes, anunciando a “morte da língua portuguesa”. Ultimamente, o internetês têm sido a causa apontada para a degradação do português. E não é nada disso.
Nos meios de interação on line, as pessoas tendem a simular a língua falada na escrita. Um dos estudos mais interessante que li a respeito mostra que entre a língua escrita e a falada não há uma linha, mas um plano, um continuum, em que optamos por mais ou menos formalidade e por diferentes estratégias de comunicação. Trocando em miúdos: a gente sabe que há um jeito adequado para escrever um editorial de jornal ou um bilhete para a mãe, proferir um palestra ou deixar um recado na correio de voz do namorado. Podemos dizer que o bilhete para a mãe, apesar de ser escrito, tem mais “parentesco” com a mensagem na secretária eletrônica do namorado do que com o editorial do jornal.
Nesse continuum, a língua usada na interação pela net é algo como a língua falada por escrito. E mais: ela varia. O internetês é uma das formas. Há também o miguxês, o geek chic, o português coloquial e muitas outras. Basta notar que não se escreve do mesmo jeito no chat, no msn, nos blogs, no Orkut, nos sites e no Twitter, por exemplo.
Internetês é simplificação?
Uma das críticas mais recorrentes é a de que essas variações menos “cultas” seriam a prova da falência educacional e estariam sendo usadas por jovens que ficaram de fora da cultura letrada. Não é o que indicam as pesquisas: o internetês é usado também por alunos das melhores escolas e por universitários de cursos de prestígio. Como se pode afirmar que um tipo de escrita, num meio de comunicação dominado pela escrita, seria a prova do fim da cultura letrada?
Outro ponto frequentemente levantado é o da simplificação da língua praticada pelo internetês e o miguxês. Novamente aí erram os críticos. De fato, há abreviações e siglas, mas também o oposto, formas de grafar as palavras, expressões e símbolos mais complexos do que a norma padrão. Por exemplo, a nasalização ou a ênfase de certas síladas, como em “bejaum” e “naum”, repetição de maiúsculas para representar alteração de voz, o uso da pontuação como ênfase, gestual ou entonação, a inclusão de emoticons e personagens – e aqui cabe uma observação: alguns teóricos consideram esses símbolos, dentro do contexto em que são usados, como palavras. O que se nota é que há regras estabelecidas seguidas pelos usuários e não, como se crítica, um “vale-tudo”. Isso se chama “gramática”.
Pode o internetês afetar a língua portuguesa? É muito cedo para saber. O que já se levantou em estudos é que o vocabulário possui apenas cerca de 20% de palavras grafadas de modo diferente da língua padrão, o que pode indicar que não é uma variação tão “danosa” assim. Além disso, vale lembrar que nenhum jovem aprende o idioma através da internet, nenhum se alfabetiza pela internet e nenhum interage exclusivamente pela internet.
Desplugado, o jovem certamente não escreverá do mesmo jeito em uma prova escolar e, se o fizer, saberá que a nota não será lá grande coisa. Da mesma forma com que todos sabemos, inclusive os jovens, que se usa terno em cerimônia de casamento e beca na formatura. Mesmo que seja com piercing e gravata estampada com Ben10.
O problema desse tipo de crítica é tomar como pressuposto que exista uma língua “pura”, “correta” e imutável. Não existe. Ou ainda há alguém por aí que chama os outros de “Vossa Mercê”?
Se nenhum argumento em defesa do internetês serviu, apelo para um último: pesquisas indicam que crianças e adolescentes que usam as ferramentas da internet têm mais confiança em sua habilidade de escrever. E nunca os jovens se interessaram tanto pela escrita quanto agora.
Nota de 05/02: a "tribo". O André, aqui do YuBliss, e outras pessoas mencionaram a questão do reconhecimento dos membros do grupo através do uso do internetês. Tal como a gíria ou o jargão, essas formas de escrita da internet são fatores de auto-afirmação e status dos participantes de uma determinada "tribo". Também servem para identificar quem é "de fora" do grupo. Não mencionei porque o texto estava um tijolão de grande, mas fica aqui a observação.
Tá, mea culpa. Já fiz pouco caso de textos que considerei mal escritos. Mas confesse: você também já ouviu, leu ou disse mais de uma vez frases como “estão assassinando a língua portuguesa”, “odeio internetês” ou qualquer coisa equivalente a isso. Ainda assim, a despeito do choro e do ranger de dentes generalizados, a língua não morreu, não morrerá e continuará mudando.
Os que defendem ferozmente o uso erudito do idioma sequer desconfiam que nem mesmo no meio acadêmico definiu-se ainda que cara tem a norma culta no Brasil. Ou melhor, as normas cultas. Sim, são várias e estão sendo mapeadas há uns 30 anos pelas universidades em diversas capitais brasileiras, incluindo São Paulo, onde este trabalho teve início.
Esse papo salvacionista da língua tem uma longa tradição no Brasil e tem explicação – que está longe de ser o zelo pela gramática normativa.
A rigor, não temos sequer uma norma padrão brasileira, a não ser a que foi instituída no século XIX, tomando como base os escritores do romantismo português. Não custa lembrar que os românticos brasileiros já haviam incorporado à língua vocábulos africanos e indígenas, o que equivale dizer que até mesmo entre os intelectuais não havia um consenso sobre o que era a língua portuguesa “correta” no Brasil. Imagine, então, o fosso que existia entre o que se falava nas ruas e a regra recém-nascida. De lá para cá, a coisa só fez piorar, a ponto de os colunistas da boa escrita terem se tornado celebridades da mídia por aqui.
Não estou afirmando que a norma culta deva ser solenemente ignorada. É ela que estabiliza e padroniza minimamente o idioma. A questão é: por que esse discurso do “estão acabando com a língua portuguesa” faz tanto sucesso entre os brasileiros? A resposta é socioeconômica e não linguística. A língua é usada para identificar quem são “eles” e quem somos “nós”. “Eles” não sabem escrever. O português “deles” é “errado”. A nossa norma vale, a “deles”, não.
Há quem vá mais longe: o pesquisador Roberto Camacho afirma que o preconceito linguístico é uma das causas da evasão escolar. A escola é o reino da norma culta, mas tem a obrigação de entender e respeitar as variações do idioma, ensinando o uso adequado, de acordo com as circunstâncias. Ou, como diz o gramático Evanildo Bechara, “um bom professor é aquele que faz o aluno ser poliglota em sua própria língua”.
Gramatiquices à parte, apontar os “escorregões” idiomáticos alheios é também uma estratégia de retórica. Quantas vezes, por exemplo, num fórum ou numa comunidade do moribundo Orkut não se critica a escrita do oponente antes ou em vez de argumentar?
A desqualificação do adversário equivale a dedo no olho e chute no saco das pancadarias, mas tem incontáveis adeptos. Até você e eu.