Ceifeiro gentil
Venho repensando a ideia de suicídio. Eu disse a um amigo uma vez que notei que suicidas famosos poderiam ter feito o ato não a partir somente do seu orgulho. Acho que os entendo melhor agora... Tenho a impressão de que não é somente um ato dramático. As pessoas geralmente vêm assim, como um ato desesperado. Hoje já penso diferente.
Os espiritualistas e religiosos de um modo geral condenam o suicídio de modo ferrenho e dizem que a pessoa terá uma vida mais dura ainda depois que desencarnar. Parece que quase todas as religiões, a sua maneira e terminologia, dizem que para a alma o suicídio não será nada bom, que somente irá atrasar sua evolução, entre outros tormentos. Acredito em tudo isso, porém ao mesmo tempo não é o suficiente para me convencer de que não virá um certo alívio mesmo que efêmero para o suicida.
O fato é que a vida sempre ganha, certo? Os terapeutas holísticos da nova era vivem dizendo que você pode ter tudo o que quiser, dinheiro, amor, sucesso, mas você tem de aceitar a maneira como a vida vai lhe trazer tudo isso. Ah! Interessante! Você é livre para criar seu destino, desatá-lo, transformá-lo, mas não exatamente da maneira que você quer... Eles dizem “a vida sabe o que é melhor para você”, “você tem de confiar nela”, “você não é maior do que a vida, você é a vida”, etc. Mas a verdade é que o paradoxo persiste: você nunca poderá ganhar da vida. Nem mesmo quando você se mata... Você é eterno, certo? Você mata seu corpo agora para fugir daquilo que você (não?) quer, mas em algum lugar lá fora do corpo, nada terá mudado, seu problema vai continuar. Então, eu reclamo é dessa aparente liberdade, compreende?
Por que não posso simplesmente me matar com uma espécie de bomba atômica e evaporar, virar nada mesmo, escapar da vida? Esta vida que parece tão generosa, mas te controla totalmente te amarrando a ela...
Eu agora entendo bem melhor Shakespeare quando ele diz que nós somos apenas marionetes sob o fio nas mãos da vida e tudo isso aqui é um palco. Quando Hamlet diz: “morrer, dormir, talvez sonhar” ele começa a conclusão de que você não pode escapar da vida, que quando você imagina que ao morrer você poderia acalmar sua alma com alguns sonhos eternos e fazer as coisas melhorarem e ficar um pouco mais feliz, você é acordado para a realidade de que isso não vai nunca acontecer. Estar ou não estar morto é uma questão de puro jogo de raciocínio, pois a verdade é que você não pode morrer, não mesmo!
E eu digo mais: o amor falido, o emprego infeliz, a falta de amigos ou de dinheiro, nada disso é realmente a razão do meu namoro com o suicídio, longe disso. Eles são meros catalisadores de uma questão mais profunda, eles são o espelho colocado pela vida para me mostrar que eu não vou ganhar dela jamais! Esta ideia de auto ceifa está no meu coração há muito tempo...
Vejo que as pessoas interpretam o suicida de modo preconceituoso, realmente como um tabu. O suicida não está simplesmente e somente fugindo da vida ou problemas. Você diria, com toda sinceridade, que um homem com Ernest Hemingway estava tentando fugir da vida? Um homem que viveu a vida por inteiro, escreveu a respeito, ficou famoso, rico, viajou, amou? Por que ele iria querer escapar? E não me venha com a velha ladainha de que fama, dinheiro e tudo acima não trazem felicidade, de que lhe faltava o tal “deus”. Aliás, eu tenho certeza de que ele não desprezava a vida e já tinha aprendido cedo de que deus não existe. O pai dele se matou também, ele estava doente, velho, alcólatra, com depressão, mas nada disso pode ter sido realmente o motivo de ele tirar a própria vida, sabia?
Hemingway (e talvez muitos outros como ele) se matou por duas razões terrivelmente simples: primeiro para ter a derradeira emoção de que pelo menos por um instante ele teria o poder sobre a vida! E segundo porque provavelmente ele estava bem cansado, extremamente cansado. Uma mente e espírito brilhantes que não admitia não ter o controle sobre a vida... E é o modo como me sinto agora: um cansaço imenso principalmente da repetição da vida, dos erros, dos tais momentos felizes. E para dar mais vazão à minha sinceridade, também me canso por ficar dando razões para meu cansaço. Ele é tão completo e me toma por inteiro de tal modo, que ele está lá como um monólito da verdade, preenchendo todo o espaço da minha vida, do meu corpo e o peito dói.
Não posso negar que eu devo estar sob a influência de energias negativas, tais como, encostos ou formas-pensamento, provavelmente estou. Mas não muda o fato e a verdade de que o pensamento suicida está aqui comigo, me rodeando, como há eons de tempos atrás.
E eu pensei ao escrever isso que se a pessoa amada me dissesse “não” de novo, se o dinheiro e os amigos faltassem, ou qualquer porcaria dessas repetições, eu poderia simplesmente vender tudo e ir meditar no Tibet, viajar pela Índia, virar hippie, ou seja, mudar radicalmente de vida, como já fiz outras vezes. Pois mudar de vida radicalmente significa morrer um pouco e me livraria por um tempo do umbral. Ao escapar de toda a miséria chata que a vida me dá, eu estaria desviando minha mente do suicídio, fingindo encontrar causas nobres para continuar vivendo. Eu me fecharia para o amor, o dinheiro, amigos, satisfação e não sei o que mais... Até o próximo fluxo de suicídio voltar aos meus pensamentos.
Contudo, se eu recebesse tudo o que eu quisesse, pessoa amada, dinheiro, amigos a perder a conta, temo que a vida estaria me dando um doce para acalmar meus pensamentos suicidas... Ela sempre faz isso. Claro, eu ficaria feliz feito um peru fugido no Natal, mas eu saberia que ela estaria me dando uma nova chance, que no fundo é para ela.
O único entendido da vida que falou algo sensato sobre o suicida e o que ele pensa, foi o Osho. Ele disse que jamais devemos julgar a pessoa que resolve se matar, pois não estamos na pele dela para saber da missa a metade. Ele reflete que geralmente as pessoas que resolveram se matar são as mais sensíveis e inteligentes no seu meio. Sentem de longe a hipocrisia e percebem logo de cara e muito cedo a neurose da sociedade e quando resolvem chamar o ceifeiro gentil é porque simplesmente não suportam mais tudo isso, estão cansadas da repetição, de serem moídos na máquina social e simplesmente não vêm solução para tudo isso. E que como pressentem que não poderiam sair dessa condição escravocrata, sentem derradeiramente que a única coisa que realmente possuem é a vida, e a única coisa que poderiam fazer e pudessem chamar de “sua” é acabar com ela. É mais como um ato rebelde contra a mesmice burra em que vivemos.
Sociedade neurótica... É a pura verdade... E uma neurose que gera muito dinheiro para muita gente, então por que mudá-la, certo? Neuroses em todos os aspectos da vida: todos querem ter muito dinheiro, mas o desdenham o tempo todo com frases de falsa modéstia, pretensa espiritualidade ou posição política de “esquerda” ao capitalismo. Todos querem amar e ser felizes, mas só vão atrás de quem o despreza, ou quando amam não demonstram com medo de parecerem ridículos e desprezam aqueles que os amam. Trabalhar no que gosta parece nunca trazer prosperidade, então trabalham em algo massacrante para ter um bom salário, se prometendo no começo que um dia vão sair dali para curtir a vida e fazer o que realmente gostam, mas não conseguem nunca. Reclamam que não têm amigos, mas adoram falar mal da vida alheia, julgando a todos.
E somos mesmo todos another brick in the wall... E o ceifeiro gentil espreita e aguarda as chamadas…

Indignada com as piadinhas no twitter sobre como a Amy morreu!
De saco cheio das piadinhas da sua morte no FaceBook!
Irritadíssima com os links das passagens trágicas da vida e da morte de Amy!
Resolvi deixar minha opinião, já que todos se expõem com essa sujeira nos meus sites pessoais, e vou dar o meu coice. Afinal, como diriam as vovós: "quem fala (clica) o que bem entende uma hora vai ouvir (ler) o que não quer". Portanto, se algum de vocês não gostarem da minha nota, parem de me enviar lixo sobre os lixos da Amy!
Pra começar, a Amy sempre assumiu que não queria ajuda, publicamente. Isso é um sinal de que a sua alma estava no caminho que ELA escolheu, sendo assim, ela não era uma coitada!
Segundo, eu me recuso a dar RT ou "curtir" ou "compartilhar" em links que estão fazendo caricatura da morte ou da vida de Amy; me recuso a fazer o mesmo sobre seus links vampirescos de alguns de vocês, carniceiros, que farejam necrofilia e acham que vão ser aplaudidos por isso!
Vocês ficam se ligando no mal do mundo e depois não sabem porque são atormentados mentalmente.
Vocês se ligam nas notícias de baixíssimo astral e depois não sabem porque algo estranho acontece na sua vida.
Vocês escolhem espalhar a desgraça alheia pelo recurso virtual, ignorantes, fingindo não saber que isso volta pra vocês
mais tarde.
Vocês perpetuam a feiúra da (vida da) Amy (do Michael Jackson, do River Phoenix, da Janis Joplin, do Kurt Cobain...) pra se fazerem os "engraçadões" ou alegam que "isso é a vida real" e se fazem todos jornalistas do caos!
Bem, eu escolho não dar vazão a vocês e seus lixos!
Escolho não "curtir" seus miasmas umbralinos!
Escolho não compartilhar seus links que espalham a verdadeira corrente do mal!
Escolho postar fotos da Amy no seu auge frescor, porque tenho minha convicção de que ela foi por causa de várias
escolhas que fez e eu respeito a escolha dos outros, porque quero que respeitem a minha!
Escolho pensar que o Universo está em nós e ele apóia todas as nossas escolhas. Por mais que os seus julgamentos, das suas mentes moralistas ou igualmente perigosamente "piedosas" acham que sabiam como a Amy deveria viver, eu sei que o Universo apoiou TUDO o que a Amy fez e vai continuar apoiando na Eternidade.
E se vocês se acham tão piedosos, tão sensíveis, tão melhores do que a Amy, façam seus concursos para os cargos de "fiscais do mundo" e assumam a responsabilidade e cuidar da vida dos outros, e aguentem as consequênciss fardosas que advêm disso!
Eu prefiro ficar no meu canto e curtir esta foto aí em cima, desligar os programas de TV, os links perversos e ouvir em casa sozinha o legado da Amy!

Ah! O engenho humano!
Deve ter sido assim também quando outros meios de transporte de longa distância começaram a se popularizar, lá no século 19, como os trens, por exemplo. Os mais afastados das rápidas e recentes novidades com certeza se sentiam perdidos, com medo, intimidados e conseqüentemente deveriam cometer muitas gafes, aos olhos dos abastados. Intimidados pelas máquinas, pelos novos trabalhadores e seus uniformes imponentes, os ruídos novos – altos, amedrontadores, de todos os timbres: agudos, graves, estrondosos, estridentes.
Reparo agora que a mais maldita, mas também a mais bela característica humana, a adaptabilidade, nunca cessa de atuar. É intrigante como alguns humanos são adaptáveis! Depois de um tempo, todos ficam a postos, fazendo tudo automaticamente e quase bocejando em suas tarefas como operadores de máquinas e passageiros costumeiros. Contudo, quando não usamos freqüentemente tal transporte, ficamos atordoados, com um friozinho no estômago, matutando se tudo vai dar certo mesmo no final da viagem. Ao viajar de avião, por um longo trajeto, fico tonta só de olhar esta movimentação.
Nos dias de hoje, nos aeroportos, o vai e vem dos ônibus cegonha, que carregam passageiros, bagagem, ferramentas, funcionários... Tudo tão diário, tão rápido, quase monótono. Trabalhadores conversam entre si quase por códigos se o assunto é a tarefa, numa linguagem toda própria. E pelos sorrisinhos marotos de quando em vez, posso apostar que falam de algo pessoal. Também numa linguagem corporal de quem usa uniforme: altiva, disciplinada, mas não arrogante. Entre diferentes companhias aéreas, sinto que há um certo ar de disputa, como um a dizer “oi! (A minha companhia é mais chique que a sua); e o outro responde: “oi, Fulano! Como vai? Tranqüilo? (puxa, cara! Te admiro pra caramba, um dia vou estar no seu lugar!). Tudo feito com um cordial aperto de mão e tapa nos ombros.
Tudo evolui tão fascinantemente rápido, máquinas e tarefas, mas nem sempre o traquejo social... Atendentes de aeroportos, a meu ver (nunca tive problemas com eles, pelo contrário) são na maioria das vezes cordiais e eficientes. No guichê parecem já predizerem nossas dúvidas e não demonstram raiva em informar-nos sobre algo que é óbvio para eles. Porém, nem todos estão sempre sorrindo, e já que não sou tensa, não cultivo o mau humor de antemão e aprendi com os ingleses que gentileza nunca é demais, respondo todo mínimo serviço com um “obrigado” e um sorriso. Percebo que alguns ficam surpresos comigo e nem têm tempo de me corresponder. Já outros respondem meio desconfiados e outros ainda arreganham uma baita boca de riso em foto. Tenho a impressão de que eles não devem ouvir muito do que eu disse.
Filosofando sobre os passageiros agora... Penso que na época dos trens, tendo o acesso sido caro no começo somente os mais ricos participaram das viagens primeiro. E por orgulho ou mania de grandeza odiaram quando a gentalha passou a usar o mesmo ambiente de deslocamento.
Com a nova subida da tal dita “classe C” às viagens de avião, a história se repete. Aquela imensidão de pessoas, cuja aparência remete a uma condição financeira mais “apertada”, agora é vista nos aeroportos perdida em portões, em guichês, números de poltronas e cores. Intimidados por toda parafernália motorizada e virtualizada, obviamente, do mesmo modo, estes seres antes estranhos nos aeroportos ainda têm de ser massacrados verbalmente por madames esnobes que estão sempre cheirando perfume adocicado, coberta de jóias e prontas para um escândalo por causa de algo ínfimo.
Este rapaz muito simples, faltando dentes, com o rosto muito acabado – talvez pelo sol, talvez, pelo tipo de trabalho que exerce – estava no lugar certo que marcava seu bilhete de embarque. Mas ao chegar a tia do conde, já veio ordenando que o tal saísse do assento, assumindo primariamente que ele estava errado – afinal, um cara com aquela cara não deveria nem saber ler, certo?
Pois muito bem, tanto fez a dona, incluindo dar uma de fina, oferecendo-se para sentar no lugar dele já que ele estava errado, que viemos a descobrir... Um momento! Antes quero acrescentar umas coisinhas: devo salientar que o baiano – falei com ele depois, era de Juazeiro! – recebeu a primeira abordagem da vaca sagrada com um sorriso e não o tirou mais do rosto o resto da conversa. Educadamente, sem jamais alterar seu tom de voz, disse humildemente na primeira vez: “meu assento é o número 10 A, senhora...” Na segunda, disse: “tá certo, vou lhe mostrar meu bilhete” (sim! Ele usou “lhe” corretamente...). Na terceira: “será que a gente não podia ver seu bilhete também, senhora?” E a dona muito a contragosto, ríspida e com um tom de deboche: “é, né? Talvez eu esteja equivocada!”
Ao tirar o bilhete a fofa viu escrito 10 B, numeração esta que não existia naquela aeronave, em que víamos somente 10 A e 10 C de um lado e 10 D, E e F do outro. O número que ela vira (o 10 A) era de outro bilhete dela da sua próxima conexão em outra empresa. O verdadeiro da vez para ela era o 10 C! Visivelmente constrangida, mas sem baixar a bola de 5 quilos que trazia no seu nariz, começou a querer discutir com a comissária a respeito da numeração estranha e não conseguia mais olhar para o rapaz.
E o baiano disse, agora com mais ênfase, mas sem cair do “salto”: “minha senhora, tá tudo bem, viu? Se a senhora quer ficar aqui no 10 A, não tem problema, não (sim! Ele falou “problema” corretamente!). Eu troco de lugar e a senhora fica aqui do lado do meu amigo e eu fico do outro lado”, e nem esperou pela resposta da “sinhôra” e foi trocando logo de lugar, deixando o banco pra ela. E finalizou: “o importante é todo mundo viajar bem e feliz, certo?”. Mais do que sem graça a representante da tal elite brasileira (se é que um dia este país teve uma) sentou ali e manteve-se calada o resto da viagem. Não se ouviu nem desde um “obrigado” a um “puta que pariu”, nada, silêncio total.
Bati um papo rápido com o moço que ia pegar várias conexões até chegar em Petrolina. Fazia isto duas vezes por ano, por conta do trabalho, sabe? Numa fábrica multinacional de fios e cabos... O patrão dele pagava tudo e entregava vários documentos na mão dele, pela confiança que o chefe tinha no baiano...
Ah! O progresso!
Ps.: vou demorar a liberar e responder aos comentários, ok? Mas assim que puder o farei!

Ano passado escrevi um texto sobre diversidade na época da parada gay. Este ano gostaria de publicar outro e vou tentar. Aproveitando os recentes fóruns no Yubliss resolvi mostrar uma parte de um texto antigo, revisado. Foi até melhor assim, pois seria incoerente falar a mesma coisa sobre diversidade, já que ela está atrelada ao cotidiano e este é sempre dinâmico, está sempre em mutação. Vejamos se encontrarei algo diferente a dizer este ano.
Contudo, alguns itens do meu texto anterior precisarei repetir aqui por razões que logo vocês vão entender. Por exemplo, o fato de eu ter de começar “me explicando”, esclarecendo que SOU HETEROSSEXUAL. Muitas coisas não mudaram de um ano para cá, nunca tive a ilusão de que iriam mudar e acho que ainda vão levar ainda muito tempo para mudar... Para que eu me coloque do lado de tudo e todos que compõem o conjunto diversidade, eu tenho que deixar clara minha identidade dentro dele. E por quê? Simplesmente porque, pelo menos no Brasil, se você se coloca do lado de uma questão polêmica você ainda tem de se explicar até para que seja ouvido e que sua opinião tenha mais força.
Ser heterossexual e “estar do lado” dos homossexuais não é fácil no nosso país hipócrita e machista. Para mim não é nada demais e “estar do lado de”, é só uma força de expressão, na verdade, significa só mais um item do meu cotidiano. Não faço isso porque está na moda, nem para provocar ninguém; aliás, dizer que “faço isso” já pode soar como algo deliberado e não é... Estou do lado dos homossexuais porque eles fazem parte da minha vida, assim como trabalhar, comer, dormir, pagar contas, me divertir. Mesmo seu eu fosse “contra” eu teria de encarar esse fato, quer eu gostasse dele ou não: literalmente eu estou “do lado” dos homossexuais, convivo com eles, eles estão em toda parte.
Mesmo que pareça estar brincando com as palavras, também proponho pensarmos nelas e como as usamos. Explico-me melhor: estou “do lado” dos homossexuais, não por ser homossexual ou por conviver com eles, mas porque sou amiga deles, por ter pessoas na minha intimidade que o são, por defendê-los (quando necessário, se é que precisam de defesa...), por amá-los como meus irmãos. Amá-los é parte da minha vida e talvez uma das melhores partes (além de gostar de homens!).
No Brasil (e talvez em outros países também) quando os hipócritas ficam sabendo que alguém (o colega, um artista, um jogador de futebol) é gay, eles não conseguem pensar em outra coisa. Na cabecinha doente dessa gente, homossexual só faz sexo! Homossexual não tem família, não tem amigos, não trabalha, não estuda, não paga aluguel, não paga contas, não anda de busão, não abastece carro, não se diverte em bares, não pega fila de supermercado. Gay só faz sexo! E tem mais: antes de eles saberem que o outro era gay, a personalidade do colega ou o talento do artista ou do jogador poderiam permanecer sem críticas. A partir do momento que eles ficam sabendo que o outro “virou gay”, pronto! Perdeu a capacidade, a amizade e o talento. Tudo o que a pessoa fez antes de eles saberem não interessa, tudo “virou” lixo!
E tem essa outra coisinha ridícula: esses hipócritas e reprimidos ainda acham que o outro “vira” gay. Ah, tá, né, gente? De repente, o cara acorda de manhã e diz: “não tô fazendo nada, a vida tá tão monótona, acho que vou virar gay!” E plim-plim: virou gay, do dia para noite! “Virar” gay implica em escolha, por isso alguns estudiosos nos alertam para o uso das palavras; não se vira gay, descobre-se gay; não há escolha, há o assumir. Escolher é optar, e gay é uma condição e não uma opção. Nem é moda. Pense, pessoal: quem em sua sã consciência vai “optar” ser gay? Quem vai “escolher” ser criticado e rejeitado pela família, pelos amigos já conquistados, perder emprego (e ainda se perde emprego por isso viu, gente? Conheço exemplos bem recentes com amigos meus...), ficar isolado, apanhar na rua de garotões pitbull (na minha opinião, todos “enrustidos”, mas isso é muito pessoal...)? Ou vocês acham que “bicha” apanha só no Texas, nos EUA? Não, queridos e queridas, “bicha” apanha aqui mesmo no Brasil, em São Paulo, em Florianópolis... E não são somente as “espalhafatosas”, também os “discretos” apanham... Então, quem é que “escolhe” a possibilidade de passar por isso? Você escolheria? Se você abrir sua mente e coração para ouvir as histórias de um homossexual vai ver como são essas coisas e talvez confirmar que não se escolhe ser assim, eles sentem e descobrem que simplesmente são. E a partir daí passam a matar dois leões por dia, como se não bastasse matar um como todo mundo...
Onde estão os itens novos no meu novo texto? É... Parece que não vou achar... Eu não fui incoerente. O mundo é incoerente... Um momento! Tem sim, um item novo: no texto antigo acho que não tive a oportunidade (por falta de espaço) de falar das homossexuais. Bem, não muda muita coisa. Sofrem a mesma pressão preconceituosa (tem macho que fala que é “falta de homem” ou quando pensam em duas mulheres juntas soltam um “hummm!” de dentro de suas mentes pequenas), têm problemas com a família, na aceitação dos colegas, no emprego, nos estudos... Em termos de quantidade tenho mais amigos gays do que amigas lésbicas, mas percebo delas que os problemas são parecidos.
A única coisa que eu já presenciei de “diferente” no meu cotidiano no convívio com algumas lésbicas, foi a mesma que alguns homens heterossexuais passaram com alguns homossexuais: existe aquelas que insistem em lhe convencer a ser homossexual como elas. Talvez por estarem ainda em fase de auto-aceitação (auto-afirmação), ou por serem influenciadas pela mentalidade machista e hipócrita da nossa sociedade, acham que a outra não é só porque não experimentou, de que se “vira” lésbica. Não concordo do mesmo jeito. Sei que desaponto muita gente, mas não sou lésbica. Lamento. E sei que isso acontece pela mentalidade que têm não pelo o que são.
A mentalidade de muita gente que tem sua sexualidade mal resolvida (por tabus, ou por não assumir algo) continua suja como sempre. Eu, por exemplo, por trabalhar com Dança do Ventre e admirar a beleza feminina, incentivar a auto-estima da mulher, por beijar e abraçar minhas amigas, e por não ficar expondo minha vida íntima por aí à toa (os homens com quem eu saio, vou pra cama ou beijo na boca é da minha conta e mais ninguém! Às vezes nem meus amigos e amigas íntimas ficam sabendo desses detalhes!) e também por ser enfática (por minha voz grave e meu lado masculino bem resolvido e colocado na hora certa) já fui “vítima” de fofocas de meus alunos e minhas alunas de que eu “seria”. Sabe aquele comentariozinho típico de quem não tem o que fazer, tipo, “será que a professora Ana é?” Não ligo, porque quem paga minhas contas sou eu, além de tudo vejo esse tipo de comportamento com olhar de lástima, de pena. Também são ossos do ofício de quem está no “palco” como uma professora, nada a ver com a sexualidade minha nem de dos/das fofoqueiros/as.
Mas acho todos esses tipos de comentários e atitudes que citei aqui são uma ofensa aos/às homossexuais e à tentativa deles em levar suas vidas da maneira que têm direito! Assim como eu, eles/elas são cidadãos, pagam taxas e impostos, exercem sua função social, produzem, consomem, têm família, amigos, namorados/as, têm problemas, têm prazer, se divertem.
Eles e elas fazem parte do meu cotidiano aquém de minha vontade, são exemplos da diversidade natural e presente no mundo, na Natureza, no Universo. Graças a Deus, não somos iguais a ninguém outro no Cosmos, vivemos e convivemos com a diversidade o tempo todo: diversidade de plantas, de animais domésticos e selvagens, de minérios, de paisagens, de gosto, de prazer, de livros, de filmes, de dança, de beijos... Os/As homossexuais são nada mais nada menos do que mais um item do conjunto diversidade, mais uma cor no arco-íris feito por Deus, abençoado pelas deusas. O dia em homenagem à diversidade é só mais um dia para mim de festa, pois comemoro isso todos os dias. Mas entendo que ele é necessário ainda numa sociedade que precisa ser sacudida em seus preconceitos.
E eu, além de minha revelia, tenho o privilégio de ter em minha vida meus amigos e minhas amigas homossexuais, pois muito mais do que “escolher” tê-los ao meu lado, eu não posso fugir do fato (jamais iria querer) de que eu OS AMO de todo meu coração e alma.