Blog da Luciaurea

Quando falamos sobre Mistérios Femininos, estamos falando de um trabalho natural comum à vida de toda mulher, e ao Sagrado que esse Feminino traz e que a acompanha por direito, assim como o o homem, também tem seus Mistérios Masculinos em seus aspectos Sagrados.

 

Vamos começar com o Mistério da Menstruação

Mulher, este texto vem lhe dizer,
emprestando um dizer de Louis Burlamaqui:
“Flua! Pare de brigar com você e traga de volta seu alinhamento!” Menstruação tem tudo a ver com isso.

Menstruação:
deixar o sangue correr para fora.
O sangue que o seu corpo fez.

 

Menstruar ou não menstruar? Eis a questão! A tecnologia (ciência – medicina – farmácia) desdenha há um bom tempo dos conhecimentos ancestrais que estãoprogramados milenarmente nas mulheres, uma conexão muito profunda que revela nossa inteligência hormonal. Porém essa programação é bem mais antiga, e nem sempre a ciência, ou a própria cultura, conseguiu convencer nossos corpos de que precisamos parar de sangrar e viver entupidas. Não. O corpo não faz isso sozinho. Porque é de sua natureza sangrar.

Sabemos que os hormônios alteram muito o ciclo do humor feminino, e também a vida sexual da mulher, sobre a qual falaremos em um outro post. Em função dessas alterações, os meios de massa do patriarcado, que é amparado não só pelos homens, mas também por mulheres, usam a mídia, a cultura e a religião, para fazer a mulher acreditar que:

·         fazer sexo menstruada é um ato sujo e merece punição;

·         nascer mulher é ser suja;

·         sangue é sujo e vergonhoso;

·         o sangue fede (em função do absorvente gente, pois o sangue não fede);

·         é vergonhoso menstruar;

·         nem pensar em falar de menstruação!

·         nosso sangue é nojento;

·         devemos odiar a menstruação porque ela é inconveniente: ficamos nervosas, sentimos dor e devemos abolir o sangue para “ter mais controle de nossas vidas.” – sendo consequentemente menos fêmeas – um pensamento típico sexista. Gente fala sério: abolir a menstruação para ser mais prática, é como cortar um membro. Srta. Prática, por que você não corta uma perna?

Ok, então, agora eu coloco a decisão em suas mãos:

·         ou você usa seu ciclo a seu favor;

·         tirando o máximo que a menstruação pode te oferecer;

·         sendo boa com você;

·         respeitando seus períodos de necessidade de repouso;

·         aceitando a cor que o seu sangue tem, e ele é vermelho mesmo;

·         nem que para isso você ainda precise de ajuda médica para cuidar de uma TPM, ou de Círculos Femininos para se sentir abraçada;

·         ou a cultura o usará contra você, até se vincular a idéias sociais e religiosas que te deixarão muito assustada.

E as idéias que vêm da crença imediata e subliminar “Ou você domina sua menstruação ou ela te domina” são falsas. Na verdade o que está por detrás deste jargão é “Ou você domina sua menstruação ou vamos rejeitar você”. Essas crenças subliminares criam uma pressão interna, fazem com que as mulheres pensem que a menstruação é uma coisa ruim e que a única forma de dominá-la é suspendê-la. Iniciador deste movimento foi o Dr. Elsimar Coutinho. Grupos que afirmam que menstruar não é natural, que é uma sangria inútil ou uma falência reprodutiva, homens que concordam com isso, não gostam da mulher, da mulhernatural. São pessoas que temem o selvagem (o natural), querem dominar a natureza, e são arrogantes demais para admiti-los. Porém, como eu disse no início deste artigo:

“Nossa programação natural é bem mais antiga, e nem sempre a ciência, ou a própria cultura, conseguiu convencer nossos corpos de que precisamos parar de sangrar e viver entupidas. Não. O corpo não faz isso sozinho. Porque é de sua natureza sangrar.”

INCLUINDO A FAMÍLIA

Uma outra coisa muito importante é falar sobre menstruação para a família, mãe, pais, irmãos, primos, filhos, porque o assunto em algumas famílias é tão tabu, que os familiares arregalam os olhos quando o assunto é aberto e a mulher ou a jovem revela: “Não quero fazer tal atividade, quero descansar porque estou menstruada”. Gente, nós precisamos ser respeitadas quando queremos repouso! Vamos continuar falando mesmo que não gostem ou mesmo que ameacem nos rejeitar. Eu tenho esta experiência então posso falar dela: sempre disse ao meu filho que estava indisposta ou que desejava chocolate porque estava menstruada. Então para ele, é natural falar isso. Mas para minha mãe a informação é irritante. Ela me ameaça com rejeição e depois volta a falar comigo normalmente. A questão aqui não é falar para declarar guerra. A questão é apenas dizer como você se sente como falaria ao ter comprado uma roupa nova. Você merece respeito por menstruar – e por ter decidido que gostar disso.

VANTAGENS DE MENSTRUAR

Ok, agora que falei para que você aproveite as vantagens da menstruação, lhe dou esta lista de presente para que você se sinta aliviada e satisfeita, liberta da culpa que colocaram em nós por menstruar, e mais, por gostarmos de menstruar. Se você acabou de se fazer esta pergunta “Eu gosto de menstruar?” e a resposta foi: “TPM, dor de cabeça, irritação mortal”, está na hora de fazê-la pensar diferente. Vamos compartilhar alguns Mistérios:

·         quando muitas mulheres trabalham ou moram em um mesmo ambiente, seus ciclos se sintonizam – e isso é a inteligência hormonal inconsciente se manifestando. As mulheres se sentem mais amáveis e aliadas umas das outras, embora a TPM possa tornar essas relações um pouco instáveis;

·         é o período mais criativo da mulher, embora ela possa se sentir menos produtiva – porque está introspectiva, suas vitaminas estão saindo do seu corpo – porém, sua criatividade para fazer o que gosta, desenho, pintura, crochê, escrever;

·         é o melhor período do mês para repousar e descansar sempre que puder e comer o necessário de chocolate (eu disse o necessário);

·         podemos nos sentir mais “fêmeas” assim como no período fértil e isso depende de cada fêmea – algumas dizem que o sexo é melhor quando menstruam;

·         podemos praticar dança criativa feminina de olhos fechados e ganhar um imenso bem estar com isso;

·         você se sente com poder, de alguma forma, um estranho poder. Principalmente, se você escreve em seu Diário Menstrual (adiante) – você se conhece melhor, é como se você segurasse o cetro da Imperatriz do Tatot e você fosse a Imperatriz;

·         muita intuição, algumas previsões – sua inteligência espiritual fica muito aflorada e você fica muito sensível ao mundo espiritual;

·         ter mais tempo para si mesma. Você pode se programar para isso, principalmente quando você preenche o seu diário, você pode verificar suas datas e quando elas caírem no final de semana, você pode se programar para suas “atividades de repouso”, ou “suas atividades de criatividade”, e por aí vai. Se quiser dormir o dia todo, faça conforme seu corpo deseja. Obedeça essa sabedoria ancestral que vice em você. Ela é um programa milenar e sabe quando você precisa dormir – sem culpa – e entrar em atividade – sem culpa;

·         aumento da consciência ecológica: nosso desejo de ficar mais com a natureza, cuidar das plantas, aumenta;

·         você pode compartilhar esse momento com uma outra colega que também goste de menstruar (compartilhe este post e vamos nos encontrar);

·         se você tiver mais uma para esta lista, deixe seu comentário!

Já paramos para pensar que nossas ancestrais provavelmente também precisassem de um local comum para todas as mulheres que estavam menstruando, não apenas pelas crenças de Sagrado Feminino, pelos ritos de passagem, mas também porque também, em períodos de estresse e pressão, também pudessem sentiam dor? Que a TPM é um sintoma moderno, mas que também pudesse se manifestar em períodos de guerra e pouca comida, em regiões muito frias… Ou que alguma jovem ou mulher ancestral talvez não fosse absolutamente privada de alguma dor ou desconforto, e a necessidade da união feminina ia mais além do que imaginamos? PS: Esta é uma idéia minha que ninguém é obrigado a adotar.

COMO COMER CHOCOLATE

Então meninas, como eu mencionei a questão do chocolate (eu sei que ele é irresistível), eu resolvi falar sobre ele. Existe uma questão profunda sobre a tensão que o doce causa durante a menstruação, pois é uma necessidade intrínseca repor aquilo que estamos perdendo.

E aqui fica a dica: ao invés de esperar que seu corpo entre em colapso e te peça exigindo o que você precisa comer, estabeleça uma dieta saudável e possível, de acordo com sua renda, sendo o chocolate um de seus elementos.

Não espere a ansiedade chegar para comer o chocolate. Coma o chocolate aos poucos, sem estar ansiosa, e verá que você é capaz de se controlar frente a visão magnífica deste alimento tão nobre. Em uma barra encontramos muitos gominhos. Vá se alimentado de um ou dois durante os dias e veja sua reação. Seu corpo não te obriga a comer na ansiedade, porque você está comendo da forma certa. Alimentando-se desta maneira, você provavelmente se sentirá saciada.

E se caso você se sentir ansiosa ou irritada por outras razões e não sentir a necessidade de um chocolate, procure um ou três médicos para ter uma opinião formada, e siga suas instruções. Talvez uma nutricionista resolva isso. Uma alimentação “10″ durante o mês pode salvar tua necessidade de comer inadequadamente durante a menstruação.

A TPM

Estamos falando tanto de TPM. Eu tenho TPM todos os meses em que sofro estresse. Isso significa que mês tranquilo = no stress, no pain.

A TPM foi primeiramente notada pelo médico norte-americano Robert Frank em 1931. A TPM caracteriza-se com um conjunto de sintomas físicos e comportamentais , que acometem a mulher em sua fase da menstruação, e não é uma doença de um órgão específico, não é detectável em exames, embora muitos sejam os sintomas, segundo do Dr. Eliezer Berenstein:

·         tipo A (ansiedade) – predominância de sintomas de sintomas ansiosos: pressa, agitação, instabilidade de humor e agressividade;

·         tipo C (compulsão por comida) – predominância da compulsão alimentar irresistível: doces e chocolate;

·         tipo D (depressão) – predominância de sintomas depressivos nos 15 dias que antecedem a menstruação;

·         tipo H (híbrido) – ocorrência de inchaço nos seios(abaixo das mamas é mais dolorido), distúrbio do sistema nervoso central causando dores de cabeça e musculares.

Independente do tipo de sua TPM, não brinque com ela. Faça o tratamento médico, vá a mais de um médico para ter pelo menos 3 opiniões médicas, conecte-se a grupos femininos e faça uma boa psicoterapia, pois a TPM de hoje é sintoma do que nossas ancestrais mais recentes passaram na guerra, quando enfrentaram o preconceito masculino ao irem para o mercado de trabalho. Quando mais dor você sentir, mais conforto e amor se dê até a dor ir embora. Procure uma amiga para melhorar seu humor. Você tem apoio para isso, olhe dentro.

TEU SANGUE TEM PODER!

Mulher, teu sangue tem poder! Você é a única capaz de sangrar sem morrer, e também a única capaz de fazer sexo mesmo menstruando, isto é, sangrando, estando grávida ou amamentando. O sangue que seu corpo produz é nutritivo porque o endométrio que reveste o útero está se preparando para receber uma criança, e como isso não ocorre, ele se desprende e a menstruação se sucede.

Uma outra coisa importante no quesito menstruação, é o poder de nossos hormônios – nossa Consciência Hormonal, que ainda é muito inconsciente. Mulher, se você conhece a dinâmica e influência de seus hormônios, é possível ter uma vida mais feliz do que a que você tem agora. Para chegar nesse ponto, você precisa se observar, e observar seus movimentos hormonais. De nada vale ser uma “super-woman” na vitrine do mundo atual, se você não pode ser feliz. Um diário menstrual  pode lhe ajudar a ter essa visão diferenciada e com poder de si mesma, e anote tudo sem julgamentos (faça o download aqui):

·         acontecimentos (ex. menstruei) – e anote as etapas, 1º dia, 2º dia;

·         impressões;

·         emoções/pensamentos/como me senti;

·         conclusões;

·         você pode ampliar sua tabela conforme necessitar, anexando folhar à ela, ou comprando um diário e colocando a tabela na primeira folha e deixando comentários à parte nas outras folhas.

O ciclo menstrual é aliado e não inimigo do equilíbrio feminino.

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Círculo de Mulheres -

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BIBLIOGRAFIA

BERENSTEIN, Dr. Eliezer. A Inteligência Hormonal da Mulher. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

 

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Tuesday, 19 June 2012
posted by Luciaurea

MÚSICA EM FOCO
Sonhos em análise em “Kiss from a Rose”, de Seal

Interessante é observar os movimentos da psique e os sinais que ela nos envia, em especial através dos sonhos e das “trilhas sonoras” que eles nos trazem.

Em resposta a algumas perguntas elaboradas pelas leitoras e amigas, neste post eu gostaria de considerar algumas idéias e possibilidades, como respostas de saídas para o feminino, partindo de uma instância interna da mulher: o animus.

Este animus (figuras masculinas) que se apresenta nos sonhos femininos, tem muito a dizer para a mulher que o sonha. Quando uma mulher sonha com figuras masculinas, meninos (animus infantil), jovens (animus puer, irresponsável ou sedutor embusteiro), adulto (animus maduro, podendo ser uma imagem representativa do animus sagrado) e velho (o velho sábio ou o senex, o rabujento, o interditador, a figura de autoridade), significa que a mulher está se comunicando com essa instância interna, que se projeta fora de seus sonhos, constelando-se em sua vida através das figuras masculinas que os homens representam para o feminino, em geral.

Este animus pode se constelar sob a forma do filho, de um homem, de um membro masculino da família como um irmão, um chefe, mas em geral, o primeiro contato com o animus que a mulher tem é com a imago paterna.

Geralmente os sonhos trabalham em sincronia com um determinado grupo, podem se sincronizar em pessoas que trabalham na mesma empresa, no grupo familiar ou em qualquer outra forma de grupo social. Isso significa que os sonhos são o resultado de uma mensagem que a psique coletiva está engendrando para determinado grupo, sendo que além dos ajustes coletivos, o sonho individual de cada membro será reflexo dos ajustes individuais que um membro em particular sonhou, uma vez que os sonhos são um função reguladora da psique humana.

Logo, temos circunstâncias, no caso da mulher, em que o animus pode se apresentar para um grupo feminino a fim de comunicar algum símbolo, que será traduzido por esse grupo e por cada mulher em particular: como uma necessidade de tomar estes aspectos em si mesma, uma missão heroica feminina para se harmonizar com os aspectos apresentados por esse animus em seu sonho. E cada sonho em particular, irá comunicar também à outras, aspectos que elas não perceberam ou que não lhes foram apresentados em seus sonhos pessoais.

Neste post eu compartilho uma resposta de um animus considerador que deseja se comunicar com sua anima, ele deseja lhe enviar uma mensagem, lhe dizer algo muito importante: ele existe. E está ativo, procurando por ela dentro dela. Essa resposta me chegou através de uma sequência de sonhos interligados, como se um fosse a continuação do capítulo anterior, porém aqui, compartilho apenas esta resposta, para tornar fácil nossa comparação quando abordamos a questão da diferenciação feminina do animus atávico (o desconsiderador, o infantil, o sedutor embusteiro, o “Barba Azul” ou o “Puer”), muito presente no feminino atual, que nasceu e vive em uma sociedade patriarcal com alguns parâmetros matrifocais.

O BEIJO DE UMA ROSA

Acredito que todos conheçam aquele momento em que, dentro do próprio sonho, ou quando estamos prestes a acordar definitivamente, ou mesmo quando estamos entre a vigília e o sono, vem aquela música em especial, às vezes são músicas que nunca ouvimos, outras, músicas conhecidas que a psique empresta para nos alertar a respeito de algum símbolo, sendo este alerta uma  conversa e não necessariamente um perigo. Às vezes ele pode ser a resposta a um perigo que pede para ter uma crença ressignificada em nossa psique, para que possamos nos diferenciar de determinado dilema e incômodos que vivemos diariamente.

Neste caso, em especial, vejo esta “trilha sonora onírica” que me chegou como uma resposta, “Kiss from a Rose” de Seal, veio como uma saída para que o feminino preste mais atenção a este animus que deseja ser considerado, visto, acolhido e salvo, destacado de seu próprio lado sombrio, como também da própria sombra feminina, do feminino atávico (leia “Cortando os laços com a Mãe Terrível“).

Este animus que aqui é apresentado, se sente diferente. Em seu discurso, ele não é apenas sombra, mas também pode oferecer a luz. Ele vive o mito do renascimento, elaborando suas cinzas para o renascer diferenciado, como uma Fênix. Ele é a Fênix renascida, gestado dentro da anima, e com isso, ele convoca a mulher para que não tenha medo de renascer como outra dentro de si mesma, pois sabe que ela já começou a desabrochar e só precisa de seu sinal para percebê-lo e aceitar eu chamado para sair de sua torre. A torre simboliza um mecanismo de defesa feminino que está prestes a ruir.


Ele também lhe revela
 alguns segredos masculinos compartilhando aquilo o que pensa. Ele tem dúvidas sobre se esse amor poderia continuar existindo se ele caísse pelo caminho. Ele ensina que o amor não exclui a angústia, mas que pode ser vivido a dois, sem o desespero que o tem acompanhado em sua solidão, que nada mais é do que o reflexo da solidão da própria anima de si mesma. A proposta dele é se diferenciar da solidão a dois: ele não deseja mais isso, como um sinal psíquico de que a própria mulher está mudando de sintonia. Ele chega mesmo a questionar se essa nova sensação que traz a descoberta do amor, se essa renovação que o acompanha, é realmente saudável para ambos, mas não se importa muito com isso desde seu apelo seja experimentado. Ele está erotizado pela anima.

Ele recebe o beijo dessa anima sob a forma de uma rosa efinalmente se levanta de sua sepultura. Ele também sabe que essa rosa tem seus espinhos, mas não a teme. Ele só deseja ser considerado, muito mais, deseja ser integrado.
Ele já está maduro, pronto para ser vivido como símbolo. Isso se assemelha, em parte, ao  mito do vampiro, e tendo em vista que, os vampiros da atualidade são diferentes em cada conto fantástico hoje escrito e ressignificado, e que os criados por Meyer são “vegetarianos”, mal têm presas e andam à luz do dia, esse símbolo oculto na música, representaria a evolução de um animus anteriormente atávico que atualmente renasce em seus aspectos humanos.

É interessante ainda notar que, o vídeo escolhido para esta análise, mostra o cantor Seal, como símbolo de um animus que se diferencia deste aspecto do inconsciente: mostra que o lado obscuro do feminino está repleto de ouro e luz. Esse animus que nos traz Seal como símbolo, um “feio”, um homem com marcas ou cicatrizes no rosto, diferenciado em sua beleza, recebe a rosa de uma menina em fase de crescimento, e ele aceita essa rosa da puella. Ele sabe que ela irá crescer. Esse é um animus que sabe o que quer.

Traz ainda, como mostra a música inteira, a rosa como símbolo do feminino, tanto sagrado quanto sexual, revelando que a anima já tem nível de permissão para acessar o feminino e tomar a sua rosa, assumindo seus espinhos e encontrando tanto nos espinhos quanto na flor, não só sua beleza, mas também sua defesa, plenitude e poder. Esse masculino lhe dá poder.

Um outro símbolo interessante que chama a atenção é a neve. Símbolo de brancura, e por isso, também pureza, a neve é o conjunto de cristais de gelo que cobre a superfície de tudo no período do inverno, e o inverno representa a morte temporária dos aspectos naturais que devem ser renovados. O cristal de gelo é a precipitação de uma forma cristalina de água congelada. É uma elaboração da Solutio psíquica. O cristal de gelo possui uma forma hexagonal, muito presente na Geometria Sagrada da Água. Pode representar emoções congeladas que estão prestes a descongelar dentro da psique feminina, pois esse animus evoca a libido. O fato deste animus enxergar melhor a luz de sua anima quando neva, significa que ele tem seus olhos renovados pela força de purificação do símbolo que a neve representa, e que ele também pode se comunicar com a anima tanto na vida quanto na morte, amparando-a no sentido renovatório de si mesma: sendo a morte o período que mais torna perceptível a renovação e o preparo para o renascimento de sua anima. Esta mulher está se preparando para vir ao mundo e deixar de ser puella, a fim de se tornar a parceira deste animus na Conunctio, o Casamento Sagrado com o animus que ocorre no processo alquímicointernode toda mulher, e somente dentro dela essa alquimia pode ter começado. Então, o“agora que sua rosa está desabrochando uma luz atinge a escuridão da sepultura” é uma possibilidade real, pois em outras palavras isso significa “agora que você está desabrochando, eu posso renascer também”.

Existem outros símbolos presentes na música, assim como as duplas mensagens que ela pode nos trazer, porém gostaria que estes outros símbolos fossem analisados pelas próprias leitoras, caso se sintam atraídas ou tenham escutado o chamado de Seal para algumas de nós, pois eles se tornam extremamente pessoais em cada uma. As duplas mensagens são comentadas no final da tradução da música.

Kiss From A Rose (by Seal)
Beijo De Uma Rosa

There used to be a greying tower alone on the sea.
Costumava a ser uma torre acinzentada sozinha no mar
 
You became the light on the dark side of me.
Você se tornou a luz no meu lado obscuro

Love remained a drug that’s the high and not the pill.
O amor continua sendo a droga que “dá uma onda” sem a pílula
 
But did you know,
Mas você sabia,
That when it snows,
que quando neva,
My eyes become large and
meus olhos se tornam maiores e
The light that you shine can be seen.
a luz que você emite pode ser vista?

 

Baby,
I compare you to a kiss from a rose on the grey.
Meu amor, eu comparo você ao beijo de uma rosa nas cinzas
Ooh,
The more I get of you,
Nossa, quanto mais eu recebo de você,
Stranger it feels, yeah.
mais estranha é a sensação, é sim
And now that your rose is in bloom.
E agora que a sua rosa está desabrochando
A light hits the gloom on the grey.
Uma luz atinge a escuridão das cinzas.

 

There is so much a man can tell you,
Existe tanta coisa que um homem pode contar a você,
So much he can say.
tanto que ele pode dizer
You remain,
Você permanece,
My power, my pleasure, my pain! baby
meu poder, meu prazer, minha dor! Querida…
To me you’re like a growing addiction that I can’t deny.
para mim você é como um vício crescente que eu não posso negar
Won’t you tell me is that healthy, baby?
Me diz, isso é saudável, querida?

 

But did you know,
Mas você sabia
That when it snows,
que quando neva
My eyes become large and the light that you shine can be seen.
meus olhos se tornam maiores, e a luz que você emite pode ser vista?

 

Baby,
I compare you to a kiss from a rose on the grey.
Querida, eu comparo você ao beijo de uma rosa no cinza
Ooh, the more I get of you
Ooh, quanto mais eu tenho você
Stranger it feels, yeah
mais estranho parece, yeah
Now that your rose is in bloom,
E agora que a sua rosa está desabrochando
A light hits the gloom on the grave.
Uma luz atinge a escuridão da sepultura.

 

I’ve been kissed by a rose on the grave,
Eu fui beijado por uma rosa na sepultura
I’ve been kissed by a rose (on the grave)
Eu fui beijado por uma rosa (na sepultura)
I’ve been kissed by a rose on the grave,
Eu fui beijado por uma rosa na sepultura
… And if I should fall along the way…
… E se eu cair ao longo do caminho? (tudo isso irá embora?)
I’ve been kissed by a rose
Eu fui beijado por uma rosa
… Been kissed by a rose on the grave.
… Beijado por uma rosa na sepultura

 

Baby,
I compare you to a kiss from a rose on the grave.
Eu fui beijado por uma rosa na sepultura
Ooh, the more I get of you
Ooh, Quanto mais eu recebo de você
Stranger it feels, yeah
Mais estranha é a sensação, é sim
Now that your rose is in bloom,
Agora que sua rosa está desabrochando
A light hits the gloom on the grave.
Uma luz atinge a escuridão da sepultura
Yes I compare you to a kiss from a rose on the grave
Sim, eu comparo você ao beijo de uma rosa na sepultura…
Ooh, the more I get of you
Ooh, Quanto mais eu recebo de você
Stranger it feels, yeah
Mais estranha é a sensação, é sim
And now that your rose is in bloom
E agora que sua rosa está desabrochando
A light hits the gloom on the grave
Uma luz atinge a escuridão da sepultura
Now that your rose is in bloom,
Agora que sua rosa está desabrochando
A light hits the gloom on the grave.
Uma luz atinge a escuridão da sepultura.

 


AS DUPLAS MENSAGENS DA PSIQUE

A psique, a maior parte do tempo entra em contato conosco através de mensagens invertidas, tanto nos sonhos quanto nas situações ou somatizações que constelamos. Vamos analisar algumas frases do texto da música, dos símbolos e metáforas escondidos no discurso que a sombra trouxe através de um sonho.

No caso dos sonhos, as duplas mensagens são mais comuns do que pode parecer. Como esta música foi a trilha sonora de um sonho relacionado a um aspecto sombrio do animus, devemos prestar muita atenção aos apelos da sombra que se exprime através do embusteiro em nós.

Esse animus embusteiro (o “trickster”), geralmente encarna o sedutor ou puer, que promete “mundos e fundos”, porém no momento de cumprir sua parte da promessa foge acuado, dando desculpas evasivas. Na realidade trata-se de um animus infantil (somente um animus infantil tem medo de mulheres de verdade, isto é, de mulheres reais), ele é medroso, que vive no mundo da fantasia (narcisismo negativo) e ao mesmo tempo é atávico e sombrio, pois ele “morde sua parte” na relação com a anima como se lhe sugasse a viçosidade e a libido, mas nega-se a nutri-la no feedback, deixando de trocar nessa relação. A anima sente-se faminta por mais, porque desatenta, se deixou viciar, não sabe mais o que fazer ou pensar, fica interditada para receber, e o animus passa a “curtir” (sadismo) a angústia feminina em querer mais: “Me diz, isso é saudável, querida?”

Observem a mensagem invertida: ele avisa, como todo trickster faz, na posição de um suposto dependente emocional, na posição do “inofensivo”, que o vício não faz bem, mas como ele está “encantando” a anima, enfeitiçando-a com o seu cantar, cativando-a com o verbo  (transformando a anima em sua cativa), a anima não percebe essa mensagem implícita neste discurso. Mulheres cuidado! O “volta pra mim…” pode ser um convite tentador, porém se a mulher que decide voltar atrás, não estabelecer limites e continuar aceitando as manipulações narcísicas desse animus, ela não conseguirá experimentar o feminino de si mesma nesta relação.

A sombra avisa à mulher que “Existe tanta coisa que um homem pode contar a você, tanto que ele pode dizer”, e isso também inclui os discursos invertidos e não verbalizados do masculino.

A sombra também diz “Você se tornou a luz no meu lado obscuro”. Tal discurso pode representar a própria anima revelada no espelho da sombra falando a respeito de si mesma. Neste caso, é a anima quem canta para o animus e revela sua fragilidade. A frase também revela o “acordamento” de algo que já existia e jazia enterrado, esquecido e ignorado em nossa consciência, uma presença sombria no discurso da música que deseja ser considerada – integrada: que lado em nós “vive morto” na sepultura sem uma luz, um beijo ou carinho? Por que nos negamos a crescer? Por que nos negamos amor? E se der tudo certo, o que vamos fazer com isso? Resposta: vamos tomar isso para nós. Viver “isso” como símbolo. Viver o símbolo! O amor não precisa ser uma meta inalcançável dentro de nós. Talvez precisemos aprender a cantá-lo para nós mesmas antes de nos aventurarmos em um relacionamento. Às vezes admitir um eu falido é o melhor começo para experimentar o amor do nascimento.

Embora esse lado sombrio do animus nos faça refletir sobre a existência do amor em paralelo à angústia, ele também evoca essa angústia mais do qualquer outro aspecto no início da música, ao mesmo tempo em que a frase tem duplo sentido, ao dizer “O amor continua sendo a droga que “dá uma onda” sem a pílula”. É só “uma onda” o que ele realmente quer? Então o amor é algo passageiro, sem muita profundidade? Ou ele está realmente dizendo que o que sente é muito forte e genuíno? No caso da música Seal fala de uma paixão, mas quando a psique traz essa paixão como símbolo para a consciência feminina, ela precisa ficar atenta aos aspectos positivos ou negativos da paixão que vive em si mesma. Apaixonar-se por si mesmo pode ser uma tarefa prazerosa como foi para Afrodite, tanto quanto fatal como o foi para Narciso.

Um discurso semelhante aparece em ”Você permanece, meu poder, meu prazer, minha dor! Querida… para mim você é como um vício crescente que eu não posso negar“. Por que o amor deveria ser um vício sempre doloroso? Já que ele não exclui a angústia, porque cair para o sado-masoquismo? O que falta em recursos para ele sair desse dilema da dor toda vez que experimenta o amor? Significa que ele está “viciado” naquela “sensação”, na dependência química da paixão, e que pela mesma razão, não tem recursos para suportá-la. Logo, que tipo de cura esse discurso nos traz, para nós mulheres? Nos diferenciarmos dos aspectos da dependência emocional como risco em qualquer relacionamento.

Todos sabemos que as relações humanas são baseadas na troca, e em especial nos relacionamentos amorosos, um lado nutre o outro a partir de si mesmo, e quanto mais ambos estão conscientes dessa nutrição pessoal, íntima e intransferível de si mesmo, mais ambos só têm a ganhar um com o outro.

Vejamos que no discurso “Costumava a ser uma torre acinzentada sozinha no mar”, temos um conto de fadas. Este animus encantador, aquele que canta e com seu canto nos encanta, começa seu discurso contando um conto. Que tipo de mulher espera por um animus, presa em uma torre no mar, senão aquela que vive o dia-a-dia fechada em seu conto de fadas, longe da realidade? Como foi dito anteriormente, este mecanismo de defesa está prestes a ruir se contarmos com os parâmetros desse animus que acaba de nascer ao longo da música.

Um outro fato que chama muito a atenção é “Ooh, Quanto mais eu recebo de você, mais estranha é a sensação, é sim. E agora que sua rosa está desabrochando, uma luz atinge a escuridão da sepultura”. O símbolo escondido por trás desta frase tem duas polaridades:

1ª) Quando ele recebe a correspondência dessa anima, mais ele se torna capaz de experimentar a sensação estranha que esse amor lhe causa, pois ele acaba de sair de sua sepultura renovado pelo beijo da rosa e pela luz dessa anima. Isso é bom, pois ele está dizendo que está entrando em contato com o amor dentro dele. Ele se permite experimentar o amor como animus ressuscitado. É um animus que expressa sua gratidão e reverência ao feminino;

2ª) Quanto mais ele recebe, mais ele se alimenta dessa estranha sensação que o amor dessa anima lhe traz, mais ele quer, e como só agora ele foi capaz de enxergá-la em sua plenitude, em seu pleno desabrochar, só agora ele aparece cheio de promessas, porque de alguma forma, ele projeta a imago materna que o salvará de sua sepultura. Isso não é bom, pois se assemelha muito àquele velho discurso, de quando a mulher decide dar um basta e o homem lhe diz “desculpe amor, só agora percebi isso, eu sou um coitado, me desculpe!”

Estas duas possibilidades estão presentes no discurso da música, e é muito importante a mulher estar atenta às mensagens invertidas nos discursos da sedução da sombra que se apresentam em seus sonhos, pois em última análise, tal discurso pode representar o embusteiro em nós e nossa falta de conexão com o nosso feminino. E quanto menos temos conexão com o feminino em nós, mais distante do animus sagrado nos encontramos. Logo, a música é tanto um chamado, quanto um aviso e um lembrete: o animus sagrado existe dentro da psique feminina, mas a mulher precisa estar atenta às seduções de seu velho lado sedutor, que a faria cair de novo para o aspecto da anima não considerada, pois o sedutor apenas promete, encanta e seduz. É o que ele sabe fazer. Ele não sabe corresponder, se relacionar. Se a mulher deseja de relacionar verdadeiramente, terá que estabelecer um vínculo muito profundo com ela mesma, integrando estes aspectos sombrios da sedução que ela faz consigo mesma, para “se encantar a fim de não se ver”, se diferenciando deste aspecto e tirando o poder de figuras masculinas que desejam que ela faça o mesmo por eles.

Um animus autêntico não necessita da máscara do embuste ou dos artifícios da sedução feérica para conquistar uma mulher. Ele é naturalmente seguro em seu discurso e essa segurança transmite um outro tipo de sedução para a anima, sem os aspectos infantis do encantamento. Esse animus não tem necessidade de encantar ninguém no sentido de “prender a atenção para si” no dilema narcísico, pois ele tem consciência em si mesmo, de que é o masculino encarnado e de que ele veio para ficar.

CONCLUSÃO

Seal nos traz uma música repleta de símbolos e mensagens que, a depender do contexto vivido por cada mulher, podem representar aspectos positivos de um animus considerador que enxerga sua anima e deseja assumi-la para si, ou o contrário.

A mulher, na posição da anima encarnada, é quem precisa aprender a distinguir qual é o seu caso, que tipo de animus traz dentro de si, como lida com o feminino, se seus vínculos consigo não estão mascarados pela auto-sedução e auto-sabotagem, através de questionamentos muito profundos, uma sinceridade genuína, que no começo pode gerar muita angústia, porém no final do ciclo, pode lhe trazer felizes resultados. E todas nós, temos ainda muitos e muitos ciclos para abrir e fechar, muitos e muitos símbolos para serem vividos.

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INSPIRAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS

Anima e Animus: Dicionário Crítico de Análise Junguiana

Arquétipo: Dicionário Crítico de Análise Junguiana

Angústia: Dicionário Crítico de Análise Junguiana

Embusteiro: Dicionário Crítico de Análise Junguiana

Hexágono: Geometria Sagrada da Água

Psique: Dicionário Crítico de Análise Junguiana

Puer: Dicionário Crítico de Análise Junguiana

Sombra: Dicionário Crítico de Análise Junguiana

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Saturday, 16 June 2012
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"Quando eu abraço minha sombra eu não preciso te morder."
[Patrícia Martins]








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Saturday, 16 June 2012
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POMBA GIRA EM FOCO
Símbolo de Transformação do Feminino

Um dos aspectos de Lillith, grande arquétipo universal, é a Pomba Gira, um mitogema local abrasileirado.

Bendita é esta Senhora, formosa com seu rosal!

Ela nos acalenta, contrariando a missão de muitos, que a criticam por suas rebentas, para nos ensinar a amar. Muitas vezes é necessário transgredir antigas regras, para que o novo possa se mostrar.

Neste post eu vos apresento, uma Senhora em particular, dela não sou devota, mas de mim ela costuma gostar.

Logicamente no mundo dos arquétipos, eu, em contato com sua energia, deixo pra lá todo o meu estudo, para apreciar sua nobre companhia.

Ela não é vulgar, como muitos podem pensar, mas pode um vulgo se tornar, apenas para se divertir e a muitos chocar.

Essa Senhora é tão genuína, que mal tenho palavras para descrevê-la, mas ela me apareceu tão pequenina, como uma das pombas que posa, todos os dias em minha janela.

Eu não pude deixar de ignorar, seu símbolo de transformação, trazendo-me não só o mar, conchas para me enfeitar e cristais de sal para me purificar, como também sua doce, perfumada e enérgica prontidão.

Oh apreciadora de pedidos, e também a executora dos casamentos e encomendas oficiais, protejam a nós teus espinhos, dos inimigos desleais.

Que tuas rosas vermelhas vistam-nos de pétalas, para que noivas, vestidas de ti, possamos assumir nossas flores e enxergar nossas cores, transmutando todas as nossas dores.

Traga-nos alegrias e muitas graças, pois nossa oferenda à vossa Graça, é o nosso sagrado e feminino despertar. Acho que isso deves muito apreciar…

E neste momento eu só tenho a pronunciar:
Gratidão, Gratidão, Gratidão!

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