Tá, mea culpa. Já fiz pouco caso de textos que considerei mal escritos. Mas confesse: você também já ouviu, leu ou disse mais de uma vez frases como “estão assassinando a língua portuguesa”, “odeio internetês” ou qualquer coisa equivalente a isso. Ainda assim, a despeito do choro e do ranger de dentes generalizados, a língua não morreu, não morrerá e continuará mudando.
Os que defendem ferozmente o uso erudito do idioma sequer desconfiam que nem mesmo no meio acadêmico definiu-se ainda que cara tem a norma culta no Brasil. Ou melhor, as normas cultas. Sim, são várias e estão sendo mapeadas há uns 30 anos pelas universidades em diversas capitais brasileiras, incluindo São Paulo, onde este trabalho teve início.
Esse papo salvacionista da língua tem uma longa tradição no Brasil e tem explicação – que está longe de ser o zelo pela gramática normativa.
A rigor, não temos sequer uma norma padrão brasileira, a não ser a que foi instituída no século XIX, tomando como base os escritores do romantismo português. Não custa lembrar que os românticos brasileiros já haviam incorporado à língua vocábulos africanos e indígenas, o que equivale dizer que até mesmo entre os intelectuais não havia um consenso sobre o que era a língua portuguesa “correta” no Brasil. Imagine, então, o fosso que existia entre o que se falava nas ruas e a regra recém-nascida. De lá para cá, a coisa só fez piorar, a ponto de os colunistas da boa escrita terem se tornado celebridades da mídia por aqui.
Não estou afirmando que a norma culta deva ser solenemente ignorada. É ela que estabiliza e padroniza minimamente o idioma. A questão é: por que esse discurso do “estão acabando com a língua portuguesa” faz tanto sucesso entre os brasileiros? A resposta é socioeconômica e não linguística. A língua é usada para identificar quem são “eles” e quem somos “nós”. “Eles” não sabem escrever. O português “deles” é “errado”. A nossa norma vale, a “deles”, não.
Há quem vá mais longe: o pesquisador Roberto Camacho afirma que o preconceito linguístico é uma das causas da evasão escolar. A escola é o reino da norma culta, mas tem a obrigação de entender e respeitar as variações do idioma, ensinando o uso adequado, de acordo com as circunstâncias. Ou, como diz o gramático Evanildo Bechara, “um bom professor é aquele que faz o aluno ser poliglota em sua própria língua”.
Gramatiquices à parte, apontar os “escorregões” idiomáticos alheios é também uma estratégia de retórica. Quantas vezes, por exemplo, num fórum ou numa comunidade do moribundo Orkut não se critica a escrita do oponente antes ou em vez de argumentar?
A desqualificação do adversário equivale a dedo no olho e chute no saco das pancadarias, mas tem incontáveis adeptos. Até você e eu.
18 comments
http://www.olavodecarvalho.org/textos/tiazinha.htm
leitura obrigatória, concordando ou discordando. rs
Mas comprou os dicionários todos. Depois da semente lançada (e germinada), acho difícil voltar atrás. De qualquer maneira ficou felicíssimo, ao saber que poderia dar conta do inglês. Quando saí já dominava perfeitamente leituras simples em inglês e preenchimento de fichas de cadastro, coisas para a função dele.
Agora, quanto à contemplação, sim. "Estou vendo uma moça subindo a ladeira". E?
"Lembro do meu pai, que se me visse com tantos livros, ia me chamar de vagabundo. Que isso não é coisa de homem". E? "Ele me bateria".
Mais ou menos o Abril Despedaçado. Sem o Rodrigo Santoro no papel principal.
Numa outra perspectiva, para quem teve essa experiência, eu diria que esculhambar a língua é como jogar comida fora. Comida e palavra é para quem tem fome.
Marion, eu também queria saber! Aliás, seria ótimo saber usar gíria pra "rejuvenescer" a fala, mas morro de medo de acabar me parecendo a minha mãe quando usava gíria (sempre de décadas atrás)... :)
Liana que história bacaninha! Se ele tem a língua, tem o pensamento. :) Bakhtin dizia que a consciência era efeito colateral da linguagem. Eu só gostaria de saber como seria o "contemplar" nas palavras do seu aluno. Deve ter alguma coisa similar... :) E ele aprendeu inglês?
Tenho uma história sobre o encantamento da fala. Quando dava aulas para adultos. Um aluno, vindo do interior da Bahia, e tinha se alfabetizado há pouco.
Uma vez cheguei mais cedo e ele estava à janela, absor...to. Perguntei o que ele contemplava. Ele me respondeu: - "Professora, se eu soubesse o que é 'contemplar', lhe diria!".
Expliquei que contemplar é olhar para fora com os olhos de dentro. Ele entendeu perfeitamente.
Mais tarde ensinei que era possível escrever. Ele dizia: - "Professora, a idéia vem e sai voando. Não segura nenhuma!". Ensinei-o a pôr ganchinhos, pra segurar o pensamento e disse que ele tinha pensamento, o que muito o surpreendeu. É toda uma história mais poema que história, e tudo aconteceu de fato. Só sei que terminou escrevendo a primeira redação da vida dele, sobre um canário que morreu.
Mais tarde me disse que iria estudar inglês, que era uma língua bem mais simples do que português. Mas os ganchinhos ficaram ali, pela eternidade.
O dicionário léxico é o que relaciona as palavras com toda a sua semântica, do sinônimo mais exato aos seus mais variados significados, por exemplo:
Porca: Feminino de porco; Elemento de fixação; Pessoa com maus hábitos de higiene; etc...
Mano: Irmão; Amigo; Tratamento popular a uma pessoa qualquer; Cara a cara (mano a mano); etc...
A importância de se ter um dicionário léxico surgiu com a necessidade de criar sistemas computacionais em linguagem natural, ou seja, um computador entender perfeitamente uma frase dita pelo ser humano utilizando para isto uma análise morfológica, gramatical e principalmente o dicionário léxico, a semântica, para assim, através desta frase, buscar uma resposta coerente com a pergunta ou com a ordem a ser executada.
Atualmente já existem vários sistemas em linguagem natural em vários idiomas, menos para o português. Portanto, apesar de adorarmos nossa língua pátria, esta liberação de regras, estruturas, etc. poderá atrapalhar, em muito, nosso acesso a estes sistemas os quais poderiam facilitar ainda mais a interatividade com as máquinas que tanto adoramos também.
Chico, essa coisa que vc não sabe direito o que é talvez seja o que somos. Sem a linguagem, não somos nada senão uma massa de sensações caóticas, que não saberíamos expressar. "Só percebemos do mundo o que nossa língua nomeia".
Tenzin, brigadim. Ah, em francês ficou podre de chique... :))
Vou confessar: o "você e eu" foi mais pra adoçar a crítica e pra me redimir da intolerância do passado. Pronto, tá excluída com louvor. :))
Belíssimo texto, parabéns. Adorei.
Cristiano, as regras do idioma são geralmente arbitrárias e consagradas pelo uso. Acho que todas as línguas têm lá a sua complexidade, que vai além da ortografia. Bj.:)
Chico, sabe o que é triste? Certos falares, como o cuiabano, por exemplo, andam desaparecendo por desprestígio, porque os mais jovens ou que estudam mais se esforçam em apagá-los da fala... Se bem que nem é caso de sentir tristeza, porque a língua é assim, mutante, inquieta.
por exemplo:
*ss, c, ç= deveria ser tudo uma coisa çó
*que deveria ser somente qe
e por aí vai...
Ando desaprendendo o português. Contudo, continuo a me comunicar e, evidente, a pensar. Mais importante do que as ditas normas cultas, é desenvolver a capacidade de refletir, pensar, criar. E em portugues, lógico. Quando dava aula de alfabetização de adultos, importava-me com a comunicação. Se sebola, se senoura, se mininu ou se mossa, conseguiamos nos fazer entender. Entonces, vamos descosturar o verbo e botar a boca no trombone.
Abraços
Adriana
Eu entendo aprender a norma culta antes de inventar outras formas de escrita como aprender a andar sem engatinhar, é preciso firmeza para se levantar e andar.
Mas, se nosso País é um espanto em termos de valorização e oportunidades de educação, vamos ter que aceitar o internetês, o funkês, o manês, enfim, todas as línguas de quem não pode quase nada, mas pelo menos não vai deixar de se expressar, com seus próprios recursos.