Mal Traçadas - por Lílian Honda

“A tradição oral não se transforma em escrita”, afirma José Luis Cabaço em seu artigo “A questão da diferença na literatura moçambicana”. As literaturas africanas de língua portuguesa – e, portanto, também a de Moçambique – são fenômenos urbanos afastados do mundo rural de tradição oral. A maioria dos escritores foi assimilada, muitos deles são de descendência européia e não têm contato com o campo nem domínio de idiomas autóctones.

A produção literária inicial em língua portuguesa moçambicana deu-se nos anos 20 do século passado, vinculada ao jornalismo. Jornalistas e intelectuais moçambicanos mestiços e negros viveram a contradição de encontrar na assimilação uma tentativa de ascenção social, ao mesmo tempo em que a condição de assimilado reafirmava a supremacia da cultura do colono e dos quem exerciam o poder na colônia. No entanto, foi a palavra escrita em língua portuguesa que se revelou a forma de combate contra o colonizador, por meio de denúncias publicadas na imprensa, nas quais esses intelelectuais reclamavam um espaço na sociedade urbana. À medida em que passaram a ser censurados e, mais uma vez, excluídos da condição de cidadão, esses intelectuais encontraram na literatura um espaço de luta para a causa da moçambicanidade, que instituiu-se em oposição ao colonialismo português. Como diz Zilá Bernd: "
Construindo-se como um desafio à instituição literária, as literaturas emergentes, às vezes ainda próximas de seu passado colonial (como por exemplo, as jovens nações africanas), estão destinadas a desempenhar um papel fundamental na elaboração da consciência nacional. (...) funcionam como o elemento que vem preencher os vazios da memória coletiva e fornecer os pontos de ancoramento do sentimento de identidade, essencial ao ato de auto-afirmação das comunidades ameaçadas pelo rolo compressor da assimilação".


Em Moçambique, a guerra colonial e o crescimento urbano acentuaram o fosso entre cidade e campo, enfraquecendo ainda mais a ligação com a cultura tradicional de base oral. Para “preencher os vazios da memória coletiva” e instituir pontos de ancoragem identitários, foi na herança cultural africana e na tradição oral que os escritores buscaram as referências de uma cultura de resistência, que permitiram a recriação e apropriação da língua portuguesa. Como explica Ana Mafalda Leite, “a relação com as tradições orais e com a oralidade é, à partida, uma relação em ‘segunda mão’, resultante, na maioria dos casos, não de uma experiência vivida, mas filtrada, apreendida, estudada”. Portanto, a oralidade configura-se nesta literatura como uma relação intertextual de transposição, reinterpretação e transformação linguística.
 

A tradição oral não é, porém, o único componente desse “feixe de conexões” que é o texto literário. O desenvolvimento da literatura moçambicana encaixa-se no conceito de “ecologia cultural”, de que trata Bejamin Abdala Jr. em “ A literatura, a diferença e a condição intelectual”: "Tendo em conta que as configurações culturais são híbridas e apontam para várias temporalidades e espaços, não é possível deixar convergir para elas redes discursivas que têm referências locais, regionais e nacionais. Melhor ainda, referenciais comunitários supranacionais (...). A imagem ecológica leva-nos a um sujeito concreto, historicamente situado, e será a partir de seu lócus que procurará acessar um mundo que se articula em rede".
 

O “feixe de conexões” e a “ecologia cultural” explicam a tentativa de fixar em formas tradicionais da poesia europeia, como o soneto, as referências tradição oral na poesia de Rui de Noronha, tido como o fundador da literatura moçambicana. O poeta busca na literatura canônica portuguesa, principalmente em Antero de Quental e Cesário Verde, elementos que irá ressignificar como recusa da condição colonial e da idéia de progresso que o colonizador traz consigo. Simultaneamente, as referências à cultura de base oral e aos temas locais marcam claramente o lugar da enunciação poética, inaugurando a questão da identidade nacional nessa literatura.
 

Tal como no poema “Bairro Moderno”, de Cesário Verde, Rui de Noronha mostra a contradição embutida no conceito de progresso e civilização inerentes ao colonialismo, na figura dos carregadores que envelhecem sem poder deixar um trabalho braçal, exercido em condições que beiram à escravidão. Em “Quenguelequêze”, o poeta faz um paralelo entre uma cerimônia comum em Moçambique (a apresentação da criança nascida à lua, após um período de reclusão, como forma de reconhecimento paterno) com a literatura, que seria a síntese entre colonizador e colonizado, entre cultura letrada e tradição oral, inconciliáveis, mas que, ainda assim, dão origem a esse paradoxal “fruto”.

 

O desenvolvimento da literatura moçambicana deu-se de forma similar à literatura de transculturação proposta por Ángel Rama, que envolve, simultaneamente, perdas, seleções, assimilações, redescobertas, transformações, num amplo processo criativo de “remanejamento cultural” de língua, estrutura literária e concepção de mundo. A partir da década de 50, autores do modernismo brasileiro ligados à chamada “geração de 30”, especialmente Jorge Amado, e mais Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Carlos Drumond de Andrade, provocaram um grande impacto no imaginário dos escritores moçambicanos, principalmente na reelaboração de uma língua, “um português sem Portugal, de um idioma que”, nas palavras de Mia Couto, “sendo do Outro, nos ajudasse a encontrar uma identidade própria”.
 

Nos anos 50, Noémia de Sousa publica o “Poema a Jorge Amado”, como parte de uma obra também que apresenta clara sintonia com o Black Renaissance, a negritude européia, as vanguardas modernistas, a moçambicanidade e o movimento anticolonial. No poema “Deixa passar o meu povo” (título que é refrão de um spiritual), ao lado da tradição africana e dos ancestrais, são citados a rádio “A Voz da América”, os cantores norte-americanos Paul Robson e Marian Anderson, o Harlen, bem como há alusão à autonomia da linguagem poética, tão cara aos modernistas. Noémia de Sousa inaugura, ainda, o sujeito poético feminino, africano e negro, relacionando a África à figura da mulher-mãe, de que o poema “Sangue negro” é exemplo.
 

O acento épico é também encontrado em José Craveirinha, poeta que oscila entre o tom épico, do qual se afasta quando o Estado moçambicano dá mostras de não corresponder à utopia libertadora, e o lirismo. Na poesia de Craveirinha, a repulsa ao colonialismo combina-se com a compreensão da complexidade e contradições das relações e situações que esse sistema cria, com as ruas, vielas e gentes da Mafalala, com uma utopia inconformada e com um sentido alargado de nacionalidade. No poema “Ao meu belo pai, ex-emigrante”, por exemplo, deixa claro, a partir do título, como o pai português vai se tornando o “número UM Craveirinha moçambicano”, num olhar que ultrapassa as fronteiras geográficas. Nesse sentido, o da amplitude de visão de mundo, já se lê em Craveirinha citações e referências a contextos mundiais e à hegemonia norte-americana e europeia, como no poema “África”, em que aparece a ironia, recorrente no autor, quando diz que “aprende” com os criadores da cadeira elétrica, das bombas V2, da Ku-Klux Klan, de Hiroshima e Nagasaki, e que lêem lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre.
 

As questões que têm como referência a história do Ocidente e da poesia ocidental, bem como a reflexão sobre o fazer poético, são o tema da poesia de Rui Knopfli, que raramente trata da identidade moçambicana em sua obra, a ponto de ter sido excluído das antologias relacionadas à formação da literatura do país até meados dos anos 90. Recusando o engajamento, o poeta preferiu a autonomia e a liberdade da poesia, o discurso filosófico, o cosmopolitismo, a iconoclastia, o underground, o humor, a multiplicidade da herança cultural (que, no seu caso, envolve a ascendência portuguesa, suíça e árabe). Encontra-se a exemplificação disso no poema “Cântico negro”: “Cago na juventude e na contestação / e também me cago em Jean-Luc Godard. / (...) Porque eu teimo, / recuso e não alinho. / (...) I am really the Underground”.


Reconhecido nas últimas décadas como um dos melhores poetas de língua portuguesa, Knopfli apontou um novo caminho, que viria a prevalecer na literatura moçambicana, o da diversidade.

 

Referências bibliográficas:

ABDALA JR., Benjamin. “A literatura, a diferença e a condição intelectual”. In: Revista Brasileira de Literatura Comparada.  n. 8, Belo Horizonte: ABRALIC, 2006.

BERND, Zilá. “Identidade - origem, emprego e armadilhas do conceito”. In: Literatura e identidade nacional. Porto Alegre: Editora da UFRGS.

CABAÇO, José Luís. “A questão da diferença na literatura moçambicana”. In: Revista Via Atlântica, n. 7. São Paulo: USP/FFLCH, 2004.

CHAVES, Rita. “José Craveirinha: a poesia em liberdade”. In: Angola e Moçambique – Experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Atelier Editorial, 2005.

LARANJEIRA, José Luís Pires. “Moçambique – Parte IV”. In: Literaturas africanas de expressão portuguesa. Coimbra: Universidade Aberta, 1995.

LEITE, Ana Mafalda. “Empréstimos da oralidade na produção e crítica literárias africanas”. In: Oralidades & escritas nas literaturas africanas. Lisboa: Colibri, 1998.

MACEDO, Tânia; MAQUÊA, Vera. Literaturas de língua portuguesa: marcos e marcas – Moçambique. São Paulo: Arte & Ciência, 2007.

REIS, Lívia de Freitas. “Transculturação e transculturação narrativa”. In: FIGUEIREDO, Eurídice. Conceitos de literatura e cultura. Rio de Janeiro, Editora UFJF, 2005.

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Sunday, 14 March 2010
posted by Lílian
É feito de palavra tudo o que não é carne
E também a carne é palavra
Carne, palavra densa moldada ao toque
E o toque é palavra
A parte que me toca é a palavra no moedor de carne que dá a palavra que toca ao outro
E o outro é ele mesmo palavra 



Este poema foi publicado na revista Filosofia, Ciência & Vida número 47, de junho de 2010, no Encarte do Professor, acompanhando matéria sobre filosofia da linguagem, de Ofélia Marcondes, reproduzido parcialmente abaixo:

Encontrei no blog Mal traçadas um poema de Lílian Honda que me fez pensar na questão da linguagem:

(...) Poderíamos dizer que esta dicotomia carne/palavra é apenas didática, pois pensamento e linguagem nos parecem uma única coisa quando pensamos que a linguagem organiza o pensamento numa relação dialética na qual a linguagem só se constitui por que há pensamento. A própria consciência é linguagem e nomeamos nossa existência para que possamos compartilhar significados.

No poema, “o outro é ele mesmo palavra” significa que só temos consciência de nossa existência nesta relação com o outro. Nós dizemos ao outro quem ele é e ele nos diz quem somos. Esta mesma discussão cabe quando propomos a reflexão sobre o sujeito da ação que somos: nos entendemos como sujeitos porque somos objeto de conhecimento do outro.

Quando Lílian Honda fala “É feito de palavra tudo o que não é carne/E também a carne é palavra” nos parece claro que nessa categoria “palavra” se encontra tudo que está no imaterial: sensações, percepções, memória, emoções, imaginação, vontade e que estão, ao mesmo tempo, encarnadas na existência do próprio homem, portanto na carne que, no verso seguinte, se justifica, pois carne é palavra, não só na junção das letrinhas c-a-r-n-e, mas na própria base do pensamento sobre a existência.

Refletindo sobre: “palavra densa moldada ao toque”, “a parte que me toca é a palavra no moedor de carne” e “a palavra que toca ao outro”, fazemos um esforço de compreensão sobre o trabalho que realizamos ao burilar as palavras na construção de um texto, assim como burilamos o pensamento na constituição de nossa própria existência. A palavra é moldada por aquele que a utiliza ao mesmo tempo em que é moldada por aquele que a interpreta. Esta interpretação é social porque partilhamos de um universo comum de significados. O outro é tocado pela palavra na medida em que nos constituímos socialmente, só somos sujeitos na relação com outros sujeitos. 

A riqueza do uso do verbo tocar pela poeta nos permite refletir sobre o tocar como um fazer humano: “E o toque é palavra”, no sentido de que todas as nossas relações se dão no plano simbólico. O verbo tocar nos remete a algo físico, mas que é pensamento, portanto linguagem.
Todo o poema acaba trazendo uma reflexão sobre a própria arte de escrever um poema que tece, ao mesmo tempo, a existência do poeta. Carne e palavra se tornam expressão desta existência, deste ser poeta.

Para Wittgenstein, “a questão “o que é realmente uma palavra?” é análoga a “o que é uma figura de xadrez?””  Isto porque a palavra é elemento dos jogos de linguagem. Estes jogos são objetos de comparação para que possamos clarear as relações existentes entre palavra e significado. Esses jogos de linguagem nos permitem uma articulação intermediária de significados, pois não “temos uma visão panorâmica do uso de nossas palavras” , nossa visão panorâmica é “nossa forma de representação, o modo pelo qual vemos as coisas” . Usamos as palavras como forma de representação, sendo que o mais importante na palavra não é a própria palavra, mas a significação, que é social. A “palavra significa a explicação que dermos de sua significação” , ou seja, é a explicitação do uso que fazemos de tal palavra neste jogo de linguagem que realizamos no próprio convívio social. 

Uma mesma palavra pronunciada ou escrita pode ter vários significados, por exemplo: manga. O que eu disse? Manga. Sem um contexto ou sem uma explicação do uso que faço da palavra manga, meu interlocutor pode não compreender a que me refiro: manga de camisa? Fruta? Esse uso da palavra manga deve ser explicitado no contexto de seu uso ou na explicação de seu uso. Portanto, não é a palavra em si mesma o que é mais importante, mas a significação social e explicitada do uso que dela fazemos. (...)
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Wednesday, 3 March 2010
posted by Lílian

Foi legau falah kom vc...... t+...... a genti c ve por aih......”. Entendeu? Vou tentar de novo: “foi LegaU fAlaH kum VUxXxE...... T+...... A gENti SI Ve POR AiH......”. Piorou? Nem esquente a cabeça: eu também tenho preguiça de ler internetês e tá cheio de gente que não consegue ler Guimarães Rosa e José de Alencar.

A comparação parece uma heresia? Talvez esse diálogo dê umas pistas sobre o que está acontecendo com a língua materna:

Pesquisador: Você usa o internetês na escola?
Aluno: Não, só na internet. Nos outros lugares, a gente usa o português arcaico.

O diálogo é inventado, mas a expressão “português arcaico”, usada por um jovem estudante para se referir à norma culta, apareceu em um trabalho acadêmico sobre o internetês. É engraçado e faz a gente se sentir velha, mas tem sentido: a língua muda o tempo todo e, no espaço de uma geração ou no curto tempo de duração de uma gíria da moda, nossa forma de falar e escrever já está ficando “antiga”.

Ainda assim, todas as vezes em que se deparam com mudanças, os indignados do idioma levantam os dedos e as vozes, anunciando a “morte da língua portuguesa”. Ultimamente, o internetês têm sido a causa apontada para a degradação do português. E não é nada disso.

Nos meios de interação
on line, as pessoas tendem a simular a língua falada na escrita. Um dos estudos mais interessante que li a respeito mostra que entre a língua escrita e a falada não há uma linha, mas um plano, um continuum, em que optamos por mais ou menos formalidade e por diferentes estratégias de comunicação. Trocando em miúdos: a gente sabe que há um jeito adequado para escrever um editorial de jornal ou um bilhete para a mãe, proferir um palestra ou deixar um recado na correio de voz do namorado. Podemos dizer que o bilhete para a mãe, apesar de ser escrito, tem mais “parentesco” com a mensagem na secretária eletrônica do namorado do que com o editorial do jornal.

Nesse
continuum, a língua usada na interação pela net é algo como a língua falada por escrito. E mais: ela varia. O internetês é uma das formas. Há também o miguxês, o geek chic, o português coloquial e muitas outras. Basta notar que não se escreve do mesmo jeito no chat, no msn, nos blogs, no Orkut, nos sites e no Twitter, por exemplo.

Internetês é simplificação?

Uma das críticas mais recorrentes é a de que essas variações menos “cultas” seriam a prova da falência educacional e estariam sendo usadas por jovens que ficaram de fora da cultura letrada. Não é o que indicam as pesquisas: o internetês é usado também por alunos das melhores escolas e por universitários de cursos de prestígio. Como se pode afirmar que um tipo de escrita, num meio de comunicação dominado pela escrita, seria a prova do fim da cultura letrada?

Outro ponto frequentemente levantado é o da simplificação da língua praticada pelo internetês e o miguxês. Novamente aí erram os críticos. De fato, há abreviações e siglas, mas também o oposto, formas de grafar as palavras, expressões e símbolos mais complexos do que a norma padrão. Por exemplo, a nasalização ou a ênfase de certas síladas, como em “bejaum” e “naum”, repetição de maiúsculas para representar alteração de voz, o uso da pontuação como ênfase, gestual ou entonação, a inclusão de emoticons e personagens – e aqui cabe uma observação: alguns teóricos consideram esses símbolos, dentro do contexto em que são usados, como palavras. O que se nota é que há regras estabelecidas seguidas pelos usuários e não, como se crítica, um “vale-tudo”. Isso se chama “gramática”.

Pode o internetês afetar a língua portuguesa? É muito cedo para saber. O que já se levantou em estudos é que o vocabulário possui apenas cerca de 20% de palavras grafadas de modo diferente da língua padrão, o que pode indicar que não é uma variação tão “danosa” assim. Além disso, vale lembrar que nenhum jovem aprende o idioma através da internet, nenhum se alfabetiza pela internet e nenhum interage exclusivamente pela internet.

Desplugado, o jovem certamente não escreverá do mesmo jeito em uma prova escolar e, se o fizer, saberá que a nota não será lá grande coisa. Da mesma forma com que todos sabemos, inclusive os jovens, que se usa terno em cerimônia de casamento e beca na formatura. Mesmo que seja com piercing e gravata estampada com Ben10.

O problema desse tipo de crítica é tomar como pressuposto que exista uma língua “pura”, “correta” e imutável. Não existe. Ou ainda há alguém por aí que chama os outros de “Vossa Mercê”?

Se nenhum argumento em defesa do internetês serviu, apelo para um último: pesquisas indicam que crianças e adolescentes que usam as ferramentas da internet têm mais confiança em sua habilidade de escrever. E nunca os jovens se interessaram tanto pela escrita quanto agora.

Nota de 05/02: a "tribo". O André, aqui do YuBliss, e outras pessoas mencionaram a questão do reconhecimento dos membros do grupo através do uso do internetês. Tal como a gíria ou o jargão, essas formas de escrita da internet são fatores de auto-afirmação e status dos participantes de uma determinada "tribo". Também servem para identificar quem é "de fora" do grupoNão mencionei porque o texto estava um tijolão de grande, mas fica aqui a observação.

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Friday, 19 February 2010
posted by Lílian

Tá, mea culpa. Já fiz pouco caso de textos que considerei mal escritos. Mas confesse: você também já ouviu, leu ou disse mais de uma vez frases como “estão assassinando a língua portuguesa”, “odeio internetês” ou qualquer coisa equivalente a isso. Ainda assim, a despeito do choro e do ranger de dentes generalizados, a língua não morreu, não morrerá e continuará mudando.
 

Os que defendem ferozmente o uso erudito do idioma sequer desconfiam que nem mesmo no meio acadêmico definiu-se ainda que cara tem a norma culta no Brasil. Ou melhor, as normas cultas. Sim, são várias e estão sendo mapeadas há uns 30 anos pelas universidades em diversas capitais brasileiras, incluindo São Paulo, onde este trabalho teve início.
 

Esse papo salvacionista da língua tem uma longa tradição no Brasil e tem explicação – que está longe de ser o zelo pela gramática normativa.

A rigor, não temos sequer uma norma padrão brasileira, a não ser a que foi instituída no século XIX, tomando como base os escritores do romantismo português. Não custa lembrar que os românticos brasileiros já haviam incorporado à língua vocábulos africanos e indígenas, o que equivale dizer que até mesmo entre os intelectuais não havia um consenso sobre o que era a língua portuguesa “correta” no Brasil. Imagine, então, o fosso que existia entre o que se falava nas ruas e a regra recém-nascida. De lá para cá, a coisa só fez piorar, a ponto de os colunistas da boa escrita terem se tornado celebridades da mídia por aqui.
 

Não estou afirmando que a norma culta deva ser solenemente ignorada. É ela que estabiliza e padroniza minimamente o idioma. A questão é: por que esse discurso do “estão acabando com a língua portuguesa” faz tanto sucesso entre os brasileiros? A resposta é socioeconômica e não linguística. A língua é usada para identificar quem são “eles” e quem somos “nós”. “Eles” não sabem escrever. O português “deles” é “errado”. A nossa norma vale, a “deles”, não.
 

Há quem vá mais longe: o pesquisador Roberto Camacho afirma que o preconceito linguístico é uma das causas da evasão escolar. A escola é o reino da norma culta, mas tem a obrigação de entender e respeitar as variações do idioma, ensinando o uso adequado, de acordo com as circunstâncias. Ou, como diz o gramático Evanildo Bechara, “um bom professor é aquele que faz o aluno ser poliglota em sua própria língua”.
 

Gramatiquices à parte, apontar os “escorregões” idiomáticos alheios é também uma estratégia de retórica. Quantas vezes, por exemplo, num fórum ou numa comunidade do moribundo Orkut não se critica a escrita do oponente antes ou em vez de argumentar?
 

A desqualificação do adversário equivale a dedo no olho e chute no saco das pancadarias, mas tem incontáveis adeptos. Até você e eu.

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