
É interessante como essa coisa de personagens e identidades anda pairando em minha cabeça.
Ontem estava me deliciando no blog de Gustavo Gitti “Nâo2Não1”, quando me deparei com uma parte de seu post:
"O ponto é: sua namorada não é sua namorada, sua esposa não é sua esposa. Muito antes de ser sua namorada, ela foi namorada de outros, com os quais agia diferente, pensava diferente, sorria diferente, transava * diferente. Muito antes de ser namorada, ela é filha. Antes de ser filha, é mulher. É aluna, professora, jogadora de basquete, mestre em psicologia. Ou dentista, praticante de ioga, vocalista.
Ela é a liberdade de ser várias, cada uma com configurações corporais, expressões, movimentos, pensamentos específicos. Ela se conjuga sempre no plural. É um hardware sempre expansível com um software atualizado minuto a minuto...
...Para cada mulher em nossa mulher, para cada identidade que não é a namorada ou a esposa, podemos gerar um amante específico. Podemos envolvê-la sem que ela abandone uma identidade para virar “a nossa namorada as we know it“.
Podemos ir até seu trabalho e seduzir a identidade que brota dentro do escritório. Conquistar a menininha que surge quando a família está ao redor. A mulher poderosa quando desce do palco depois de um show ou de uma palestra. A garota *** que sai pra dançar quando está irritada com você. A velha desanimada e reclamona quando encontra a casa suja. A serelepe de cabelo preso do grupo de amigas da faculdade. A doutoranda aplicada lendo Foucault no sofá. A mãe, a massagista, a designer, a blogueira, a garota da academia, faxineira, a meditante, a turista…"
Uma coisa me deixou em alerta nesse texto foi: o quanto estamos ausentes dos papéis que desempenhamos diariamente, o quanto deixamos de explorar milhares de tantas outras facetas simplesmente por que vestimos uma determinada que consome nossa atenção e energia. Elas são tão necessárias! Todas elas!
Comecei então a tirar as máscaras do armário e me dei conta que tenho explorado muito pouco a capacidade lúdica, o desejo de brincar de atuar por que uma determinada identidade tem imperado, decidido e conduzido enquanto tenho me deixado levar por somente essa possibilidade de ver e sentir, logo eu que tenho uma tremenda facilidade de mudar as coisas!
Algumas identidades se tornam enraizadas em seus conceitos, preconceitos e de repente me pego como uma velha quando almejo ser uma criança. Essas identidades nos trazem tristeza, uma visão da feia vida, sem compromisso com a beleza, sempre justificando que ela precisa ser realista, fazendo com que nosso coração se torne um lugar seco, árido, infrutífero. Essas são horas determinantes onde não só posso, como devo mudar, mais um minuto nesse estado e estarei sufocada e soterrada pelo desamor.
Então de forma deliberada trago à toma a criança alegre, a jovem destemida e vou passeando por cada faceta que criei ao longo dessa jornada. Algumas empoeiradas, outras me dão certo desconforto e entendo que eu mesma impus limites à sua expressão, explorei muito pouco seu potencial, daí percebo que ainda carrego alguns desses muros dentro de mim. Ainda estão levantados, floreados, mas ainda muito certos de sua convicção de muros, muitos certos de sua necessidade de separar e reprimir. Quando olho à distância percebo várias destas identidades tentando transpassar esse mesmo muro, mas ele é muito leal a sua função, recebe alimento diário mantendo sua sustentação.
Uma coisa que consegui aprender nesse caminho de busca de Consciência é que quando enxergo um ponto que até então estava subtendido, escondido e disfarçado é por que seu tempo de vida acabou, ele não me serve mais. Mediante tal ultimato, ele se expõe para mim numa dança de adeus, agradeço a quantidade de oportunidades que criei e vivi dentro dos seus limites e permito que ele se desfaça junto que com todas as convicções que carregava.
Aprendemos que limites são bons e necessários, mas esquecemos que algumas partes de nós precisam tão somente de liberdade para viver, se descobrir e criar probabilidades que desconhecemos de nós mesmos.
9 comments
PARABÉNS, mesmo!
Brás Raphael
Que bom Cristiano!
Que tipo de pensamentos rolaram por aí Munik? Se é que posso saber, rs!
temos que estudar, mais
não podemos PARAR..
mas MEU DEUS:
se não pararmos, COMO acessaremos nossas outras identidades?
sim, pois é necessário SILENCIAR...
não se troca de identidade assim, tão sem mais nem menos...
é preciso se auto-sugestionar em prol de uma face mais leve e espontânea....
sorte a minha de trabalhar num local em que posso ser EU MESMO- entendendo que esse eu mesmo é ser espontâneo...
não tenho grandes pressões de chefia, de modo que sou um privilegiado...
NÃO PODEMOS DEIXAR AS OBRIGAÇÕES AFAGAREM NOSSAS IDENTIDADES MAIS ESPIRITUAIS... AQUELAS QUE MAIS DIZEM SOBRE NOSSO ESPÍRITO.
Brás Raphael.