Mal Traçadas - por Lílian Honda
Friday, 19 February 2010
posted by Lílian

Tá, mea culpa. Já fiz pouco caso de textos que considerei mal escritos. Mas confesse: você também já ouviu, leu ou disse mais de uma vez frases como “estão assassinando a língua portuguesa”, “odeio internetês” ou qualquer coisa equivalente a isso. Ainda assim, a despeito do choro e do ranger de dentes generalizados, a língua não morreu, não morrerá e continuará mudando.
 

Os que defendem ferozmente o uso erudito do idioma sequer desconfiam que nem mesmo no meio acadêmico definiu-se ainda que cara tem a norma culta no Brasil. Ou melhor, as normas cultas. Sim, são várias e estão sendo mapeadas há uns 30 anos pelas universidades em diversas capitais brasileiras, incluindo São Paulo, onde este trabalho teve início.
 

Esse papo salvacionista da língua tem uma longa tradição no Brasil e tem explicação – que está longe de ser o zelo pela gramática normativa.

A rigor, não temos sequer uma norma padrão brasileira, a não ser a que foi instituída no século XIX, tomando como base os escritores do romantismo português. Não custa lembrar que os românticos brasileiros já haviam incorporado à língua vocábulos africanos e indígenas, o que equivale dizer que até mesmo entre os intelectuais não havia um consenso sobre o que era a língua portuguesa “correta” no Brasil. Imagine, então, o fosso que existia entre o que se falava nas ruas e a regra recém-nascida. De lá para cá, a coisa só fez piorar, a ponto de os colunistas da boa escrita terem se tornado celebridades da mídia por aqui.
 

Não estou afirmando que a norma culta deva ser solenemente ignorada. É ela que estabiliza e padroniza minimamente o idioma. A questão é: por que esse discurso do “estão acabando com a língua portuguesa” faz tanto sucesso entre os brasileiros? A resposta é socioeconômica e não linguística. A língua é usada para identificar quem são “eles” e quem somos “nós”. “Eles” não sabem escrever. O português “deles” é “errado”. A nossa norma vale, a “deles”, não.
 

Há quem vá mais longe: o pesquisador Roberto Camacho afirma que o preconceito linguístico é uma das causas da evasão escolar. A escola é o reino da norma culta, mas tem a obrigação de entender e respeitar as variações do idioma, ensinando o uso adequado, de acordo com as circunstâncias. Ou, como diz o gramático Evanildo Bechara, “um bom professor é aquele que faz o aluno ser poliglota em sua própria língua”.
 

Gramatiquices à parte, apontar os “escorregões” idiomáticos alheios é também uma estratégia de retórica. Quantas vezes, por exemplo, num fórum ou numa comunidade do moribundo Orkut não se critica a escrita do oponente antes ou em vez de argumentar?
 

A desqualificação do adversário equivale a dedo no olho e chute no saco das pancadarias, mas tem incontáveis adeptos. Até você e eu.

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18 comments


Juliano
bem, há um texto de um filósofo (que gosto muito) que ilustra perfeitamente a situação:

http://www.olavodecarvalho.org/textos/tiazinha.htm

leitura obrigatória, concordando ou discordando. rs
1 year ago
Visitor
Perdi o contato, depois de minhas funções burocráticas.
Mas comprou os dicionários todos. Depois da semente lançada (e germinada), acho difícil voltar atrás. De qualquer maneira ficou felicíssimo, ao saber que poderia dar conta do inglês. Quando saí já dominava perfeitamente leituras simples em inglês e preenchimento de fichas de cadastro, coisas para a função dele.
Agora, quanto à contemplação, sim. "Estou vendo uma moça subindo a ladeira". E?
"Lembro do meu pai, que se me visse com tantos livros, ia me chamar de vagabundo. Que isso não é coisa de homem". E? "Ele me bateria".
Mais ou menos o Abril Despedaçado. Sem o Rodrigo Santoro no papel principal.
Numa outra perspectiva, para quem teve essa experiência, eu diria que esculhambar a língua é como jogar comida fora. Comida e palavra é para quem tem fome.
1 year ago
Lílian
Tony A., não creio que seja a escrita que tenha o papel de estabilizar a língua, mas sim a norma culta. Isso porque entre a escrita e a fala existem várias gradações, várias combinações possíveis entre mais ou menos formal. Tem um pesquisador que disse que não é exatamente uma linha da escrita à língua falada, mas um plano, com várias combinações possíveis. Taí... Vc me deu uma idéia pro próximo texto. :)) Obrigada.

Marion, eu também queria saber! Aliás, seria ótimo saber usar gíria pra "rejuvenescer" a fala, mas morro de medo de acabar me parecendo a minha mãe quando usava gíria (sempre de décadas atrás)... :)

Liana que história bacaninha! Se ele tem a língua, tem o pensamento. :) Bakhtin dizia que a consciência era efeito colateral da linguagem. Eu só gostaria de saber como seria o "contemplar" nas palavras do seu aluno. Deve ter alguma coisa similar... :) E ele aprendeu inglês?

1 year ago
Liana
Pois é, Lilian. Mas nada se compara a apreensão da linguagem, quando se quer dizer exatamente o que se quer dizer.
Tenho uma história sobre o encantamento da fala. Quando dava aulas para adultos. Um aluno, vindo do interior da Bahia, e tinha se alfabetizado há pouco.
Uma vez cheguei mais cedo e ele estava à janela, absor...to. Perguntei o que ele contemplava. Ele me respondeu: - "Professora, se eu soubesse o que é 'contemplar', lhe diria!".
Expliquei que contemplar é olhar para fora com os olhos de dentro. Ele entendeu perfeitamente.

Mais tarde ensinei que era possível escrever. Ele dizia: - "Professora, a idéia vem e sai voando. Não segura nenhuma!". Ensinei-o a pôr ganchinhos, pra segurar o pensamento e disse que ele tinha pensamento, o que muito o surpreendeu. É toda uma história mais poema que história, e tudo aconteceu de fato. Só sei que terminou escrevendo a primeira redação da vida dele, sobre um canário que morreu.

Mais tarde me disse que iria estudar inglês, que era uma língua bem mais simples do que português. Mas os ganchinhos ficaram ali, pela eternidade.
1 year ago
marion
Lilian eu gostaria de saber falar todas as linguas que esses adolescentes inventam. Me sinto tão por fora às vezes... Queria ser uma poliglota em minha própria lingua, gostei do que você disse. bj!
1 year ago
Eu acho que “falar” o português agregando gírias, modismos e até errado mesmo não tem nada de mais, faz parte, no mundo todo existem dialetos, regionalismos, sotaques e diferenças culturais, etc. Porém a escrita deve ter um certo conservadorismo através regras e estruturas. Várias línguas já possuem seu dicionário léxico, e o português até pelo menos 1990 ainda não tinha.

O dicionário léxico é o que relaciona as palavras com toda a sua semântica, do sinônimo mais exato aos seus mais variados significados, por exemplo:
Porca: Feminino de porco; Elemento de fixação; Pessoa com maus hábitos de higiene; etc...
Mano: Irmão; Amigo; Tratamento popular a uma pessoa qualquer; Cara a cara (mano a mano); etc...

A importância de se ter um dicionário léxico surgiu com a necessidade de criar sistemas computacionais em linguagem natural, ou seja, um computador entender perfeitamente uma frase dita pelo ser humano utilizando para isto uma análise morfológica, gramatical e principalmente o dicionário léxico, a semântica, para assim, através desta frase, buscar uma resposta coerente com a pergunta ou com a ordem a ser executada.

Atualmente já existem vários sistemas em linguagem natural em vários idiomas, menos para o português. Portanto, apesar de adorarmos nossa língua pátria, esta liberação de regras, estruturas, etc. poderá atrapalhar, em muito, nosso acesso a estes sistemas os quais poderiam facilitar ainda mais a interatividade com as máquinas que tanto adoramos também.
1 year ago
Lílian
Esquenta, não, Chico... Fica lá a minha resposta, pra quem achar que presta. :)
1 year ago
chico abelha
A Pimentinha vem aqui ver o que aconteceu. Ela disse que não se lembra de ter apagado o comentário...
1 year ago
Lílian
Pimentinha, em poucos lugares as pessoas são tão xiitas em relação ao "bom" português quanto na net, talvez porque a escrita seja quase sempre a nossa única forma de expressão por aqui. É comum ler "maldita inclusão digital" como crítica à escrita dos outros. Um horror, sobretudo porque quem critica raramente escreve lá muito bem. :))

Chico, essa coisa que vc não sabe direito o que é talvez seja o que somos. Sem a linguagem, não somos nada senão uma massa de sensações caóticas, que não saberíamos expressar. "Só percebemos do mundo o que nossa língua nomeia".

Tenzin, brigadim. Ah, em francês ficou podre de chique... :))
Vou confessar: o "você e eu" foi mais pra adoçar a crítica e pra me redimir da intolerância do passado. Pronto, tá excluída com louvor. :))
1 year ago
Tenzin
Amei o texto e como diria Leila sua acidez ... não acho a menor graça na exclusão linguistica... e já abandonei esta pratica aalgum tempo portanto exclua-me do "Até você e eu." A vida me ensinou na pratica que : Le poivre dans le cul des autres est rafraîchissante .
1 year ago
chico abelha
Lilian, é isso mesmo, a língua é viva e é isso que a faz interessante. Tem gente que não entende meu interesse por linguas (vivas). Elas não sabem que junto com as palavras vem uma coisa que eu nem sei dizer direito o que é, mas que me dá um baita dum barato!
1 year ago
Visitor
Pois é querida Lílian, já aconteceu comigo (que sou fiel ao bom português) de me corrigirem erro de português (risos)... É realmente um dedo no olho e chute no saco ...

Belíssimo texto, parabéns. Adorei.

1 year ago
Lílian
Simone, aceitar e entender que algumas coisas do internetês, do funkês, do manês de outras gírias de grupo poderão vir a fazer parte do nosso vocabulário um dia. Por exemplo, "baratinado", que já está dicionarizado, já pertenceu à gíria de viciados em drogas em certa época. Assim como o jargão da informática foi totalmente incorporado e até a nossa avó sabe o que é um mouse. Bj.

Cristiano, as regras do idioma são geralmente arbitrárias e consagradas pelo uso. Acho que todas as línguas têm lá a sua complexidade, que vai além da ortografia. Bj.:)

Chico, sabe o que é triste? Certos falares, como o cuiabano, por exemplo, andam desaparecendo por desprestígio, porque os mais jovens ou que estudam mais se esforçam em apagá-los da fala... Se bem que nem é caso de sentir tristeza, porque a língua é assim, mutante, inquieta.
1 year ago
eu penso que muitas vezes a culpa é do próprio português. a mais complexa das línguas ocidentais... é lógico que os alunados temem as aulas... quem não temeria? e olhe que eu AMO português... simpatizar-me não tem nada a ver com criticar...
por exemplo:
*ss, c, ç= deveria ser tudo uma coisa çó
*que deveria ser somente qe
e por aí vai...
1 year ago
Lílian
Adriana! É issaí... português é tudo isso, o "mossa", o "mininu", o que está no dicionário e o que se ouve na rua. E mais muita coisa que ainda virá.
1 year ago
Visitor
Lilian, oulá
Ando desaprendendo o português. Contudo, continuo a me comunicar e, evidente, a pensar. Mais importante do que as ditas normas cultas, é desenvolver a capacidade de refletir, pensar, criar. E em portugues, lógico. Quando dava aula de alfabetização de adultos, importava-me com a comunicação. Se sebola, se senoura, se mininu ou se mossa, conseguiamos nos fazer entender. Entonces, vamos descosturar o verbo e botar a boca no trombone.
Abraços
Adriana
1 year ago
chico abelha
Lilian, também sou ligado nos falares. Adoro conhecer jeitos diferentes, os malabarismos que as pessoas fazem para se expressar, chego a gostar dos erros, até! Eu conheci um descendente de índio que falava um quase dialeto do sul de Minas Gerais e inventava palavras que descreviam perfeitamente o que ele queria comunicar. Claro que pelos padrões ele falava totalmente errado, mas eu tinha orgasmos de escutar aquele senhor de 83 anos falando. Era criatividade pura! Pena que eu não tinha um gravador na época.
1 year ago
Simone
É verdade Lilian, assim como todos os aspectos que consideramos negativos são sempre os "deles".
Eu entendo aprender a norma culta antes de inventar outras formas de escrita como aprender a andar sem engatinhar, é preciso firmeza para se levantar e andar.
Mas, se nosso País é um espanto em termos de valorização e oportunidades de educação, vamos ter que aceitar o internetês, o funkês, o manês, enfim, todas as línguas de quem não pode quase nada, mas pelo menos não vai deixar de se expressar, com seus próprios recursos.
1 year ago

YuBloggers

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