Tarot Bliss Luminar


http://famouswonders.com/pokhara/


     Quando chegamos em Pokhara, o bus parou alguns metros antes da entrada e todos desceram correndo. Fizemos o mesmo, sem entender nada, e aí tivemos que correr de volta ao bus, após ele ter passado a cancela. Era algo tão patético, que gargalhávamos enquanto corríamos. Aparentemente, por razões que só a burocracia universal saberá explanar, o ônibus não podia entrar na cidade lotado. Só que a cancela ficava ainda um pouco longe do que era o genérico de rodoviária e nosso ponto final, daí o ter que subir de volta. Coisa de louco mesmo.


      Nosso guia procurou um táxi e partimos rumo ao hotel. No meio do caminho, o Louco resolveu aparecer de novo: o carro parou e entraram dois nepaleses no banco da frente, espremidos entre nosso guia e o motorista. Assim, simplesmente: entraram dois sujeitos, pronto. Eu, sem entender nada, minha mãe menos ainda. Muito blábláblá em nepali depois, paramos em frente a uma casinha meio decrépita. Saímos do carro e começou uma discussão animada entre os nepaleses. Como nosso guia não falava nada de inglês, estava difícil entender o que estava acontecendo. Aflito, ele nos fazia sinais, eu arriscava umas palavras em inglês, os dois sujeitos e o motorista sorriam e falavam todos ao mesmo tempo na minha orelha e minha mãe gemia que aquilo era uma barbaridade.


      Exausta, dei um berro, na linha fina: "Parou geral!", em português mesmo. Funcionou e, no silêncio que se abriu, consegui me comunicar por mímica com o guia. Além disso, tendo crescido no Brasil, mesmo uma fresca e tonta como eu aprende a detectar a malandragem de um Mago invertido. Juntando tudo, percebi que os dois sujeitos queriam que a gente se hospedasse naquela casa (que devia ser deles e com a qual ganhavam umas rúpias por fora). Nosso guia insistia em que a gente tinha que ir para a pousada que tinham lhe indicado. E era evidente que era exatamente isso o que eu iria fazer, mas para não piorar a situação, que já era pirada por si só, falei que ia ver a casa e que se eu não gostasse eles iam nos levar onde nosso guia ordenasse, imediatamente. Todos aquiesceram, falei pra minha mãe ficar boazinha no táxi e lá fui eu.


      Era uma casinhola periclitante, um quarto minúsculo com chão de terra batida, dois catres de madeira e palha e uma janela tão ínfima no alto que mais parecia um cativeiro. Ainda por cima, tudo pintado daquele azul-céu deprimente que a gente vê em cemitério do interior. Saí ventando e dizendo "No!". A trupe toda rapidamente aboletou-se de novo no carro e nosso guia indicou o caminho para a pousada. Dei uma gorjeta aos três nepaleses malucos, agradeci a sugestão e me livrei deles. Agradeci imensamente ao guia, tentei lhe dar um dinheiro, mas ele recusou. Então perguntei se ele queria ficar ali uma noite, ao que ele sorriu e respondeu com trejeitos de quem diz "Mas, minha senhora, que que é isso? Não pega nem bem...". Saudou-nos com um namastê gentilíssimo e se mandou, andando, de volta às montanhas. Ele era tão educado, tão elegante, tão gentil, tudo que minha mãe mais prezava, que ela ficou olhando-o ir embora com olhos comovidos e pensei que, quem sabe, em outra encarnação esses dois talvez pudessem vir a se encontrar de outro jeito.

 

http://www.squidoo.com/what-to-see-and-do-in-pokhara-nepal

 

      Finalmente, nos registramos e fomos para o nosso quarto. Apesar de simples, aquilo era uma visão Ali Babá, naquela altura dos acontecimentos: tinha camas de verdade, com travesseiros e cobertores bons, dois (!) abajures e um banheiro com água quente (que funcionava!) e tudo imaculadamente limpo. Almoçamos muito bem no restaurante do hotel, minha mãe foi desabar numa siesta merecida e eu fui dar uma volta. Caminhei pela rua cheia de restaurantes, pousadas, cachorros e lojinhas, tudo com cara de Vila Madalena, da antiga Vila Madá. Um hippie estiloso, colorido, simpático e acessível - e absolutamente ninguém apressado, em lugar algum. Voltando à pousada recebi o impacto de ver, atrás dela, no alto, mas não tão longe assim, o pico Machapuchare, todo cor de rosa e laranja pela luz do fim da tarde. Lembro de ficar repetindo, abobalhada, "Gente, como o mundo é bonito!... Como é bonito!...".

 

http://dadirridreaming.wordpress.com/2011/11/14/weekly-photo-challenge-wonder/

 

 

      Como seu lago, Pokhara foi pura Temperança, a minha Temperança. Um oásis de tranquilidade, uma calma renovadora de energia e de esperança, algo muito especial. Levei quase dez anos para encontrar esse mesmo tipo de paz em outro lugar. Ficamos ali uma semana. Compramos colares, zanzamos, conversamos com os moradores, lemos à beira do lago, sossegamos a mente e respiramos. Bom, também investi em alguns rapazes hospedados no hotel, afinal não há nada de errado em se divertir um pouco com as coisas mais mundanas também, oras. Finalmente, decidimos voltar para Kathmandu e ficar passeando por lá, esperando a volta do grupo.

 

 

http://www.ithinknot.us/phase_2/photo_pages/rtw_photos/nepal-pokhara.htm

 


      Fui atrás de procurar uma alternativa de transporte que não fosse um bus, pois, com o estado da estrada, ele levava algo como dezenove horas para chegar em Kat. Conversando com o gerente da pousada, ele sugeriu uma beni. Evidente, eu não sabia o que era uma beni e ele tampouco conseguia explicar, no seu mix de nepaglês. Afinal, recorri a um método tão ancestral quanto a mímica, como bem atestam as paredes nas cavernas de Lescaux: desenhar. O gerente riscou uns traços que lembravam um pão pullman pequeno e a luz se fez: era uma kombi! Ok, a viagem era de umas oito horas, então uma kombi era pior que um carro, mas bem melhor que um bus. Ótimo, iríamos de kombi. Claro, o gerente tinha um cunhado, primo ou sobrinho que tinha uma kombi e que ficaria feliz de nos levar a Kat pela módica soma de... Cem dólares. Uau. Cem dólares, ali, era uma fortuna, mas não houve acordo: cem dólares ou neca de pitibiribas, como se dizia no século passado. A úlcera da minha mãe vinha dando o (por hora) sutil ar da graça, então topamos.


      Passo por cima das próximas nove horas, sacolejando dentro de uma kombi cuja suspensão tinha tido seu auge provavelmente em 1972, num estrada com pedras e buracos imensos a cada vinte metros. Saímos às oito da manhã e chegamos, detonadas, ao cair da tarde. Nos jogamos no quarto e só rastejamos para fora dele à noite, para jantar. Por algum passe de mágica muito estranho, descobrimos (ou percebemos?) que havia um restaurante chinês maravilhoso ao lado do nosso hotel. As razões pelas quais nunca o havíamos visto antes, é coisa que computo aos mistérios divinos. O fato é que jantamos uma comida chinesa sensacional (e que não tem absolutamente nada a ver com esses delivery que hoje temos, claro).

 

http://www.tourdechina.cn/China-Culture/Chinese-Food.html

 

      O grupo voltou depois de alguns dias, falantes e felizes por poderem nos dizer (ou não seriam humanos) o quanto havíamos perdido de sensacional, embora mais tarde alguns tenham nos dito, extra oficialmente, que se arrependeram de não ter ido embora também, porque sua exaustão tinha atingido níveis intoleráveis. E, como ninguém ia mesmo chegar tão perto assim do topo, para dizer que o esforço tinha sido compensado pela visão da neve aos pés de um dos picos mais altos do mundo etc, a verdade é que o resto do caminho tinha sido mais ou menos como aquele primeiro dia, sem nada de muito espetacular ou diferente do que já havíamos visto.


      O ser humano é um exagerado, para bem ou para mal, de modos que não acreditei em nenhuma das versões, então apenas continuei contente por ter conseguido detectar bem o que eu sentia e ter conseguido ser fiel a isso, pois, embora nem sempre fácil de discernir na bagunça mental, esse é o farol mais correto a seguir: a luz do Eremita, nossa bússola pessoal, que só cintila quando a enxergamos e que nos leva exatamente aonde temos que ir. Afinal, se eu não tivesse ido embora do trekking, não teria conhecido Pokhara, minha amada aldeia colorida, que beira um lago imenso, verde-esmeralda e rodeado de plantas, belo e amável feito a paz que o mundo todo um dia foi.

 

http://www.flixya.com/photo/2002016/Beautiness-of-Fewa-lake

 

      Depois de alguns dias de descanso para uns e de compras para outros, era hora de nos despedirmos do Nepal e seguirmos para Agra, na Índia, lar do Taj Mahal.

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KARKINETA -

http://www.nepalyogatrek.com/sirubari-circuit-yoga-trek.php


     Almoçamos à beira do rio, descansamos e começamos a encarar a caminhada, pois dali pra frente seria só subida. De acordo com o guia brasileiro, "era tudo light, coisa pra amadores", então estávamos todos tranquilos. A trilha, agora, era uma via estreita, tendo barranco de um lado e nada do outro, espaço para pouco mais que uma fila indiana que subia e outra que descia. Às vezes, ouvíamos os sinos dos burricos e grudávamos no barranco, porque eles vinham carregados, ocupando a via toda e não muito preocupados com o seu bem estar. Mas eram lindos e aquele som dava à coisa um ar meio bíblico, muito interessante.


http://www.icimod.org/photocontest/2010/govinda-b-shrestha/20100508_053805.jpg.php


      Vi mulheres carregando fardos na cabeça e bebês nas costas, sorridentes, as roupas coloridas e longas tranças balançando. Garotos literalmente rindo e correndo pelo caminho, feito cabritos, à beira do nada. Certos lugares eram menos íngremes e mais largos, pequenos platôs, onde havia alguma casinha de barro, mulheres debulhando grãos na frente, falando e rindo, copos e pratos de metal brilhando lá dentro. Tinha visto algumas delas lá embaixo, areando essa louça de metal com a areia branca do leito do rio e fiquei pensando se todas iam até lá cada vez que tinham que lavar a louça. Descartei a hipótese porque pareceu absurda, mas talvez não seja. A aceitação tranquila de certas limitações, ali, parecia ser mais comum do que o esforço, em alguns casos provavelmente insano, de mudá-las.

 

 

http://www.wateraid200.org/contact.html


      Grande parte da subida era feita de degraus de pedra ou terra. Na média, degraus de uns 20 centímetros de altura, mas alguns eram mais altos. Subir uma escada interminável é algo que começa bem e vai ficando cada vez mais difícil. No começo é simples, dali a um tempo é uma tortura. Depois de algumas horas, para alguns de nós fica simplesmente impossível. Aprendi, com duas moças experientes, a subir em câmera muito lenta, dica que ajuda no sentido do esforço físico, mas psicologicamente piora muito, pois leva-se o triplo do tempo e a cabeça fica berrando "NUNCA VAI TER FIM!! SOCORRO!", pra não dizer o que ela realmente berra. Você vê o sol começar a se por, a luz ir diminuindo cada vez mais e nada de chegar na aldeia onde vai dormir. Na verdade, cada vez que pergunta "Karkineta?" (nosso primeiro destino) a um passante, ele ri e diz "Karkineta? Up, up, up", apontando algo lááá longe (e lááá em cima).


http://robertolacaze.blogspot.com.br/2010/05/de-shivalaya-ate-namche-bazaar-trekking.html


      Começamos a subida por volta das duas da tarde. Às seis, eu estava pinéu. Eram quase sete quando finalmente cheguei na tal aldeia de Karkineta e só o que eu queria, naquele exato momento, era descobrir como cair fora daquela demência. Pensei em descolar um daqueles sinos, amarrar no pescoço e descer montanha abaixo, derrubando o que visse pela frente, feito os burricos do caminho. Afinal, naquele momento, aquela viagem me parecia exatamente isso: uma ideia de jerico.


      Quando consegui respirar normalmente de novo, percebi que alguns componentes ainda estavam chegando, um a um, destruídos, mas ainda tentando aquele sorriso "vamos manter a harmonia do grupo" que me causava impulsos homicidas. Chegaram todos, menos minha mãe. Finalmente a vi chegar, literalmente carregada por um dos carregadores e pelo guia nepalês. Meio chorando, meio tentando se conter, me olhava desesperada, mas sem dizer nada. Fiquei calada, o que, em mim, não é um bom sinal. Jantamos e fomos dormir.


http://www.icimod.org/photocontest/2010/sirish/3.JPG.php


      Eram mais ou menos 2 da manhã, eu olhava o teto e pensava, quando minha mãe sussurrou: "Você está acordada?". Respondi que sim e ela me disse que estava pensando em desistir do trekking. Respondi que eu já tinha decidido ir embora. Ela considerou ser uma pena o que iria deixar de ver, eu respondi que pra mim não adiantava nada, porque eu não conseguia apreciar picas, tendo que fazer um esforço físico tão descomunal. E, além do mais, estava cheio de coisas bonitas no planeta às quais eu nunca teria acesso, por limitações diversas, portanto isso, pra mim, não era assunto.


      De manhã cedo, ela conversou com o guia brasileiro, que disse que o caminho era muito mais fácil, dali pra frente. Levei o guia nepalês pra um canto e perguntei se era verdade. Kalam Sin, adorável ser humano, me olhou e disse que em alguns pedaços, sim, era mais fácil, mas que ele não podia mentir e me dizer que não seria tão cansativo quanto aquele primeiro dia de subida, porque a verdade é que seria, sim. Agradeci e pedi a ele que me ajudasse a ir embora, o que ele prontamente resolveu, destacando um guia nepalês encarregado de me guiar até Pokhara e me instalar numa pousada.




http://www.virtualtourist.com/travel/Asia/Nepal/Things_To_Do-Nepal-TG-C-1.html


     Minha mãe resolveu ir embora também e, enquanto o grupo rumava montanha acima, nós descíamos, aliviadas. Nosso guia não falava uma palavra de inglês, mas era um sonho doce e gentil. A descida levou um terço do tempo e, não sei como, de repente nos vimos numa estrada mais ampla e numa aldeia movimentada, onde o guia descolou uma carona num caminhão, até parte do trajeto. Nos deixou em outra aldeia, onde vimos um ônibus sendo disputado a tapas. O guia nos fez sinal para esperarmos, subiu no teto do bus e literalmente abriu espaço a cotoveladas, nos fazendo, então, sinais imperiosos para que fossemos ocupá-lo. Subimos e ele sorriu, feliz da vida, porque as cotoveladas tinham surtido efeito.


     Começamos a viagem para Pokhara com o sol no rosto, o vento no cabelo e simpaticamente amontoados entre dois escandinavos e vinte nepaleses. A promessa da beleza do lago de Pokhara (e de algum conforto) fez minha mãe dormir sentada, em paz. Já eu engatei num papo agradável, ainda que na linha "Me Tarzan, you Jane", com um dinamarquês.

 

POKHARA -

http://hotelstravelpal.com/Asia/Asia%20South/Nepal/Destinations/Pokhara%20Valley%20Nepal.htm


     De repente, pensei na carta da Roda da Fortuna do tarô e me lembrei das mulheres da montanha, descendo pra lavar a louça. Percebi que realmente, às vezes, é melhor a aceitação tranquila de certas limitações, do que o esforço, no meu caso realmente insano, de superá-las.


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VISTA A CAMINHO DE NAUDANDA

http://goibibo.ibibo.com/indianholiday/nepal/

 


     O dia ainda não havia nascido direito e já estávamos no ônibus que ia nos levar à aldeia de Naudanda, onde dormiríamos e de onde, no dia seguinte, partiríamos para o trekking. Subimos sem muita agilidade por uma estrada serpenteante que, depois fiquei sabendo, estava em obras há algo como espantosos dezenove anos!... Paramos rapidamente para tomar "milcoffee" e comer o pão chapati sabor mofo-diesel habitual e foi quando minha mãe aproveitou para subir no teto do bus, junto com alguns outros, para poder apreciar melhor a vista. Realmente, a vista era lindíssima, com os gigantescos platôs escavados na encosta verde, obra do homem que é capaz de abrir roça em qualquer canto onde tiver mais de meio palmo pra ele firmar o pé. Ainda assim, eu optei por seguir dentro do bus mesmo. Minha mãe de vez em quando tinha um pé no Indiana Jones, mas eu sempre estive mais pra alguém que tem dois pés esquerdos, seja pra dançar colado, andar de moto ou fazer coisas meio atléticas.



PÃO CHAPATI NEPALÊS

http://1asiafoodguide.com/tag/chapati


      Chegamos em Naudanda no fim da tarde e fomos acomodados numa casa de barro de uma família nepalesa que topou liberar o andar de cima inteiro em troca de umas rúpias. Subindo por uma escada tremelicante e íngreme, chegamos ao aposento que consistia num mar de camas de madeira cobertas com esteiras de palha finas, uma colada na outra. Jogamos as mochilas de qualquer jeito e descemos novamente por aquela escada absurda até a cozinha/sala onde a família cozinhava nosso jantar numa espécie de fogão de lenha em miniatura, ao rés do chão. Como ainda ia demorar um pouco, fui zanzar ali perto.




NAUDANDA

http://goodtastetreks.com/index.php?regionsubid=87


http://www.sursudha.com/about.php


      Vi uma casa semelhante à nossa, mais adiante, e ouvi música saindo pela janela. Uma mocinha de uns doze anos acenou para mim e fez um sinal, me convidando a ir até lá. Pese aos meus pés esquerdos, sempre fui kamikaze no quesito "lugares estranhos" e uma casinha de barro nas montanhas do Nepal era infinitamente menos arriscado do que muitos lugares onde já havia me enfiado até então. Portanto, lá fui eu. A mocinha me ajudou a subir e me vi numa saleta com duas camas e um banquinho, onde umas oito pessoas se acotovelavam, ouvindo um rapaz tocar um tambor (acho que se chama madal) e outro uma flauta (murali?). Ali fiquei, ouvindo musica e rodeada de sorrisos brilhantes feito pérolas. Durante uns quinze minutos foi maravilhoso ficar viajando naquele som e lugar, mas a verdade é que o que realmente me interessaria (conversar sobre a vida dessas pessoas) era impossível, pois nenhum deles falava sequer uma palavra de inglês. Como o show parecia não ter fim, me desculpei, por mímica, e fui jantar.


      Acordamos às cinco da manhã, com um chá quente e doce, servido na cama. Pensei que isso era um jeito muito bom de acordar alguém, bem melhor e mais eficaz do que um despertador histérico na orelha, se todo mundo pudesse ter um funcionário pra fazer esse mimo, claro. Comi um naco de um pãozinho e engoli meio copo de leite com chocolate e corri pra fora; queria ver o sol nascendo em Naudanda. O frio era de rachar, mas a pureza cristalina das cores acontecendo enquanto o sol ia pincelando a terra nepalesa, era um sonho de bom. As montanhas foram ficando azuis e verdes, o cheiro da terra limpa e orvalhada entrava pelos poros e ver os habitantes quase descalços e cobertos apenas por uma manta fina, sorrindo ao nos verem agasalhados da cabeça aos pés, era um jeito sensacional de se perceber existindo.


      Finalmente, o guia brasileiro nos chamou, apresentou nosso guia nepalês, Kalam Sin, bem como nossos carregadores, que pareciam varetas finas em forma de gente e, no entanto, davam de pau em qualquer um de nós, em força física e destreza caprina. Estes saíram, aliás, em disparada, antes de nós, como se não tivessem paciência para esperar esses gordos e lerdos ocidentais rastejarem montanha abaixo. Animados por essa demonstração de vigor, começamos a descer a montanha, animadíssimos e falantes, como qualquer amador faria. Pra baixo todo santo ajuda, dizem, mas depois de quase cinco horas, se não estávamos exaustos pois essa primeira etapa era só uma descida, ao menos estávamos mudos, pois falar e andar ritmadamente é coisa que não combina bem.



O CAMINHO É UNITÁRIO E PESSOAL

http://www.wildernesstravel.com/trip/nepal/everest-annapurna-private-journey

    

     Caminhar dessa forma é diferente de andar no Ibirapuera ou numa esteira de academia. Andar por tantas horas demanda encontrar um ritmo ou cadência pessoal, que, uma vez alcançados, te fazem seguir quase ad aeternum, sem muito esforço. O resultado é que a fila se esgarça e há os que vão lá na frente, ou os que ficam mais atrás e vão parando para olhar melhor uma pedra brilhante ou uma libélula. Assim que os egos se acalmam e toma-se consciência de que não é uma competição (coisa difícil para nossas cabeças do oeste), cada um começa a naturalmente seguir seu ritmo próprio, físico e mental, pois sabe que de qualquer maneira todos chegarão ao mesmo lugar e que importa mais de que forma pessoal você faz a sua jornada acontecer (como também me ensinou o tarô, aliás; um ensinamento que ali tive a chance de aplicar de forma prática).


 

"NO PROBLEM"

http://acopictravel.com/?linkId=2


 

      Apesar de gordinha, sempre fui ágil e meu andar, rápido, o que me colocou de forma natural lá adiante na fila, até que tivemos que cruzar um regato. Vertigem é coisa que nunca tinha me passado pela cabeça, por isso fiquei apatetada quando percebi que todos iam atravessando o riozinho, na verdade um fio de água estreito e raso, agilmente pisando nas pedras meio soltas e seguindo numa boa. E eu, enquanto isso, de repente estaquei no meio da água, absolutamente incapaz de continuar. Na verdade, incapaz de me mexer. Lembro de olhar para adiante e ver o grupo todo seguindo e eu estupidamente imobilizada, voltando a olhar aquela água cristalina passando por baixo dos meus pés. Sentia-me ridícula e quase gargalhei pois minha cabeça ficava me dizendo: "Pirou, é?! Vai aí, menina! Mas que palhaçada é essa?? Anda!!".


http://www.filmeja.com/2011/04/um-corpo-que-cai-vertigo-dvdrip-legenda-1958.html


     Levantei de novo a vista e vi minha mãe parada, me olhando lá de longe. Ninguém me conhecia tão bem quanto ela. Dava pra perceber que ela não sabia o que estava acontecendo, mas de alguma forma sabia que eu estava com problemas. Comecei a rir e a dizer que eu não tinha a menor ideia do que estava havendo, mas simplesmente não conseguia me mexer, mas ela não conseguia ouvir, porque eu nem mesmo conseguia falar mais alto. Naquele minuto, vi Kalam Sin voltando rapidamente em minha direção, com jeito de quem já tinha visto aquilo antes. Chegou perto de mim, me estendeu a mão e me disse: "No problem. Don't look down". Não gostava, então, de precisar ou receber ajuda dos outros, mas não tive escolha. Segurei na mão dele e, olhando pra cima, fui pisando graciosamente como um macaco bêbado, até conseguir pisar em terra firme. Kalam sorriu, disse: "Vertigo" e saiu andando lá pra frente.


     Ali aprendi que para seguir caminho a gente precisa aprender a escolher por si mesmo, mas, em algumas vezes, precisamos parar de olhar os próprios pés, frear o incessante diálogo interno e simplesmente ter a humildade de confiar no conhecimento de quem já está uns passos à frente.


http://healthmatters2day.blogspot.com.br/2012/01/humble-people-are-more-likely-to-lend.html


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Onde???   http://www.travelersdigest.com/kathmandu_travel_guide.htm


     Ao aterrissar em Kathmandu estávamos tão cansados que só o que importava era que finalmente íamos parar de quicar pelos ares feito um zepelim furado. Já fora do terminal, eu esperava minha mãe passar pelo esotérico ritual de giz e seus hieroglifos indecifráveis do resgate da bagagem, quando me vi cercada por uns dez ou doze garotos entre 6 e 12 anos, mais ou menos, tão próximos que literalmente encostavam em mim. Vindo do Brasil, era o tipo da situação alarmante, mas em poucos minutos deu pra perceber que a intenção dos meninos era outra: sorriam e pegavam nas minhas roupas e cabelo, esquadrinhando minha figura entusiasmados e curiosos, como quem vê um dromedário num simba safári. Falavam todos ao mesmo tempo e me tonteavam, prensando-me contra a parede. Lembrei que tinha levado vários alfinetes com a bandeira do Brasil e comecei a distribuição. Contentíssimos, os garotos abriram uma brecha e eu pude respirar, não sem antes dar uma checada básica na carteira. Mas era mesmo só uma inocente curiosidade que, aliás, veríamos por todo o Nepal.

 

      Chegamos ao hotelzinho que ficava numa ruela de terra, largamos as bagagens no chão, tomamos banho e fomos curtir o réveillon nepalês. Nosso guia brasileiro nos levou a uma boite, meio inferninho, ou assim parecia pela pouca luz e vermelha. Enchemos a cara do, penso, ilegal álcool local, como cerveja de painço e rum de algo similar a painço. O som era uma lambada que tinha feito furor aqui uns anos antes, tocada e cantada a plenos pulmões e repetida à exaustão. O porre foi inacreditável, especialmente porque a isso juntamos as garrafas melhorzinhas de vinho e champagne que havíamos trazido de fora. Passei os três dias seguintes parecendo um mix de Rê Bordosa e Janis Joplin, batizando Kathmandu a intervalos regulares e pensando seriamente em raspar a cabeça careca e encontrar alguma naja disposta a me despachar desta para melhor.


  

 

RE BORDOSA: http://mais.uol.com.br/view/xiddtuwnvlqs/metropolis--angelitos-re-bordosa-04023370D49973C6?types=A

                            JANIS JOPLIN:https://thriftycent.wordpress.com/tag/60s-counterculture/


 

      A primeira semana em Kat foi ocupada em ir atrás dos vistos para o trekking, alugar as botas famosas e zanzar pela cidade. No terceiro dia, sentei no hotel e chorei até me acabar, pensando em por que, oh my God, por que eu havia gasto tanto dinheiro em ir para um lugar daqueles (e também por que, oh my God, aquela ressaca não passava??...)? Nos outros quartos o som era similar, ou então era um silêncio sepulcral que, de qualquer maneira, parecia dizer o mesmo. Nada anormal: a maioria de nós, ocidentais, sente um abalo sísmico quando entra em contato com uma cultura e um lugar tão absolutamente diversos do habitual. E, como ensina a Torre do tarô, abalos dessa ordem não acontecem para te emporcalhar, mas, ao contrário, funcionam para abrir nossos olhos, mente e coração. Acontecem justamente porque em geral estamos aferrados a uma torre própria de ideias, dogmas e conceitos fechados e inflexíveis. Alguns podem viver assim a vida toda; a outros, no entanto, a vida parece chamar à frente. Talvez seja o caso de, realmente, prestar mais atenção às letras miúdas do contrato, antes de embarcar para a Terra.



DURBAN SQUARE, KATHMANDU: http://www.destination360.com/asia/nepal/kathmandu-valley

 

POLUIÇÃO VISUAL EM KAT (em 1990 não era tanto, mas perto disso...)

http://harvestheart.tumblr.com/post/393013593/kathmandu-nepal-signs-photo-by-dave-watts

 


      O chororô nos liberou, como se zerasse o programa mental. Passei a ver realmente Kathmandu e a mim, nela; a ver realmente suas pessoas, casas, produtos, animais, crenças e comportamentos. Ver e não julgar, uma novidade total para quase todos nós. Ser capaz de perceber, peneirar e aprender o que tem a ver conosco é uma experiência especial. O desconforto material ainda era irritante e eu teria que estar morta para não percebê-lo: os veículos a diesel deixando tudo imundo, maçanetas, portas, cabelos, narizes, copos; as ruas de lama, bosta de vacas e detritos de tipos diversos; os açougues e avícolas ao ar livre, vendendo partes sangrentas cheias de moscas, lavando-as em mesas de pedra e jogando aparas e penas no chão; os dentistas também ao ar livre, alguns bem ao lado desses açougues; as buzinas incessantes que faziam um par de carros parecerem o rush de São Paulo; o assédio, a cada meio quarteirão, dos vendedores de haxixe, marijuana, cocaína. Apesar de tudo isso, eu estava começando a perceber coisas diferentes.

 


AÇOUGUE NEPALÊS (e esse é um dos limpinhos):

http://blog.travelpod.com/travel-photo/col.caf/1/1289251366/butcher-nepali-style.jpg/tpod.html

 


      Como muito do que há na vida, se não é que é tudo mesmo, Kat age como um reflexo do que vai dentro de você. Enquanto a resistência fala mais alto, ela será apenas uma zona desconfortável ou desagradável. Mas à medida em que você se vê do outro lado do mundo, mais ou menos obrigada a lidar com a questão e sem grandes possibilidades de retirada fácil, a renitência do ego começa a ceder, a ótica vai mudando e a percepção é ampliada. Talvez seja o jeito possível de dourar uma pílula, mas é fato que acontece. E também é fato que, acontecendo, te liberta de grilhões próprios, feito um intensivão do Enforcado.

 

Colares em Kat:

http://www.coolephotography.co.uk/travel/portfolio.php?var=religion

 

http://geminalotus.com


      Resolvi jogar fora metade da tralha que tinha levado e deixei só dois leggings, um moletom, duas camisetas de manga comprida e duas de manga curta, três pares de meia de algodão e duas de lã de yaki que lá comprei, as botas de trekking e o casaco de pena de ganso. E já era muito, considerando-se que carregava a bolsa da Pentax e as lentes, filmes etc. Desencanei de um monte de coisas, resgatei minha porção hippie abandonada e tentei aprender como viver Kathmandu de outro jeito e encontrar soluções para o que me impedia de viver o que importava mais. Lembrando das ladies do século XIX, passei, por exemplo, a levar um lenço com água de colônia na mão, para passar incólume, quando o cheiro de diesel, pão chapati e vaca velha morta misturavam-se e entravam em combustão dentro do meu nariz. Coisas simples assim fazem a diferença entre ficar livre para experienciar a vida ou rastejar de volta ao hotel com pena de si mesmo.


 

Corantes: http://www.igougo.com/journal-j7750-Nepal-Nepal_Rugged_Beautiful_and_Magical.html


      E, por tudo isso, de repente meus olhos passaram a enxergar a magnificência das lojas de prata e turquesas brutas, as bolsas de chifre e latão, as tintas em pó e suas cores extasiantes, as sedas e saris inebriantes, os tapetes de mil e uma noites, o olhar limpo e o sorriso franco de muitos nepaleses, quase todos, aliás. Deixei de lado a meticulosidade no comer e passei a almoçar um ravióli "al burro de yaki" num italiano nepalês que achei na rua, ou o hamburger de cogumelos e fritas dos hippies da freak street e a beber o que eles chamavam de "orange juice" e era, na verdade, um celestial suco de tangerina fresca. E fotografei, como um repórter que quisesse gravar o mais possível para não esquecer, centenas, milhares de cenas: as terríveis e as belas, as nojentas e as iluminadoras, pois todas eram parte daquilo que, embora eu não tivesse ainda tanta consciência, estava abrindo minha cabeça. Havia um mundo inteiro fora do meu mundinho óbvio e havia milhares de pessoas que viviam diferente do que aqui consideramos o essencial e, ainda assim, eram muito mais relax, mais tranquilas, mais sorridentes e tudo isso era muito, muito interessante.

 

 

http://www.mytibettours.com/lhasa-to-kathmandu-tour/beijing-lhasa-kathmandu-9-days-tour.html

 

SARIS FOR SALE EM KAT: http://flickrhivemind.net/Tags/85mm,nepal/Recent

http://www.himalayantours.com/Tibet.everest.base.camp.nepal.bangkok.html

 

      Kathmandu foi o começo da minha descoberta de que ninguém está condenado a viver apenas este tal mundo óbvio ou dito essencial, afinal. Naturalmente, desde que reencontre, dentro de si, a coragem de ser algo mais para além do óbvio.

     Eu tinha diante de mim quase um mês, com stuppas budistas, cremações hinduistas, frios enregelantes, sustos, encantamentos, além de um trekking nas montanhas do Anapurna, no meio disso tudo, para saber mais a meu respeito, nesse e em vários sentidos.

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