“Foi legau falah kom vc...... t+...... a genti c ve por aih......”. Entendeu? Vou tentar de novo: “foi LegaU fAlaH kum VUxXxE...... T+...... A gENti SI Ve POR AiH......”. Piorou? Nem esquente a cabeça: eu também tenho preguiça de ler internetês e tá cheio de gente que não consegue ler Guimarães Rosa e José de Alencar.
A comparação parece uma heresia? Talvez esse diálogo dê umas pistas sobre o que está acontecendo com a língua materna:
Pesquisador: Você usa o internetês na escola?
Aluno: Não, só na internet. Nos outros lugares, a gente usa o português arcaico.
O diálogo é inventado, mas a expressão “português arcaico”, usada por um jovem estudante para se referir à norma culta, apareceu em um trabalho acadêmico sobre o internetês. É engraçado e faz a gente se sentir velha, mas tem sentido: a língua muda o tempo todo e, no espaço de uma geração ou no curto tempo de duração de uma gíria da moda, nossa forma de falar e escrever já está ficando “antiga”.
Ainda assim, todas as vezes em que se deparam com mudanças, os indignados do idioma levantam os dedos e as vozes, anunciando a “morte da língua portuguesa”. Ultimamente, o internetês têm sido a causa apontada para a degradação do português. E não é nada disso.
Nos meios de interação on line, as pessoas tendem a simular a língua falada na escrita. Um dos estudos mais interessante que li a respeito mostra que entre a língua escrita e a falada não há uma linha, mas um plano, um continuum, em que optamos por mais ou menos formalidade e por diferentes estratégias de comunicação. Trocando em miúdos: a gente sabe que há um jeito adequado para escrever um editorial de jornal ou um bilhete para a mãe, proferir um palestra ou deixar um recado na correio de voz do namorado. Podemos dizer que o bilhete para a mãe, apesar de ser escrito, tem mais “parentesco” com a mensagem na secretária eletrônica do namorado do que com o editorial do jornal.
Nesse continuum, a língua usada na interação pela net é algo como a língua falada por escrito. E mais: ela varia. O internetês é uma das formas. Há também o miguxês, o geek chic, o português coloquial e muitas outras. Basta notar que não se escreve do mesmo jeito no chat, no msn, nos blogs, no Orkut, nos sites e no Twitter, por exemplo.
Internetês é simplificação?
Uma das críticas mais recorrentes é a de que essas variações menos “cultas” seriam a prova da falência educacional e estariam sendo usadas por jovens que ficaram de fora da cultura letrada. Não é o que indicam as pesquisas: o internetês é usado também por alunos das melhores escolas e por universitários de cursos de prestígio. Como se pode afirmar que um tipo de escrita, num meio de comunicação dominado pela escrita, seria a prova do fim da cultura letrada?
Outro ponto frequentemente levantado é o da simplificação da língua praticada pelo internetês e o miguxês. Novamente aí erram os críticos. De fato, há abreviações e siglas, mas também o oposto, formas de grafar as palavras, expressões e símbolos mais complexos do que a norma padrão. Por exemplo, a nasalização ou a ênfase de certas síladas, como em “bejaum” e “naum”, repetição de maiúsculas para representar alteração de voz, o uso da pontuação como ênfase, gestual ou entonação, a inclusão de emoticons e personagens – e aqui cabe uma observação: alguns teóricos consideram esses símbolos, dentro do contexto em que são usados, como palavras. O que se nota é que há regras estabelecidas seguidas pelos usuários e não, como se crítica, um “vale-tudo”. Isso se chama “gramática”.
Pode o internetês afetar a língua portuguesa? É muito cedo para saber. O que já se levantou em estudos é que o vocabulário possui apenas cerca de 20% de palavras grafadas de modo diferente da língua padrão, o que pode indicar que não é uma variação tão “danosa” assim. Além disso, vale lembrar que nenhum jovem aprende o idioma através da internet, nenhum se alfabetiza pela internet e nenhum interage exclusivamente pela internet.
Desplugado, o jovem certamente não escreverá do mesmo jeito em uma prova escolar e, se o fizer, saberá que a nota não será lá grande coisa. Da mesma forma com que todos sabemos, inclusive os jovens, que se usa terno em cerimônia de casamento e beca na formatura. Mesmo que seja com piercing e gravata estampada com Ben10.
O problema desse tipo de crítica é tomar como pressuposto que exista uma língua “pura”, “correta” e imutável. Não existe. Ou ainda há alguém por aí que chama os outros de “Vossa Mercê”?
Se nenhum argumento em defesa do internetês serviu, apelo para um último: pesquisas indicam que crianças e adolescentes que usam as ferramentas da internet têm mais confiança em sua habilidade de escrever. E nunca os jovens se interessaram tanto pela escrita quanto agora.
Nota de 05/02: a "tribo". O André, aqui do YuBliss, e outras pessoas mencionaram a questão do reconhecimento dos membros do grupo através do uso do internetês. Tal como a gíria ou o jargão, essas formas de escrita da internet são fatores de auto-afirmação e status dos participantes de uma determinada "tribo". Também servem para identificar quem é "de fora" do grupo. Não mencionei porque o texto estava um tijolão de grande, mas fica aqui a observação.
27 comments
de andar.O modo de escrever é apenas mais uma maneira de se adaptar à vida. Quanto às músicas em inglês ou de outros idiomas (alguém aí comentou), jamais pensei que isso interferiria na construção da língua, pelo contrário, é um serviço a favor do aprendizado de novas formar de comunicação, pois o aprendizado também se dá pela escuta....e quem é que pode dizer que nunca usou o inglês básico, o espanhol básico, ou o italiano, p.ex., usando palavras que aprendeu nas músicas ? Ou podemos estudar mais profundamente os Sumérios e retomarmos a escrita cuneiforme***** (acho o internetês mais fácil)
Beijos - Hilda
errata: onde se lê "Parabéns por essa pérola de texto, Lilian. Escreva sempre, por favor. "
leia-se:
"Parabéns por essa pérola de texto, Lilian. Escreva sempre aqui para nós do YB, por favor."
O importante, acredito eu, é que cada dia mais, as pessoas encontre formas de se comunicar, adaptando ou não línguas.
Imagine, se não existisse o "internetês" ou alguma outra forma que encontraram de escrever desde nossos antepassados? Aí diríamos que não estamos evoluíndo! :)
Abraços a todos.
Junior.
Mas, voltando à vaca fria, talvez o internetês nunca chegue a afetar significativamente a língua. Talvez amanhã esteja tão aposentado quanto o hábito de cheirar rapé.
Chico, vc tem toda razão. Na fala, que é onde as mudanças na língua começam, todo mundo fala "cê" no lugar de "você". :)
AA! "Supimpa"? Pronto, achei alguém que talvez ainda use "Vossa Mercê". Sodade de tu tb, mugixa bj abs...
comunicação era isso. evoluímos.
:>)
Pedro, acho que em seguida virá c, simplesmente... se é que já não estão usando isso e a gente nem sabe.
AA
Acho que a WEB ainda não chegou a uma massa crítica de usuários suficiente para significar algum perigo à língua pátria. Mas vai chegar. Estamos hoje beirando os 200 milhões de habitantes e que entram frequentemente na Internet não chegam a dez por cento disso. Não vejo como esse percentual possa influir para significar alguma possibilidade de alteração por mínima que seja no Português corrente. Até que isso aumente significativamente a ponto de começar a influir, teremos tempo suficente para estudar o fenômeno. Curioso é que Vossa Mercê virou Você que virou vc e nem imagino o que virá a seguir, se é que algo será possível depois.
Marion, eu também não sou adepta e confesso que tenho uma certa má vontade pra ler, porque ainda exige um certo esforço. :) Coisa de véia.
Ri mtu com o ''portugues arcaico"
Sou suuper a favor do internetes!
Acho muito importante para a minha comunicação, pois falo com gente de diversas origens, que eu de uma certa forma saiba um pouco da língua do meu interlocutor. Não sei se porque desde pequeno vi minha mãe fazer isso, eu mudo com naturalidade de um sotaque para outro. Acho isso fantástico, quebro barreiras instantâneamente!
Se eu quero viver com totalidade o mundo hoje, é um must saber o internetês.
Seus textos são ótimos, Lílian, gosto muito deles! Estou chamando todo mundo pra ler.
Bj!
tenho um excelente portugues.
mais mal do que as musicas americanas fazem às nossas crianças?
sendo que temos excelentes sambas como os de CARTOLA?
isso, sim, diminui a nossa cultura da língua...
agora, simplificar na internet e no celular é uma necessidade, ainda msi o celular...
situações corriqueiras fazem com que essas ações mecâncias sejam eficazes- e são realmente...
ponho uma certa culpa na nossa língua, que- embora lindíssima- é a mais chatinha e complexa dos idiomas ocidentais.....
isso tb é uma causa para as dificuldades de aprendizado...
se fossemos colonizados pela língua inglesa, pensaríamos: "poxa, que bom que essa língua é extremamente simples"
é uma questão, em grande parte, da PRÓPRIA LÍNGUA em si
e escrevo bem kjlnbjklbdjkb prático o INTERNETÊIS...
mais mal do que fazem as músicas inglesas ao nosso povo?
sabendo q
Blz. rsrsrs Mas também pode ser um srs. Talvez um tanto bzr. Beijaum.
Adriana
Assumiram a língua como "pura", "correta" e "imutável" como houve uma época, em outra área, que assumiram que a Física Newtoniana era a resposta para tudo...