Ceifeiro gentil
Venho repensando a ideia de suicídio. Eu disse a um amigo uma vez que notei que suicidas famosos poderiam ter feito o ato não a partir somente do seu orgulho. Acho que os entendo melhor agora... Tenho a impressão de que não é somente um ato dramático. As pessoas geralmente vêm assim, como um ato desesperado. Hoje já penso diferente.
Os espiritualistas e religiosos de um modo geral condenam o suicídio de modo ferrenho e dizem que a pessoa terá uma vida mais dura ainda depois que desencarnar. Parece que quase todas as religiões, a sua maneira e terminologia, dizem que para a alma o suicídio não será nada bom, que somente irá atrasar sua evolução, entre outros tormentos. Acredito em tudo isso, porém ao mesmo tempo não é o suficiente para me convencer de que não virá um certo alívio mesmo que efêmero para o suicida.
O fato é que a vida sempre ganha, certo? Os terapeutas holísticos da nova era vivem dizendo que você pode ter tudo o que quiser, dinheiro, amor, sucesso, mas você tem de aceitar a maneira como a vida vai lhe trazer tudo isso. Ah! Interessante! Você é livre para criar seu destino, desatá-lo, transformá-lo, mas não exatamente da maneira que você quer... Eles dizem “a vida sabe o que é melhor para você”, “você tem de confiar nela”, “você não é maior do que a vida, você é a vida”, etc. Mas a verdade é que o paradoxo persiste: você nunca poderá ganhar da vida. Nem mesmo quando você se mata... Você é eterno, certo? Você mata seu corpo agora para fugir daquilo que você (não?) quer, mas em algum lugar lá fora do corpo, nada terá mudado, seu problema vai continuar. Então, eu reclamo é dessa aparente liberdade, compreende?
Por que não posso simplesmente me matar com uma espécie de bomba atômica e evaporar, virar nada mesmo, escapar da vida? Esta vida que parece tão generosa, mas te controla totalmente te amarrando a ela...
Eu agora entendo bem melhor Shakespeare quando ele diz que nós somos apenas marionetes sob o fio nas mãos da vida e tudo isso aqui é um palco. Quando Hamlet diz: “morrer, dormir, talvez sonhar” ele começa a conclusão de que você não pode escapar da vida, que quando você imagina que ao morrer você poderia acalmar sua alma com alguns sonhos eternos e fazer as coisas melhorarem e ficar um pouco mais feliz, você é acordado para a realidade de que isso não vai nunca acontecer. Estar ou não estar morto é uma questão de puro jogo de raciocínio, pois a verdade é que você não pode morrer, não mesmo!
E eu digo mais: o amor falido, o emprego infeliz, a falta de amigos ou de dinheiro, nada disso é realmente a razão do meu namoro com o suicídio, longe disso. Eles são meros catalisadores de uma questão mais profunda, eles são o espelho colocado pela vida para me mostrar que eu não vou ganhar dela jamais! Esta ideia de auto ceifa está no meu coração há muito tempo...
Vejo que as pessoas interpretam o suicida de modo preconceituoso, realmente como um tabu. O suicida não está simplesmente e somente fugindo da vida ou problemas. Você diria, com toda sinceridade, que um homem com Ernest Hemingway estava tentando fugir da vida? Um homem que viveu a vida por inteiro, escreveu a respeito, ficou famoso, rico, viajou, amou? Por que ele iria querer escapar? E não me venha com a velha ladainha de que fama, dinheiro e tudo acima não trazem felicidade, de que lhe faltava o tal “deus”. Aliás, eu tenho certeza de que ele não desprezava a vida e já tinha aprendido cedo de que deus não existe. O pai dele se matou também, ele estava doente, velho, alcólatra, com depressão, mas nada disso pode ter sido realmente o motivo de ele tirar a própria vida, sabia?
Hemingway (e talvez muitos outros como ele) se matou por duas razões terrivelmente simples: primeiro para ter a derradeira emoção de que pelo menos por um instante ele teria o poder sobre a vida! E segundo porque provavelmente ele estava bem cansado, extremamente cansado. Uma mente e espírito brilhantes que não admitia não ter o controle sobre a vida... E é o modo como me sinto agora: um cansaço imenso principalmente da repetição da vida, dos erros, dos tais momentos felizes. E para dar mais vazão à minha sinceridade, também me canso por ficar dando razões para meu cansaço. Ele é tão completo e me toma por inteiro de tal modo, que ele está lá como um monólito da verdade, preenchendo todo o espaço da minha vida, do meu corpo e o peito dói.
Não posso negar que eu devo estar sob a influência de energias negativas, tais como, encostos ou formas-pensamento, provavelmente estou. Mas não muda o fato e a verdade de que o pensamento suicida está aqui comigo, me rodeando, como há eons de tempos atrás.
E eu pensei ao escrever isso que se a pessoa amada me dissesse “não” de novo, se o dinheiro e os amigos faltassem, ou qualquer porcaria dessas repetições, eu poderia simplesmente vender tudo e ir meditar no Tibet, viajar pela Índia, virar hippie, ou seja, mudar radicalmente de vida, como já fiz outras vezes. Pois mudar de vida radicalmente significa morrer um pouco e me livraria por um tempo do umbral. Ao escapar de toda a miséria chata que a vida me dá, eu estaria desviando minha mente do suicídio, fingindo encontrar causas nobres para continuar vivendo. Eu me fecharia para o amor, o dinheiro, amigos, satisfação e não sei o que mais... Até o próximo fluxo de suicídio voltar aos meus pensamentos.
Contudo, se eu recebesse tudo o que eu quisesse, pessoa amada, dinheiro, amigos a perder a conta, temo que a vida estaria me dando um doce para acalmar meus pensamentos suicidas... Ela sempre faz isso. Claro, eu ficaria feliz feito um peru fugido no Natal, mas eu saberia que ela estaria me dando uma nova chance, que no fundo é para ela.
O único entendido da vida que falou algo sensato sobre o suicida e o que ele pensa, foi o Osho. Ele disse que jamais devemos julgar a pessoa que resolve se matar, pois não estamos na pele dela para saber da missa a metade. Ele reflete que geralmente as pessoas que resolveram se matar são as mais sensíveis e inteligentes no seu meio. Sentem de longe a hipocrisia e percebem logo de cara e muito cedo a neurose da sociedade e quando resolvem chamar o ceifeiro gentil é porque simplesmente não suportam mais tudo isso, estão cansadas da repetição, de serem moídos na máquina social e simplesmente não vêm solução para tudo isso. E que como pressentem que não poderiam sair dessa condição escravocrata, sentem derradeiramente que a única coisa que realmente possuem é a vida, e a única coisa que poderiam fazer e pudessem chamar de “sua” é acabar com ela. É mais como um ato rebelde contra a mesmice burra em que vivemos.
Sociedade neurótica... É a pura verdade... E uma neurose que gera muito dinheiro para muita gente, então por que mudá-la, certo? Neuroses em todos os aspectos da vida: todos querem ter muito dinheiro, mas o desdenham o tempo todo com frases de falsa modéstia, pretensa espiritualidade ou posição política de “esquerda” ao capitalismo. Todos querem amar e ser felizes, mas só vão atrás de quem o despreza, ou quando amam não demonstram com medo de parecerem ridículos e desprezam aqueles que os amam. Trabalhar no que gosta parece nunca trazer prosperidade, então trabalham em algo massacrante para ter um bom salário, se prometendo no começo que um dia vão sair dali para curtir a vida e fazer o que realmente gostam, mas não conseguem nunca. Reclamam que não têm amigos, mas adoram falar mal da vida alheia, julgando a todos.
E somos mesmo todos another brick in the wall... E o ceifeiro gentil espreita e aguarda as chamadas…
8 comments
vc reescreve muita coisa q eu já disse.
Não procuro endosso para o suicídio. O texto é de ponto de vistas variados, não só do meu. E tive a intenção de questionar quem ou aquilo que mostra tabu contra o suicídio, com as máximas "covardia", "fuga" ou "maldição" para os religiosos.
Não tenho pretensões de fechar questões, tentando dar a "última" palavra no que digo. Foi uma tentativa de abrir um questionamento.
No resto, concordo contigo.
Obrigada volte sempre
Sabe o que eu realmente acho sobre o suicídio?
Isto aqui originalmente era um playground, com temas diversos, uns sensacionais, outros menos, mas nada tão horroroso como o que virou.
Certos escalões deram um golpe planetário e transformaram a vida no planeta no que se vê nos últimos 3000 anos, possivelmente.
A vida terrena originalmente idealizada não era este sufoco, tortura, aprisionamento etc, variando de acôrdo a onde a pessoa atracou o bote qdo veio.
A vida em si é nada; é uma tela em branco pra vc pintar o que der na veneta.
Ir embora deliberadamente, por sua conta, é uma escolha, e tanto faz se é ir pro Tibet ou pra morte. É só uma escolha dentre as possíveis.
Uma escolha que tem a ver com quem vc é, com a maneira como vc sente, não a vida que vive, mas o fato de estar vivo.
Nem todo suicida está com problemas cotidianos, como nem todo suicida está terrivelmente infeliz do pto de vista existencial.
Não acho que seja "proibido" se matar, nem esotericamente, nem filosoficamente. Os gregos achavam que às vezes era uma boa solução, aliás.
Mas acho que, como toda escolha, seus efeitos vão depender das razões que levam alguém a optar por ela. E sei que o que esbarra no sacrílego é torcer o movimento da vida apenas para satisfazer caprichos egoicos. O que não é, no meu entender, o caso do Hemingway, por ex.
Já senti o impulso suicida, qdo era bem mais jovem. Foi um momento que durou uns 60 segundos, mas foi tão claro e real que pareceram 3 horas de reflexão.
Não o fiz simplesmente pq minha natureza é uma série de coisas que conflitam com essa opção, dentre elas curiosa, obstinada, xereta, interessada, abelhuda etc...rs.
Eu curto este parquinho e curti mesmo qdo vivi coisas mto mto ruins. De verdade.
Curto agora que minha vida mudou radicalmente sem que eu pudesse fazer nada pra impedir ou pra direcionar a mudança.
Curti sempre, até acompanhando o que não dá pra curtir.
Mas só percebi esse dado essencial (no sentido lato, de essência) meu, qdo considerei e contemplei a hipótese de suicídio com seriedade.
Agora, não sei se entendi mal, mas pq é que eu tenho a sensação, lendo teu texto, que vc na real procura endôsso pro suicídio? Como se, encontrando quem o apoia ou ao menos quem não o condena, então o ato deixa de ser tabu, ou sacrílego ou então fica "liberado", digamos. Foi a sensação que me deu.
Já eu acho que o que valida ou não qqer experiência é o alinhamento que ela tem, na razão de ser, com a essência pessoal.
Porém, se você viu no texto estou buscando sair um pouco das explicações das pessoas de fora, que não o suicida em si; assim como sair dos conceitos mais comuns (não que não sejam verdadeiros ou pertinentes), como: desilusão, mimo, frustração, compreende?
O que me espantou nestes depoimentos e insight do Osho em específico, foi justamente que em seus conteúdos havia algo novo, uma nova perspectiva sobre o que pensa o suicida que, pelo menos eu, não havia atinado ainda. O que o Osho disse ali realmente me abriu os olhos, inclusive numa experiência pessoal minha...
Veja o texto dele na íntegra que achei na web:
http://www.oshobrasil.com.br/conexaotexto38.htm
A primeira pulga que ficou atrás da minha orelha e fui atrás para saber mais, foi alguém que me disse "nem sempre o suicida acha a vida como um todo ruim..." Aquilo me deixou intrigada e ainda estou a procura de mais pistas para este outro modo de ver a coisa.
Já viu aquele filme "A ponte"? É triste, mas tem um ponto de vista interessante. O documentarista não trata o suicida exatamente como um "coitado perdido na vida". Ele olha para aquilo com compaixão e olhar de denúncia para algo maior, além dos nossos pré-conceitos. E bonito também.
(na íntegra)
http://www.youtube.com/watch?v=bqeoQ-5ot34
OBRIGADA A VOCÊ, AMIGA!
Para o suicida a visão é diferente, e geralmente ele comete este ato no momento do surto, ou uma psicose, uma crise de inflação com depressão, profunda decepção e desgosto consigo mesmo e com o outro, sensação de impotência diante dos fatos que não consegue ou se sente incapaz de modificar em sua vida, entre outros tipos de estados alterados de consciência; e pode se sentir emocionalmente estável ou instável no momento do ato, quero dizer, estar "frio" ou "quente".
O suicídio traz a questão da vida não vivida e tão desejada, a vida não consumada, e esse discurso é de Nitzsche, que influenciou profundamente a Psicanálise e cuidou do terror que Breuer, precursor de Freud, sentia diante da morte.
Super beijo e gratidão por ter coragem de elaborar assunto tão assustador.
Te admiro.
Luciaurea.
Mas se tivesse lido veria que não há ali sequer um estímulo ao ato, só reflexão a respeito de como as pessoas vêm o suicida e o suicídio: sempre julgando, sempre sabendo o que é melhor para outro.
Venho recolhendo este material e tentando saber mais além dos julgamentos e pré-conceitos, principalmente das pessoas que nunca tiveram esta ideia em mente.
Quanto ao que disse sobre o controle, concordo!
Obrigada!
Em um outro "post" eu disse que somos donos de 50% do controle, a outra metade esta em mãos alheias, passando pela nossa família, governo, sociedade e sei lá mais o que... Não importa onde você esta, seja vegetando em um hospital, preso em uma masmorra, nunca vai ter controle sobre os 100% que chamamos "VIDA".
Suicídio é solução? Talvez para alguns, mais eu acredito na emoção de viver. Se tudo está errado, mudamos o paradigma e começamos novamente. Não há pressa, o legal é curtir tudo, apreciar tudo, mesmo os erros, porque são inerentes ao processo e mais importantes que o sucesso. O "erro" nos induz a refletir, buscar soluções mais criativas, ouvir o próximo e já o "sucesso" nos torna propensos a ser poderosos, cheios de pompas e circunstâncias, pisando com botas de aço em quem não teve a mesma sorte. Eu prefiro o meio termo, não penso em suicídio e nem recomendo a ninguém. É preferível viver errando do que perder a chance de acertar... Abração!!!!
Concordo contigo plenamente!
Não julgar ninguém e entender a razão dos outros passa muito pela nossa própria experiência, certo?
Obrigada por compartilhar!