Mal Traçadas - por Lílian Honda
Wednesday, 3 March 2010
posted by Lílian

Foi legau falah kom vc...... t+...... a genti c ve por aih......”. Entendeu? Vou tentar de novo: “foi LegaU fAlaH kum VUxXxE...... T+...... A gENti SI Ve POR AiH......”. Piorou? Nem esquente a cabeça: eu também tenho preguiça de ler internetês e tá cheio de gente que não consegue ler Guimarães Rosa e José de Alencar.

A comparação parece uma heresia? Talvez esse diálogo dê umas pistas sobre o que está acontecendo com a língua materna:

Pesquisador: Você usa o internetês na escola?
Aluno: Não, só na internet. Nos outros lugares, a gente usa o português arcaico.

O diálogo é inventado, mas a expressão “português arcaico”, usada por um jovem estudante para se referir à norma culta, apareceu em um trabalho acadêmico sobre o internetês. É engraçado e faz a gente se sentir velha, mas tem sentido: a língua muda o tempo todo e, no espaço de uma geração ou no curto tempo de duração de uma gíria da moda, nossa forma de falar e escrever já está ficando “antiga”.

Ainda assim, todas as vezes em que se deparam com mudanças, os indignados do idioma levantam os dedos e as vozes, anunciando a “morte da língua portuguesa”. Ultimamente, o internetês têm sido a causa apontada para a degradação do português. E não é nada disso.

Nos meios de interação
on line, as pessoas tendem a simular a língua falada na escrita. Um dos estudos mais interessante que li a respeito mostra que entre a língua escrita e a falada não há uma linha, mas um plano, um continuum, em que optamos por mais ou menos formalidade e por diferentes estratégias de comunicação. Trocando em miúdos: a gente sabe que há um jeito adequado para escrever um editorial de jornal ou um bilhete para a mãe, proferir um palestra ou deixar um recado na correio de voz do namorado. Podemos dizer que o bilhete para a mãe, apesar de ser escrito, tem mais “parentesco” com a mensagem na secretária eletrônica do namorado do que com o editorial do jornal.

Nesse
continuum, a língua usada na interação pela net é algo como a língua falada por escrito. E mais: ela varia. O internetês é uma das formas. Há também o miguxês, o geek chic, o português coloquial e muitas outras. Basta notar que não se escreve do mesmo jeito no chat, no msn, nos blogs, no Orkut, nos sites e no Twitter, por exemplo.

Internetês é simplificação?

Uma das críticas mais recorrentes é a de que essas variações menos “cultas” seriam a prova da falência educacional e estariam sendo usadas por jovens que ficaram de fora da cultura letrada. Não é o que indicam as pesquisas: o internetês é usado também por alunos das melhores escolas e por universitários de cursos de prestígio. Como se pode afirmar que um tipo de escrita, num meio de comunicação dominado pela escrita, seria a prova do fim da cultura letrada?

Outro ponto frequentemente levantado é o da simplificação da língua praticada pelo internetês e o miguxês. Novamente aí erram os críticos. De fato, há abreviações e siglas, mas também o oposto, formas de grafar as palavras, expressões e símbolos mais complexos do que a norma padrão. Por exemplo, a nasalização ou a ênfase de certas síladas, como em “bejaum” e “naum”, repetição de maiúsculas para representar alteração de voz, o uso da pontuação como ênfase, gestual ou entonação, a inclusão de emoticons e personagens – e aqui cabe uma observação: alguns teóricos consideram esses símbolos, dentro do contexto em que são usados, como palavras. O que se nota é que há regras estabelecidas seguidas pelos usuários e não, como se crítica, um “vale-tudo”. Isso se chama “gramática”.

Pode o internetês afetar a língua portuguesa? É muito cedo para saber. O que já se levantou em estudos é que o vocabulário possui apenas cerca de 20% de palavras grafadas de modo diferente da língua padrão, o que pode indicar que não é uma variação tão “danosa” assim. Além disso, vale lembrar que nenhum jovem aprende o idioma através da internet, nenhum se alfabetiza pela internet e nenhum interage exclusivamente pela internet.

Desplugado, o jovem certamente não escreverá do mesmo jeito em uma prova escolar e, se o fizer, saberá que a nota não será lá grande coisa. Da mesma forma com que todos sabemos, inclusive os jovens, que se usa terno em cerimônia de casamento e beca na formatura. Mesmo que seja com piercing e gravata estampada com Ben10.

O problema desse tipo de crítica é tomar como pressuposto que exista uma língua “pura”, “correta” e imutável. Não existe. Ou ainda há alguém por aí que chama os outros de “Vossa Mercê”?

Se nenhum argumento em defesa do internetês serviu, apelo para um último: pesquisas indicam que crianças e adolescentes que usam as ferramentas da internet têm mais confiança em sua habilidade de escrever. E nunca os jovens se interessaram tanto pela escrita quanto agora.

Nota de 05/02: a "tribo". O André, aqui do YuBliss, e outras pessoas mencionaram a questão do reconhecimento dos membros do grupo através do uso do internetês. Tal como a gíria ou o jargão, essas formas de escrita da internet são fatores de auto-afirmação e status dos participantes de uma determinada "tribo". Também servem para identificar quem é "de fora" do grupoNão mencionei porque o texto estava um tijolão de grande, mas fica aqui a observação.

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24 comments


Visitor
Interessante sua abordagem, que busca superar a visão preconceituosa da língua. Mas como você deixa sugerido, a adequação ao contexto de qualquer variação linguística deve ser considerada. E, como "o hábito faz o monge", deve-se cuidar para que os excessos do uso dessas variantes "internéticas" (se me permite o neologismo) não nos internem na ética exacerbada de defendermos nosso lado sem olhar os demais. Quem defende a língua padrão também pode ter suas cem razões, mesmo que sem razão alguma na ótica do outro. Grande abraço! Visite-nos mais no blog "Os Invicioneiros" e conheça o "Poetopias".
4 months ago
Visitor
Bela reflexao, mulan! Espero que o internetes fique na internet, porque o portugues que escreves, por exemplo, eh taum lindo....;-) beijaum!
4 months ago
Visitor
Lilian, seus textos são maravilhosos ! Muitas vezes, nós professores, nos encontramos a criticar essa forma de comunicação, que surgiu pela necessidade, antes achávamos que seria realmente a destruição da língua. Felizmente a língua falada e escrita também são mutáveis e dentro de alguns contextos a mudança é essencial para a aceitação nos grupos sociais, como por exemplo, as gírias específicas de cada grupo que são acompanhadas de modos de se vestir e
de andar.O modo de escrever é apenas mais uma maneira de se adaptar à vida. Quanto às músicas em inglês ou de outros idiomas (alguém aí comentou), jamais pensei que isso interferiria na construção da língua, pelo contrário, é um serviço a favor do aprendizado de novas formar de comunicação, pois o aprendizado também se dá pela escuta....e quem é que pode dizer que nunca usou o inglês básico, o espanhol básico, ou o italiano, p.ex., usando palavras que aprendeu nas músicas ? Ou podemos estudar mais profundamente os Sumérios e retomarmos a escrita cuneiforme***** (acho o internetês mais fácil)
Beijos - Hilda
4 months ago
Lílian
Tavo brincando com vc, Pedro! :))
4 months ago
Pedro
Lilian, desculpe a ignorância.

errata: onde se lê "Parabéns por essa pérola de texto, Lilian. Escreva sempre, por favor. "

leia-se:
"Parabéns por essa pérola de texto, Lilian. Escreva sempre aqui para nós do YB, por favor."
4 months ago
Visitor
Muito bom o texto.

O importante, acredito eu, é que cada dia mais, as pessoas encontre formas de se comunicar, adaptando ou não línguas.
Imagine, se não existisse o "internetês" ou alguma outra forma que encontraram de escrever desde nossos antepassados? Aí diríamos que não estamos evoluíndo! :)

Abraços a todos.

Junior.
4 months ago
Lílian
Pedro, eu escrevo quase sempre, tá? Não faço outra coisa da vida há muito tempo. Uél, leio também. E falo mais que a boca. E assisto aula (uma espécie de vício). :)). Agradeço muito o elogio. Adoro! He, he...
Mas, voltando à vaca fria, talvez o internetês nunca chegue a afetar significativamente a língua. Talvez amanhã esteja tão aposentado quanto o hábito de cheirar rapé.
4 months ago
Lílian
Oi, visitante aí abaixo: nos anos 70/80 se escreveu tanta coisa boa... :))

Chico, vc tem toda razão. Na fala, que é onde as mudanças na língua começam, todo mundo fala "cê" no lugar de "você". :)

AA! "Supimpa"? Pronto, achei alguém que talvez ainda use "Vossa Mercê". Sodade de tu tb, mugixa bj abs...
4 months ago
Visitor
ótimo. uma vez, ainda no começo do miguxês, entrevistei carlos heitor cony e lhe perguntei sobre isso. ele respondeu que pouco importava se osso estava escrito com dois esses ou com cedilha - o importante era que a juventude estava se comunicando mais. durante um tempo, na década de 70/80 os jovens esticavam dedões e diziam, uns aos outros: e aí? beleza? - e o outro respondia: beleza!
comunicação era isso. evoluímos.
:>)
4 months ago
chico abelha
"Curioso é que Vossa Mercê virou Você que virou vc e nem imagino o que virá a seguir, se é que algo será possível depois."

Pedro, acho que em seguida virá c, simplesmente... se é que já não estão usando isso e a gente nem sabe.
4 months ago
Visitor
Lílian, supimpa! Texto obrigatório para todos os Vigilantes Rodoviários do Idioma. Ósculos e amplexos (eheh). E sodade.
AA
4 months ago
Pedro
Parabéns por essa pérola de texto, Lilian. Escreva sempre, por favor.

Acho que a WEB ainda não chegou a uma massa crítica de usuários suficiente para significar algum perigo à língua pátria. Mas vai chegar. Estamos hoje beirando os 200 milhões de habitantes e que entram frequentemente na Internet não chegam a dez por cento disso. Não vejo como esse percentual possa influir para significar alguma possibilidade de alteração por mínima que seja no Português corrente. Até que isso aumente significativamente a ponto de começar a influir, teremos tempo suficente para estudar o fenômeno. Curioso é que Vossa Mercê virou Você que virou vc e nem imagino o que virá a seguir, se é que algo será possível depois.

4 months ago
Lílian
Chico, muito legal essa sua habilidade. Se eu fosse arriscar um internetês, tenho certeza de que ficaria parecida com a mamãe, que ainda solta um "fulano é um pão" até hoje. :)) Então, fico aqui com meu português "arcaico". Tá chamando too mundo pra ler? Uau... adorei. Tks.

Marion, eu também não sou adepta e confesso que tenho uma certa má vontade pra ler, porque ainda exige um certo esforço. :) Coisa de véia.
4 months ago
Visitor
Amei o texto! ^^
Ri mtu com o ''portugues arcaico"
Sou suuper a favor do internetes!
4 months ago
marion
Não sou adepta do internetês mas acho que tudo faz parte da lingua viva. É assim mesmo, o velho dá lugar ao novo que fica velho e assim por diante.
4 months ago
chico abelha
Lilian, ainda bem que convivo com gente jovem que me atualiza em relação, não só ao internetês, mas tbm as gírias que rolam por aí.
Acho muito importante para a minha comunicação, pois falo com gente de diversas origens, que eu de uma certa forma saiba um pouco da língua do meu interlocutor. Não sei se porque desde pequeno vi minha mãe fazer isso, eu mudo com naturalidade de um sotaque para outro. Acho isso fantástico, quebro barreiras instantâneamente!
Se eu quero viver com totalidade o mundo hoje, é um must saber o internetês.
Seus textos são ótimos, Lílian, gosto muito deles! Estou chamando todo mundo pra ler.
Bj!
4 months ago
Lílian
Cristiano, não acho que o português seja difícil. Afinal, aprendemos todos desde pequenininhos, né? :)) E também não acho que as músicas americanas façam mal à língua pátria. No século XIX, falavam isso do francês... Hoje usamos palavras incorporadas do francês e ninguém se importa com a conspurcada pureza da língua.
4 months ago
Lílian
Ao visitante abaixo: "que fique por aí", em se tratando das línguas, nunca funciona. :) Na sala de aula, cabe ao professor ensinar que cada norma do português tem circunstância adequada para ser usada. Já no mercado de trabalho, acho difícil que algum jovem se meta a besta de escrever currículo em internetês sem saber que está passando por cima de uma convenção.
4 months ago
Visitor
Usado na internet, para facilitar o envio de e-mails, se comunicar com amigos, o tal internetês é uma bênção, mas que fique por aí. O que atrapalha muitos jovens hoje em dia é o fato de levar esta nova linguagem para as salas de aula e pior ainda, ingressar no mercado de trabalho com este vocabulário cibernético.
4 months ago
CRISTIANO MANCUSO
olha
tenho um excelente portugues.
mais mal do que as musicas americanas fazem às nossas crianças?
sendo que temos excelentes sambas como os de CARTOLA?
isso, sim, diminui a nossa cultura da língua...
agora, simplificar na internet e no celular é uma necessidade, ainda msi o celular...
situações corriqueiras fazem com que essas ações mecâncias sejam eficazes- e são realmente...
ponho uma certa culpa na nossa língua, que- embora lindíssima- é a mais chatinha e complexa dos idiomas ocidentais.....
isso tb é uma causa para as dificuldades de aprendizado...
se fossemos colonizados pela língua inglesa, pensaríamos: "poxa, que bom que essa língua é extremamente simples"
é uma questão, em grande parte, da PRÓPRIA LÍNGUA em si
4 months ago
CRISTIANO MANCUSO
olha, eu tenho um excelente portugues, diga-se de passagem.
e escrevo bem kjlnbjklbdjkb prático o INTERNETÊIS...
mais mal do que fazem as músicas inglesas ao nosso povo?
sabendo q
4 months ago
Ofélia Maria
Lílian, conheci muitos alunos poliglotas: internetês e "português arcaico". Eram excelentes alunos e sempre plugados. Acho incrível que muitos professores ainda considerem o internetês a morte da língua portuguesa, quando na verdade é uma demonstração de que a língua está viva e muito viva.
4 months ago
Visitor
Lilian
Blz. rsrsrs Mas também pode ser um srs. Talvez um tanto bzr. Beijaum.
Adriana
4 months ago
Visitor
Nhac, nhac, nhac... os emoticons são nossos hieróglifos!
Assumiram a língua como "pura", "correta" e "imutável" como houve uma época, em outra área, que assumiram que a Física Newtoniana era a resposta para tudo...
4 months ago

YuBloggers

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