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É feito de palavra tudo o que não é carneE também a carne é palavra
Carne, palavra densa moldada ao toque
E o toque é palavra
A parte que me toca é a palavra no moedor de carne que dá a palavra que toca ao outro
E o outro é ele mesmo palavra
Este poema foi publicado na revista Filosofia, Ciência & Vida número 47, de junho de 2010, no Encarte do Professor, acompanhando matéria sobre filosofia da linguagem, de Ofélia Marcondes, reproduzido parcialmente abaixo:
Encontrei no blog Mal traçadas um poema de Lílian Honda que me fez pensar na questão da linguagem:
(...) Poderíamos dizer que esta dicotomia carne/palavra é apenas didática, pois pensamento e linguagem nos parecem uma única coisa quando pensamos que a linguagem organiza o pensamento numa relação dialética na qual a linguagem só se constitui por que há pensamento. A própria consciência é linguagem e nomeamos nossa existência para que possamos compartilhar significados.
No poema, “o outro é ele mesmo palavra” significa que só temos consciência de nossa existência nesta relação com o outro. Nós dizemos ao outro quem ele é e ele nos diz quem somos. Esta mesma discussão cabe quando propomos a reflexão sobre o sujeito da ação que somos: nos entendemos como sujeitos porque somos objeto de conhecimento do outro.
Quando Lílian Honda fala “É feito de palavra tudo o que não é carne/E também a carne é palavra” nos parece claro que nessa categoria “palavra” se encontra tudo que está no imaterial: sensações, percepções, memória, emoções, imaginação, vontade e que estão, ao mesmo tempo, encarnadas na existência do próprio homem, portanto na carne que, no verso seguinte, se justifica, pois carne é palavra, não só na junção das letrinhas c-a-r-n-e, mas na própria base do pensamento sobre a existência.
Refletindo sobre: “palavra densa moldada ao toque”, “a parte que me toca é a palavra no moedor de carne” e “a palavra que toca ao outro”, fazemos um esforço de compreensão sobre o trabalho que realizamos ao burilar as palavras na construção de um texto, assim como burilamos o pensamento na constituição de nossa própria existência. A palavra é moldada por aquele que a utiliza ao mesmo tempo em que é moldada por aquele que a interpreta. Esta interpretação é social porque partilhamos de um universo comum de significados. O outro é tocado pela palavra na medida em que nos constituímos socialmente, só somos sujeitos na relação com outros sujeitos.
A riqueza do uso do verbo tocar pela poeta nos permite refletir sobre o tocar como um fazer humano: “E o toque é palavra”, no sentido de que todas as nossas relações se dão no plano simbólico. O verbo tocar nos remete a algo físico, mas que é pensamento, portanto linguagem.
Todo o poema acaba trazendo uma reflexão sobre a própria arte de escrever um poema que tece, ao mesmo tempo, a existência do poeta. Carne e palavra se tornam expressão desta existência, deste ser poeta.
Para Wittgenstein, “a questão “o que é realmente uma palavra?” é análoga a “o que é uma figura de xadrez?”” Isto porque a palavra é elemento dos jogos de linguagem. Estes jogos são objetos de comparação para que possamos clarear as relações existentes entre palavra e significado. Esses jogos de linguagem nos permitem uma articulação intermediária de significados, pois não “temos uma visão panorâmica do uso de nossas palavras” , nossa visão panorâmica é “nossa forma de representação, o modo pelo qual vemos as coisas” . Usamos as palavras como forma de representação, sendo que o mais importante na palavra não é a própria palavra, mas a significação, que é social. A “palavra significa a explicação que dermos de sua significação” , ou seja, é a explicitação do uso que fazemos de tal palavra neste jogo de linguagem que realizamos no próprio convívio social.
Uma mesma palavra pronunciada ou escrita pode ter vários significados, por exemplo: manga. O que eu disse? Manga. Sem um contexto ou sem uma explicação do uso que faço da palavra manga, meu interlocutor pode não compreender a que me refiro: manga de camisa? Fruta? Esse uso da palavra manga deve ser explicitado no contexto de seu uso ou na explicação de seu uso. Portanto, não é a palavra em si mesma o que é mais importante, mas a significação social e explicitada do uso que dela fazemos. (...)
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11 comments
eta casa abençoada, rs!!!
bjs
"A palavra é moldada por aquele que a utiliza ao mesmo tempo em que é moldada por aquele que a interpreta".
múltiplos os significantes.
Não deixa a escrita se esconder no burburinho de um tempo que quase não senta. Não deixa, é raro isso aqui!
bjs
"A palavra é moldada por aquele que a utiliza ao mesmo tempo em que é moldada por aquele que a interpreta".
múltiplos os significantes.
Não deixa a escrita se esconder no burburinho de um tempo que quase não senta. Não deixa, é raro isso aqui!
bjs
Parabéns pela estreia.
cunhadinha
Ops, desculpe o "trocadalho"!
O Coisa
http://coisafilosofica.blogspot.com/