
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Alice-queen-hearts.jpg
Vou ao oculista.
Certa apreensão, porque quem o indicou me alertou que ele é um cara seco, antipático, mas muito bom profissional. Bem, antes isso, penso, mas, xi, já vi tudo. Um daqueles "doctors" cheios de se achar isso ou aquilo. Chato.
No caminho, vejo uma longa fileira de casas e tenho uma síndrome de Alice, parece que estou caindo - ou será subindo?
Curioso esse negócio. Será labirintite? Um AVC??? Fígado, deve ser isso. Chá de boldo, é isso.
É tão desnorteante a sensação, que me toma mais minutos que o necessário, até eu perceber o óbvio: é uma ladeira e arquiteto após arquiteto, se é que os houve (coisa que, francamente, não creio), todos tentaram alinhar-se à tal ladeira, sem sucesso. O resultado é um monte de casas com janelas 6 cm tortas, portas quase convexas, portões que não fecham direito. Carros numa garagem, uma roda quase no ar!
Uma loucura onde só falta o gato que desaparece, realmente.
Vejo Imperadores e Imperatrizes tresloucados, tomando chás impossíveis, à mesa dessas estranhas salas de estar.
Deve ser o calor. Desidratação, talvez, só um pouquinho, é isso.
Então, me vem à mente que assim fazemos, muitas vezes, em nossas vidas: "alinhamos" nosso "eu" tomando por base algo que é, na verdade, torto.
E vejo que quase todos somos como essas casas: um torto após o outro - e todos acreditando que o torto é o outro.
Alinhamentos absolutamente vãos, híbridos.
De que adianta alinhar os chakras, se o coração está destituído de amor fraterno, o único afeto realmente desprovido de interesse? Gostar do outro com esse descomprometimento é, na verdade, gostar de si mesmo incondicionalmente - e é essa a base da saúde fundamental, a psico-espiritual.
De que adianta alinhar os pensamentos com o que chamamos de "positivo", se esses conceitos estão semeados de falácias e natimortos no cerne?
De que adiantam tantas crenças tatuadas na mente, se nem crenças, nem mente, todas contaminadas pela contemporanea estupidez global, conseguem habilitar um olhar isento a nosso próprio respeito?
Que sentido tem alinhar "meditações ayurvédicas" com um ser que exige isto ou aquilo da vida, em vez de apreciá-la, simplesmente, e que se ressente pelo que não obtém, quando podia estar em pleno regozijo pelo que recebe a todo instante?
Conclúo que precisamos acertar antes, portanto, as fundações, para que o resto de nosso ser possa alinhar-se com verdadeira majestade.
Não, não vai ser fácil rever tudo desde o começo, penso, mas e de que é feito afinal o game da vida? Não é de, entre o lúdico e o academico, investigar a si mesmo e ir subindo de "level", ir alcançando melhores estágios?
Chego ao consultório e gargalho das recepcionistas à saída. Moças ótimas, completamente TeVeguiadas mas sedentas do novo, acabo quase dando consulta de Tarot grátis, ali mesmo. Entro na sala do Dr. João e damos risadas que quase impedem os exames, mas finalmente ele faz a receita dos meus óculos, enquanto me conta que minha pressão ocular está ótima, fundo de olho ótimo, a miopia aumentou quase nada nos ultimos muitos anos, tudo ótimo.
Terá sido ele que mudou de temperamento, ou eu que já mudei no caminho?
21 comments
Obrigada, que bom que vc gostou.
Bjs gdes, obrigada por ler
Deu até vontade de ir ao mesmo oculista... risos!
Isso só confirma a minha teoria. Tudo é relativo... só depende do jeito que vc vê ou percebe as coisas que acontecem.
Seu texto está - como diria um grande amigo meu - um looooxo!
bjs e parabéns!
Sob medida pra minha descrença das coisas, sobretudo das pessoas e suas boas intenções.
Talvez esteja na hora de "trocar as lentes".
Obrigada amiga, pelo start de sempre
Putz, vai ser difícil discernir entre apenas torto e aparentemente torto...rs
Só que essa pessoa não foi apenas uma vez ou duas. Ela fez um tratamento longo com ele - e ele nunca foi simpático ou agradável com ela.
Nem com outra pessoa que foi nele também, devo dizer.
E essas duas pessoas tb citaram a antipatia das recepcionistas, com as quais eu me dei super bem.
Acho mais que, como eu fiquei pensando nessas questões antes de chegar lá e como eu fiquei disposta a rever a validade de certas "bases" próprias, eu devia estar com uma "cara" mais aberta, não tão sisuda ou autocentrada como quase sempre td mundo está. Devia estar com a defesa mais baixa, talvez.
E tb acho que é fato que isso muda a primeira interação com o outro, o que causa alguns efeitos dominós de acolhimento.
Embora nem por isso eu esteja me referindo àquela coisa do sorrir ou "ser positivo" pro mundo virar um conto de fadas!!
Eu tenho um tédio total a respeito dessa idéia superficial, negadora e simplista contemporanea...rs
Mas aqui nao tenho como desenhar, entao deixa assim.
De qqer maneira, Tony, para um amante da verdade cabal, como vc, estranho admitir relatividades neste caso que relato...
Nas casas que vi, a dificuldade nao esta na água correr para o ralo, mas em faze-la parar, um dia...rs
E base torta, se nao compensada, gera estrutura torta,sim, e nao tem filosofia grega ou nao, que relativize nada, viu bem?...rs
Bjs
Bjs
A base (tarologicamente falando) se faz atraves de vários arcanos, mas acho que o Papa e a Justiça são viscerais.
O Papa nos remete à revisão dos próprios valores morais, éticos e espirituais. Com ele, aprendemos a montar nossas próprias tábuas da Lei, uma moral particular: nossos princípios. Apreeendemos as implicações da decencia, da amoralidade, da imoralidade - mas acima de tudo, DO QUE NÓS sentimos em relação a essas questões. E é no V tb que a gente questiona Deus, tenta entender os mistérios etc.
A Justiça nos ensina a isenção, a imparcialidade, a aceitação de que a indignação não é sinonimo de estar correto e tb ensina a sermos justos conosco, nao só para o outro. Quase ninguém é justo consigo mesmo. Em geral, a gente ou se achincalha, ou se estraga pela auto-indulgencia.
Esses dois arcanos são, para mim, as bases que irão determinar se vamos nos tornar Imperadores e Imperatrizes "de quinta", flagelos para os outros, ou autogovernantes régios, sábios, fodões...rs
Bjs
bjsss
Vc acaso tem sua personalidade toda alinhada numa base "torta" e ainda assim a vida dá certo?
Explica prá mim?...
(tá curtindo essa minha persona nova, entre a fofa meiga e a escandinava burra?...kkkkkkk)
os deixemos lá,até que todos caiam do galho!Modismos e vaidades com o que pode nos abrir a mente,só nos deixam "empenados" e mais tortos ainda,sem contar que se profana,com um espírito xulo e momentâneo,a grandiosidade da alma.Nem todo "Imperador" tem uma "Imperatriz" de fato e,quase toda "imperatriz" não passa de mais uma "Estrela"(zinha).
Legal a sacação que está tudo aqui, pertin, desde o ponto de mudança até as resoluções.
Bjs!
Quais seriam as fundações que precisamos acertar, para que o resto de nosso ser possa alinhar-se com verdadeira majestade?
Qual é o primeiro passo? É igual pra todo mundo, esse passo?
Bjs alinhados e majestosos!
O que você propõe é uma revisão total nos sistemas de valores e de crenças pelos quais temos pautado nossas vidas até agora. Alterar a velha visão de mundo começando pela autoaceitação e pelo desenvolvimento da capacidade de fluir com a vida. Praticar o amor sem restrições, barganhas ou manipulações. Lembrar que a caridade e a generosidade começam em casa, no convívio diário com as pessoas que nos são próximas. E, sobretudo, ter consciência de que se trocarmos as lentes, através das quais temos olhado o mundo em que vivemos,por outras melhores, certamente este se tornará mais bonito e harmonioso.